domingo, junho 07, 2020

O extraordinário



Há dez anos eu vim ao Rio de Janeiro pela primeira vez. Lembro do fascínio que tomou conta de mim ao ver o Pão de Açúcar quando o ônibus que saiu do terminal ao lado da rodoviária rumo ao apartamento do couchsurfer que me hospedaria passou voando pelo aterro do Flamengo.

Como eu tomara um ônibus noturno de São Paulo, era muito cedo, o dia amanhecia. E essa sensação estranha de ver ali, em presença e peso, uma imagem repetida diversas vezes apenas como reprodução. Parecia que de repente começaria a tocar uma canção de bossa nova, como numa abertura de novela. Era como ver de pertinho alguém muito famoso de quem só se viu fotografias e vídeos infinitamente.

Nessa primeira viagem, me comportei como se nunca mais fosse ter a chance de pisar meus pés no Rio de Janeiro. Bem turisticamente, visitei o Cristo, subi ao Pão de Açúcar -em parte pela trilha, com a ajuda de outro couchsurfer-, fui ao Jardim Botânico, passeei pelas ruas e centros culturais do centro, fiz fotos na escadaria Selarón, dancei numa festa numa quadra de escola de samba.

A cidade mais linda do mundo. 

Voltei ao Rio muitas vezes desde aquele julho de 2010, reatualizando a primeira impressão. Muita coisa ruim acontece, mas 

A cidade mais linda do mundo.

O Rio não é como Paris ou Roma, tão lindas quanto suas famas. Paris é aquela sensação de quando se encontra a pessoa amada em sua melhor versão, na porta do cinema, ou numa mesa de restaurante a meia luz, o nervoso na boca do estômago, a expectativa de uma noite, a pessoa sorridente, bem-arrumada, cheirosa, um ar fresco. 

O Rio é aquele sentimento de quando se acorda pela manhã ao lado da pessoa amada, descabelada, com ramela, bafinho, e o quarto está quente, e a coberta está bagunçada, um descanso na alma, uma languidez, uma paralisia.

Nos últimos 90 dias, porém, o Rio tem sido aquele crush com quem se sai uma vez, outra vez, e outra, e toda a ação se resume a conversas interessantes e trocas de beijos. A ânsia de que a coisa evolua, que fiquemos nus logo, a frustração. Será que não tá afim de mim?

Hoje me enchi de coragem e caminhei até a praia de Botafogo. Uns 300 metros depois de sair do prédio, avistei o Corcovado e o Cristo. O clichê, a cidade de cartões-postais. 

E depois ali, olhando os barcos naquele pedaço redondo de mar, quase um lago, em que do lado oposto desponta o morro de formato característico que um dia quiseram chamar de Pão de Açúcar, eu chorei. Não podia tocar meu rosto para enxugar as lágrimas, então elas foram ficando, secando com o ventinho que vinha da praia. Fui até bem perto da água, me sentei, fechei os olhos, e resolvi ficar apenas ouvindo a água chegando devagar na areia. 

Como o sol se punha atrás do prédios, os morros mais distantes foram se tornando cor de rosa e, depois, também o Pão de Açúcar. A imagem de sonhos.

Estar fora de casa desde que as medidas de isolamento começaram fez com que eu construísse uma ideia de excepcionalidade, de suspensão do cotidiano, de extraordinário. Ainda que eu saiba que o vírus também está em São Paulo, que meus amigos e minha família também estão trancados, eu não criei memórias de casa sob a pandemia. Sendo assim, ainda há espaços para uma ilusão de que a volta será uma volta ao que havia antes. Ao ordinário. A imagem dos sonhos.

segunda-feira, julho 09, 2018

Conteúdo lésbico insuficiente

Nesta semana me aconteceu uma coincidência muito estranha. Ou não. Estava prestes a terminar de ler "Fome", de Roxane Gay, quando assisti ao standup "Nanette", de Hannah Gadsby. E os dois têm tanto em comum que senti necessidade de escrever para tentar organizar essas semelhanças. 

Não sou uma usuária frequente da Netflix, muito porque sou ruim de ver TV (nem tenho uma em casa), e porque tenho uma habilidade rara de não seguir séries do jeito certo (vocês não imaginam como se dá meu bem-querer por "Game of Thrones"). Mas, graças ao meu irmão, eu tenho um login.

"Fome" já estava no meu radar há muito tempo, apareceu em diversas listas de melhores do ano nos Estados Unidos, mas quando foi mencionado no prêmio Lambda, eu dei um basta na procrastinação e resolvi pegar um volume emprestado.

O livro de Roxane Gay é sobre si mesma, sobre seu corpo e seus traumas. Ela é uma mulher americana negra, de família haitiana, e gorda. Em determinado trecho do livro, ela diz já ter chegado aos 260 quilos. A passagem em que ela vai a um encontro para pacientes que querem fazer a cirurgia de redução de estômago é assustadora. O texto é formado por diversos capítulos curtos, de uma a cinco páginas, nos quais ela fala de suas experiências num corpo grande, pesado e mal tratado pelos outros. 

O que ele pode ter em comum com "Nanette"? Quase tudo, mas, sobretudo, o vocabulário sobrevivente.  

A discussão sobre isso é tão pouco presente nas obras produzidas por aqui, tão pouco presente na crítica brasileira. Falamos tão pouco do lugar da vítima e, quando falamos, quem fala são as pessoas que não são vítimas. Talvez estejamos dando ouvidos às mesmas vozes de sempre.

As vozes de Roxane e de Hannah são vozes de sobreviventes, de vítimas de abusos sexuais. E as duas são mulheres que sabem, agora, depois de muito esconder-se, levantar suas vozes. Ambas trafegam muito bem dentro do universo que sobreviventes têm construído para se conectar.

Tanto no livro quanto no espetáculo de standup as histórias seguem essa linha: 
abuso, 
a autodepreciação como tentativa de superar o trauma (Gay passa a comer descontroladamente, criando para si um corpo que cause repulsa aos violadores em potencial; Hannah faz piadas), 
muito silêncio, 
muita culpa (ambas falam sobre achar, de alguma forma, que mereciam sofrer o abuso que sofreram), 
vergonha (esse elemento grita nas duas obras) 
e então a conexão, a percepção de que falar sobre o assunto não vai curá-las, mas vai ajudá-las a se conectar e a, quem sabe, evitar outros abusos, ou, pelo menos, evitar outros silêncios.

Gay conta o dia em que descobriu o vocabulário sobrevivente, num livro, e da sensação de saber que ela não era a única mas que, infelizmente, assim como ela, muitas outras mulheres haviam sido estupradas. Descobriu que sua experiência de medo, vergonha, raiva de si, era comum em muitas outras pessoas. Ao final, quando narra a incapacidade de tratar do assunto com a mãe ainda hoje, ela fala sobre a esperança de que sua sobrinha não tenha que passar por um abuso e, se passar, que possa procurar ajuda, justiça, e não ficar calada e sofrendo sozinha.

Da mesma forma, Hannah escondeu o fato de ter sido abusada e de ter apanhado, escondia em piadas sobre seu corpo, sobre sua identidade, sobre sua orientação sexual. Mas agora, não dá para perder tempo, ela diz. Não me faça perder meu tempo. 

Existe uma urgência nas duas mulheres, uma necessidade de tentar mudar a trajetória de suas vidas, de buscar ser melhor. O que as duas estão fazendo, e elas falam disso com todas as letras, é buscar seu espaço.

Em um dos meus trechos favoritos do livro, Gay diz: "Isso é o que ensinam à maioria das garotas --que devemos ser magras e pequenas. Não devemos ocupar espaço. Não devemos ser vistas e ouvidas, e, se somos vistas, devemos ser uma visão agradável aos homens, aceitáveis na sociedade. E a maioria das mulheres sabe disso, que nós devemos desaparecer, mas isso é algo que tem de ser dito de forma ruidosa, repetida, para que possamos resistir a nos render àquilo que esperam de nós."

Bom, certamente não esperam de nós um standup cheio de verdades. Um standup, como muitos chamaram, raivoso --curioso como homens são incisivos, assertivos, mas mulheres são raivosas. "As pessoas só se sentem seguras quando o humor raivoso é feito por homens. Quando eu o faço, sou só uma lésbica furiosa estragando a diversão", diz Hannah.

Vamos estregar a diversão. Essa alegria de homens brancos heterossexuais que faz com que mulheres andem com medo nas ruas, de dia e de noite, que nos faz pensar duas, três, quatro vezes se vamos mesmo sair com aquele short curto naquele dia quente. Fico imaginando o que homens pensam ao ouvir de Hannah as coisas horrorosas sobre como só o que precisamos é uma surra de pau na cara e cavalgar num pinto para melhorar nosso dia. Ela faz aquilo parecer o que realmente é: asqueroso. Mas quem nunca ouviu isso na vida?

O tempo é de urgência. E não de hashtags. O tempo é de não deixar passar batido. Não me faça perder meu tempo.

