domingo, julho 30, 2017

Sapeca iáiá

Minha vó foi copeira, arrumadeira e babá em casa de gente "muito chique", como ela conta. Trabalhou na rua Bahia, em Higienópolis, na alameda Barros, e na Condessa de São Joaquim.

Hoje, fomos almoçar num restaurante chiquetoso em frente à Praça Buenos Aires, onde ela costumava passear aos domingos quando trabalhava só até depois do almoço.

Ela me contou de uma foto que tirou ali na praça, vestindo uma saia preta longa de seda, que sua patroa tinha trazido para ela da Itália. Ela falou das roupas que usava: sempre de saia, luvas, vestidos elegantes. "Ninguém achava por aqui que eu fosse doméstica". 

"Era uma beleza morar no trabalho. Eu tinha um quarto todo bonito, banheiro com banheira só para mim." Ela diz que gostava de ser babá e de ser copeira, porque os doces eram todos feitos na copa. Ela fazia pudins e bolos. E passava os panos de centro de mesa das patroas, que não podiam ter nem sequer uma ruguinha. Não gostava de ser arrumadeira, engraxar os sapatos dos patrões e polir as maçãs que iam na fruteira da sala.

A patroa da rua Condessa de São Joaquim, era ateia, minha vó contou. Ela era babá da filha dessa mulher quando se casou. A patroa foi na igreja no dia do casamento, que foi na antiga igreja da Penha. "Mas ficou só na porta, não entrou porque era ateia." Minha vó parou de trabalhar em casa de família. A menina ficou doente de saudades da babá. "Mal sabia a mulher que eu sempre levava a filha dela para as igrejas ali da Liberdade e ensinava ela a rezar."

Nesse momento, já estávamos almoçando, ela pediu que eu acreditasse em deus. Que eu devia ter fé. Desviei do assunto, nem lembro como. 

No Jardim da Luz, que, assim como a praça, para ela, agora está feio, sujo e malcuidado, ela me contou da sua vizinha que a chamava para passear por lá. "Ela vivia me chamando para vir aqui no Jardim da Luz. Ela vinha sozinha, de ônibus, e passava o dia aqui procurando homem." A vizinha viúva chamava minha vó, também viúva, para ir passear no jardim em busca de homens prum "sapeca iá iá". Nessa hora, quase morri de rir. Não conhecia a expressão. "Safada ela era. Tinha um foooooogo aquela mulher." Dois homens passaram cantada na minha vó no nosso passeio no parque. 

Fiquei satisfeita com a história dessa vizinha, muito mais feliz do que as anteriores que ela tinha contado envolvendo homens. Certa vez, passeando no cemitério da Consolação em dia de folga quando era copeira em Higienópolis, um homem saiu correndo atrás dela com o pau pra fora. O dentista no qual ela ia, pago pela patroa da São Joaquim, tentou estupra-la uma vez. Ela fugiu correndo e gritando. "É por isso que eu falo: tem estupro sim, tem médico que estupra as pacientes."

Eu ofereci de refazer o retrato que minha vó tinha tirado na Praça Buenos Aires e que hoje se perdeu. Ela disse que não. Que não gosta de ser fotografada. Que naquele retrato ela estava linda, tinha 19 anos. De saia, cabelos compridos e sem óculos. Eu consegui um selfie do Jardim da Luz, para onde fomos mais tarde. Ela continua linda.

sexta-feira, julho 28, 2017

Bela Cintra, 221

No carro, paradas no semáforo, minha avó olha para mim e fala. "Vou te falar uma coisa. Você pode achar que é besteira, mas eu queria tanto sonhar com seu avô. Eu queria poder perguntar se onde ele está, ele está bem, se ele sente dor, saber como ele está."

E então, pela primeira vez, eu confessei a ela. "Eu sonho muito com o vovô, vó." 

Eu queria dizer para ela: deixa que eu pergunto. Mas achei que seria falso. Eu não faria isso, porque para mim não faz muito sentido. Mas eu torço para que ela consiga sonhar com ele.

Então eu expliquei para ela que meus sonhos com o vô são do passado, na vida que ele tinha aqui, com a casa dele, as roupas dele, na cidade em que ele morava.

Essa minha vó é uma grande contadora de histórias. São histórias de sua vida. Reais ou inventadas, para mim pouco importa. Se reais, impressiona pela maldade das pessoas. Se imaginadas, o que impressiona é a capacidade de criação da minha vó.

