quinta-feira, agosto 30, 2007

:: Contorções e convulsões (ou Ensaio não acadêmico para você gostar de mim)::


Você sabe que eu gosto de você, não sabe? Eu sei que você sabe porque você me tortura, não é? É sim, você é uma espécie de sádico que gosta de me ver com os olhos esbugalhados a cada coisa que você fala e, eu sei que, se algum dia eu deixar que descubra que esse texto é sobre você, as coisas vão piorar.
Eu sequer consigo olhar nos seus olhos e você percebe isso, eu sei que percebe, você não é bobo. Eu queria poder olhar seus olhos e descobrir que você também olha os meus e assim, bem devagar, ver nosso reflexo em nossos olhos se aproximarem, sentir meu coração bater cada vez mais forte e enfim beijar sua boca.
Por isso não olho em seus olhos, não quero mais uma frustração.
É, eu sei que você tem namorada, você já me disse isso, várias vezes, e eu sei que você a ama, mas eu sou muito egoísta para não ficar pensando que eu podia ser muito melhor para você. Ossos do ofício de ciumenta invejosa.
Será que você faz de propósito? Esforço-me para descobrir se é proposital o jeito que você me trata e que fala comigo, parece estar me seduzindo para depois dizer NÃO. Você já explicou que não é isso, que é coisa da minha cabeça, mas não posso evitar me sentir especial pelo menos observando como você lida com os demais.
Eu sei, eu sei, somos amigos e você gosta da nossa amizade, eu também gosto mas isso não me impede de fantasiar além, porque acredito que não mudaria em nada nossa amizade, só me faria mais feliz e satisfeita.
Você é complexo e gosto disso em você, o problema é o quanto gosto, não só admiro como gostaria de dividir mais nossas semelhanças e discutir mais as diferenças. Queria, por isso mesmo, sentir pelo menos uma vez o peso do seu corpo, é...talvez mais de uma vez, mas enfim, não posso ser muito exigente.
Ah sim, sou muito exigente, acabo de me lembrar. Sou tão exigente que penso em você como possível satisfazedor de muitas das minhas exigências e, assim, quem sabe, eu poderia me tornar uma pessoa menos sem graça.
É, eu sei que não é! E depois sou eu que sou exigente.
Ah, mas querer não é poder, água mole em pedra dura por mais que bata não fura, e quem solta o pum não fica com a mão amarela, tudo mentiras que contam nessa nossa vidinha. Inclusive é mentira que os homens não se importariam de serem objetos, você se importa.
Comigo você faz piadas, é engraçado, discutimos filosofia, literatura, falamos de cinema e existencialismo, pragmatismo, estruturalismo, machismo, maoismo. Na verdade eu não sou boneco Playmobil porra nenhuma, talvez eu tenha cérebro demais para você e nossas conversas sejam interessantes demais para você me levar para a cama, talvez eu seja inteligente demais para ser uma amiga a menos de um palmo de distância, na verdade, é, talvez seja isso: eu sou além das expectativas de uma mulher que você deseja, passei do ponto além do qual o desejo se torna inviável. Ah, sim, eu sou muito legal e nossos papos são ótimos, mas sem papo cabeça no café da manhã, por favor!

::My headphones saved my life::


Leoni - Só Pro Meu Prazer

Não fala nada, deixa tudo assim por mim
Eu não me importo se nós não somos bem assim
É tudo real nas minhas mentiras,
E assim não faz mal
e assim não, me faz mal não

Noite e dia se completam, nosso amor e ódio eterno
Eu te imagino, eu te conserto, eu faço a cena que eu
quiser
Eu tiro a roupa pra você, minha maior ficção de amor
Eu te recriei
só pro meu prazer, só pro meu prazer

Não vem agora com essas insinuações
Dos seus defeitos ou de algum medo normal
Será que você, não é nada que eu penso
Também se não for, não faz mal
Não me faz mal, não

Só pro meu prazer
Eu quero você como eu quero
só pro meu prazer
Eu quero você como eu quero

::Sábias Palavras::

Orlando Pedroso - http://www.fotolog.com/orlandopedroso/

terça-feira, agosto 21, 2007

::Vício novo::







The Bubble e a representação de relacionamentos homossexuais no cinema


"Eu me recuso a aceitar que um indivíduo possa ser identificado com e através de sua sexualidade." Michel Foucault

