domingo, maio 18, 2014

O karaokê da Valesca

A curiosidade matou o gato. Movida por ela, eu fui ao show da Valesca Popozuda na Virada Cultural deste ano. "Beijinho no Ombro", com seu clipe à la Lady Gaga, é mesmo genial, a letra captou várias questões que a galera fala por aí, encheu a boca de muita gente e a batida é daquelas sob as quais é impossível não se mexer. Por que então não ir lá ver qual é a dela e quais são seus outros possíveis hits, não é mesmo?
Valesca não nasceu ontem, ela era a vocalista da Gaiola das Popozudas, dos "Agora sou solteira" e "Late que eu tô passando", além do clássico "Mama" com Mr. Catra, né? Pois então, esperava um show com muito funk para trabalhar os músculos das coxas.
E o que rolou foi o karaokê da Valesca. Sabe aquelas músicas que você adora cantar com a galera, já meio bêbado, naquela cabine na Liberdade? Pois é, a Valesca também curte e resolveu cantar o "Ilariê" da Xuxa e aquela do Balão Mágico com todo mundo!
Ela entrou gloriosa com muita luz e vento nos cabelos cantando um potpourri de "Agora sou solteira" e "Late que eu tô passando". Aí o tempo fechou e começou a chuva impiedosa, fazendo com que muita gente corresse para se esconder em lugares cobertos da redondeza. Eu fui para de baixo de um desses toldos que ficam meio fechados ali pertinho, continuei ouvindo, mas não dava mais para ver o palco.
O que se seguiu foi um setlist de karaokê, com direito a "Lepo Lepo" e, porque chovia muito, obviamente, o "bebeu água? tá com sede?", música que devia ser evitada depois daquele fatídico Rock in Rio com o Carlinhos Brown. Ah sim, a quarta música, devo lembrar, foi "Beijinho no Ombro". Aí voltou o karaokê... e "pro recalque passar longe" retornou como a penúltima música. A penúltima, sim, porque a última foi... "Beijinho no Ombro", com aquela estranha sensação de ter apertado o modo repeat! Depois disso, ouvimos a musiquinha do Titanic, sem entender nada e fim... silêncio.
Agora eu sei, pelos relatos de quem conseguia ver o palco, que, enquanto tocava a canção-tema do filme, Valesca agradecia seus fãs beijando o chão. Fez bem em agradecer quem ficou lá debaixo de chuva de granizo e vento forte para ouvir três vezes a mesma música, ainda que seja uma ótima música, em 30 minutos de karaokê-show.
Não dá para esquecer os momentos incríveis que esse tipo de espetáculo proporciona, como quando tocou pela primeira vez o hit e, sob chuva grossa, pessoas saíam correndo de baixo dos toldos pela rua rebolando e dando beijinhos nos ombros, enquanto u
m grupo de três pessoas, bem engraçado, encharcados dos pés à cabeça, debaixo de um único guarda-chuva, dançava animadamente.

quinta-feira, maio 08, 2014

Eu continuo a mesma, mas os meus cabelos...

Faça a seguinte experiência: quando em um vagão de metrô, no ônibus, no bar ou no trabalho, olhe ao seu redor e conte quantas mulheres existem. Agora conte quantas delas estão com os cabelos alisados artificialmente, seja por escova, chapinha ou "relaxamento". Continue fazendo isso, sei lá, quando estiver entediado. Qual vai ser a porcentagem média?

Fiz a experiência alguns dias e a média foi de quase 80%, ou seja, de cada 10 mulheres no meu campo de visão em um determinado espaço, assustadoramente 8 estão com os cabelos esticados. Por que não falamos do assunto? Não aguento mais ouvir sobre a "ditadura da magreza", ou da pressão que as mulheres sofrem para ter bundas e peitos grandes, mas a quem interessa que não falemos sobre a aparente obrigatoriedade de se ter cabelos lisos?