PS. É claro que há outros pontos de contato entre "Fome" e "Nanette", e um deles é a orientação sexual, e como mesmo "our people", como diz Hannah, dá os seus "feedbacks" um tanto cruéis. Ambas falam sobre não se encaixar no gênero da forma como é esperado pela sociedade, ambas contam terem sido confundidas com homens. Mas isso fica para outro momento em que esse blog ressuscitar. Por enquanto, o conteúdo lésbico será insuficiente.

segunda-feira, setembro 18, 2017

Minhas férias

"Minha nudez já é estranha para mim. Meu corpo parece fora de época. Será que realmente usei trajes de banho, na praia? Usei, sem pensar, entre homens, sem me importar que minhas pernas, meus braços, minhas coxas e costas estivessem à mostra, pudessem ser vistas". O Conto da Aia, de Margaret Atwood

Quando li a passagem acima, logo grifei e marquei "Irã".

Uns quatro dias após chegar no país, em abril, me vi nua num espelho comprido que havia diante do chuveiro. Fiquei em choque. Depois de poucos dias usando véu e abaya, já achei a minha nudez estranha. Aquele cabelo, aquele colo, aqueles seios, eram os meus?

Dias depois, quando alguém do Brasil me mandou uma foto de amigos no bar, meu olhar foi diretamente para o decote de uma moça com seios fartos. O que estava acontecendo com meu cérebro?

Antes de ir ao Irã eu pensei: ok usar o véu, são apenas alguns dias. No terceiro dia, eu estava cansada de ter que controlar se minha franja saía por baixo do véu, se eu não levantava as mangas da camisa, por instinto, por conta do calor. O que mais me incomodava era ter de usar o véu o tempo todo, ter de lembrar de colocá-lo ao sair de casa, mantê-lo ao comer, ao viajar confortavelmente num avião ou num ônibus.

No quinto ou sexto dia, eu já me incomodava com o fato de estarmos eu e minha amiga, companheira de viagem, julgando as vestes de outras turistas. "Isso não está muito curto?". "Nossa, quanta franja aparecendo". Tínhamos prontamente nos tornado fiscais de regras com as quais não concordávamos.

Jardim Eram, em Shiraz
Em 2015, eu viajei à China. Eu queria conhecer um país completamente diferente do meu, uma cultura distante e milenar. Voltei achando que aquilo era o mundo de ponta-cabeça. Nos últimos dias da viagem eu estava odiando tudo. Quando voltei, me dei conta de que o que eu odiei foi a solidão. Estar num país tão diferente sozinha me obrigou a conviver comigo mesma mais do que jamais consegui, ou fui obrigada a. Para o Irã, resolvi viajar acompanhada. Descobri que era fundamental para mim ter com quem conversar num lugar em que não entendo ninguém nem nada e que quase ninguém me entende. 

Resolvi dar um tempo à reflexão antes de escrever sobre minha experiência no Irã porque uma viagem sempre se resignifica com o tempo, e não queria ser injusta com um país tão lindo e no qual fui tão bem acolhida.

O Irã é um país maravilhoso. Há paisagens estonteantes. Há uma história de cair o queixo. Uma Grécia no Oriente Médio, com muito deserto. Uma grande civilização, fundadora da humanidade.

Ali, com ajuda da grande ideia que é o Couchsurfing, Elsa (minha amiga com quem viajei) e eu fomos recebidas nas casas das pessoas, fomos levadas a mercados, lojas e restaurantes, nos explicaram e nos ajudaram. Com os iranianos que conhecemos, pudemos até ser "foras da lei". 

Primeiro porque o Couchsurfing é proibido no país, com o acesso vetado, só é possível se conectar a ele usando um VPN (assim como o Facebook e diversos conteúdos da internet). Depois, porque essas pessoas confiaram em nós. Um casal dividiu com a gente um pouco de seu vinho caseiro. Beber, vender e produzir bebidas alcoolicas no Irã é proibido. Um iraniano nos deixou assistir a canais ilegais, tendo acesso a programas feitos por iranianos para iranianos fora do Irã. Ter antenas e sintonizar canais da Turquia, Armênia e arredores também é proibido. Um jovem iraniano muito engraçado tocou para nós, enquanto nos dava uma carona em seu carro, música cantada em farsi por mulheres e nos incentivou a dançar. Dançar em público no Irã é ilegal, para homens e mulheres. Mulheres cantarem e gravar a voz feminina em farsi também é ilegal.

A surrealidade de tantas regras, quebradas a todo o tempo pelos iranianos, se tornou evidente num dos diálogos mais tristes que tivemos ali. Em Yazdi, cidade pequena e turística, um homem nos parou na rua e quis saber de onde éramos (isso era bastante frequente em todos os lugares, com exceção de Teerã). Pouco se importou com o fato de eu ser do Brasil (fato raro, normalmente evocam jogadores de futebol entusiasticamente), e se concentrou em elogiar a França, país de Elsa. "Oh, Paris, beautiful. Champs Elysées, beautiful. Tour Eiffel, beautiful". Fez cara de triste. "France, dance. Here, no dance". E fez o gesto com a mão, dedo em riste, de negativa.

Mausoléu de Shāh Chérāgh, em Shiraz

Nos guias que li antes da viagem, diziam que os iranianos adoram convidar estrangeiros para comer em suas casas, e até mesmo para pernoitar. Tivemos de recusar alguns desses convites. Talvez por sermos mulheres, eles não foram tão numerosos assim. Era difícil, em algumas regiões e bairros, até mesmo conseguir ajuda sobre direções, já que se pressupõe que mulheres não dirijam a palavra a homens sem que os homens comecem a conversa e, na maioria das vezes, as mulheres que encontrávamos ou não sabiam inglês ou eram muito tímidas ou tinham algum receio de falar com a gente.

Mas num parque em Isfahan tivemos de recusar o convite de uma família numerosa e falante (embora apenas um dos filhos falasse inglês), que queria muito que fossemos ficar em sua casa. Nos apresentaram todos, irmãos, tios, primos, nos mostraram os livros escolares das irmãs. As mulheres sorriam, nos olhavam curiosas. Numa praça, ganhamos morangos. E Elsa, ao dizer que uma das garotas do pic-nic (esporte nacional iraniano) estava muito cheirosa, ganhou uma borrifada em seu pescoço do perfume que ela usava.

Eu me senti segura o tempo inteiro em que estive no Irã e raramente desconfiei das intenções das pessoas. Eu comi muito bem, tudo era delicioso e bem temperado. O país é limpo, organizado e os iranianos parecem ter um olhar cuidadoso sobre a beleza das coisas. Qualquer praça de qualquer lugar era cuidada como se fosse o jardim de um rei.

Porém, o desconforto, até mesmo visual, com a situação das mulheres me faz pensar que não quero voltar para lá. Num calor seco e extenuante, me dava desespero estar com um véu cobrindo minhas orelhas e pescoço. Enchia-me de desespero ainda maior ver mulheres andando por aí com grandes panos pretos cobrindo todo seu corpo. 

Durante toda a viagem, e desde então, eu tenho me esforçado para compreender o que se passa naquele país. Algumas pessoas me disseram: ah, mas o Brasil também é machista, talvez até mais. Concordo que o Brasil seja machista, jamais negaria isso. Mas o relativismo tem seus limites. Entendo também que quase tudo do que me pareceu incompreensível se explica pela religião, pela crença e pela fé. Porém, existe uma diferença entre os demais países de maioria islâmica e o Irã, existe uma diferença entre os muçulmanos em Paris e em Teerã, existe uma diferença entre o Brasil e o Irã: a institucionalização. A lei religiosa no Irã é a única lei. A constituição do país é a lei islâmica. Ali, não existe escolha. Ali, a liberdade, se é que ela existe, ganha contornos bem espessos. No Ocidente, queremos defender que as mulheres muçulmanas possam sim usar seus véus nas ruas e escolas, mas no Irã eu, uma ateia, ou Elsa, uma protestante de origem huguenote, não podíamos comer descobertas, não podíamos mostrar nossos cabelos nem nossas orelhas. Ali, uma iraniana não pode não usar o véu.

"A humanidade é tão adaptável, diria minha mãe. É verdadeiramente espantoso as coisas com que as pessoas conseguem se habituar, desde que existam algumas adaptações". Atwood, de novo

domingo, julho 30, 2017

Sapeca iáiá

Minha vó foi copeira, arrumadeira e babá em casa de gente "muito chique", como ela conta. Trabalhou na rua Bahia, em Higienópolis, na alameda Barros, e na Condessa de São Joaquim.

Hoje, fomos almoçar num restaurante chiquetoso em frente à Praça Buenos Aires, onde ela costumava passear aos domingos quando trabalhava só até depois do almoço.

Ela me contou de uma foto que tirou ali na praça, vestindo uma saia preta longa de seda, que sua patroa tinha trazido para ela da Itália. Ela falou das roupas que usava: sempre de saia, luvas, vestidos elegantes. "Ninguém achava por aqui que eu fosse doméstica". 

"Era uma beleza morar no trabalho. Eu tinha um quarto todo bonito, banheiro com banheira só para mim." Ela diz que gostava de ser babá e de ser copeira, porque os doces eram todos feitos na copa. Ela fazia pudins e bolos. E passava os panos de centro de mesa das patroas, que não podiam ter nem sequer uma ruguinha. Não gostava de ser arrumadeira, engraxar os sapatos dos patrões e polir as maçãs que iam na fruteira da sala.

