segunda-feira, outubro 03, 2011

Hell's Kitchen


Ainda está para nascer alguém mais desajeitada na cozinha do que eu. Se aquele Gordon Ramsay, louco de tudo, aparecesse na minha casa enquanto faço miojo, ele gritaria os mais sujos vitupérios contra mim.
Nesse último sábado eu tinha várias possibilidades do que fazer, ir ao cinema na sessão cult aqui do lado de casa ver Gainsbourg, ir para Campinas ver um cover das Spice Girls, levar minha bicicleta para passear no Butantã e deixá-la por lá, mas não, não foi o que resolvi fazer. E tudo isso tem uma explicação: meu pensamento guloso. Resolvi que ia fazer donuts, iguais aos do Dunkin' Donuts, que no fim ficaram Donkey's Donuts, mas enfim.
Já fazia um tempo que estava obcecada pela ideia de donuts, aqueles recheados com maçã e canela, creme bavária e por aí vai... Comi um no Centro Cultural da Vergueiro, apesar de ser uma facada, e o da padaria do Pão de Açúcar não fica muito atrás não, no gosto, porque é bem mais barato. Lembro quando as lojas do Dunkin' Donuts estavam por todos os lados, e comprávamos de caixinha, uma que parecia um ônibus, cheio de gostosuras. De uns tempos para cá eles são raros, e caros, mas ainda deliciosos. Então eu resolvi colocar a mão na massa e tentar fazê-los em casa. Nada que uma busca no Google "receita de donut igual dunkin donuts" não resolva, pensei eu.
Confesso que há em meu currículo algumas experiências bem sucedidas. O creme brullée (inspirado em Amélie Poulain) deu certo desde a primeira vez em que fiz, os complicados macarons (inspirados no filme da Marie Antoinette), depois de 18 horas na cozinha, também deram certo. E esses são os únicos exemplos que posso dar, porque, de resto, sempre deu tudo errado. Mas brasileiro não desiste nunca, e como sou muito mão de vaca, queria economizar e comer algo gostoso ao mesmo tempo.
Fui ao mercado com lista de ingredientes em mãos me sentindo super bem, perguntando onde ficava o fermento biológico e a fécula de batata, o que demonstrava meu desconhecimento na localização geográfica no mercado, mas também minha disposição em ser confeiteira. Primeiro, a massa tinha cheiro de lactobacilos vivos, sabe, quando você cria em casa para tomar todos os dias o resultado de seus metabolismos acelerados? Não? Bom, eu sei, mas isso é outro post. Segundo, eu comecei a usar a batedeira, que deve ser, no mínimo, da época em que meus pais de casaram (certeza que era da lista de casamento), eu dei as costas para a massa 1 segundo, e a batedeira soltou da base, girando loucamente por toda a cozinha, espalhando massa com cheiro de lactobacilo para todos os lados.
Para encurtar a história eu só vou dizer que deixei a massa descansar duas vezes, seguindo a receita, enquanto eu não tinha descanso, limpando a cozinha e lavando três pias cheias de louça. Gastei meia garrafa de óleo (porque além de tudo aquela massa chupava um óleo danado) para fritar uns 20, VINTE, donuts que ficaram, tchan tchan tchan tchan: HORRÍVEIS!
Bom, coloca mel aqui, nutella ali, hoje, segunda-feira, eles se acabaram, finalmente. E eu devia ter ouvido minha mãe e ter pego o dinheiro que gastei no mercado com fermento, leite, ovos, fécula de batata (que ainda não sei bem do que se trata, mas que deve ser feito de batata) etc e ter ido gastar na loja de donuts mas próxima, ainda com recheio de maçã com canela.

quarta-feira, setembro 21, 2011

Melancholia - Lars Von Trier

The Lady of Shalott - 1888 - John William Waterhouse

Composition II in Red, Blue, Yellow - 1930 - Piet Mondrian  
 
Da série Voom Portraits - Bob Wilson (http://www.youtube.com/watch?v=EJFHi4qEZSE) 