As mulheres da luta contra o racismo têm feito campanhas na internet a favor do cabelo crespo e atacando as denominações do tipo "cabelo ruim". Outro dia deu o maior bafafá o comentário do Faustão sobre o cabelo de uma dançarina. Mas não são apenas as mulheres negras que têm cabelos crespos. Cadê toda essa mulherada?

Quando eu era criança, ou pré-adolescente, eu fazia coisas mirabolantes para garantir que me
cabelo ficasse liso. Prendia-o ainda molhado bem apertado para que quando secasse ficasse esticadinho. Puxava, puxava e puxava com a escova e botava para trás da orelha. Enrolava aquelas escovas redondas e tacava o secador. Ou seja, quebrei meu cabelo pra caramba simplesmente para garantir que ele não formasse cachos e eu fosse "normal". Afinal, na escola, as garotas com cabelos crespos eram hostilizadas e recebiam apelidos, como Cassandra (sim, do Sai de Baixo, ainda que ela tivesse o cabelo liso com laquê) ou bruxa.

Fatalmente aquelas crianças tinham em casa exemplos de mulheres que passavam suas manhãs ou noites debaixo de ar quente e puxação dos fios para terem os cabelos lisos. E que, ao fim de tanto esforço individual ou da cabeleireira, passavam dias sem lavar as madeixas e corriam desengonçadamente com sacolas na cabeça para fugir da chuva (isso na Terra da Garoa).

Outro dia um desses programas que querem nos ensinar o que comer, o que vestir e como malhar, mostrava os malefícios de alguns métodos para alisar "definitivamente" os cabelos (pelo menos até que, maldito, ele cresça de novo). Porém, ao longo da programação daquele canal não se vê sequer uma apresentadora ou jornalista de cabelos crespos, não que elas não os tenham, mas porque elas também tiveram que passar por processos danosos para garantir a "boa aparência".

Não importa se a moda é franja, chanel, jogadinho de lado ou farrah fawcett (aliás, nada disso dá certo para cabelos crespos), loiro, ruivo ou chocolate, a "moda" dos cabelos lisos já está durando tempo demais e estragando para sempre lindos cabelos que agora vivem quebrados, ressecados e rareando em cabeças esquentadas a altas temperaturas para garantir uma "normalidade".

"Cabelo crespo dá muito trabalho"? Mano! Acredite: dá mais trabalho ficar alisando, secando, hidratando e não lavando, e sofrendo por um padrão bobo que sabe-se-lá-quem inventou. Piaçava, cabelo de bruxa, vassoura, ruim, selvagem. Não estou nem aí. Boto o meu para fora de casa. Meu cabelo não é ruim, ruim é seu preconceito. Ainda tenho muita "história pra contar, de um mundo tão distante."