A patroa da rua Condessa de São Joaquim, era ateia, minha vó contou. Ela era babá da filha dessa mulher quando se casou. A patroa foi na igreja no dia do casamento, que foi na antiga igreja da Penha. "Mas ficou só na porta, não entrou porque era ateia." Minha vó parou de trabalhar em casa de família. A menina ficou doente de saudades da babá. "Mal sabia a mulher que eu sempre levava a filha dela para as igrejas ali da Liberdade e ensinava ela a rezar."

Nesse momento, já estávamos almoçando, ela pediu que eu acreditasse em deus. Que eu devia ter fé. Desviei do assunto, nem lembro como. 

No Jardim da Luz, que, assim como a praça, para ela, agora está feio, sujo e malcuidado, ela me contou da sua vizinha que a chamava para passear por lá. "Ela vivia me chamando para vir aqui no Jardim da Luz. Ela vinha sozinha, de ônibus, e passava o dia aqui procurando homem." A vizinha viúva chamava minha vó, também viúva, para ir passear no jardim em busca de homens prum "sapeca iá iá". Nessa hora, quase morri de rir. Não conhecia a expressão. "Safada ela era. Tinha um foooooogo aquela mulher." Dois homens passaram cantada na minha vó no nosso passeio no parque. 

Fiquei satisfeita com a história dessa vizinha, muito mais feliz do que as anteriores que ela tinha contado envolvendo homens. Certa vez, passeando no cemitério da Consolação em dia de folga quando era copeira em Higienópolis, um homem saiu correndo atrás dela com o pau pra fora. O dentista no qual ela ia, pago pela patroa da São Joaquim, tentou estupra-la uma vez. Ela fugiu correndo e gritando. "É por isso que eu falo: tem estupro sim, tem médico que estupra as pacientes."

Eu ofereci de refazer o retrato que minha vó tinha tirado na Praça Buenos Aires e que hoje se perdeu. Ela disse que não. Que não gosta de ser fotografada. Que naquele retrato ela estava linda, tinha 19 anos. De saia, cabelos compridos e sem óculos. Eu consegui um selfie do Jardim da Luz, para onde fomos mais tarde. Ela continua linda.

sexta-feira, julho 28, 2017

Bela Cintra, 221

No carro, paradas no semáforo, minha avó olha para mim e fala. "Vou te falar uma coisa. Você pode achar que é besteira, mas eu queria tanto sonhar com seu avô. Eu queria poder perguntar se onde ele está, ele está bem, se ele sente dor, saber como ele está."

E então, pela primeira vez, eu confessei a ela. "Eu sonho muito com o vovô, vó." 

Eu queria dizer para ela: deixa que eu pergunto. Mas achei que seria falso. Eu não faria isso, porque para mim não faz muito sentido. Mas eu torço para que ela consiga sonhar com ele.

Então eu expliquei para ela que meus sonhos com o vô são do passado, na vida que ele tinha aqui, com a casa dele, as roupas dele, na cidade em que ele morava.

Essa minha vó é uma grande contadora de histórias. São histórias de sua vida. Reais ou inventadas, para mim pouco importa. Se reais, impressiona pela maldade das pessoas. Se imaginadas, o que impressiona é a capacidade de criação da minha vó.

E ela não apenas narra as suas histórias. Ela atua. E nesse dia, ali na sala da minha casa, ela caminhou até a porta da cozinha, ficou bem ereta e imitou seu pai chegando em casa. "Pa-pa. Ele usava botas grandes, e batia um pé depois do outro quando chegava na porta. Pa-pa." E fez o gesto descrito.

E ela imitou minha bisavó --sua sogra--, sua madrasta (as melhores histórias envolvem essa mulher, que se fingia de mãe), suas irmãs. Encenou a fuga de sua mãe da fazenda --digna de novela das seis--, sua vida na fábrica de televisões e rádios na Vila Maria, sua adolescência regrada pelo pai e seu casamento.

O pai, chocado com os cabelos curtos e calças compridas que ela usava dois dias depois do casamento, ao qual ele não foi, ouviu da vizinha, minha bisavó: "O senhor aí não manda mais, agora quem manda é meu filho". 

As histórias se repetem. Algumas já não sei mais quantas vezes ouvi, e vi. Mas outras, ela parece contar sem querer. Elas parecem escapar. São as histórias secretas. Inéditas.

Dessa vez, ela falou do restaurante que sua avó tinha. Na rua Bela Cintra.

Depois, ela me contou que quase nunca se lembra daquilo com que sonha. Talvez ela sonhe com meu avô. E até faça as perguntas que tanto quer fazer. Não se lembra das respostas. Uma pena que não se lembre dos sonhos. Se acordada conta histórias tão incríveis, imagina sonhando.






sábado, dezembro 31, 2016

Retrospectiva de um retorno de Saturno

Se olharem no menu ao lado, verão que em 2016 eu bati o recorde de menos vezes em que escrevi neste blog desde 2007. 

No ano que começa, esse site aqui faz 10 anos, e espero ter mais tempo para escrever, e mais coragem para publicar o que escrevo. É uma daquelas resoluções de começo de ano que nunca se concretizam: escrever mais para mim, escrever mais para os outros, postar mais o que escrevo, escrever contos, fazer um curso de escrita criativa...

Por enquanto, resolvi escrever sobre este ano aqui que está quase acabando. Tem gente escrevendo textão no Facebook sobre o que fez e o que não fez, e tem gente reclamando de quem está escrevendo sua retrospectiva. O fato é que eu li todas que apareceram em minha TL, e algumas me fizeram chorar. Não há como negar, é nesta época do ano que paramos para pensar, nem que seja no tempo de uma ducha gelada para aplacar o calor, sobre o que fizemos ao longo do ano, sobre o que queríamos ter feito e não fizemos, sobre no que evoluímos e sobre como pode ser o ano que começa.

Essa coisa de ano, dia, hora, é tudo convenção. Eu sei. Mas não dá para fugir de todo esse sentimentalismo que paira no ar mais ou menos desde o dia 22 de dezembro. É triste, é melancólico, é narrado pelo Cid Moreira. 

Como plantonista de fim de ano, resolvi esperar o último segundo de 2016 para falar alguma coisa dele. Vai que no apagar das luzes ele resolve botar uma catástrofe, um ataque terrorista, um cantor morto bem no meio do caminho entre o passar o crachá na catraca da redação e o pegar as chaves da porta da minha casa.

Bom, lá vai. 

Hoje eu recebi uma mensagem de Whatsapp de uma amiga: "quero te dizer que vi em 2016 vc se transformar em uma mulher leve, divertida e aberta ao mundo. É muito lindo poder ver isso acontecer." 

E foi isso mesmo. Foi um ano de profundas transformações. Foi o ano do retorno de Saturno.

Mas 2016 foi quase que a consequência direta de algumas decisões, difíceis decisões (aqui, leia-se também, muito dinheiro gasto na terapia) que tomei nos últimos meses de 2015. Foram decisões que levaram anos para amadurecer na minha cabeça (anos, muitos dias sozinha na China e muita dor) e eu sabia que elas ajudariam a trazer modificações relevantes na minha vida. Eu só não imaginei que seria tanto assim.

Eu sei que 2016 foi um ano de merda para o mundo, para o Brasil, na política, para os direitos humanos e tudo mais. Eu sei que o Bowie morreu, que o Cohen morreu. Mas para ler sobre isso você pode ir no seu site de notícias, ou de factóides, favorito. Eu quero é escrever sobre mim, e sobre os meus.

Foi um ano de muitas primeiras vezes. No começo de 2016, fui pela primeira vez a uma astróloga. Ela me falou sobre o retorno de Saturno -que duraria até dezembro (ainda bem, chega!)- e avisou sobre junho (seria o mês mais difícil do ano, E FOI!). Pela primeira vez eu joguei futebol de forma minimamente organizada (numa quadra, numa equipe, uma vez por semana), senti como se chutasse uma bola pela primeira vez, será? Pela primeira vez eu tive uma paixão de carnaval, que começou, aconteceu e acabou como o carnaval: divertido, meio bêbado, gostoso e rápido. Pela primeira vez eu me apaixonei viajando de férias, pela primeira vez me apaixonei por um estrangeiro, e tudo deu errado, de uma forma cruel e desnecessária, que fez eu me sentir uma estúpida, dessa vez em duas línguas. 

Eu confundi sexo com amor, eu confundi sexo com amizade e amizade com amor, e tudo isso vice-versa.

Eu consegui me afastar de um amigo muito importante na minha vida, que me ajudou a ver coisas muito importantes, a quem eu amava muito, mas que não suportava me ver naquilo que eu me transformei, ainda que tenha sido com a ajuda dele, que me queria ver para sempre uma adolescente espirituosa, contestadora, metida a diferente.

Eu sofri de saudades, de amigos que foram morar longe, e de um amor platônico que resolvi deixar dentro da caverna para sempre enquanto eu saio para a luz. 

Pela primeira vez eu troquei as cordas de um varal de teto, arrumei torneira pingando, troquei puxador de porta, botei gente para fora da minha casa. 