Considerar uma relação homossexual (pois já me convenci de que as relações é que são homos ou heteros e não as pessoas nelas envolvidas) diferente de uma heterossexual pode ser uma interpretação do espectador ou a premissa da qual partem muitos realizadores de filmes ao escolherem retratar uma relação amorosa. De qualquer forma, para mim, é um erro comum e por isso alguns filmes me parecem abomináveis.
Existem os clichês dos filmes de relacionamentos gays e muitos deles se encontram no começo da relação, o que há é a não escapatória, o relacionamento se dá pois não há o que se possa fazer, e aqui entram os dois caubóis de Brokeback Mountain. Tive a impressão de que eles transaram simplesmente porque estavam lá, no "middle of nowhere" de uma propaganda da Marlboro, há meses sem sexo, "à perigo" como se diz por aqui, e é capaz que transassem até com um cavalo, o filme foi mal sucedido em tentar me convencer de que aquilo era amor, de que aquele filme era diferente, de que aquilo, enfim, não passava de uma farsa hollywoodiana, até a voz deles era farsesca.
O outro clichê do começo do relacionamento é tecer um dos personagens como o mais 'propenso' e mais interessado e que vai 'corromper' o outro, mais tolinho, um exemplo é Meu amor de Verão. A menina rica é culta e engenhosa, lê Nietzsche e ouve Edith Piaf, a menina pobre tem problemas com o irmão que a acha 'vagabunda' e não é lá muito instruída, é ela, é claro, que vai se ludibriar pela menina rica, o amor de admiração, o amor pelo que se gostaria de ser, até descobrirmos que as duas não são lá muito confiáveis, são mentirosas e de imaginação um pouco fértil demais, como se o relacionamento tivesse se tornado possível por seus distúrbios comportamentais.
Poderia passar páginas e mais páginas falando de filmes que deturpam totalmente a idéia de relacionamentos gays, mas esse post é dedicado a um filme que vai além dos clichês e emociona, por isso gostaria de citar outros como ele.
O recente C.R.A.Z.Y. trata da descoberta do mundo por um adolescente que não se contenta com a idéia socialmente difundida de que homens devem se relacionar com mulheres e vice-versa e apenas, ele quer mais e isso o confunde, como ir além daquilo que a sociedade nos impõe? Como lidar com o fato de quando criança ter preferido brincar de bonecas, sendo menino, à jogar bola? Como aceitar o fato de ter gostado mais de sexo com um homem, sendo também um homem, do que com uma mulher? Mais do que trabalhar em cima de um relacionamento C.R.A.Z.Y. é sobre um conflito pessoal, uma fase de aceitação do que se é a despeito do que os demais são.
Imagine você e eu é um filminho mamão-com-açúcar, melado, comédia romântica de Sessão da tarde e por isso me pareceu genial. Usar uma fórmula já bem difundida, bem absorvida e bem comum, digamos, como é a comédia romântica 'típica', para falar de um amor entre duas mulheres acaba se tornando uma inovação. Sempre senti falta disso, de um filme que falasse de amor entre mulheres ou entre homens como se fala de amor entre um homem e uma mulher, porque de fato não há diferença entre eles, mas parece que ninguém nunca tinha feito isso, eu pelo menos nunca tinha visto, por isso o filme é bem-vindo.
Antes dele o que mais se aproximara do 'não-exagero' fora Assunto de Meninas, tradução de Lost and Delirious, através do qual vemos o sofrimento de quem ama aquele que não aceita seu amor. Paulie e Tori namoram, estamos convencidos que o amor é mútuo e verdadeiro entre elas, até que Tori resolve largar Paulie por um cara e continuamos convencidos de que ela fez isso puramente por uma imposição social, seguimos então, de perto, a dor de Paulie em toda sua sensibilidade, até explodir, não no final, mas na cena da valsa, com "River Waltz" do Cowboy Junkies ao fundo.
E falando de música é que chego ao mote do texto: The Bubble, o novo filme de Eytan Fox. Para quem viu Delicada Relação outra tradução infeliz das que abundam nos cinemas daqui, a mudança é drástica, não só do conteúdo mas mais da forma, agora o diretor se mostra mais maduro e mais corajoso, se é que é possível ser mais corajoso do que já tinha sido, considerando seu país e seu tema, foi possível sim. O que vemos agora é uma mistura de influências musicais e cinematográficas, do mais 'indie' ao mais pop, desde 'Israel Idol' (o American Idol de lá) até Jules e Jim passando por Britney Spears, Bent (a peça de teatro) e Bebel Gilberto, sem esquecer da semelhança entre a loja de discos de lá e a de Alta Fidelidade. Misture a isso um israelense judeu recém-saído do serviço militar se apaixonando por um palestino muçulmano, ataques terroristas, tiros, bombas, canções de amor, fortes amizades, raves pela paz e mesmo assim você precisa ir ao cinema para ter uma idéia do resultado. Numa sessão do filme seguida de conversa com o diretor e com o ator principal tudo o que eu queria dizer era "Parabéns caras!" e ficar lá, em estado de graça, ouvindo o que eles tinham para falar, acho que as congratulações foram entendidas pelos dois após alguns minutos de aplausos e pelas lágrimas presentes nos olhos de todos, jovens, idosos, judeus, ateus, israelenses, brasileiros.
Eu sou totalmente fascinada por filmes sobre o 'conflito-eterno' entre Israel e Palestina, lembro-me de que era o meu assunto favorito nas aulas de geografia, eu sabia as datas e os porquês de cada conflito, de cada tomada de território, de cada invasão, se bem que não haja mesmo verdadeiros 'porquês'. Para alguém que vive em São Paulo, onde todos parecem conviver tão bem, uma cidade na qual podemos almoçar sushis e jantar macarronadas, na qual a miscigenação corre na veia de quase todos, aliás, vi um documentário chamado Cosmópolis, muito bom sobre a cidade e essas questões, ver aquela guerra sem fim é um desafio à compreensão, é um exercício constante de projeção e por isso me interessa tanto. A idéia de vingança corre solta no ar da região e vemos isso em muitos filmes sobre a questão, assim que há um atentado em Israel há uma represália na Palestina e vice-versa, e de represália em represália eles andam em círculos há anos, isso fica bem claro em The Bubble, apesar de ser uma parcela pequena dentro do filme.
O que distancia tanto o filme de Eytan Fox dos demais filmes sobre o Oriente Médio é que ele não é sobre isso e sim sobre a juventude, sobre seus anseios, amores e problemas existenciais, apesar do contexto peculiar, podemos nos reconhecer nos personagens, dialogar com eles, ter a sensação de que conhecemos pessoas novas ao final. O filme é sobre o amor, a amizade, os gostos pessoais, o distanciamento e o engajamento político, e é também, sim, sim, sobre o conflito Israel-Palestina.