quinta-feira, março 06, 2014

Falsa boa ideia


Uma falsa boa ideia é, em suma, uma má ideia. E, além disso, muitas vezes, é uma uma ideia preguiçosa.
Esse é o caso da ideia de vagões exclusivos para mulheres em trens e metrôs, cuja discussão vai e volta aqui na cidade. Confesso que nem sei se tal discussão acontece nas instâncias que seriam responsáveis por sua implantação, só sei que desde que o Rio aderiu aos tais vagões, nas redes sociais e nos barzinhos da Augusta essa é uma possibilidade que vez ou outra se apresenta.
O fato é: no transporte coletivo super lotado algumas pessoas aproveitam para assediar mulheres. Solução possível: separem as mulheres.
Lindo lindo. Aviso nas plataformas em rosa, vagões rosas, pode até rolar uma distribuição de revistas de fofocas e de livros da Danielle Steel, né? Assim as mulheres estarão seguras e confortáveis livres da selvageria do macho humano que não consegue conter seu instinto natural de esfregar o pau na bunda alheia. Pronto. Resolvido.
E o que acontecerá com a mulher que se recusar a entrar no vagão especialmente separado para ela? O mesmo que já acontece com os idosos e deficientes que ousam exigir seu assento preferencial no vagão comum no horário de pico: será hostilizada. Afinal, se a mina entra num vagão só de machos é porque ela tá querendo, né não?!
Aí podiam aproveitar também e criar uns ônibus pro Parque Dom Pedro só para a mulherada. Afinal, o problema não é só no metrô não. No trabalho, a área do cafezinho também devia ser separada, shoppings exclusivos também cairia bem, shows, Lollapalooza, Rock in Rio, ruas fechadas só para as mulheres depois das 22h, todo lugar que tem aglomeração deve garantir a segurança das mulheres e não se fala mais nisso.
Que mundo maravilhoso seria esse. Ao invés de punir o desvio, institucionaliza-se o erro, já que inevitável pelo pobre homem sujeito a seus instintos animais. Assim, homens e mulheres estarão seguros. E não se fala mais nisso.
Faz-se campanha contra venda ilegal, mendicância, ficar parado na região das portas, jogar lixo no chão, e tá rolando até propaganda de remédio contra "piriri" no metrô de São Paulo (e eu achava que falar de caganeira em público fosse tabu), mas NUNCA se fez campanha contra o assédio e nunca se puniu os assediadores. Por que não falar do assunto? Por que não colocar avisos sonoros dizendo aos homens que se eles assediarem as mulheres serão punidos?
Ah, porque fica chato falar disso, né? Melhor não, melhor não. O homem trabalhador, coitado, cansado, voltando pra casa, ainda tem que ouvir esse tipo de coisa. Além disso, pode constranger mulheres cristãs e assustar criancinhas. Ninguém precisa saber que isso existe. Não façam alarde. Boquinha de siri!
As cabeças pensantes propõem os vagões separados como uma solução viável e redentora, e não propõem a discussão. Vamos resolver logo o problema, discutir não leva a lugar nenhum. Ótimo. As mesmas pessoas que são a favor do vagão exclusivo para as mulheres, pasmem!, falam do ataque à vítima em casos de estupros e são contra o "rosa para menina e azul para menino".

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Ninfomaníaca


Tinha vários apontamentos para fazer sobre o novo filme de Lars von Trier, mas como tenho problemas de memória e já faz um tempo que vi o longa, sem ter tempo para escrever sobre ele aqui, eis que me restam algumas poucas considerações.
O filme é misógino? Menos que "Anticristo" certamente. A própria postura de Joe é de ódio a si mesma e isso pode se confundir com a postura do filme, mas sempre é possível imaginar a posição da obra como colada ao do ouvinte, o misterioso homem que tenta consolar a culpa que Joe sente, tornando tudo leve e divertido em suas comparações com a pesca. Ele a respeita e ele a compreende. Isso não é misoginia.
Mais do que muito sexo, muitos paus e "sacanagem", o filme é lindo e pouco se falou sobre isso. As pessoas estavam tão pseudo-chocadas com o conteúdo que se esqueceram da forma, da trilha sonora, dos desenhos na tela, da ironia constante. Como rir de tamanho desespero que parece sentir Joe? Mas como não rir do "3+5=8"???
Mais do que misógino, "Ninfomaníaca" é, isso sim, moralista. Ao não permitir que Joe possa sentir alguma coisa com o homem que ela supostamente gosta, ele é moralista. Ao fazer com que Joe se apaixone justamente pelo homem com quem perdeu a virgindade, ele é moralista. Ao esvaziar o sexo de sentido ao ponto de poder ser comparado com a pesca, ele é, sim, moralista.
Não há novidades para os fãs, como eu, de Lars von Trier.

segunda-feira, fevereiro 03, 2014

Mulheres que amam demais

esse salto é só ironia...