Antes de começar: o prêmio de melhor atriz em Cannes devia ter sido da Charlotte e não da Kirsten; sigamos, pois eu também quero dar meus pitacos sobre o filme mais comentado no facebook, pelo menos pelos meus amigos, dos últimos tempos.
Os filmes de Lars von Trier nunca permitem que saimos deles ilesos, seja do cinema, seja do final do DVD. O primeiro filme do diretor dinamarques que vi foi Dançando no Escuro, por conta da Björk, e a partir daí foi só amor, e ódio! Não tem um filme dele que eu não tenha gostado, não tem um filme dele que eu não tenha odiado. É assim. Em O Anticristo existe um machismo que não me permitiu compactuar com o filme, o machismo não era apenas no tema tratado pelo filme, era pela posição que o próprio filme assumia em relação ao tema. Mas as imagens são tão incríveis e a direção de atores tão perfeita que os sentimentos por ele gerados me atormentaram por dias. Nunca me esqueço do momento em que assisti pela primeira vez cada filme de Lars von Trier, e cenas de todos eles vivem povoando meus pensamentos e sonhos, tamanha força de suas imagens.
Da trilha sonora à paisagem, do começo ao fim, Melancholia é tocante. Desesperei-me, e se fosse comigo? Eu seria muito mais Charlotte do que Kirsten, duas irmãs que reagem de maneiras opostas à chegada do planeta, e de maneiras completamente diferentes da que reagem à vida cotidiana. Não comprei a depressão e o auto-aniquilamento de Kirsten, não me pareceu muito real, embora saibamos que as pessoas comportam-se de diversas formas frente à depressão, muitos disseram ter ficado chocados com o realismo de sua interpretação, eu não diria exatamente realismo.
O filme é belo, com lindas imagens, com Tristão e Isolda de Wagner, com início que lembra a série Voom Portraits do Bob Wilson, ainda mais soturno, e o final revelando o melhor filme apocalíptico já visto no cinema. Não posso esquecer da cena na biblioteca da casa, uma grande crítica à racionalidade moderna, quando Kirsten troca as imagens expostas nos livros nas estantes de pinturas concretas e cubistas por pinturas figurativas pré-rafaelitas e românticas. É o cansaço contra a racionalidade e o esquematismo do mundo em que vivemos, talvez seja a melancolia, a saudade de outra beleza.


domingo, setembro 18, 2011

24 num corpinho de 40

Se você não tem senso de humor e acha que o nojento não em graça, nem continue lendo, depois não diga que eu não avisei. Essa coisa de não podermos falar sobre certos assuntos que seriam íntimos demais até com a desculpa de que isso não interessa a ninguém é um saco e uma grande mentira.
Dia 17 de agosto foi meu aniversário, uma quarta-feira, e ele foi, por assim dizer, um péssimo dia, explosivo. No dia 16 foi-me reagendada uma colonoscopia. Ótimo, nada melhor do que tomar no cu como presente de aniversário, não é mesmo? Passei a segunda toda só comendo sopa e tomando água, e a terça era para ficar em jejum, com aula de manhã, metrô cheio e tudo o mais. Minha mamis foi me encontrar na USP para ser minha acompanhante, vocês não acham que eu levaria meu namorado para um programa desses,né? E não há amigos para isso, definitivamente não.
No HU, Hospital Universitário, é que começou a grande diversão. Das 12h às 17h eu fiquei tomando um líquido de gosto medonho e andando para lá e para cá para ele fazer efeito, qual seja, defecar até a alma. Objetivo: chegar a defecar com a mesma cor do líquido, ou seja, um amarelo quase transparente. Eu estava minguando, com sede, com fome e enjoada, até o fluxo inverter, o que era para sair por baixo, começou a sair por cima. Mas enfim cheguei a um final feliz, chegando ao objetivo, depois de entrar e sair do banheiro umas 20 vezes.
Quando a enfermeira começa a injetar o sonífero parece que tudo valeu à pena, muito gostoso, olhei para ela e disse:
- Humm, isso faz efeito rápido, hein?
Bom, depois de uma hora eu pude comer, mas não conseguia sequer abotoar as calças. Eu não me lembrava (afinal, já fiz duas vezes esse exame antes), mas eles colocam um gás para inflar sua barriga, e... tudo que entra, tem de sair...então o dia seguinte foi ainda pior.
Digamos que tive um aniversário bombástico. Pela manhã eu já não conseguia dormir tamanho o barulho que minha barriga fazia, eu tinha um alien dentro de mim. Na aula da manhã, com cerca de dez alunos na sala, todos insistiam em procurar de onde viria aquele imenso e incessante ruído. Eu, claro, fazia cara de paisagem. Era tão alto que o cara que sentou do meu lado, depois de cinco minutos de aula, saiu de mansinho para outra cadeira, e isso tudo ainda não eram peidos, apenas o barulho do alien se mexendo.
O auê todo só foi acabar dia 18, quando eu, já estava com 24 anos.