::Divagações no Escuro::

A decepção com Little Children

A sutileza é uma das primeiras virtudes que um filme deve ter se não quiser tratar seu interlocutor como um idiota, por isso nos sentimos mais confortáveis ao ver Réquiem para um sonho do que Diário de um adolescente, por exemplo, deixando de lado, é claro, a criatividade de cada um. Se o filme tem uma tese a ser provada esta não precisa ser argumentada à exaustão para ser compreendida, se você tem em suas mãos um instrumento como o cinema, com suas possibilidades audiovisuais, no qual você pode trabalhar seus argumentos através de palavras e imagens, por que tratar tais possibilidades como se fossem deficitárias em si quando o que falta é criatividade a você? Essa é a pergunta que nos fazemos muitas vezes ao ver um filme.
Pecados Íntimos, tradução infeliz de Little Children, carrega a tese de que os adultos é que são, na verdade, infantis. Certo. Boa tese. A ver como se desenvolve. O filme faz uso de meios extremamente 'didáticos' para provar sua tese, tão didático que o filme mesmo se torna infantil e parece tratar-nos como crianças. Bom, se a tese é 'todos os adultos são infantis', então ela se comprovou já que os realizadores se mostraram infantis e endereçaram o filme a pessoas, no caso, adultos, também infantis. Aplausos então.
Posso estar enganada, mas vindo de onde veio acho que a intenção do filme não era bem essa, pelo menos não foi muito convincente e é por isso que ele decepciona, é fraco e superficial. É um ultraje ligar a infantilidade de personagens com o fato de não trabalharem fora, ligar seus fetiches pessoais a perversões, mais uma vez Hollywood tenta fazer um filme diferente e esbarra no velho american way of life e no puritanismo, acompanhado, é claro, de um certo determinismo social.