Eu olhei para minha perna se movimentando e pensei: caramba, eu preciso fazer exercício e firmar essa coxa aí. E eu me enchi de coragem, coloquei números no papel, chequei minha conta bancária e voltei a fazer esgrima (com o futebol, acho que vai resolver o lance da coxa). Eu passei a mão no meu rosto e pensei: caramba, cadê aquela oleosidade? E passei a seguir uma rotina de cremes e protetor solar. São os 30 chegando.

Eu passei a dormir em todo e qualquer filme a que eu assista em casa, seja dia ou noite. Então passei a ir mais ao cinema. Eu passei a dormir depois de quatro ou cinco páginas de um livro, e para isso ainda não arranjei uma solução. Eu fui em dois casamentos na mesma semana, de gente que eu amo, e chorei igual criança. Eu me reaproximei de pessoas queridas das quais eu já não tinha mais nem o número de telefone. Eu pensei em procurar um antigo amor avassalador, e desisti.

Em 2016 o Renan veio (tem um texto em rascunho aqui no blog só sobre isso) e eu pensei por algumas horas que tinha 16 anos de novo, que íamos ao Bocage, a boates miadas, com RGs falsos. Meu coração se encheu de amor por saber que amizades como a nossa nunca acabam ou se perdem pelo tempo e espaço.

Eu fiz as pazes com as minhas opções de trabalho, com o fato de ter estudado uma coisa e trabalhar sempre em outras coisas. Eu fiz as pazes com a minha orientação sexual, e com a minha vontade de gritar e lutar para que todos também possam conseguir isso.

Eu fui idiota, muitas vezes. Eu falei o que não devia, muitas vezes. Escutei o que não queria. Eu fui cínica, como fui nos outros anos, mas fui sincera, como fui poucas vezes.

A mesma amiga da mensagem, há coisa de um mês, me mandou outra: "Cê tá apaixonada né?". E depois: "Tá reclamando menos das coisas em geral". E é assim que termino 2016, sem muitas reclamações, porque acho que cresci, que melhorei, porque minha vida, pela primeira vez, está menos bagunçada que minha mesa de trabalho, e também porque estou com olhos -e boca, e nariz, e mãos e tudo mais- que amam.


terça-feira, agosto 02, 2016

Primeira infância

Aos 11 anos, eu acreditava piamente que aos 18 anos eu seria uma adulta e viveria o que, naquele tempo, eu acreditava ser uma vida adulta, ou seja, moraria numa casa que não fosse a dos meus pais, sozinha, pagando minhas contas e trabalhando. Eu devia ser muito ruim de contas então. E ruim de realidade e conjuntura.
Aos 18 anos, eu estava começando, pela segunda vez, o primeiro ano de faculdade, após abandonar o curso que escolhi aos 17. Morava na casa dos meus pais e não tinha nenhuma fonte de renda, é claro.
Levou mais dez anos até que eu pudesse ser capaz de bancar uma casa sozinha e pudesse, assim, sair da casa dos meus pais e pagar minhas contas. Mas e a vida adulta?
Eu não percebi em que momento a minha ideia do que é ser adulta e viver uma vida adulta mudou, mas a verdade é que agora, prestes a completar 29 anos, trabalhando todos os dias, num emprego com carteira assinada, décimo terceiro, férias, recolhendo impostos, declarando IRPF todos os anos, eu não sei o que é ser adulta. Eu não faço a menor ideia do que é ser uma pessoa adulta.
Eu não consigo me olhar no espelho e achar que sou adulta. Não consigo andar na rua e me perceber como adulta, olhar minhas roupas no armário e pensar que sejam roupas adultas.
O estranho é que eu consigo olhar para algumas pessoas e reconhecer nelas um adulto, mas pensando muito bem, não sei o que nelas me diz que sejam adultas.
Eu passei mais de 20 dias na China, sozinha, e não achei nem por um segundo que eu fosse adulta.
Aos 22 anos eu me mudei para a França por uma temporada. Foi a primeira vez que andei de avião na vida, de mala e cuia e cadernos e livros para um país desconhecido. Visto, abertura de contas no banco, cozinhar, lavar, limpar, deitar na cama numa casa sem uma família, sem uma mesa de jantar, sem uma televisão com o jornal das oito. E eu não achei que fosse adulta.
Eu lavo meu banheiro, minhas roupas, estendo, recolho, dobro, guardo, faço feira, vou ao mercado, compro flores, arrumo a casa, pago aluguel, pago a terapeuta, checo a data de validade, passo o crachá na firma, pago almoço com Sodexo, tenho plano de saúde e carteirinha do SUS, uso óculos para ver letras miúdas de perto, assisto à novela das nove. O que falta para ser adulta?

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

Clube de leituras secretas

Na minha turma de amigos de quando eu estava no ensino médio trocávamos livros, alguns, secretamente. De quem escondíamos esses livros e por que? 

Eu nem me lembrava mais disso, ou pelo menos não pensava nisso há tempos. Foi "Carol" que me fez lembrar desse clube de leituras secretas. O clube em si não era secreto, trocávamos livros abertamente, coisas como o novo "Harry Potter" e, lembro, rolou até aquela imitação fajuta do Harry chamada "Artemis Fowl".

Mas dentro desse esquema de um-compra-e-empresta-pros-outros alguns livros corriam de mão em mão sem que alguns outros do grupo soubessem, e líamos, em casa, nos esforçando para que nossos pais também não soubessem. E eu digo corriam porque líamos muito rápido mesmo. Aquela coisa: estudantes, não trabalhávamos, chagávamos em casa e passávamos a tarde toda lendo, às vezes nem dormíamos, se o livro fosse bom, e, assim, no dia seguinte, o livro já estava com outra pessoa.

"Carol", no qual o novo filme de Todd Haynes é inspirado, de Patricia Highsmith, foi um desses livros. Eu comprei num sebo por R$ 7 (ainda há o preço escrito a lápis na primeira página), li, sublinhei loucamente, e depois repassei pros amigos. Ele voltou para mim e recorri a ele quando vi que, uau, alguém o filmaria.



Até então, talvez porque fosse um desses livros do clube, eu achava que só eu tinha lido esse livro. A diferentona. Ninguém nunca tinha comentado esse livro, nunca via ele vendendo nas livrarias, todo mundo só falava de "O Talentoso Ripley".

Outros livros dos quais me lembro desse clube de leitura são "Hell - Paris 75016", da Lolita Pille, "Cem Escovadas antes de Ir para a Cama", de Melissa Panarello, e "O Terceiro Travesseiro", de Nelson Luiz de Carvalho. O que todos eles têm em comum?

Esses livros falam de descobertas sexuais. Dos quatro, "Carol" é o menos explícito, e o mais antigo também, dos anos 50.

Lembro que "Cem Escovadas" era bastante explícito e descritivo. Inclusive, lembro que, como a edição era minha, eu emprestei para minha avó -eu não me esforçava tanto quanto meus amigos para que meus pais não soubessem o que eu estava lendo, já que meu pai tinha me dado "Admirável Mundo Novo" para ler quando criança, eu achava que tudo bem ler sobre sexo. Eu já estava ligada, à época, que ela lia esses Sabrinas de banca de jornal. Quando ela me devolveu, disse: "Nossa, tem coisas aí das quais eu nunca tinha ouvido falar". Nem eu vó, nem eu.

Esses livros eram as nossas Playboys. Mais: no caso de "O Terceiro Travesseiro" e "Carol", eram nossa conexão com o mundo homossexual numa época de internet incipiente. Esses eram ainda mais secretos, eles não só tratavam de sexo, eles tratavam da descoberta homossexual. Eles e o CD da dupla russa "t.A.T.u", que era sensação entre algumas de minhas amigas.

A descoberta sexual numa escola católica de classe média alta conservadora não era moleza, e, quando essa descoberta era marcada pela orientação sexual diferente da norma daquele ambiente, era ainda mais pesado. E esse era o nosso jeito, o jeito nerd que éramos, de aguentar o tranco.

Lembro de imaginar as festas de Lolita, o cara da moto de "Cem Escovadas" e, é claro, de sonhar com Carol. Agora vê-la encarnada na figura de Cate Blanchett é um choque imenso naquela adolescente que eu fui e que se sentia tão deslocada quanto Therese na vida.

terça-feira, janeiro 26, 2016

Minhas três São Paulos

17
7,5
3

Esses são os números que representam, em quilômetros, a distância a pé de uma casa em que morei até o Marco Zero de São Paulo. 

Recentemente me mudei de casa, e de bairro. Isso apenas pela segunda vez na vida -na verdade terceira, mas vou desconsiderar a casa na qual fui bebê, que poderia ser a casa 6,5, na zona norte. Hoje moro na casa 3, ou seja, a 3 km do Marco Zero. Os bairros nos quais eu morei, como se pode imaginar pela distância do centro histórico, são extremamente diferentes entre si.

Como deve acontecer com muitos paulistanos, o caminho foi esse: da mais distante para a mais próxima do centro, da periferia, portanto, para o centro.

Até os meus 15 anos morei na casa 17, num bairro na zona leste, aquela região que aparece apenas como um bloco uniforme, mas que na verdade é um grupo de bairros extremamente diferentes entre si. No "centrinho" do bairro há um mercado, farmácia, perfumaria, padaria, escola estadual e um posto de saúde. Minha avó materna mora ali há anos, mais de 40. Nas fotos antigas, as ruas eram de terra. Até pouco tempo atrás, inclusive, havia uma rua ainda não pavimentada no bairro, a qual chamávamos, evidentemente, a rua de terra. Qual o caminho para a feira de quarta? Olha, você passa a rua de terra e segue reto, sobe e lá no alto é a rua da feira.