terça-feira, setembro 13, 2011

Você sabe como o caju nasce no pé?

Uma primeira viagem pelo nordeste

Aproveitando a abençoada USP ter me dado, como todos os anos, uma folga de uma semana no feriado do 7 de setembro, fui-me ao nordeste pela primeira vez. Destino: Fortaleza. Escolhi a capital do Ceará por se tratar da morada de meu dignissimo amigo Lucas, de quem sentia muita falta desde minha partida da França, onde morávamos muito mais próximos. Quando eu estava em Paris e ele em Le Havre, 197km nos separavam, hoje, eu aqui, ele em Fortaleza, 3.063km nos distanciam, eita lonjura! Só mesmo com um feriado de uma semana e uma grana da saída do banco.
Fui para passar uma semana, passei dois dias em Jericoacara, o paraíso na terra, um dia todo em Canoa Quebrada e os outros em Fortaleza, aproveitando o feriado para ir com Lucas para Lagoinha, uma praia muito bonita. Mas o que mais me chocou não foi a beleza espetacular das praias e lagoas, e sim a minha ignorância frente a muitas coisas, como, por exemplo, a maneira como o caju cresce no pé. Bom, eu nem sabia reconhecer a árvore do caju, nunca tinha visto, e podia jurar que era a castanha que o prendia na árvore, doce engano. Doce mesmo, comi muito caju, tirado da árvore, e o gosto é muito diferente do que encontramos por aqui.
Não só meus conhecimentos sobre botânica foram aprimorados, mas os meus preconceitos foram derrubados. Em São Paulo, paulistas como eu, daqueles que só veem vacas e galinhas pela televisão, acreditam, ou eu pelo menos pensava, muitas coisas erradas sobre o nordeste, e o nordeste como um todo. Assim como alguns veem na Africa um único país com uma única cultura, muitos veem o nordeste como uma unica coisa. Sim, eu conheci o Ceará e a área litorânea, não posso imaginar como deve ser o sertão, Juazeiro do Norte e tudo o mais, mas me surpreendi com a diferença entre o que eu imaginava ser Fortaleza e o que de fato encontrei.
Primeiramente preciso falar da simpatia do pessoal, por mais que não soubessem ajudar na direção desse ou daquele lugar, todos foram muito simpáticos e educados comigo, começavam a conversar, perguntar de onde eu era, essas coisas. E a simpatia, obviamente, só aumentou em Jericoacara, uma cidadezinha bem pequenina, uma vilinha no mar, super preparada para o turismo. Fortaleza também, está mais preparada para o turista do que São Paulo.
Fortaleza é uma cidade imensa, crescendo loucamente, para todo canto há prédios construindo e grande crescimento horizontal também, muita gente morando em casas. Há trânsito, sim, não muito diferente de Sampa, e muitos semáforos em tudo quanto é cruzamento. Outra curiosidade é que os ônibus não tem diferença de nome de acordo com o sentido, é o nome da linha e pronto, cabe a você adivinhar para qual lado estão indo, achei bem engraçado isso.
Como quase todo mundo que visita Jericoacara, eu quis ficar por lá, trabalhar de garçonete em algum lugar e morar na vilinha, mas o mundo não é bem assim, né? A cidade é fofa, mas é cara, por mais que estivessem precisando de professores por lá, teria de morar na cidade vizinha, porque até o mercado é mais caro, não quero nem pensar o aluguel, né?
Ah, já ia esquecendo de outras curiosidades de Fortaleza, a obsessão geral por música ao vivo em todos os bares e barraquinhas de praia, segundo os locais da cidade, pelo interesse no couvert artístico. E lá eu não sentiria falta da 25, pelo centro tem de tudo, cada barraquinha com uma música mais divertida.
Quinta-feira, o dia da caranguejada, eu massacrei patolas e cabeças de três caranguejos fofinhos, nada mal para uma ex-vegetariana.
Agora, quero é mais nordeste, Johnny People, logo menos estou por aí, carnaval em Olinda e São João em Caruaru, cansei do frio de Sampa, o esquema é o calor do Nordeste, você lava a roupa e depois de algumas horas já está tudo sequinho... só preciso de um novo emprego bem milionário!