E ela não apenas narra as suas histórias. Ela atua. E nesse dia, ali na sala da minha casa, ela caminhou até a porta da cozinha, ficou bem ereta e imitou seu pai chegando em casa. "Pa-pa. Ele usava botas grandes, e batia um pé depois do outro quando chegava na porta. Pa-pa." E fez o gesto descrito.

E ela imitou minha bisavó --sua sogra--, sua madrasta (as melhores histórias envolvem essa mulher, que se fingia de mãe), suas irmãs. Encenou a fuga de sua mãe da fazenda --digna de novela das seis--, sua vida na fábrica de televisões e rádios na Vila Maria, sua adolescência regrada pelo pai e seu casamento.

O pai, chocado com os cabelos curtos e calças compridas que ela usava dois dias depois do casamento, ao qual ele não foi, ouviu da vizinha, minha bisavó: "O senhor aí não manda mais, agora quem manda é meu filho". 

As histórias se repetem. Algumas já não sei mais quantas vezes ouvi, e vi. Mas outras, ela parece contar sem querer. Elas parecem escapar. São as histórias secretas. Inéditas.

Dessa vez, ela falou do restaurante que sua avó tinha. Na rua Bela Cintra.

Depois, ela me contou que quase nunca se lembra daquilo com que sonha. Talvez ela sonhe com meu avô. E até faça as perguntas que tanto quer fazer. Não se lembra das respostas. Uma pena que não se lembre dos sonhos. Se acordada conta histórias tão incríveis, imagina sonhando.






sábado, dezembro 31, 2016

Retrospectiva de um retorno de Saturno

Se olharem no menu ao lado, verão que em 2016 eu bati o recorde de menos vezes em que escrevi neste blog desde 2007. 

No ano que começa, esse site aqui faz 10 anos, e espero ter mais tempo para escrever, e mais coragem para publicar o que escrevo. É uma daquelas resoluções de começo de ano que nunca se concretizam: escrever mais para mim, escrever mais para os outros, postar mais o que escrevo, escrever contos, fazer um curso de escrita criativa...

Por enquanto, resolvi escrever sobre este ano aqui que está quase acabando. Tem gente escrevendo textão no Facebook sobre o que fez e o que não fez, e tem gente reclamando de quem está escrevendo sua retrospectiva. O fato é que eu li todas que apareceram em minha TL, e algumas me fizeram chorar. Não há como negar, é nesta época do ano que paramos para pensar, nem que seja no tempo de uma ducha gelada para aplacar o calor, sobre o que fizemos ao longo do ano, sobre o que queríamos ter feito e não fizemos, sobre no que evoluímos e sobre como pode ser o ano que começa.

Essa coisa de ano, dia, hora, é tudo convenção. Eu sei. Mas não dá para fugir de todo esse sentimentalismo que paira no ar mais ou menos desde o dia 22 de dezembro. É triste, é melancólico, é narrado pelo Cid Moreira. 

Como plantonista de fim de ano, resolvi esperar o último segundo de 2016 para falar alguma coisa dele. Vai que no apagar das luzes ele resolve botar uma catástrofe, um ataque terrorista, um cantor morto bem no meio do caminho entre o passar o crachá na catraca da redação e o pegar as chaves da porta da minha casa.

Bom, lá vai. 

Hoje eu recebi uma mensagem de Whatsapp de uma amiga: "quero te dizer que vi em 2016 vc se transformar em uma mulher leve, divertida e aberta ao mundo. É muito lindo poder ver isso acontecer." 

E foi isso mesmo. Foi um ano de profundas transformações. Foi o ano do retorno de Saturno.

Mas 2016 foi quase que a consequência direta de algumas decisões, difíceis decisões (aqui, leia-se também, muito dinheiro gasto na terapia) que tomei nos últimos meses de 2015. Foram decisões que levaram anos para amadurecer na minha cabeça (anos, muitos dias sozinha na China e muita dor) e eu sabia que elas ajudariam a trazer modificações relevantes na minha vida. Eu só não imaginei que seria tanto assim.