Um filme, uma frase

Ascensor para Cadafalso - É, eu gosto mesmo de filme francês e em preto e branco.
Nas profundezas do mar sem fim - Por favor, acabe logo, me livre desse sofrimento.
Cine-olho - A vida como ela era... na Rússia... na década de 20.
Dália Negra - Cada filme que passa eu gosto mais desse Brian de Palma.
Os Conquistadores - Lang no Far Oeste.
Ensina-me a viver* - Ensine-me a viver!
O Segredo da porta fechada - Num suspense de Lang eu fico com medo.
O samurai do entardecer - Delicadeza, sutileza, beleza, arigatô.
Filhos do Paraíso* - Que paraíso?
Pequena Miss Sunshine* - De perto ninguém é normal.
Lucia e o Sexo* - Não sei se quero mais Lucia ou mais sexo.
Deu a louca na Chapeuzinho - Poderia ser pior?
Amar e Dançar* - O clichê do filme de dança elevado a um novo patamar.
Procura-se Amy* - Tudo sobre minha vida.
Estamira* - Como o trocadilho, ao contrário, permitiu que as pessoas rissem nesse filme?
The Wind - E o vento levou a virgindade...
Bonecas Russas - Louco, tresloucado, amalucado, divertido e bem-feito.
Em Busca do Ouro - Um clássico é um clássico.
Waking Life* - Até agora a luz não acendeu.
Jornada da Alma - Os psicanalistas também amam.

*talvez recebam mais do que uma frase.

::A pergunta que não quer calar::

Por que eu demoro tanto para escrever?

sexta-feira, julho 27, 2007

::Divagações no escuro::


Fabricando Tom Zé

Um gênio com síndrome de rejeição. Bom, melhor do que subir nas tamancas e ser Ministro da Cultura, não é? Mas falemos baixinho! Ou... gritemos?
O mercado é injusto e nós brasileiros somos um bando de lambe-bunda-de-gringo!!! Precisou um deles ouvir um de nós e dizer para eles que é bom para que nós ouçamos e constatemos que é bom mesmo, para que nós fizessemos um filme que nos mostra tocando para eles.
Entendeste?
Então vá ao cinema e veja por si mesmo, ouça por si mesmo e ria, ria muito, da desgraça alheia, que também é sua, é de todos nós, brasileiros.


Um filme, uma frase

Touro Indomável - A boa e velha "ascenção e queda".

As férias do Sr. Hulot - Mr. Bean é sem graça e, descubro agora, nada original!

Harry Potter e a Ordem da Fênix - Que Ordem da Fênix?

Neve sobre Cedros - Para ver depois de "Memórias de uma Gueixa".

O fim de São Petersburgo - História do proletariado versus burgueses.

5 mulheres marcadas - Feminista...os primeiros 30 min...

Kedma - Agüente firme porque o final compensa.

Memórias de uma gueixa - Chinesa fazendo papel de japonesa, usando lente e falando inglês: filme para americano ver e sonhar com as "belezas" do Oriente.

O Buraco - A febre de Taiwan: dançar o tcha-tcha-tcha!

La Marsellaise - História dos burgueses versus aristocratas.

Mouchette - A angústia de Bresson numa pobre menina.

Plata Quemada - Os brutos também amam.

::My headphones saved my life::


Tô - Tom Zé

Tô bem de baixo prá poder subir
Tô bem de cima prá poder cair
Tô dividindo prá poder sobrar
Disperdiçando prá poder faltar
Devagarinho prá poder caber
Bem de leve prá não perdoar
Tô estudando prá saber ignorar

Eu tô aqui comendo pra vomitar

Tô te explicando
Prá te confundir

Tô te confundindo
Prá te esclarecer
Tô iluminando
Pra te esclarecer
Tô iluminando
Prá poder cegar
Tô ficando cego
Prá poder guiar

Devagarinho prá poder rasgar
Olho fechado prá ver melhor
Com alegria prá poder chorar
Desesperado prá ter paciência
Carinhoso prá poder ferir
Lentamente prá não atrasar
Atrás da vida prá poder morrer
Eu tô me despedindo prá poder voltar