Os únicos prédios do bairro, que fazem parte do mesmo condomínio, foram construídos há cerca de 15 anos, e falavam nas ruas que eles iam cair. Até então era assim: fulano mora em prédio? Então é "dos predinhos", bairro vizinho, na parte baixa da região.

Ali, as pessoas saem na rua com qualquer roupa confortável, vão na padaria de chinelo e os vizinhos se conhecem pelos nomes. Quando você liga para um e não consegue falar, liga para o vizinho e vê se ele sabe alguma coisa do paradeiro daquele que você procura. As famílias moram ali há anos e, como minha avó, há muitos idosos cujos filhos e netos já se mudaram de bairro mas quando eles voltam para visitar os vizinhos reconhecem e acenam.

Nos anos 90, ali entravam na sua casa para roubar o seu bujão de gás, ou a sua bicicleta guardada no quintal, ou arrombavam seu carro, dentro da sua garagem, para levar o toca-fitas. Roubavam sua antena de TV também, no telhado da sua casa. Um vizinho envenenava o cachorro do outro para que ele parasse de latir. Um vizinho mais legal só atirava laranjas no animal. Quando as linhas telefônicas eram mais caras do que aluguéis de casas em caso de emergência você usava o telefone do vizinho mas para pedir uma pizza você andava três quarteirões até o orelhão mais próximo.

Você pode achar que 17 km não é nada. Mas para chegar a uma estação de metrô o jeito mais rápido é andar uns 15 minutos até a avenida principal da região e pegar uma lotação ou então, se quiser andar menos, pegar o ônibus no "centrinho" que, como vai por dentro, pode levar uns 40 minutos até o destino final -isso fora da hora do rush e sem chuva. E aí tomar o metrô até o Marco Zero. 

Aos 15 me mudei para a casa 7,5, num bairro em expansão imobiliária e de moradores classificados como "novos ricos", ou seja, gente que, como eu, saía da periferia para se aproximar do centro e do trabalho. A linha do rodízio do centro expandido passava do lado de casa, assim como o trem e o metrô da linha vermelha.

Ali as pessoas olham atravessado para quem vai à padaria ou ao mercado de chinelo e com a "roupa de fazer faxina". Os prédios têm entrada de serviço e elevadores "de serviço", por onde circulam as empregadas domésticas cujos nomes apenas os porteiros sabem. 

As casas que restam no bairro estão sendo demolidas numa velocidade vertiginosa para vermos crescer, também em alta velocidade, prédios altos, residenciais ou comerciais, cheios de consultórios médicos e dentários. Há vários hospitais particulares no bairro também, mas no posto de saúde é possível marcar consulta com o ginecologista pro mês seguinte, talvez até para a semana seguinte.

Há dois shoppings centers, cada um com suas várias salas de cinema, mas um teatro bom só foi construído recentemente, dentro de uma escola, e recebe peças de comédia e shows de bandas cover. Há diversos mercados, várias lojas de rua de tudo o que você precisar, inúmeras escolas, particulares e públicas, bares e restaurantes, de mexicano a mongol. Na praça do "centrinho" do bairro tem agências bancárias de todos os bancos que se imaginar, padaria com ótimo pão italiano, salão de cabeleireiro, cafeteria, mercado, cursinho, papelaria, loja de calçados, de chocolates, igreja, e muitos carrinhos de cachorro-quente.

Tudo é perto mas ninguém faz nada a pé. As famílias têm dois ou três carros e tiram eles da garagem para tomar uma cerveja (e depois voltar dirigindo), jantar no restaurante a três quadras ou ir no cinema a quatro quadras. As pessoas têm medo de andar na rua de noite. E por isso as ruas são sempre desertas à noite. E histórias de roubos e assaltos se espalham entre os moradores dos condomínios, que fazem abaixo-assinado contra projetos de "habitação social" e pedindo postos de polícia nas praças.

Dali é possível chegar ao Marco Zero, de metrô, em cerca de 10 minutos.

Agora moro na casa 3. Aqui tem gente passeando com cachorro na rua às 3 da manhã. Há muito idoso e muita gente solteira e morando sozinha. Os prédios novos são raridade e os antigos, dos anos 50 e 60 são a maioria. Aos domingos grupos de crianças brincam no meio da rua jogando bola ou apostando corrida. Grupos de adultos fazem churrasco na calçada. A cada esquina um gênero diferente de música embala o almoço.

Há mercados pequenos, nenhum hiper mercado, farmácias, hospital público, posto de saúde, teatros, escolas públicas, particulares e uma grande escola judaica. As ruas estão sempre sujas, cheias de lixo e restos de móveis. Se você vacila caminhando pela calçada um menino, ou menina, passa de bicicleta e leva o celular da sua mão. 

Em algumas ruas, casas abandonas que um dia devem ter sido maravilhosas se enfileram. Grandes galpões guardam a memória de um passado de fábricas ao lado de grandes casarões que pertenciam aos mesmos donos. Aqui os moradores de rua conhecem os moradores dos prédios pelo nome, e vice-versa. E se cumprimentam. E aqueles trocam conselhos por comida e moedas desses.

Daqui é possível ir ao Marco Zero a pé em uns 40 minutos.

Essas São Paulos são tão diferentes uma da outra. Seus moradores, seus hábitos, sua etiqueta, seus gostos. E cada uma tem muito a ver com o que sou. Cada uma me ensinou suas lições valiosas, do que eu quero e do que eu não quero, do que eu sou e do que eu não sou, e, acima de tudo, do que eu preciso para viver aqui e do que eu não preciso.

sexta-feira, julho 31, 2015

Qual é a magia do Mike?

A escritora feminista Naomi Wolf uma vez disse: "Suspeito que as mulheres estejam entediadas sexualmente". Eu também! 
Por uma união de peças que prega o destino + uma amiga companheira de roubadas + a minha absoluta mão de vaquice que não me deixa desperdiçar nada, nem mesmo ingressos gratuitos para o cinema, fui ver "Magic Mike XXL" na quinta da estreia. E olha que nem vi o primeiro.
A plateia era formada por mulheres, sozinhas ou em duplas, e casais de homens gays. Não havia sequer um casal heterossexual na sala. Primeira pergunta: será que nesses filmes cheios de mulheres gostosas só há homens sozinhos, ou com amigos, e casais de mulheres lésbicas? Ou será que as mulheres não se importam de acompanhar seus companheiros para ver mulheres gostosas enquanto os homens rechaçam completamente "Magic Mike"?
Logo de cara um ator tido como gatinho em Hollywood (não ligo muito pro Tatum não, mas não o acho mau ator) expõe seus grandes muques torneados em trabalhos de marcenaria. (ah, a marcenaria, esse grande clichê para enlouquecer mulheres!)
Aí o marceneiro faz uma dança muito louca, incluindo rebolados profissionais, ao som de uma música também muito louca. (ah, se os homens --especialmente os de São Paulo-- soubessem como é sexy homens dançando eles iam parar de acusar os homens que dançam de gays.)
Até aí legal né. Pensei: ok, acho que vai ser uma noite divertida no cinema.
Mas então entra toda essa história, como vocês devem saber de que se trata o filme, de strippers e danças de "clube das mulheres".
Mulheres gritando, se descabelando, se descontrolando diante de homens sem camisa que dançam e se esfregam em algumas delas. Mulheres entre 30 e 50 anos, com a câmera, e os strippers, dando especial atenção às mulheres gordas da plateia. Mulheres que são tratadas pela MC Rome (vivida por Jada Smith) por "rainhas" e num tom condescendente.
O discurso das MCs e dos strippers voltado a essas mulheres loucas por um peitoral visa aumentar sua auto-estima e condenar seus parceiros (e os homens não-strippers) como incapazes de entendê-las na cama. "Vocês são muitas e nós somos tão poucos" um deles diz em meio a um show.
Há pelo menos duas sequências exemplares dessa relação: no casarão-clube mantido por Rome uma mulher comemora com as amigas o seu divórcio, um dos "strippers" (entre aspas porque ele é mais cantor) compõe na hora uma pequena canção para a moça estimulando-a a acreditar em sua força interior, dizendo que ela é linda e que ele a ama. Isso tudo numa casa de strip.
Em outra ocasião, o grupo de strippers do tal Magc Mike está na casa de uma mulher de meia-idade recém divorciada (vivida por Andie McDowell) que está recebendo amigas e bebendo vinho. Elas, "soltinhas", começam a falar com esses caras fortões sobre seus descontentamentos na cama com seus companheiros, atuais e passados. Um deles abraça uma delas, depois de uma história sobre frustração sexual no casamento, canta para ela, mexe em seu cabelo, como se ela fosse uma criança triste, e aí senta em seu colo e se esfrega nela.
As danças, ainda que super bem executadas e com passos de street dance a serem mega louvados, simulam movimentos sexuais, com especial atenção para o pênis na boca da mulher. É claro que o stripper também simula a esfregação da cara dele na área vaginal da mulher, mas, como muitas vezes na vida real, é 10 "pênis na boca" para cada uma "vagina na boca". Além, é claro, do clássico mulher de quatro com o cara atrás.
Não estou dizendo que o filme não seja fiel à realidade, é totalmente capaz que ele retrate fielmente este universo "clube das mulheres" e o problema é a realidade mesmo.
Por que, eu me pergunto, essa mistura de sensualidade, sexo simulado e autoajuda? É disso que as mulheres gostam? É disso que precisamos?
Strippers mulheres não ficam de papinho "sua mulher tem te tratado bem?", "sua mulher dá para você sempre?", "você tem que se achar roludo, gostoso e lindo, meu rei" com os caras que foram lá vê-las tirar a roupa. Ou estou enganada?
Por que mulher tem que ganhar "terapia" quando vai atrás de algo sexual?