     Tenho uma teoria que diz que as novelas das seis costumam ter melhores personagens masculinos do que as novelas das nove. Desde "A Vida da Gente" eu nutro essa teoria, com os personagens do pai fotógrafo, do pai adotivo, o Leonardo Medeiros que termina um casamento porque não quer ter filhos com a esposa etc.
     Nas novelas das nove, especialmente, quem carrega a trama são as personagens femininas e resta aos homens os papéis de coadjuvantes, mesmo quando supostamente deviam ser os principais, eles são mais rasos do que a reserva da Cantareira nesse momento. Murilo Benicio em "O Clone" nem sendo gêmeo conseguiu ter mais destaque do que Jade e pelo menos outras três figuras femininas.
     Não sei se porque Walcyr Carrasco vem justamente de outras faixas de horário, seis e sete, mas "Amor à Vida" foi diferente. E não só os personagens masculinos eram mais complexos, ganharam mais destaque e faziam a trama avançar, como as personagens femininas faziam as mais diversas loucuras por amor, como se a vida delas girasse completamente em torno dos homens.
     Com isso, é claro, não quero dizer que as outras novelas não sejam machistas, cof cof, as novelas são bastante fielmente um reflexo de nossa sociedade e um produto dela e para ela. Mas o que quero dizer, e espero que fique claro com os levantamentos de personagens que faço abaixo, é que "Amor à Vida" levou mesmo as mulheres à loucura. E por causa de... tcharan... homens!
     No melhor do esteriótipo da "psicanálise" e do começo do século 20, as mulheres são histéricas e, como ouvimos todos os dias, "estão descontroladas". Quem entende as mulheres, não é?!
    - Caso 1 - Vega
     Casada com o rico Atílio, Vega não suportou ser traída (não será a única) e, como forma de se vingar do marido, ela resolveu ir à Justiça, provar que ele era incapaz (porque estava com duas personalidades) e bloquear os bens dele, assim, conseguiu mantê-lo por perto ao invés de deixá-lo ir com a outra mulher e ficar de boa. Quer menos amor próprio do que isso?
    - Caso 2 - Glauce
    Médica ginecologista, ela matou uma de suas pacientes porque gamou no marido dela, com quem ela nunca teve nada, a não ser tê-lo visto nas consultas acompanhando a esposa. Pode isso? Surreal! Aí, depois de mais de 12 anos depois, quando ela vê que não tem jeito mesmo de pegar o bofe de ouro, ela se sente culpada e ... se mata! Afinal, se eu não posso ter o bofe que eu amo, a vida não faz mais sentido.
    - Caso 3 - Suzaninha, ou melhor, Pilar
    Só descobrimos no fim da novela o que todos já sabíamos. A criatura foi traída pelo César-garanhão (mais uma, falei), ficou com tanta raiva da amante do marido que resolveu matá-la. Legal, né? Aí ela descobre que matou a mulher errada, deixou a amante paralítica e a sobrinha da amante volta para se vingar do marido adúltero dela.
    - Caso 4 - Amarilis
    Talvez o caso mais grave e o mais bizarro. Amarilis é uma mulher lindona, gostosa, médica dermatologista. Desde o começo a gente já sacou que ela tem problemas de autoestima. Aí ela investe suas poupanças com o Félix e perde tudo. Como salário de médico do San Magno deve de ser uma miséria, ela não tem mais nem onde morar. Vai morar então com o casal de quem vai ser barriga solidária. Como é uma bitch invejosa, ela rouba o marido do Niko, o Eron. Porque mulher é tudo louca, descontrolada e invejosa, né não? Parece que sim. (Só faltou mesmo briga de puxar cabelo nessa novela.) Aí ela rouba também o filho do Niko, porque a inveja atormentou ela demais.