Guindaste a rigor - Tom Zé

Eu quero um trem de doze vagões
Pra marcar o compasso que eu vou cantar
Quero dez máquinas de concreto
Porque não gosto de violino
Quero um discurso do Nero
Para fazer contraponto
Doze motocicletas no lugar do contrabaixo
Para reger o conjunto, um guindaste à rigor
E na hora do breque um belo assopro de coca-cola
Ah, ah, ah que cola
A tonalidade é ré sustenido bem claro
Ou mi colorido bemol
Sidomidelamefalasemsirelanosolfa

Para parceiro na letra
Satanás de babydoll
Ou um camundongo sádico que tem a língua vermelha
E no fim da primeira parte deixe a Brigitte Bardal

Mas hora veja:
Enquanto eu cantava
O verbo enganado
Com a língua do poeta enrolada no pescoço
Pendurado sem socorro
Já parou de balançar as pernas
Já parou

::A pergunta que não quer calar::


Saudade de quê?

terça-feira, julho 10, 2007

::Divagações no Escuro::


Um filme falado: Branca de Neve de João César Monteiro

"Não, diz, o que vês? Diz logo. Através dos teus lábios deduzirei o bonito desenho desse quadro. Se o pintasses, por certo atenuarias habilmente a intensidade da visão. Então, o que é? Em vez de olhar, prefiro escutar."trecho do filme

O título do filme atraiu pais desavisados com seus filhos pequenos que queriam ver a história da garota bonita que, perseguida por sua madrasta má, vai morar com anões na floresta, come a maçã e, bom, todo mundo já sabe da história. Lá pelos 20 minutos de filme todas essas crianças, descepcionadas, e seus respectivos pais, já tinham se retirado do cinema do CCSP. Mas uma corja de gente chata, que fala durante o filme, ainda não tinha desistido. Depois de mais uns 10 minutos eles resolveram erguer suas bandeiras brancas e ir embora. Aí sim houve paz para os que ficaram poderem pensar sobre aquilo que estavam vendo.
Há muito tempo que ouço falar desse filme, pelo menos desde 2000, o ano de seu lançamento. Ele fez muito estardalhaço, e até agora não tinha conseguido assistí-lo, nem sei dizer o porquê. Até agora. Depois de tamanha experiência, com certeza todos saem da sala pensando o cinema de maneira diferente do que pensavam antes,e se, não pensavam o cinema, começam a pensar, é um filme que incomoda, que mexe no íntimo daqueles que apreciam a sétima arte, que discute, que chega na sua cara de fim de semana e grita: "Escuta aqui, onde foi que chegamos?". Saí de casa despreocupada e aérea, não voltei mais a mesma pessoa.
Okay, pode não ter acontecido com todo mundo, mas para mim, que levo o cinema muito à sério, foi um filme inesquecível. Já sabia que seria uma tela escura, preta para ser mais exata, e apenas falas, mas não sabia mais nada. É realmente um filme sobre Branca de Neve, mas não o conto de fadas e sim um texto de Robert Walser que discute o conto e assim o diretor discute o cinema. O filme, e o texto, ao qual o primeiro é fiel, são uma negação do "e viveram felizes para sempre", é um "e depois?", "e se não fosse assim, seria como?". E se a madrasta má não fosse má? E se o filme não tiver imagens? Já se fez de tudo no cinema, Godard, Dogma 95, irmãos Dardenne, o que há ainda para ser feito? - Branca de Neve!
O filme sufoca, oprime mesmo, como quando você vê uma obra de arte, um monumento, uma pintura, que é tão grandiosa e tão boa que você se sente diminuído. E assim eu passei mais de uma hora lutando contra aquilo, tentando entender aquela grande idéia, o procedimento, a mensagem, podendo respirar a cada imagem de céu, que gritava como um treinador carrasco: "Agora respira, respira". E novamente enfia minha cabeça num galão de água. As cenas de céu são como a do final de Hamaca Paraguaia, uma espécie de oportunidade de salvação, uma ascenção, como a instalação de fumaça de Anish Kapoor.
João César Monteiro manda às favas as convenções cinematográficas, porém, como uma vez alguém disse, não me lembro quem, quando se entra numa sala de cinema é como se assinasse um acordo com o realizador, você entrega sua atenção e seu tempo por cerca de duas horas e ele faz por merecer, ou não, mas, o caso é que me senti privilegiada de ver aquele acontecimento, toda surpresa que ele me deu fez com que minha percepção de cinema mudasse, radicalmente.