Eu sei que 2016 foi um ano de merda para o mundo, para o Brasil, na política, para os direitos humanos e tudo mais. Eu sei que o Bowie morreu, que o Cohen morreu. Mas para ler sobre isso você pode ir no seu site de notícias, ou de factóides, favorito. Eu quero é escrever sobre mim, e sobre os meus.

Foi um ano de muitas primeiras vezes. No começo de 2016, fui pela primeira vez a uma astróloga. Ela me falou sobre o retorno de Saturno -que duraria até dezembro (ainda bem, chega!)- e avisou sobre junho (seria o mês mais difícil do ano, E FOI!). Pela primeira vez eu joguei futebol de forma minimamente organizada (numa quadra, numa equipe, uma vez por semana), senti como se chutasse uma bola pela primeira vez, será? Pela primeira vez eu tive uma paixão de carnaval, que começou, aconteceu e acabou como o carnaval: divertido, meio bêbado, gostoso e rápido. Pela primeira vez eu me apaixonei viajando de férias, pela primeira vez me apaixonei por um estrangeiro, e tudo deu errado, de uma forma cruel e desnecessária, que fez eu me sentir uma estúpida, dessa vez em duas línguas. 

Eu confundi sexo com amor, eu confundi sexo com amizade e amizade com amor, e tudo isso vice-versa.

Eu consegui me afastar de um amigo muito importante na minha vida, que me ajudou a ver coisas muito importantes, a quem eu amava muito, mas que não suportava me ver naquilo que eu me transformei, ainda que tenha sido com a ajuda dele, que me queria ver para sempre uma adolescente espirituosa, contestadora, metida a diferente.

Eu sofri de saudades, de amigos que foram morar longe, e de um amor platônico que resolvi deixar dentro da caverna para sempre enquanto eu saio para a luz. 

Pela primeira vez eu troquei as cordas de um varal de teto, arrumei torneira pingando, troquei puxador de porta, botei gente para fora da minha casa. 

Eu olhei para minha perna se movimentando e pensei: caramba, eu preciso fazer exercício e firmar essa coxa aí. E eu me enchi de coragem, coloquei números no papel, chequei minha conta bancária e voltei a fazer esgrima (com o futebol, acho que vai resolver o lance da coxa). Eu passei a mão no meu rosto e pensei: caramba, cadê aquela oleosidade? E passei a seguir uma rotina de cremes e protetor solar. São os 30 chegando.

Eu passei a dormir em todo e qualquer filme a que eu assista em casa, seja dia ou noite. Então passei a ir mais ao cinema. Eu passei a dormir depois de quatro ou cinco páginas de um livro, e para isso ainda não arranjei uma solução. Eu fui em dois casamentos na mesma semana, de gente que eu amo, e chorei igual criança. Eu me reaproximei de pessoas queridas das quais eu já não tinha mais nem o número de telefone. Eu pensei em procurar um antigo amor avassalador, e desisti.

Em 2016 o Renan veio (tem um texto em rascunho aqui no blog só sobre isso) e eu pensei por algumas horas que tinha 16 anos de novo, que íamos ao Bocage, a boates miadas, com RGs falsos. Meu coração se encheu de amor por saber que amizades como a nossa nunca acabam ou se perdem pelo tempo e espaço.

Eu fiz as pazes com as minhas opções de trabalho, com o fato de ter estudado uma coisa e trabalhar sempre em outras coisas. Eu fiz as pazes com a minha orientação sexual, e com a minha vontade de gritar e lutar para que todos também possam conseguir isso.

Eu fui idiota, muitas vezes. Eu falei o que não devia, muitas vezes. Escutei o que não queria. Eu fui cínica, como fui nos outros anos, mas fui sincera, como fui poucas vezes.

A mesma amiga da mensagem, há coisa de um mês, me mandou outra: "Cê tá apaixonada né?". E depois: "Tá reclamando menos das coisas em geral". E é assim que termino 2016, sem muitas reclamações, porque acho que cresci, que melhorei, porque minha vida, pela primeira vez, está menos bagunçada que minha mesa de trabalho, e também porque estou com olhos -e boca, e nariz, e mãos e tudo mais- que amam.