    Tudo isso, é claro, não apaga o brilho do beijo gay. Falem o que quiser, isso foi sim um avanço na televisão brasileira, um tapa na cara de muita gente preconceituosa por aí. E nem me venham com a história: o importante é o amor, o amor venceu. Cara, foi um beijo gay. Não arranquem essa conquista dos gays fazendo o fato se passar por algo corriqueiro.


domingo, dezembro 22, 2013

Azul é uma cor quente

Quadro da HQ "Le bleu est une couleur chaude", de Julie Maroh
     É sempre um erro comparar um filme com o livro no qual ele é baseado esperando que a versão para o cinema seja tão boa quanto a obra literária ou que seja extremamente fiel a ela.
     Não tem como fugir da frustração que acomete quem vê um filme já tendo lido o livro. O cinema e a literatura nos levam a sonhos muito diferentes.
     Eu já tinha lido os três primeiros livros de Harry Potter quando ele foi adaptado ao cinema. Eu tinha o meu Harry Potter, magricela, de óculos e talz, e que se parecia um pouco com o desenho simples da capa do livro. Desde o primeiro filme, meu Harry se transformou em Daniel Radcliffe e os livros não eram mais habitados por aquele garoto único da minha imaginação, mas pelo ator do cinema, que ia crescendo comigo.
     É sempre assim. E quando o caminho é o contrário, é inevitável imaginar os personagens do livro como os atores da adaptação que você já viu e, assim, algo se perde. Então, quando fui ler "Anotações sobre um Escândalo" de Zoë Heller, é óbvio que enquanto lia, ganhavam vida numa história um pouco diferente Cate Blanchett e Judi Dench como Sheba e Barbara, que tinha muito mais sarcasmo no livro do que ganhou no cinema.
     E foi assim também com "Gabriela Cravo e Canela", que era a Juliana Paes que via na TV à noite. Se tivesse lido antes, teria sido, talvez, Sonia Braga.
Clémentine está obcecada pela garota de cabelo azul
     E eis que mesmo ciente disso tudo, de toda essa introdução, resolvi comentar o filme "Azul é a Cor Mais Quente" à luz da história em quadrinhos que o inspirou, de Julie Maroh.
     De certa forma, me arrependo de ter lido a HQ antes de ver o filme. Fiquei muito frustrada por ver que no cinema a história perdeu uma coisa muito importante: seu início triste. (Spoiler a partir daqui.)
     O pano de fundo da HQ, ou seu sentimento geral, é o luto. No começo da história Clémentine, ou Adèle no filme, já está morta. Emma, que é sua companheira, vai à casa dos pais de Clémentine para ler seus diários e a história se desenrola a partir desses relatos de uma garota que já morreu.
     Essa morte sequer existe no filme, que se transforma na história de uma outra perda: Adèle perde Emma com o fim do relacionamento. O filme é a história, assim como a HQ, de um encontro e de um fim, mas esses fins são muito diferentes e geram sofrimentos muito distintos.
     Além disso, que já é muito, há um sequência que o filme excluiu e que diz muito sobre a personagem principal: a de quando os pais de Clémentine-Adèle descobrem que a filha está "saindo" com uma mulher. Não sei se foi cortada do filme, mas tenho essa impressão, porque Adéle vai morar com Emma do nada, não sabemos o motivo e de repente lá está ela. Na HQ ela é expulsa de casa por estar em um relacionamento lésbico. Kechiche tirou isso mas fez questão de marcar a diferença social e intelectual entre os pais de Emma (bobôs) e os de Adèle (classe média conservadora que acha que uma mulher artista plástica tem que casar com homem rico para sobreviver). Cabe ao espectador apenas prever o motivo de sua saída de casa, baseado no comportamento dos pais em um jantar.