::Sábias Palavras::


"I have lost my origin
And I don't want to find it again"
Björk - Wanderlust

::My headphones saved my life::


Kings of Convenience - Misread

If you wanna be my friend
You want us to get along
Please do not expect me to
Wrap it up and keep it there
The observation I am doing could
Easily be understood
As cynical demeanour
But one of us misread...
And what do you know
It happened again

A friend is not a means
You utilize to get somewhere
Somehow I didn't notice
friendship is an end
What do you know
It happened again

How come no-one told me
All throughout history
The loneliest people
Were the ones who always spoke the truth
The ones who made a difference
By withstanding the indifference
I guess it's up to me now
Should I take that risk or just smile?

::A pergunta que não quer calar::

Faço algo da minha vida ou espero ela fazer algo de mim?

quinta-feira, junho 14, 2007

::My headphones saved my life::


Happy Together - The Turtles

Imagine me and you, I do
I think about you day and night, it's only right
To think about the girl you love and hold her tight
So happy together

If I should call you up, invest a dime
And you say you belong to me and ease my mind
Imagine how the world could be, so very fine
So happy together

I can't see me lovin' nobody but you
For all my life
When you're with me, baby the skies'll be blue
For all my life

Me and you and you and me
No matter how they toss the dice, it has to be
The only one for me is you, and you for me
So happy together


::A não ser que::


Um livro de "auto-ajuda" é algo que não faz o menor sentido, pelo menos para quem sabe o mínimo de português. Se é AUTO ajuda, não é necessário um livro e se é um livro que te ajuda não é você mesmo e por isso não é auto-ajuda, faz sentido? A não ser que...
A não ser que eu mesma escreva um livro para me ajudar, aí ele será um livro de auto-ajuda. Como nunca acreditei no poder de um livro para me ajudar em algo, pelo menos não diretamente, porque Clarice Lispector, Virginia Woolf e outros me ensinaram muito, resolvi escrever um livro para ajudar a mim mesma.
Um desabafo, um esvaziamento de tudo que estou cansada de conter em minha memória.
Wish me luck.


::Carta aberta a minha ex-ibicionista::


Darling,
Eu não quero saber com quem você transou ou deixou de transar, o que eu queria é que você apenas fizesse amor, comigo. Mas não há o que ser feito, não é mesmo?
Já que eu não existo, eu sou apenas um avatar de um passado distante, com o qual de vez em quando você troca algumas palavras, simpaticamente, mas eu sou virtual, não sou parte da realidade.
Eu queria sofrer uma lobotomia, uma espécie de lavagem cerebral, servir de experimento para a máquina de Brilho Eterno de uma mente sem lembranças. Com certeza seria você que eu escolheria deletar, mesmo que tudo saísse errado, seria a melhor opção. Seria ótimo poder vê-la, ouvir seu nome, ver sua foto e não sentir minhas pernas tremerem, meu coração acelerar e um suor frio percorrer minha espinha, como se a memória procurasse e a resposta fosse: DADOS INSUFICIENTES PARA REAÇÃO, um conjunto vazio.
Tudo isso porque você já me esqueceu. Talvez ainda se lembre de meu nome e o ligue a uma fisionomia em particular mas às suas lembranças não vêm os sentimentos, as sensações ligadas a mim, os cheiros, as cores, os sabores daquilo que um dia tivemos. Os encontros às escondidas nas datas comemorativas, as alianças trocadas - um pacto? - sua mão quente na minha, nossos abraços, seu sorriso, nossos apelidos íntimos.
Hoje tudo que você tem deve ser exibido, seu corpo, suas ações, seus sentimentos. Você porta como um estandarte o corpo que um dia eu quis ter só para mim, as ações que eu nunca achei que você fosse capaz de cometer e os sentimentos que envolvem necessariamente ir para cama com alguém e fazer bem feito, para que seja memorável e espalhável.
Não seria exibível um amor como o que tivemos, pelo menos como o que eu tive por você, ainda tenho, você não o exibiria porque ele não é reproduzível, ele é único e foi esquecido.
Sweetie.