segunda-feira, agosto 15, 2011

Woodstock



Finalmente assisti ao filme de Ang Lee sobre o Woodstock. No momento meu livro na cabeceira, ou melhor, no baú porque minha cama não tem cabeceira, é “Como a geração sexo-drogas-e-rock’nroll salvou Hollywood” de Peter Biskind. E há muito em comum entre eles. O sentimento que me despertam é a nostalgia, e uma invejinha.
            Lá pela metade do filme, quando o pessoal já está todo reunido na cidade e tem um showzinho para a comunidade no quintal do motel, meu pai, que estava assistindo comigo, fala
            - Isso nunca mais vai acontecer!
            Ele leu minha mente, mas para mim a sentença aparecia mais como uma interrogação do que como afirmação. Eu pensava sobre isso durante todo o filme, será que nunca mais teríamos algo semelhante? Não ao Woodstock em si, mas o momento e tudo o que ele representou, a era de Aquarius teria sido breve e única?
            Um policial diz:
            - Vim aqui porque queria dar umas cacetadas nuns hippies.
            Eu olhei para meu pai e disse:
            - Nunca mais vai acontecer porque eles ganharam.
            Eles, que criam o dia do orgulho heterossexual, que acham um absurdo um beijo gay na televisão, eles... e vocês sabem bem quem...
            Os hippies não eram a maioria e nem detinham a ideologia dominante, o “paz e amor” perdeu, o amor livre perdeu, a ingenuidade, segundo meu pai, perdeu. E não venham me dizer da AIDS e das drogas cada vez mais químicas e mortais, mais do que o modo de vida, o pensamento foi soterrado.
            No livro de Biskind o momento da virada é representado pelos assassinatos cometidos por Charles Manson. O medo marcou o fechamento das portas, dos corpos e das mentes. A confiança, a amizade, a camaradagem se foram.
            O fazendeiro do local do Woodstock simpatiza com o pessoal que chega porque eles dizem obrigado e por favor para tudo. A noção de comunidade, respeito e amor pelos outros ficaram presas em alguma curva do rio.
            Okay, não aconteceu no Brasil e nem acontecerá. Mas não é uma questão bairrista. O que aconteceu entre aquele um milhão de pessoas não acontecerá de novo em lugar algum do mundo. E parecia tão legal!


segunda-feira, agosto 08, 2011

Uma vez escoteiro...