     É claro que não dá para ser fiel a um livro em um filme de duas horas. Porém, "Azul" é uma HQ e curta, passível de ser vertida ao cinema como "Persépolis", e virou um filme de três horas. E aí está Kechiche, o diretor do filme e Ghalia Lacroix, responsáveis pela adaptação do roteiro. Eles partiram de um quadrinho e fizeram cinema, dos grandes.
     "Azul", o filme (A Vida de Adèle no original), tem uma ambientação que em nada lembra o luto da HQ, ao contrário, ele é pura luz. A naturalidade sem maquiagem e de cabelo bagunçado de Adèle Exarchopoulos (a dentucinha, pronto falei) e da Léa Seydoux (eterna bela Junie) ajudam a construir uma narrativa realista (o Adèle do título, nome da atriz na vida real, já antecipa isso) de câmera próxima, invasiva e na qual as cenas de sexo aparecem como perfeitamente plausíveis e necessárias no enredo.
     No mais, sobre as polêmicas, para quem disse por aí, ao redor do mundo, "ah, mas não é assim que as lésbicas transam", só digo isso: ALTO LÁ! Baby, como você sabe como as lésbicas todas transam? Já pegou todas? Quando se trata de sexo, cada um faz do jeito que quiser. Eu também nunca fiz daquele jeito, mas nada daquilo é impossível de se fazer (aliás, bem mais fácil que muita coisa do kama sutra), e negar essa possibilidade também tolher a liberdade das pessoas. Agora toda lésbica tem que trepar igual?
     Outra: tem gente dizendo por aí que o grande mérito do filme é contar uma história universal, uma história de um relacionamento que poderia ser hetero ou gay, tanto faz. As histórias de sertão de Graciliano Ramos e de Guimarães Rosa ultrapassam aquele ambiente e são universais. Bergman fala a todos, não só aos suecos. Arte é assim gente, se faz entender e toca universalmente. Mas dizer que o grande mérito do filme é ele poder também ter funcionado se fosse uma história de um casal heterossexual é negar sua especificidade. Não é muito longe de dizer que uma mulher exerce bem sua função em dado escritório porque trabalha como um homem. É também preconceito.
     Esse é um filme gay. É um filme sobre uma adolescente que se descobre com um desejo enorme, que ela não consegue conter, por uma mulher. Nisso a cena em que Adèle sonha com Emma (de quem ela ainda não sabe o nome) acariciando-a sexualmente e acorda suada é exemplar. É uma cena extremamente gráfica e linda e tocante na HQ (acima) e que Kechiche conseguiu transportar para o cinema cheia de tensão e tesão.
     Diferente de muitos dos filmes sobre jovens casais de mulheres, aqui não é uma amizade que se transforma em sexo, porque garotas têm relações próximas que às vezes se confundem com preferência sexual mas que depois se revela apenas uma fase, como em "Meu Amor de Verão", com a Emily Blunt. "Azul" é a história de uma paixão extremamente física que se acende em um mero olhar na rua, é desejo, é sexo e também será amor. Após anos separadas, Adèle encontra Emma e tenta desesperadamente tocá-la. Aquilo que viveram não foi uma fase. É amor. É fogo e paixão.