sábado, junho 20, 2015

Do outro lado do mundo, parte 3

Quando eu voltei de férias, uma amiga me perguntou: o que você viu de comunista na China?
Eu trouxe de lá souvenirs com o retrato de Mao Zedong (jovem, com sua pintinha), mas não tinha dedicado muito tempo, depois de voltar, para colocar em ordem todo pensamento e percepções confusas e conflitantes que tive com relação ao assunto enquanto estava lá. 
Estátua de Marx e Lênin no parque Fuxing de Shanghai
A verdade é que é muito mais fácil perceber o que na China tem a ver com um governo autoritário, mas que não necessariamente tem a ver com o comunismo. O fato de simplesmente não aparecer nada quando se digita facebook.com ou google.com no tablet ou no celular tem a ver com a censura, que tem a ver com o governo autoritário. Também faz parte disso todo o esquema para tirar o visto ainda aqui e o fato de eu ter tido que assinar uma declaração dizendo que não iria escrever sobre essa viagem, porque era jornalista, por mais que dissesse que iria apenas de férias (mas ninguém pediu para ver um comprovante de que eu tinha dinheiro para pagar essa viagem nem um seguro-saúde para o período). Também tem muito a ver com isso a forma truculenta como os seguranças e policiais agem com os chineses, como a violência que presenciei no trato dos visitantes do mausoléu de Mao, em Beijing (relato a visita em um outro texto em breve).
Quadro no Museu Nacional de Artes da China, em Beijing
É claro que essas e outras coisas têm a ver sim com as ferramentas empregadas pelo partido para tornar a China um país comunista. Não apenas a censura mas também a figura de Mao e toda a adoração a ela como se fosse uma dividade capaz de fazer milagres. Como manter um país gigante com uma enorme população dentro do regime sem a força do medo e a força de uma figura carismática de líder da nação?
Mas o que ainda há de comunista na China?
Foi a primeira vez que visitei um país sob regime ditatorial, e comunista; até então, o mais perto que chegara fisicamente do assunto tinha sido na ex-Iugoslávia, na Croácia, onde são tão visíveis as cicatrizes da recente guerra civil que nem consegui ver onde tinha ficado o comunismo.
É óbvio que de cara só se vê o que na China é censura e autoritarismo, mas faço aqui um esforço de interpretação, correndo o risco até de ser acusada de total incompreensão do que seja o comunismo, para responder à questão da minha amiga. 
Vista norte da praça da Paz Celestial, a praça Tian'anmen
A primeira coisa que percebi foi um senso de massa e de indiferenciação que ainda lá interpretei como a falta da noção de indivíduo mas que, é verdade, vem aparecendo rapidamente, principalmente em lugares como Shanghai. Os chineses, em sua maioria, não se preocupam, como nós, em serem diferentes uns dos outros pela roupa, pelo estilo, pelo cabelo ou pelo comportamento, eles não parecem buscar diferenciar-se. Nesse sentido, achei curioso como o turismo ali, massivo, é feito em enormes grupos, todos iguais, que seguem um guia com uma bandeira usando todos chapéus ou camisetas ou lenços iguaizinhos. Algo talvez comum no Brasil há 20 anos, mas hoje ninguém mais passeia por aí orgulhoso com sua bolsa CVC. Além disso, não há filas, a não ser em caixas de supermercados ou, muito menos respeitadas, nas bilheterias de estações de metrô. Assim, vence quem chegar primeiro, quem empurrar mais. Aliás, tive a impressão de não haver esse respeito justamente ao espaço do indivíduo, me sentindo invadida o tempo todo com trombadas e empurrões (mas nada, que fique claro, de cunho sexual). Na estação de metrô, por exemplo, na plataforma, todos se amontoavam na mesma região sem escapar da muvuca em busca de portas vazias.
E a gritaria é geral. Funcionários gritam dentro dos transportes públicos com megafones, pessoas gritam quando falam aos celulares ou em conversas mano a mano, é um barulho sem tamanho.
"A fundação do partido comunista da China é resultado da integração do marxismo-leninismo e dos movimentos de trabalhadores na China", no Museu de Fundação do PCC, em Shanghai
Outra coisa, além desse senso comunitário que me pareceu muito forte -os parques também estavam sempre cheios de pessoas fazendo atividades em grupo, como cantar, dançar, lutar, mas não havia gente se exercitando sozinha- foi perceber o tamanho do Estado. O funcionalismo parece enorme. Dos varredores de rua aos policiais, passando por três funcionários dentro de cada ônibus. É facilmente perceptível um inchaço da coisa pública no número de funcionários.
Reconstrução com bonecos de cera da reunião de fundação do PCC, espécie de Santa Ceia com Mao ao meio, no museu de fundação do partido em Shanghai
Diria que essas são as duas principais características que pude perceber que ligaria ao comunismo, mas não posso dissociar disso também a maneira como as mulheres estão inseridas na sociedade chinesa. Há monumentos públicos com mulheres. Quantos monumentos já vi no Brasil em que mulheres estão retratadas? Nenhum que eu lembre. No chamada Empurra-empurra, em São Paulo, por exemplo, não lembro de ter visto mulheres. Na China, a mulher camponesa e a mulher operária aparecem representadas em pé de igualdade aos operários e camponeses homens. Embora não haja mulheres nas representações ligadas à fundação do PCC, elas eram bem vindas nas guardas vermelhas. (Sobre a sensação de não-machismo na China prometo outro texto)
Pintura de Li Xiangyang, "Órfão de Camarada", de 1982, no Museu de Arte de Shanghai
Porém, tudo isso dito acima mistura-se a uma incrível abertura ao outro, ao capitalismo e ao estrangeiro. Há McDonalds e Coca Cola em todo lugar e as marcas de sempre daqui também estão por lá em mercados e lojas. Fiz compras em um Carrefour, comprei sabonete Johnson & Johnson etc.
Shanghai é de fundir a cuca. Globalizada, há décadas ocupada por estrangeiros, ali a atividade principal é fazer dinheiro e tudo parece girar em torno do ato de comprar. Assim, qualquer tentativa de compreensão mais profunda do sistema chinês é barrada pelo próprio paradoxo que vive o país hoje. Por quanto tempo mais será possível esconder dos chineses o massacre da praça da Paz Celestial com as ferramentas anti-censura para a internet e com a grande presença de estrangeiros no país?
Se fosse para fechar com uma interpretação, eu diria que o comunismo que um dia houve na China já fez água e hoje o país vive apenas com o que de pior havia nele: autoritarismo, ufanismo e censura.

Quadros na área de galerias de Shanghai, a famosa Moganshan Lu








sexta-feira, maio 22, 2015

Do outro lado do mundo, parte 2

Logo de cara, quando se chega no aeroporto de Pequim, após passar pelo controle de imigração e receber o carimbo no passaporte --e uma marca no seu visto de duas entradas indicando que você acaba de usar a primeira-- a impressão que se tem não é muito diferente da que tive em países europeus. Segue-se as placas em inglês para o trem expresso que leva ao centro da cidade, compra-se o bilhete e o trem para numa estação incrivelmente limpa dentro do aeroporto; nem se vê o lado de fora.