Hino Alerta (Rataplan do Arrebol)

Rataplan do arrebol,
Escoteiros vede a luz!
Rataplan! Olhai o sol
Do Brasil que nos conduz

Alerta, ó Escoteiros do Brasil, alerta!
Erguei para o ideal os corações em flor!
A mocidade ao sol da Pátria já desperta
A Pátria consagrai o vosso eterno amor
Por entre os densos bosques e vergéis floridos,
Ecoem nossas vozes de alegria intensa!
E pelos campos afora em cânticos sentidos
Ressoe um hino ovante à nossa Pátria imensa!
Alerta! Alerta! Sempre Alerta!
Um, dois! Um, dois!
Rataplan do arrebol,
Escoteiros vede a luz!
Rataplan! Olhai o sol
Do Brasil que nos conduz

Unindo o passo firme a trilha do dever,
Tendo um Brasil feliz por nosso escôpo e norte
Façamos ao futuro, em flores antever
A nova geração jovial confiante e forte!
E se algum dia acaso a Pátria estremecida,
De súbito bradar: Alerta aos Escoteiros,
Alerta respondendo, à Pátria a nossa vida
E as almas entregar iremos prazenteiros!
Alerta! Alerta! Sempre Alerta!
Um, dois! Um, dois!


Esperando mais de quarenta minutos pelo queridíssimo secular na USP, enquanto o sol se punha, justamente por conta do arrebol*, de repente, não mais que de repente, surge em minha cabeça a letra dessa música que transcrevi acima. Primeiro, não pude acreditar que conseguia me lembrar de toda a letra, as duas partes; segundo, comecei a prestar atenção nas frases; terceiro, pensei comigo: entregar minha alma prazenteira é o #$@%&¨!!!
            Explico: fui escoteira durante seis anos, dos 10 aos 16, com direito a ser Escoteira da Pátria, insígnia mais alta que um escoteiro entre 15-18 anos pode conseguir. Fui monitora de patrulha, escoteira (11-15) e guia (15-18), sabia fazer amarras e nós e todos os outros clichês sobre escoteiros que você deve estar pensando; sim, eu usava roupa caqui, meia até o joelho, saia e um chapéu meio-de-safari. Ah, e um lenço no pescoço!
            Eu era escoteira de verdade, não tinha vergonha de dizer que o era, saía na rua de uniforme e sempre defendi os preceitos do movimento, mas-porém-contudo-todavia hoje eu não consigo me conformar de ter sido assim e feito certas coisas. Depois daquele momento no ponto de ônibus da USP, cheguei em casa e disse à minha mãe, que também era do movimento: como você pôde deixar que sua filha cantasse uma música dessas?
            Mea culpa, fui eu, com uns nove anos de idade, que li em algum lugar sobre os escoteiros e enchi o saco dos meus pais para entrarmos nessa. Não imaginara que daria tão certo, e a família toda entrou no esquema, com louvor! Não digo que seja arrependimento o que sinto, na verdade é um choque, parece que cada vez que penso sobre o escotismo, e meu envolvimento com ele, fico estarrecida de nunca ter percebido certas coisas enquanto estava lá, indo todo sábado hastear e arriar bandeira, todo feriado acampar sem chuveiro quente e às vezes sem banheiro, no meio do mato!
            Não vou aqui ceder às minhas tendências fefelechentas (de gente da FFLCH-USP) e dizer coisas no vocabulário esquerda-direita, ou pelo menos tentarei. Mas, convenhamos, crianças de 11 anos cantando coisas como “respondendo à Pátria nossa vida” e jurando coisas por “Deus, Pátria e próximo” faz você lembrar do que? Coisa boa é que não é! Troca o “próximo” por “família” e temos o Integralismo. Ou quem sabe a TFP. E o belicismo é evidente num movimento que tem, no Brasil, como um de seus heróis, Aldo Chioratto, escoteiro que morreu aos 9 anos na Revolução de 1932. Encontrei no site de um grupo escoteiro o seguinte trecho sobre o garoto:
“Aldo Chioratto é para o escotismo paulista, o protótipo do escoteiro. É, na realidade, a personificação do segundo mandamento da lei escoteira – “o Escoteiro é leal”; foi leal no cumprimento os seus deveres, foi leal aos princípios e à necessidade de ser responsável, mesmo que isso lhe custasse a própria vida. Os restos mortais de Aldo repousam hoje no Mausoléu Constitucionalista, ao lado de outros tantos heróis dessa epopéia. Única criança a transpor o altar e as portas da glória. Sua memória permanece indelével em nossos corações e, como um símbolo iluminado em nosso caminho, brilha para Sempre... Alerta até a Eternidade.” (fonte: http://www.carajas.com/wiki/index.php?title=Aldo_Chioratto)
Desculpem-me os bravos, mas eu sairia correndo para minha mamãe. E tenho dito. Não curto Rambo e não consigo imaginar um mundo correto no qual escoteiros, garotos e garotas menores de 15 anos, são treinados para ajudar na guerra. Podem dizer que hoje não é mais assim, que Baden Powell (criador do escotismo) pensou isso há muitos anos atrás, e que jamais requereriam as forças de escoteiros-mirins (isso me lembra o guia dos sobrinhos do Tio Patinhas) para uma guerra. Certo, aceitemos isso, o intuito do escotismo não é mandar ninguém para a guerra.
Voltemos então para o que há de preparo, o que há também de ideologia no movimento. Seguem as 10 leis escoteiras e a promessa escoteira, requisitos básicos para um verdadeiro escoteiro:
  1. O Escoteiro tem uma só palavra; sua honra vale mais que sua própria vida.
  2. O Escoteiro é leal.
  3. O Escoteiro está sempre alerta para ajudar o próximo e pratica diariamente uma boa ação.
  4. O Escoteiro é amigo de todos e irmão dos demais escoteiros.
  5. O Escoteiro é cortês.
  6. O Escoteiro é bom para os animais e as plantas.
  7. O Escoteiro é obediente e disciplinado.
  8. O Escoteiro é alegre e sorri nas dificuldades.
  9. O Escoteiro é econômico e respeita o bem alheio.
  10. O Escoteiro é limpo de corpo e alma.
Prometo pela minha honra fazer o melhor possível para: Cumprir meus deveres para com Deus e a minha Pátria, ajudar o próximo em toda e qualquer ocasião e obedecer à Lei Escoteira.