::Espero que sejam Sábias Palavras::


"Relaxa querida,você vai achar fruta melhor,tenho certeza, alguém muito melhor, que seja inteligente
de verdade, que saiba ter diálogos como os de Gilmore Girls ... Porque você fala meio rápido também. Que te leve para o campo, para que você não fique tão estressada, que te entenda de verdade, uma pessoa que te ame intensamente e que não seja algo tão exagerado. (...) E olha que praga de amigo gordinho e meigo pega."
Meu amigo meigo


::A pergunta que não quer calar::


Por que toda luta tem de ter seu preço?

segunda-feira, junho 11, 2007

::My headphones saved my life::


Para quando for a Praga, um dos meus destinos dos sonhos.

All Dressed Up - Damien Rice

I pack my suit in a bag
I'm all dressed up for Prague
I'm all dressed up with you
All dressed up for him too

Prepare myself for a war
Before I even open up my door
Before I even look out
I'm pissing all of my bullets about...

Wrap myself in a bag
I'm all wrapped up in Prague
I'm all wrapped up in you
I'm all wrapped up in him too

Prepare myself for a war
And I don't know what I'm doing this for
Trying to let it all go
But how can I when you still don't know?

I could wait for you
Like that hole in your boot
Waiting to be fixed
I could wait for you
What good would that do
But to leave me bruised?

Darlin' - here's to you and your lover
Darlin' - I got years.

Pack my suit in a bag
All dressed up for Prague

Pack my suit in a bag
All dressed up for

::Aprendizados da migração Leste-Oeste::


Existem várias leis tácita no transporte público,uma delas, principalmente no ônibus, é a seguinte: o lugar que ficar vago será daquele que estiver em pé mais próximo do lugar em questão. Acontece que muitos não respeitam isso, estão a uns 10 passos de distância e quando alguém levanta se jogam em cima daquele lugar lindo que de repente ficou vazio, isso quando não jogam bolsas, casacos, para dar tempo de chegar.Eu odeio isso.

::Sábias Palavras::


"Eu não sabia que existiam prostitutas de óculos. Mas existem." Haruki Murakami , Dance Dance Dance

::Divagações no escuro::


O Tigre e a Neve

Podem falar o que quiserem, que o filme é nada mais nada menos que uma variação de A vida é bela, que Roberto Benigni é forçado, que ele tenta imitar o Chaplin, não me importa, o filme novo de Roberto (imagine a Sofia Loren falando seu nome como no Oscar) é maravilhoso, poético, engraçadíssimo e muito triste. Assim como A vida é bela? Sim, os dois são dignos desses adjetivos, os dois falam da guerra mas os dois merecem ser reconhecidos como filmes diferentemente memoráveis.
Muito mais romântico que seu antecessor, O Tigre e a Neve mostra um homem que qualquer pessoa gostaria de ter apaixonado por si. Se antes eu pensava que se alguém me descrevesse como José de Alencar descreve Amélia em Senhora eu casaria na mesma hora, agora meu espírito romântico desacreditado acha impossível que alguém real faça tudo o que se faz por amor nesse filme.
De qualquer forma vale à pena sair de casa para ver o filme, dar um tempo a seu coraçãozinho para que ele ainda acredite no amor romântico, ou esperar sair na locadora e ver naquele dia em que você está com vontade de protagonizar a cena inicial de O Diário de Bridget Jones.

Inconscientes

Comédia para se descabelar, uma piada inteligente com a psicanálise de Freud, dividido em capítulos que têm nomes de complexos descritos pelo "destruidor psicanalista", como 'a inveja do pênis', o filme é bem feito, rico em diálogos e situações engraçadas, cheio de reviravoltas, final revelador, realmente prende a atenção. Não sei dizer o porquê mas a cor amarela prevalece dando um quê especial e o estilo remete aos filmes do início do século.