Estação de trem expresso no aeroporto
Do trem para o metrô a troca é simples, ainda mais para quem está acostumado a usar metrô em grandes cidades. E é só ao descer na estação de destino final e sair no meio da rua que se tem dimensão do que é estar na China. Placas em chinês para todo lado, céu cinza, bicicletas e motos elétricas (que não fazem barulho, cuidado!) enchendo as faixas à direita de largas avenidas...
Eu cheguei de manhã cedo e, claro, me perdi completamente apenas para descobrir em qual rua devia virar ao sair da estação de metrô Xinjiekou. Levei muito tempo tentando descobrir, virando de um lado para o outro o mapa do guia e o mapa que pegara no aeroporto --para que lado é o norte quando você não vê o Sol? Até que resolvi apelar para o "ni hao, dui bu qi" (oi, com licença) seguido de um "zai nar" (onde) e apontando no mapa fazendo cara de interrogação ao meu interlocutor.
Finalmente achei o hutong onde ficava o hostel, uma rua estreita que abria com um restaurante halal e onde eram vendidas frutas, motos e bicicletas buzinavam e pessoas passavam apressadas fumando e cuspindo. A garota jovem com quem fiz o check-in no hostel foi a primeira pessoa a me revelar uma das coisas que mais me marcariam nos chineses: sua estranha relação com o comunismo e Mao. Após ela ter me perguntado de onde eu era no Brasil e me contar euforicamente que tinha adorado a animação "Rio", eu perguntei de onde ela era na China, ao que ela respondeu:
-- Da província de Hunan, a mesma de Mao Zedong.

entrada do hutong Zhengjue


Ao todo passei 20 dias na China, entre Pequim, Yangshuo, Shanghai e Qingdao, cidades completamente diferentes entre si, que também me proporcionaram muito diversas experiências e despertaram, assim, diferentes sentimentos em mim.
O guia que me acompanhou, de papel, um "Routard" --guia para mochileiros francês, que eu já usara na Grécia, na Croácia e uso mesmo no Brasil-- me contou sobre um ditado chinês que diz: se quiser conhecer a história da China, vá a Pequim, mas se quiser conhecer a China de hoje, vá a Shanghai.
Pequim é uma cidade impressionante, grande, com bairros modernos, cheios de painéis luminosos à noite, avenidas assustadoramente largas nas quais faixas são exclusivamente dedicadas a bicicletas e motos. E bem no meio daquilo tudo está uma outra cidade, a imperial, a Cidade Proibida, ao redor da qual Pequim passou a crescer e virou o que é hoje, e ao sul da qual está o maior e mais representativo espaço da, para mim incompreensível, China comunista: a Praça da Paz Celestial, Tian'anmen, com o retrato de Mao ao norte e o imenso mausoléu que abriga seu corpo mumificado ao sul, separados por uma imensidão de chão cinza e uma avenida de incontáveis faixas.

visão do norte quando na Praça da Paz Celestial


Yangshuo é uma pequena cidade --para os padrões chineses-- cortada pelo rio Li, famoso pelas montanhas às suas margens e conhecida por todo o país como o local ideal para turistar de bicicleta. A região é uma das mais visitadas pelos turistas chineses e, por isso, o centro de calçadões de Yangshuo --composto por 4 ou 5 ruas--, especialmente à noite, fica entupido de gente atrás de itens de suas lojinhas e camelôs. O clima é de cidade de interior turística, e me lembrou um pouco Campos do Jordão, mas de um jeito bom.

rua principal do centro de Yangshuo


Shanghai tem ruas ainda mais largas que as de Pequim, muitas pessoas engravatadas e prédios de arquitetura esdrúxula. O rio que corta a cidade e a proximidade do mar fazem com que as noites sejam frias --ainda que fosse meio de abril-- e com ventos que desencorajam os passeios. Se eu achava que São Paulo tem shoppings demais, Shanghai me fez ver que sempre é possível ter mais, e os de lá são incrivelmente luxuosos, com imensas lojas de marcas como Hermès, Chloè, Vivienne Westwood, Salvatore Ferragamo e por aí vai.

O Pudong, em Shanghai


Qingdao, antiga colônia alemã famosa pela cerveja Tsingdao (encontrável na Liberdade e restaurantes chineses em geral), é uma cidade portuária, com praias de pedras e cheias de algas que tornam o cheiro desagradável, longas avenidas que não mudam de nome e seguem sempre reto e onde o desafio maior é se locomover, já que não há metrô e o sistema de ônibus não é em inglês nem transliterado seguindo o pinyin.

praia em Qingdao próxima ao parque Zhanqiao

domingo, maio 10, 2015

Do outro lado do mundo, parte 1

E eis que cheguei ao outro lado do mundo. Desde criança ouvia frases como as do Chaves, de que se cavássemos muito chegaríamos à China, mas eu resolvi ir de avião mesmo.

China, palavra que parecia representar o oposto, o outro, o diferente.

Quando me perguntavam por que eu iria passar férias na China, eu não sabia muito bem o que responder. Era uma série de motivos, e explicar assim, de pronto, era meio complicado.

Desde que voltei do intercâmbio na França tinha essa ideia fixa de fazer uma viagem de volta ao mundo, para a qual vinha juntando dinheiro. Já tinha pensado em todas as paradas que faria com o bilhete de avião especial para voltas ao mundo: países na África, Oriente Médio e Ásia. Porém, não queria abandonar meu emprego atual e, sendo assim, em 2015 teria de me contentar com uma viagem de um mês, de férias.

Queria então que fosse algo diferente --já havia estado na Europa três vezes nos últimos cinco anos-- e desafiador, uma espécie de test drive para uma viagem ao redor do mundo. Queria um lugar onde não entendesse as placas e sinais (na Grécia já tinha sido interessante isso), e onde a comida, a história, a cultura e os costumes fossem diferentes, mas queria também um lugar seguro o suficiente para uma garota viajar sozinha.

Desde a época do colégio tenho uma grande amiga chinesa, nascida em Hong Kong, e ela e sua família eram meu laço mais forte com a cultura chinesa. Além disso, cineastas de Hong Kong, Taiwan e da China estão entre meus favoritos absolutos, como Wong Kar Wai, Tsai Ming Liang e Jia Zhang-ke.

Então por que não a China? Mas não Hong Kong ou Taiwan, bastante ocidentalizados, a China China mesmo. E assim foi surgindo o plano das férias.

Da China para Coreia é um pulo. Por que não então visitar minha companheira de apartamento estudantil na época da Sorbonne, minha vizinha e também uma outra coreana intercambista que era minha parceira de sessões de cinema matutinas aos domingos em Paris?

Pronto, foi assim. E por isso parti.



Hoje, de volta ao Brasil após um mês fora de casa, do outro lado do mundo, a compreensão da experiência dessa viagem está se assentando ainda. Estou tentando olhar para tudo o que vivi de uma maneira talvez mais compreensiva do que fui capaz durante meu tempo ali.

É muito complicado julgar ou ler uma cultura diferente da minha com meus padrões, com a minha ideia do que seja etiqueta, respeito, educação; chega a ser injusto. Porém, qual outra lente tenho disponível?

Em 20 dias sozinha na China aprendi muito mais sobre mim mesma do que sobre os chineses. Mas também aprendi muito sobre sua história e cultura milenares, sobre as dinastias, os imperadores, a revolução, Mao, a comida, os hábitos.

Mas não foi fácil, e em alguns momentos queria desistir, pegar o avião de volta e simplesmente estar num lugar conhecido com gente conhecida falando uma língua conhecida, num lugar onde eu fosse capaz de ler as placas e conversar com as pessoas.


sábado, março 14, 2015

Madeleine

O que é memória? O que é lembrança? Segundo o dicionário lembrança é aquilo que vem à memória e aquilo que se guarda na memória, ou seja, a memória é a gaveta, e as lembranças são aquilo que guardamos na gaveta e ao que recorremos para lembrar.

Para quem, como eu, tem problemas em acessar lembranças, a memória por vezes parece aquele gaveteiro de escritório do qual você não faz a menor ideia de onde está a chave. E é claro que a informação de onde está a chave também está fechada numa gaveta emperrada, daquelas entulhadas de coisa que você puxa e carrega o móvel todo junto.

Mas aí outro dia, ao abrir gavetas -de verdade-, arquivos e caixas antigas, encontrei um mundo do qual eu havia parcialmente me esquecido, um universo de relações que o tempo e a mágoa apagaram.

Uma carta, um recado, um presente, tudo de um passado não muito distante mas do qual as lembranças rareavam, quase nunca emergiam à superfície da memória.

E, de repente, não é só uma memória vaga do que houve, mas surgem diante dos olhos e dos demais sentidos, quase como reais, vozes, cheiros, mapas, texturas e promessas de eternidade até então fechadas em caixas onde guardei o que queria esquecer.

Mas e se essas caixas reais cheias de objetos reais forem jogadas no lixo, forem destruídas para sempre? Se era aquele bilhete, aquele recorte, aquele papel de bala a chave para abrir o gaveteiro da memória, se esses pedaços reais daquele mundo que hoje só existe em lembrança ficarem inacessíveis para sempre então também assim estará esse mundo para mim?

Daqui dez anos, quando for novamente desfazer armários e abrir memórias onde não mais estarão aquelas lembranças então a chave não será girada e nunca mais sentirei aquele cheiro daquela pele branca macia e nem ouvirei aquela voz um tanto rouca e anasalada. Continuarão, talvez para sempre, trancados num arquivo remoto da memória, sem acesso porque não há chave.

segunda-feira, outubro 20, 2014

Divagações no escurinho da Mostra

Quando comecei esse blog, meu segundo, em 2007 (naquele tempo em que conseguia escrever mais de dois posts por mês), ele tinha uma seção chamada Divagações no Escuro, na qual eu falava, brevemente, sobre os filmes que via, na TV, no cinema, não importava.
Por isso resolvi voltar a esse nome agora para falar dos filmes que tenho visto na Mostra deste ano. 2007 foi também o primeiro ano no qual trabalhei como monitora do evento, na correria do shopping Frei Caneca. Vamos ao que interessa, ou ao que não interessa a ninguém, pouco importa.

Cena de Amigos da França (Les Interdits)


-O Quarto dos Ratos-
Um filme egípcio que mostra um dia na vida de vários moradores de Alexandria. A montagem fez com que tudo ficasse meio confuso e o filme ficou perdido entre seus personagens: uma noiva no salão de beleza prestes a se casar, uma mulher que acaba de ficar viúva, um senhor de pijamas que passa o dia olhando o mar, uma garota que vai se mudar para Londres. Fossem histórias separadas em pequenos esquetes, ou fossem histórias que se cruzam com mais naturalidade, o filme sairia ganhando. A trilha sonora, contudo, é espetacular.