Bom, eu me lembro de ter sido a primeira vez que ouvira a palavra cortês, e vocês podem imaginar sobre vérgeis, a palavra que está no hino inicial. Meu vocabulário de fato melhorou muito nos meus anos no movimento escoteiro. As leis e a promessa são, à primeira vista, bastante, como dizer... atraentes para aqueles que acreditam que a juventude está perdida no mundo e que precisa de decência. Eu não posso negar que, pelo menos o conteúdo das leis, não difere muito da educação que tive em minha casa, por exceção de ser amigo de todos e de colocar qualquer coisa que seja acima da minha própria vida. Quanto ao conteúdo da promessa, já é mais complicado. O que discutíamos muito em casa quando éramos todos escoteiros era o real teor de uma promessa que envolva Deus, afinal, ateus não podem ser escoteiros? Aparentemente não. E até que ponto o patriotismo não se confunde com ufanismo? Não seriam essas questões muito complexas para crianças?
Vale lembrar que o movimento escoteiro é voltado para pessoas a partir de 6 anos de idade, a partir da alfabetização, e para cada estágio da vida há um estágio escoteiro. Por mais que envolva um lado lúdico e de educação não-formal, não posso deixar de crer que seja sim um movimento ideologicamente perigoso. Imitação de exercito na prática e na teoria, uma miniatura de exercito, por assim dizer. A disciplina, o cotidiano, os acampamentos...
Dizem: “uma vez escoteiro, sempre escoteiro”. Sinto muito. Eu fui e não sou mais, muito obrigada!