terça-feira, agosto 02, 2016

Primeira infância

Aos 11 anos, eu acreditava piamente que aos 18 anos eu seria uma adulta e viveria o que, naquele tempo, eu acreditava ser uma vida adulta, ou seja, moraria numa casa que não fosse a dos meus pais, sozinha, pagando minhas contas e trabalhando. Eu devia ser muito ruim de contas então. E ruim de realidade e conjuntura.
Aos 18 anos, eu estava começando, pela segunda vez, o primeiro ano de faculdade, após abandonar o curso que escolhi aos 17. Morava na casa dos meus pais e não tinha nenhuma fonte de renda, é claro.
Levou mais dez anos até que eu pudesse ser capaz de bancar uma casa sozinha e pudesse, assim, sair da casa dos meus pais e pagar minhas contas. Mas e a vida adulta?
Eu não percebi em que momento a minha ideia do que é ser adulta e viver uma vida adulta mudou, mas a verdade é que agora, prestes a completar 29 anos, trabalhando todos os dias, num emprego com carteira assinada, décimo terceiro, férias, recolhendo impostos, declarando IRPF todos os anos, eu não sei o que é ser adulta. Eu não faço a menor ideia do que é ser uma pessoa adulta.
Eu não consigo me olhar no espelho e achar que sou adulta. Não consigo andar na rua e me perceber como adulta, olhar minhas roupas no armário e pensar que sejam roupas adultas.
O estranho é que eu consigo olhar para algumas pessoas e reconhecer nelas um adulto, mas pensando muito bem, não sei o que nelas me diz que sejam adultas.
Eu passei mais de 20 dias na China, sozinha, e não achei nem por um segundo que eu fosse adulta.
Aos 22 anos eu me mudei para a França por uma temporada. Foi a primeira vez que andei de avião na vida, de mala e cuia e cadernos e livros para um país desconhecido. Visto, abertura de contas no banco, cozinhar, lavar, limpar, deitar na cama numa casa sem uma família, sem uma mesa de jantar, sem uma televisão com o jornal das oito. E eu não achei que fosse adulta.
Eu lavo meu banheiro, minhas roupas, estendo, recolho, dobro, guardo, faço feira, vou ao mercado, compro flores, arrumo a casa, pago aluguel, pago a terapeuta, checo a data de validade, passo o crachá na firma, pago almoço com Sodexo, tenho plano de saúde e carteirinha do SUS, uso óculos para ver letras miúdas de perto, assisto à novela das nove. O que falta para ser adulta?

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

Clube de leituras secretas

Na minha turma de amigos de quando eu estava no ensino médio trocávamos livros, alguns, secretamente. De quem escondíamos esses livros e por que? 

Eu nem me lembrava mais disso, ou pelo menos não pensava nisso há tempos. Foi "Carol" que me fez lembrar desse clube de leituras secretas. O clube em si não era secreto, trocávamos livros abertamente, coisas como o novo "Harry Potter" e, lembro, rolou até aquela imitação fajuta do Harry chamada "Artemis Fowl".

Mas dentro desse esquema de um-compra-e-empresta-pros-outros alguns livros corriam de mão em mão sem que alguns outros do grupo soubessem, e líamos, em casa, nos esforçando para que nossos pais também não soubessem. E eu digo corriam porque líamos muito rápido mesmo. Aquela coisa: estudantes, não trabalhávamos, chagávamos em casa e passávamos a tarde toda lendo, às vezes nem dormíamos, se o livro fosse bom, e, assim, no dia seguinte, o livro já estava com outra pessoa.

"Carol", no qual o novo filme de Todd Haynes é inspirado, de Patricia Highsmith, foi um desses livros. Eu comprei num sebo por R$ 7 (ainda há o preço escrito a lápis na primeira página), li, sublinhei loucamente, e depois repassei pros amigos. Ele voltou para mim e recorri a ele quando vi que, uau, alguém o filmaria.



Até então, talvez porque fosse um desses livros do clube, eu achava que só eu tinha lido esse livro. A diferentona. Ninguém nunca tinha comentado esse livro, nunca via ele vendendo nas livrarias, todo mundo só falava de "O Talentoso Ripley".

Outros livros dos quais me lembro desse clube de leitura são "Hell - Paris 75016", da Lolita Pille, "Cem Escovadas antes de Ir para a Cama", de Melissa Panarello, e "O Terceiro Travesseiro", de Nelson Luiz de Carvalho. O que todos eles têm em comum?

Esses livros falam de descobertas sexuais. Dos quatro, "Carol" é o menos explícito, e o mais antigo também, dos anos 50.