Emma e Adèle no filme "Azul é a Cor Mais Quente"


domingo, dezembro 15, 2013

Naquele espaço do metrô


Caramba, por que as pessoas não entram e vão para o corredor? Mas que merda! Pô, já são 7h, vou chegar atrasado, e tudo por causa desse metrô que não anda, que para demais entre as estações. Estamos operando com velocidade reduzida e maior tempo de parada. Para variar! Ai, a única vantagem de morar em Itaquera é mesmo poder ir sentadinha aqui no cantinho. Nossa, onde vai essa fulana com essa roupa a essa hora? Tem gente que não se enxerga mesmo. Hummm, vou fechar meu olho aqui, apertar a mochila e que se foda os velhinhos, se são aposentado, por que raios vão pegar o metrô às 7 da manhã? Fica em casa, pega metrô mais tarde. Vai onde? Aposto que vai até o centro só pra receber a aposentadoria. O banco só abre às 10! Ai, ai ai, esse cara tá cuma bengala. Mas por que esse homem não sai do banco preferencial? Sentou e em dois minutos já estava dormindo, tá é fingindo. Não tô no preferencial mesmo, ele que se toque, ou a grávida que levante. Ela só tá grávida. Ufa, ninguém levantou para mim. Aquela gostosa ali sentada no canto ficou me olhando, certeza que tava pensando se ia levantar ou não, depois que essas merda de cabelo branco me apareceram não sei mais se as mina estão me olhando porque sou bonito, cheiroso, bem vestido, ou é porque vão levantar para me dar lugar! Mas que bosta, segura a mochila na frente, fica balançando esse trambolho pra lá e pra cá no ritmo da música que não sei pra que usa fone se dá pra todo mundo ouvir e fica tacando essa bosta em mim, espaçoso, eu aqui toda espremida e ele com essa bolsa enorme no meio do corredor. Bem feito, bem feito mesmo pra essa mina toda apressada. Correu correu e acabou no mesmo trem que eu. Essa gente acha que tá onde? Vai passando e gritando pra gente dar licença. quer o que? Se todo mundo ficasse só na direita da escada rolante teria que ter uma escada a mais pra caber todo mundo, por que ela não pega a escada normal então? Se fodeu, me empurrou e tá na mesma que eu. Aposto que nunca pega o metrô e resolveu ir hoje porque o carro quebrou. Que gente escrota, analfabeta. Sabe ler não? Tá escrito deixe a esquerda livre, e todo mundo fica ali parado. Dizem que São Paulo só tem gente com pressa, que só pensa em trabalhar, mas tá todo mundo passeando, andando na maior lerdêra, parado na escada rolante, andando igual minhoca, e quando para na Sé fica todo mundo paradão e deixa pra descer quando o sinal apita, aí reclama que fica preso na porta e sai empurrando todo mundo.

sábado, novembro 30, 2013

Verdade ou Desafio


    Quando criança, era "tendência" nas escolas -muito antes do tablet e do Facebook- o caderno de enquete. Quem se lembra das perguntas mais esdrúxulas o possível que estavam ali? Começava na pergunta 1 e por vezes ia até a 100, ou além. Do seu nome e idade até o que você levaria a uma ilha deserta, passando por música favorita, comida preferida, e nome dos irmãos. 

     Quanto mais velha a criançada, mais íntimas as perguntas, como "qual o menino mais bonito da turma" ou "onde foi seu primeiro beijo", ou, ainda: "você é BV?". Uma bala para a criança de 12 anos que sabe o que quer dizer essa sigla! 
   
     Não sei o que era mais legal e divertido: montar o caderno, pensando nas perguntas, ou responder o caderno de um(a) colega, vendo as respostas do outros para depois fofocar no dia seguinte com os amigos. "Você viu o que Fulano respondeu?", "Uau, Sicrana gosta mais do Five do que dos Backstreet, nada a ver!"

       Hoje em dia, a antiga criançada, agora nos pós-25, faz o que pode para falar de si e dos outros no Facebook e afins. Nada contra. Pelo contrário, também sou assim. E não acho nada de reprovável nisso. É bom poder falar de si às vezes, poder vasculhar questões, coisas boas, ruins e das quais se tem vergonha e expô-las para os demais. Além disso, é bom saber que nossos amigos também têm defeitos, medos e lembrar o quão divertidos, engraçados e espertos eles são.

Tornar pública alguma informação tem níveis diferentes de revelação. Uma coisa é sair na Contigo, na Caras, na Tititi e no F5 que Cauã Raymond e a mulher dele estão se separando. Outra coisa bem diferente é eu, que não sou famosa nem nada, dizer no meu status do Facebook que tenho medo de palhaços. Primeiro: a que isso pode interessar? Segundo: quantas pessoas vão ler? Quantas pessoas são minhas amigas no Facebook? Só quem eu conheço na vida real e que é, pelo menos, meu colega.
Agora surgiu na rede social uma nova enquete, do tipo desafio. Alguém fala um número de coisas sobre si e quem curtir (e todo mundo curte tudo no Facebook, essa é a verdade) ganha um número dessa pessoa. Esse número é a quantidade de coisas sobre si que essa outra pessoa deve revelar na rede, qualquer coisa, mas que pouca gente saiba.