Labirinto de Paixões

"Que overdose!" Por falar em comédias, filme de Almodóvar de 82 que faz o cinema vir a baixo de tanta risada, eu ria do filme e das risadas alheias. Creio que nunca ri tanto no cinema, nem em O Cheiro do Ralo.
Muito anos 80, aquelas cores trash da década, história "non-sense at all", situações tão cômicas que talvez seja melhor ver o filme de fralda. Muito se fala sobre sexo, é claro, e há até piadas escatológicas. Inesquecível ver meu Pedro querido travestido. Hilário. "Gran ganga, gran ganga, lárálárálárá..."

sexta-feira, junho 01, 2007

::My headphones saved my life::


Meu Erro - Paralamas do Sucesso

Eu quis dizer
Você não quis escutar
Agora não peça
Não me faça promessas
Eu não quero ti ver
Nem quero acreditar
Que vai ser diferente
Que tudo mudou

Você diz não saber
O que houve de errado
E o meu erro foi crer que estar ao seu lado bastaria
Oh meu deus era tudo o q eu queria
Eu dizia o seu nome
Não me abandone jamais

Mesmo querendo eu não vou me enganar
Eu conheço os seus passos
Eu vejo os seus erros
Não há nada de novo
Ainda somos iguais
Intão não me chame
Não olhe pra trás


Blue Moon - versão "Revisited" do Cowboy Junkies

Blue Moon
You saw me standing alone
Without a dream in my heart
Without a love of my own
Blue Moon
You know just what I was there for
You heard me saying a prayer for
Someone I really could care for

And then there suddenly appeared before me
The only one my arms will hold
I heard somebody whisper please adore me
And when I looked to the Moon it turned to gold

Blue Moon
Now I'm no longer alone
Without a dream in my heart
Without a love of my own

::Em algum lugar do passado::


Ontem foi noite de Lua Azul, a última, pelo que me lembro, foi no dia 31 de julho de 2004. Dizem que noite de Lua Azul é noite de sorte no amor, por isso eu fiquei em casa, assistindo televisão debaixo das cobertas. Após a Lua Azul de 2004, achei que seria mais seguro ficar na minha casa mesmo. Relembro então um texto que escrevi no meu blog da época depois daquela noite (com as correções gramaticais e ortográficas pertinentes depois de 3 anos melhorando meu português):

O amor e a felicidade estão intrinsecamente ligados?Por que passar 6 horas às vezes parece uma eternidade e às vezes parece ter passado apenas 2 horas? Por que na maioria das vezes que acontece isso estou com quem amo,quando eu gostaria que 1 hora durasse uma eternidade? Por que é preciso apanhar tanto,zangar-se tanto,brigar tanto para depois descobrir que te amo de verdade? Por que vemos tudo mais perfeito na pessoa que amamos? Como um olhar pode ser tão cheio de significado? Significado este que milhares de palavras não explicariam. Passei tanto tempo esperando,chorando e achando que tudo daria errado para numa fração de segundos, quando te reconheço do outro lado da rua, tudo virar fumaça e meu coração bater a mil,minha boca ficar seca e a única coisa que conseguia fazer era olhar-te,como nunca,para sempre!

::Sábias Palavras::

"Eu aborto
Tu abortas
Todas calamos"
Espécie de "colagem grafite" na entrada do Teatro Fábrica

::Divagações no escuro::


Violação de Domicílio

O filme todo é uma grande metáfora sobre a situação palestina atual, a tomada de espaços pelos israelenses é vista de uma forma até poética. Gandhi fez escola e o pai de família quer uma luta por meio da paz, da "desobediência pacífica" mas muitas vezes o ódio não é controlável.
Godard também fez escola e a câmera chega a ser tão próxima que parece que estamos lá, naquela casa invadida e violada, naquele lar. A técnica do faux raccord (aquela coisa que parece que o DVD está pulando ou que faltou alguma parte da película) foi a melhor que vi nos filmes de um ano para cá.

O Passageiro

O que fazer para mudar de vida quando desta dependem tantas outras vidas? A liberdade não é livre arbítrio mas nem por isso tudo é determinado, não lembro de quem é a frase, mas "liberdade é fazer aquilo que você quiser daquilo que fizeram de você".
Tavez seja preciso descobrir sua própria identidade antes de trocá-la com a de outrem.
Mesmo que você não goste de Antonioni o filme valerá pela última seqüencia. GENIAL.

::Aprendizados da migração* Leste-Oeste::


Isso eu já sabia, mas é sempre reforçado: NUNCA, JAMAIS, saia de casa sem um guarda-chuva na bolsa.

*Valeu Lu por me fazer perceber que migramos e remigramos todos os dias.