Lembro que "Cem Escovadas" era bastante explícito e descritivo. Inclusive, lembro que, como a edição era minha, eu emprestei para minha avó -eu não me esforçava tanto quanto meus amigos para que meus pais não soubessem o que eu estava lendo, já que meu pai tinha me dado "Admirável Mundo Novo" para ler quando criança, eu achava que tudo bem ler sobre sexo. Eu já estava ligada, à época, que ela lia esses Sabrinas de banca de jornal. Quando ela me devolveu, disse: "Nossa, tem coisas aí das quais eu nunca tinha ouvido falar". Nem eu vó, nem eu.

Esses livros eram as nossas Playboys. Mais: no caso de "O Terceiro Travesseiro" e "Carol", eram nossa conexão com o mundo homossexual numa época de internet incipiente. Esses eram ainda mais secretos, eles não só tratavam de sexo, eles tratavam da descoberta homossexual. Eles e o CD da dupla russa "t.A.T.u", que era sensação entre algumas de minhas amigas.

A descoberta sexual numa escola católica de classe média alta conservadora não era moleza, e, quando essa descoberta era marcada pela orientação sexual diferente da norma daquele ambiente, era ainda mais pesado. E esse era o nosso jeito, o jeito nerd que éramos, de aguentar o tranco.

Lembro de imaginar as festas de Lolita, o cara da moto de "Cem Escovadas" e, é claro, de sonhar com Carol. Agora vê-la encarnada na figura de Cate Blanchett é um choque imenso naquela adolescente que eu fui e que se sentia tão deslocada quanto Therese na vida.

terça-feira, janeiro 26, 2016

Minhas três São Paulos

17
7,5
3

Esses são os números que representam, em quilômetros, a distância a pé de uma casa em que morei até o Marco Zero de São Paulo. 

Recentemente me mudei de casa, e de bairro. Isso apenas pela segunda vez na vida -na verdade terceira, mas vou desconsiderar a casa na qual fui bebê, que poderia ser a casa 6,5, na zona norte. Hoje moro na casa 3, ou seja, a 3 km do Marco Zero. Os bairros nos quais eu morei, como se pode imaginar pela distância do centro histórico, são extremamente diferentes entre si.

Como deve acontecer com muitos paulistanos, o caminho foi esse: da mais distante para a mais próxima do centro, da periferia, portanto, para o centro.

Até os meus 15 anos morei na casa 17, num bairro na zona leste, aquela região que aparece apenas como um bloco uniforme, mas que na verdade é um grupo de bairros extremamente diferentes entre si. No "centrinho" do bairro há um mercado, farmácia, perfumaria, padaria, escola estadual e um posto de saúde. Minha avó materna mora ali há anos, mais de 40. Nas fotos antigas, as ruas eram de terra. Até pouco tempo atrás, inclusive, havia uma rua ainda não pavimentada no bairro, a qual chamávamos, evidentemente, a rua de terra. Qual o caminho para a feira de quarta? Olha, você passa a rua de terra e segue reto, sobe e lá no alto é a rua da feira.

Os únicos prédios do bairro, que fazem parte do mesmo condomínio, foram construídos há cerca de 15 anos, e falavam nas ruas que eles iam cair. Até então era assim: fulano mora em prédio? Então é "dos predinhos", bairro vizinho, na parte baixa da região.

Ali, as pessoas saem na rua com qualquer roupa confortável, vão na padaria de chinelo e os vizinhos se conhecem pelos nomes. Quando você liga para um e não consegue falar, liga para o vizinho e vê se ele sabe alguma coisa do paradeiro daquele que você procura. As famílias moram ali há anos e, como minha avó, há muitos idosos cujos filhos e netos já se mudaram de bairro mas quando eles voltam para visitar os vizinhos reconhecem e acenam.

Nos anos 90, ali entravam na sua casa para roubar o seu bujão de gás, ou a sua bicicleta guardada no quintal, ou arrombavam seu carro, dentro da sua garagem, para levar o toca-fitas. Roubavam sua antena de TV também, no telhado da sua casa. Um vizinho envenenava o cachorro do outro para que ele parasse de latir. Um vizinho mais legal só atirava laranjas no animal. Quando as linhas telefônicas eram mais caras do que aluguéis de casas em caso de emergência você usava o telefone do vizinho mas para pedir uma pizza você andava três quarteirões até o orelhão mais próximo.