Não vale, por exemplo, dizer que tem cabelo loiro e 27 anos, ou que é alta. O peso, deve valer, já que pouca gente revela isso. Será que vale o número do calçado?

Surgiu de tudo. Tem gente que tem medo de borboleta, que confessa (uau) que pode trocar facilmente o dia pela noite, que não gosta de cereja e chantilly (heresia, mas bom saber quando for fazer bolo Floresta Negra), gente contou como se converteu a uma nova religião e que tem pavor de ficar em cima da grade de ar do metrô. Qual o problema em querer saber e se interessar pela vida do outro? Isso faz parte de ser humano. Duas amigas disseram que querem ver a revolução. Isso dá orgulho dazamiga!

Eu curti, é claro. E fui ganhando uns números: 11 e 6... por enquanto. Vou fazer a média, 8,5! Resolvi trapacear e não publicar a lista na rede social e sim aqui no meu blog. Vale isso, produção? É que acho que vou escrever demais, e cabe muito melhor aqui do que no Facebook.

Antes, só quero dizer, já que nessa semana teve toda uma polêmica em torno de um novo aplicativo, que isso nada tem a ver com o Lulu e seus derivados. Na verdade não sou contra o Lulu, acho engraçado, embora de gosto duvidoso, mas uma coisa é a pessoa falar sobre si mesma, outra coisa é os outros ficarem falando, anonimamente, sobre outra pessoa, e sobre a intimidade dos outros. Eu só acredito piamente que nunca fui íntima de alguém que vá ficar espalhando por aí coisas sobre meu desempenho sexual. Se bem que... quem não deve, não teme! #prontofalei

1 - Não acredito em deus, nenhum, nem em energias, acaso, horóscopo, sorte ou derivados.

2 - Às vezes acho que acreditar em deus me ajudaria em muitas coisas, mas não acredito de jeito nenhum (http://autoretratonomuseu.blogspot.com.br/2012/02/eis-o-misterio-da-fe.html)

3 - Sou a rainha da procrastinação, deixo tudo para a última hora e sinto um prazer bizarro em ficar fazendo listas do que tenho para fazer e nunca começar a fazer nada (agora mesmo eu deveria estar fazendo outra coisa ao invés de escrever no blog, mas eu já pulei o mês de outubro e não posso deixar passar o de novembro)

4 - Tenho loucura por poupança. Gosto de poupar, de guardar dinheiro. Já tem amigos me dizendo que deveria investir em outras coisas, como tesouro direto ou em ações, mas sou conservadora e tenho medo de perder grana.

5 - Não se passa um dia sem que eu pense em Paris. Penso no tempo que passei lá todo santo dia e isso me deixa um pouco triste, porque sinto muita saudade. Não que eu ache que minha vida aqui não seja boa, mas é uma experiência incrível passar dia após dia fazendo descobertas e tendo experiências inéditas, e fui muito feliz ali.

6 - Não quero ter filhos. E acho que o mundo seria um lugar melhor se as mulheres pudessem afirmar mais isso para si mesmas e para todos, um mundo em que o fato de ser mulher não quisesse dizer que se tem o "instinto materno" e ninguém fosse pressionada a ter filhos para não "ficar para titia".

7 - Tenho pavor de lugares fechados cheios de gente. Por isso não gosto de shoppings e suas praças de alimentação. Por isso também não consigo me divertir em bares cheios e danceterias.

8 - Demorei mais tempo do que deveria para me livrar dos preconceitos do meio "intelectual" do qual queria fazer parte. A partir de então, vejo novelas da Globo sem neuras, ouço samba e curto futebol -principalmente jogos de Copa do Mundo e Eurocopa (ainda mais com a TV HD). Acho um saco quem diz que isso aliena as pessoas. Não é isso que aliena as pessoas. Não é isso que impede as pessoas de entender Kant ou Hegel, sorry!

0,5 - Guardo mágoas e rancores. Sou cheia de ex-amigos e não falo com nenhuma das pessoas que namorei.