*s.m. Cor avermelhada das nuvens quando nasce ou se põe o sol.

quinta-feira, agosto 04, 2011

On a le droit, on n’a pas le droit

Sendo babysitter de duas crianças francesas durante poucos meses pude aprender muitas coisas da cultura francesa, já que vi de perto a educação de crianças de uma família da classe média parisiense. Às vezes parecia que o menino de 4 anos e o outro de 8 anos eram mais educados do que eu, no sentido disciplinar. Já tinham me avisado aqui no Brasil que as crianças francesas não dizem “Minha mãe deixa isso, minha mãe não deixa aquilo” ou “Eu posso isso, eu não posso aquilo”, mas sim: “Tenho o direito a fazer isso, não tenho o direito de fazer aquilo”. Curioso, não?
E era exatamente assim! Eu me lembro de uma esquina que atravessávamos sempre na volta da escola, eu de mãos dadas com o garoto menor, e, por vezes, não vindo nenhum carro no sinal aberto, eu, paulistana da gema, fazia menção de atravessar, ao que o garoto dizia: “Le petit bon homme est rouge, on n’a pas le droit” (O homenzinho está vermelho, não temos o direito [de atravessar]), e eu, corava, confesso! Eles sempre diziam nesses termos, por exemplo, que não tinham o direito de ver televisão durante a semana, que não tinham o direito de comer Nutella no lanche da tarde, essas coisas. Tem também uma frase típica da educação francesa: “touche pas mon pipi”; mas essa fica para outro dia, pois ouvi histórias ótimas sobre isso por lá.
Enfim, mas por que falar disso agora? Na verdade, o que me levou a pensar nisso não foi nada sobre crianças ou sobre a França ou sobre Paris, mesmo que esses últimos dois não saiam um segundo da minha cabeça. Bom, ouço diariamente os programas do jornalismo da rádio EstadãoESPN, que, na minha opinião, veio salvar a FM com programas bem feitos e muito interessantes. Alguns desses programas, os meus preferidos, fazem perguntas no ar para os ouvintes responderem por SMS ou twitter, e gosto de participar quando a discussão é quente (uma vez discuti com um deputado muito do safado sobre lei que obriga os restaurantes a divulgar valor calórico de todos os pratos, mas isso também fica para outro post).
          Dia desses, após manifestações de sindicatos na Av. Paulista e na Av. Pacaembu, a pergunta era: “Você acha que essas pessoas tem o direito de fechar vias da cidade para se manifestarem?”. Quem me conhece pode imaginar a cara que fiz na hora, aquela minha cara que vem acompanhada do grito “Manooooooo!”. Está tudo errado, sobre direitos eu não tenho que achar se as pessoas têm ou não, direito ou se tem ou não se tem, não sou eu que vou achar se alguém tem ou não, e outra, e foi o que respondi por SMS, até onde eu saiba todos temos o direito de livre reunião, greve e expressão, ou não? Essas pessoas quem, cara pálida? E é aí que cheguei aos meninos franceses de quem sinto tanta falta: eles tinham a exata noção de seus direitos. Ok, concordo, são muito mais simples do que nossos direitos como cidadãos, já que são direitos e deveres impostos pelos pais, mas, até que ponto é falha nossa e até que ponto é falha do Estado o fato de não sabermos exatamente quais são nossos direitos e nossos deveres? Sem ladainhas sobre as falhas na educação pública, por favor. Por que no Brasil a própria ideia de direito é tão confusa a ponto de uma rádio séria com funcionários esclarecidos (assim me parece) fazer uma pergunta dessas? E outra, existe por trás disso uma noção que ninguém pode negar que exista entre nós: a noção de que temos poderes de colocar e tirar os direitos dos outros pela nossa simples opinião egoísta. Explico: confundimos muito o fato de gostarmos ou não de alguma coisa com o poder de questioná-la a ponto de negá-la a alguém, isso sem maiores discussões e sem levar em conta a sociedade e a democracia. Na pergunta da rádio há essa confusão, se você se sente incomodado por estar parado no trânsito por conta da manifestação que toma a Av. Paulista você pode questionar o direito do outro, pelo simples fato de você perder minutos a mais no trânsito você pode duvidar de um direito tão importante quanto o da livre reunião e manifestação. Se eu acho que eles tem o direito? Eu não acho, eles tem, e eu também, e ponto. Se eu gosto ou não, aí é que se pode perguntar. Se o fato de uns gostarem e outros não deve mudar o direito, bom, foi aí que entrou o gosto dos militares, né?