Você pode achar que 17 km não é nada. Mas para chegar a uma estação de metrô o jeito mais rápido é andar uns 15 minutos até a avenida principal da região e pegar uma lotação ou então, se quiser andar menos, pegar o ônibus no "centrinho" que, como vai por dentro, pode levar uns 40 minutos até o destino final -isso fora da hora do rush e sem chuva. E aí tomar o metrô até o Marco Zero. 

Aos 15 me mudei para a casa 7,5, num bairro em expansão imobiliária e de moradores classificados como "novos ricos", ou seja, gente que, como eu, saía da periferia para se aproximar do centro e do trabalho. A linha do rodízio do centro expandido passava do lado de casa, assim como o trem e o metrô da linha vermelha.

Ali as pessoas olham atravessado para quem vai à padaria ou ao mercado de chinelo e com a "roupa de fazer faxina". Os prédios têm entrada de serviço e elevadores "de serviço", por onde circulam as empregadas domésticas cujos nomes apenas os porteiros sabem. 

As casas que restam no bairro estão sendo demolidas numa velocidade vertiginosa para vermos crescer, também em alta velocidade, prédios altos, residenciais ou comerciais, cheios de consultórios médicos e dentários. Há vários hospitais particulares no bairro também, mas no posto de saúde é possível marcar consulta com o ginecologista pro mês seguinte, talvez até para a semana seguinte.

Há dois shoppings centers, cada um com suas várias salas de cinema, mas um teatro bom só foi construído recentemente, dentro de uma escola, e recebe peças de comédia e shows de bandas cover. Há diversos mercados, várias lojas de rua de tudo o que você precisar, inúmeras escolas, particulares e públicas, bares e restaurantes, de mexicano a mongol. Na praça do "centrinho" do bairro tem agências bancárias de todos os bancos que se imaginar, padaria com ótimo pão italiano, salão de cabeleireiro, cafeteria, mercado, cursinho, papelaria, loja de calçados, de chocolates, igreja, e muitos carrinhos de cachorro-quente.

Tudo é perto mas ninguém faz nada a pé. As famílias têm dois ou três carros e tiram eles da garagem para tomar uma cerveja (e depois voltar dirigindo), jantar no restaurante a três quadras ou ir no cinema a quatro quadras. As pessoas têm medo de andar na rua de noite. E por isso as ruas são sempre desertas à noite. E histórias de roubos e assaltos se espalham entre os moradores dos condomínios, que fazem abaixo-assinado contra projetos de "habitação social" e pedindo postos de polícia nas praças.

Dali é possível chegar ao Marco Zero, de metrô, em cerca de 10 minutos.

Agora moro na casa 3. Aqui tem gente passeando com cachorro na rua às 3 da manhã. Há muito idoso e muita gente solteira e morando sozinha. Os prédios novos são raridade e os antigos, dos anos 50 e 60 são a maioria. Aos domingos grupos de crianças brincam no meio da rua jogando bola ou apostando corrida. Grupos de adultos fazem churrasco na calçada. A cada esquina um gênero diferente de música embala o almoço.

Há mercados pequenos, nenhum hiper mercado, farmácias, hospital público, posto de saúde, teatros, escolas públicas, particulares e uma grande escola judaica. As ruas estão sempre sujas, cheias de lixo e restos de móveis. Se você vacila caminhando pela calçada um menino, ou menina, passa de bicicleta e leva o celular da sua mão. 

Em algumas ruas, casas abandonas que um dia devem ter sido maravilhosas se enfileram. Grandes galpões guardam a memória de um passado de fábricas ao lado de grandes casarões que pertenciam aos mesmos donos. Aqui os moradores de rua conhecem os moradores dos prédios pelo nome, e vice-versa. E se cumprimentam. E aqueles trocam conselhos por comida e moedas desses.

Daqui é possível ir ao Marco Zero a pé em uns 40 minutos.

Essas São Paulos são tão diferentes uma da outra. Seus moradores, seus hábitos, sua etiqueta, seus gostos. E cada uma tem muito a ver com o que sou. Cada uma me ensinou suas lições valiosas, do que eu quero e do que eu não quero, do que eu sou e do que eu não sou, e, acima de tudo, do que eu preciso para viver aqui e do que eu não preciso.

sexta-feira, julho 31, 2015

Qual é a magia do Mike?