-7 Dias em Outro Lugar-
Fui ver este filme com uma grande expectativa, por ser do grande Marin Karmitz, que chegou a ser assistente de Agnes Vardà e de Godard. O filme é fruto de seu tempo, facilmente identificável que foi realizado no final da década de 60, na França. Porém, também é um filme que parece ter ficado parado por lá, que não transcendeu sua época, e muito disso se dá porque o que era para ser estilo na verdade é cacoete. São coisas que estavam lá nos primeiros filmes da turma da Nouvelle Vague, principalmente em Acossado, e que Karmitz usa, um pouco a exaustão. Mas as cenas de ensaios de dança são de uma beleza incrível e, no fim, são o que fica na mente após o filme.

-Conto de Cinema-
Esse filme de 2005, de Hong Sang-soo, é, para muitos, um clássico e, se não o é, é no mínimo muito respeitado (ele já esteve entre os filmes comentados no cineclube do Jean Douchet, na Cinemateca Francesa, por exemplo). Infelizmente eu nunca tinha visto, mas esse mal está agora reparado. Que filme maravilhoso, que filme gostoso, incrível. A vida que se faz cinema e o cinema que se faz vida. Além disso, grandes atuações. Um grande filme que sai de um fiapo de história, que saiu de uma sala de cinema em Seul.

-Amigos da França-
Uma ficção mais ou menos baseada em fatos reais daqueles que a maioria desconhece. Um grupo de judeus franceses que atuava na União Soviética junto a judeus que queriam emigrar para Israel. Tudo se passa em 79 mas, agora, o que o filme evidencia são as questões que estavam em torno do sionismo no período, o sonho que Israel representava para aqueles que moravam atrás da Cortina de Ferro, e o que é, e se ela existe, uma identidade judaica. E o que faz o filme grande é que, junto de tudo isso, é claro, há uma grande história de amor entre jovens que vivem uma utopia que de repente parece desaparecer diante de seus olhos. Quem nunca?

segunda-feira, setembro 22, 2014

O tempo dos outros

Assistir aos filmes de Tsai Ming-Liang nunca é tarefa fácil. Ver "Jornada ao Oeste" (Xi you), que está na programação do Indie Festival deste ano, é tarefa ainda mais difícil do que ver seus filmes, diria eu, narrativos. O novo filme do malaio-taiwanês está mais próximo de seu quase-não-visto por aqui "Visage", de 2009, do que de "Cães Errantes", ainda que tenham dito que o filme de 2013 fosse o seu mais radical. A meu ver, tanto "Visage" quando "Jornada" não são propriamente peças de cinema, mas sim espécimes da vídeo-arte, mas não sei se Tsai concordaria comigo. Ainda assim, fico feliz de ter assistido ao filme numa sala de cinema e não numa dessas desconfortáveis salas de museus e galerias dedicadas aos vídeos. (Aliás, seria ótimo se de vez em quando vídeos fossem exibidos no cinema, assim seria possível prestar mais atenção neles).
Lee Kang-Sheng e Denis Lavant em cena de "Jornada ao Oeste"
A sala do Cinesesc estava cheia, praticamente lotada, mas cerca de um terço das pessoas abandonou a sessão ao longo dos 56 minutos do filme. E o mais interessante foi ver como o tema do filme ecoou naquela sala de cinema de São Paulo. No filme, nada acontece. São longas sequencias do deslocamento de um (imagino) monge budista vestindo vermelho vagarosamente pela cidade de Marseille, isso após uns quase 10 minutos de close no rosto de um homem, este ocidental, com olhos pensativos prestes a chorar.
Se em um filme com explosões e cenas de sexo e pancadaria o pessoal nas salas de cinema já não consegue mais desgrudar do celular, imagina em um filme com longas sequencias em que praticamente nada acontece? Após uns oito minutos as pessoas não se aguentavam em seus próprios corpos. Começou aquele mexe-mexe, gente dando um tossida, mexendo na cadeira, pegando algo na bolsa, bebendo água, pegando uma bala. Quase ninguém conseguiu aceitar o desafio do filme: encarar aquela imagem. O efeito que o monge causou sobre aquelas pessoas naquela cidade andando pausadamente (cerca de 30 segundos para dar uma passada, uns 10 minutos para descer uma escada) não foi muito diferente do efeito do filme sobre os espectadores do cinema. O tempo incomoda. Temos cada vez mais dificuldade de encarar o tempo simplesmente passando.
Denis Lavant em cena de "Jornada ao Oeste"
Por que deixar a sala? Você já não havia reservado um tempo de seu domingo para ver este filme? Acha que é tempo perdido contemplar um homem desafiando o tempo? É claro que muitas leituras são possíveis do filme, sendo ocidente versus oriente a mais clara delas. O tempo e a paciência de uma certa "espirituosidade" oriental contra a pressa tecnológica ocidental. Mas Tsai parece ter conseguido expandir essas questões para uma obra na qual o embate se dá entre arte e uma certa fruição da arte, por parte da plateia, despreocupada e preguiçosa. Tsai é exigente, ele quer dedicação, empenho e esforço do lado de cá.
O resultado é um filme com belas cores, belas imagens, mas que deixa inquieto, dá aquele comichão, simplesmente porque nos faz ficar parados, olhando, olhando, esperando, dando tempo ao tempo deste monge que veste um vermelho vivo contra uma cidade de pedras.
E o filme se encerra com algumas frases, que aparecem escritas na tela com a bela caligrafia dos ideogramas chineses. A última frase do filme sem falas é:
"Todas as existências estão condicionadas ao olhar."



quinta-feira, agosto 14, 2014

Cedo demais


No que agora me parece o distante ano de 2010 (lembrando que eu tenho problemas com a memória de médio-prazo), meu último ano de graduação, eu era a coordenadora editorial da revista acadêmica Humanidades em Diálogo, que contava com uma seção, que abria a revista, de entrevistas com grandes pensadores. O nome do entrevistado era escolhido pela comissão editorial, muitas vezes em votação acirrada. Graças a essa seção eu entrevistei o professor Ismail Xavier e o então ministro Paulo Vannuchi.

Um belo dia, enquanto discutíamos um nome para a entrevista do volume 4 (que demorou mais de um ano para ficar pronta por total falta de verbas), um colega da história surgiu com a ideia de entrevistarmos um professor chamado Nicolau Sevcenko. Até aquele momento, ele não passava de um nome distante de um professor do departamento de história, como tantos outros nomes que vinham à minha mente ao pensar no prédio ao lado do qual eu estudava.

Escolhemos entrevistá-lo. E aí começamos a ler suas obras, cheguei a frequentar suas aulas, e pensávamos no formato da entrevista, já que ele era um professor bastante descontraído, distante das formalidades que muitos professores exigem em seu tratamento.

Li loucamente maravilhada "Orfeu Extático na Metrópole" e "A Corrida para o Século XXI", no qual ele fala desse loop da montanha-russa pelo qual passamos na virada do século 20 para os anos 2.000. A figura de Sevcenko, as coisas que ele escrevia, tudo ali era genialidade e generosidade. Ele tratava as pessoas de igual para igual, por mais que ele fosse simplesmente um dos grandes intelectuais de nosso tempo.

Marcamos a entrevista, e onde seria? Nada mais nada menos do que no escritório de Harvard no Brasil, o que, para jovens terminando a faculdade na USP era algo sensacional e emocionante. Nos sentíamos lisonjeados. E foi uma entrevista regada a vinhos e com falas que nos faziam ficar boquiabertos.

O professor Sevcenko falou sobre o financiamento de pesquisa de humanas no Brasil, falou sobre futebol, sobre urbanização, São Paulo, literatura, sociedade do espetáculo, protestos e, não menos inteligentemente, sobre Lady Gaga. Na época, a cantora fazia um sucesso estrondoso com Bad Romance.

Ontem a notícia de que Sevcenko morrera me chegou como um cometa que abre um buraco no coração. Eu trocava e-mails com ele frequentemente nos últimos tempos, falara com ele e com sua esposa ao telefone algumas vezes na semana passada, e falei com ele no dia anterior. Como assim morto?

No dia daquela entrevista num dia quente de julho, em 2010, nascia o sobrinho de um dos colegas. Sevcenko acabara de traduzir Alice no País das Maravilhas e dedicou um exemplar ao garoto recém-chegado. Hoje, essas palavras se enchem de significado. Jamais esquecerei de sua feição e sorrisos ao assistir a um vídeo de Lady Gaga conosco no YouTube. Sabedoria e generosidade.

”Que sua vinda seja um mergulho permanente na Toca do Coelho.
Quanto mais fundo, mais maluco, mais divertido, mais confuso e mais feliz!”


Ricardo, eu, prof. Sevcenko, Nicole, Fernando e Anna
A entrevista na íntegra pode ser lida no pdf da revista:
http://www.fflch.usp.br/df/pet/sites/fflch.usp.br.df.pet/files/arquivos/humanidade_iv_1.pdf