A escritora feminista Naomi Wolf uma vez disse: "Suspeito que as mulheres estejam entediadas sexualmente". Eu também! 
Por uma união de peças que prega o destino + uma amiga companheira de roubadas + a minha absoluta mão de vaquice que não me deixa desperdiçar nada, nem mesmo ingressos gratuitos para o cinema, fui ver "Magic Mike XXL" na quinta da estreia. E olha que nem vi o primeiro.
A plateia era formada por mulheres, sozinhas ou em duplas, e casais de homens gays. Não havia sequer um casal heterossexual na sala. Primeira pergunta: será que nesses filmes cheios de mulheres gostosas só há homens sozinhos, ou com amigos, e casais de mulheres lésbicas? Ou será que as mulheres não se importam de acompanhar seus companheiros para ver mulheres gostosas enquanto os homens rechaçam completamente "Magic Mike"?
Logo de cara um ator tido como gatinho em Hollywood (não ligo muito pro Tatum não, mas não o acho mau ator) expõe seus grandes muques torneados em trabalhos de marcenaria. (ah, a marcenaria, esse grande clichê para enlouquecer mulheres!)
Aí o marceneiro faz uma dança muito louca, incluindo rebolados profissionais, ao som de uma música também muito louca. (ah, se os homens --especialmente os de São Paulo-- soubessem como é sexy homens dançando eles iam parar de acusar os homens que dançam de gays.)
Até aí legal né. Pensei: ok, acho que vai ser uma noite divertida no cinema.
Mas então entra toda essa história, como vocês devem saber de que se trata o filme, de strippers e danças de "clube das mulheres".
Mulheres gritando, se descabelando, se descontrolando diante de homens sem camisa que dançam e se esfregam em algumas delas. Mulheres entre 30 e 50 anos, com a câmera, e os strippers, dando especial atenção às mulheres gordas da plateia. Mulheres que são tratadas pela MC Rome (vivida por Jada Smith) por "rainhas" e num tom condescendente.
O discurso das MCs e dos strippers voltado a essas mulheres loucas por um peitoral visa aumentar sua auto-estima e condenar seus parceiros (e os homens não-strippers) como incapazes de entendê-las na cama. "Vocês são muitas e nós somos tão poucos" um deles diz em meio a um show.
Há pelo menos duas sequências exemplares dessa relação: no casarão-clube mantido por Rome uma mulher comemora com as amigas o seu divórcio, um dos "strippers" (entre aspas porque ele é mais cantor) compõe na hora uma pequena canção para a moça estimulando-a a acreditar em sua força interior, dizendo que ela é linda e que ele a ama. Isso tudo numa casa de strip.
Em outra ocasião, o grupo de strippers do tal Magc Mike está na casa de uma mulher de meia-idade recém divorciada (vivida por Andie McDowell) que está recebendo amigas e bebendo vinho. Elas, "soltinhas", começam a falar com esses caras fortões sobre seus descontentamentos na cama com seus companheiros, atuais e passados. Um deles abraça uma delas, depois de uma história sobre frustração sexual no casamento, canta para ela, mexe em seu cabelo, como se ela fosse uma criança triste, e aí senta em seu colo e se esfrega nela.
As danças, ainda que super bem executadas e com passos de street dance a serem mega louvados, simulam movimentos sexuais, com especial atenção para o pênis na boca da mulher. É claro que o stripper também simula a esfregação da cara dele na área vaginal da mulher, mas, como muitas vezes na vida real, é 10 "pênis na boca" para cada uma "vagina na boca". Além, é claro, do clássico mulher de quatro com o cara atrás.
Não estou dizendo que o filme não seja fiel à realidade, é totalmente capaz que ele retrate fielmente este universo "clube das mulheres" e o problema é a realidade mesmo.
Por que, eu me pergunto, essa mistura de sensualidade, sexo simulado e autoajuda? É disso que as mulheres gostam? É disso que precisamos?
Strippers mulheres não ficam de papinho "sua mulher tem te tratado bem?", "sua mulher dá para você sempre?", "você tem que se achar roludo, gostoso e lindo, meu rei" com os caras que foram lá vê-las tirar a roupa. Ou estou enganada?
Por que mulher tem que ganhar "terapia" quando vai atrás de algo sexual?