sexta-feira, fevereiro 03, 2012

A Cracolândia e a Nova Luz


O primeiro fato a ser considerado é a criação do Projeto Nova Luz em 2005 como parte do plano da Prefeitura de São Paulo para a revitalização do Centro,  programado para estar pronto em abril de 2011, porém os planos de urbanização começam a ser aprovados apenas em 2010. O segundo fato é que, próximo ao Natal, a Favela do Moinho, no bairro da Luz, é destruída por um incêndio, desalojando centenas de pessoas; o noticiário nos faz crer que o fogo começou por descuido de um dos moradores. Terceiro fato: um edifício de uma antiga indústria, localizado ao lado da Favela do Moinho, e ocupado por diversas famílias é implodido, ainda que a implosão seja um fracasso, no primeiro dia do ano. No terceiro dia de 2012 – o quarto fato – a Polícia começa uma mega operação na região conhecida como Cracolândia, no bairro da Luz.
O que une os quatro pontos elencados acima é o primeiro fato, ou seja, os outros três são ações que visam colaborar para o primeiro, o Projeto da Nova Luz. Para um objetivo sobre o qual todos estão convencidos de ser uma boa coisa, a Prefeitura parece acreditar ser válido o uso de quaisquer meios.
Após meses empurrando os usuários de crack de uma rua para outra do centro de São Paulo, a Prefeitura resolveu “eliminar” a Cracolândia. Existem centenas de pessoas nessa região vivendo nas ruas dia e noite em função de sua dependência da droga, e agora a Polícia Militar chegou para bater, empurrar, chutar, prender, enfim, amedrontar essas pessoas. A rua Helvetia, que estava repleta deles, agora está tranquila, mas os moradores de Higienópolis sabem daquilo que a Prefeitura finge não saber: os dependentes não vão desaparecer por um passe de mágica; e por isso os moradores do bairro mais nobre da região central temem que a realidade da Cracolândia esteja em suas calçadas pela manhã do dia seguinte à ação policial.
A Prefeitura de São Paulo quer “revitalizar” o Centro, mas se esquece de que vai colocar vida de novo em um lugar no qual já há vida. Com certeza a vida que lá está não é a da beleza do Leblon das novelas, mas ali moram pessoas com suas famílias, certamente muitas irregulares, ocupando ruas e prédios abandonados porque o aluguel no Centro é abusivo. Quando a Prefeitura apóia a construção e reforma de prédios no Centro com apartamentos a preços altíssimos, que vida ela quer recolocar na região? E os que não podem pagar, que morem nas periferias e enfrentem três horas de viagem para ir e voltar de seus trabalhos. Quando a Prefeitura quer enfrentar o problema de saúde pública que é a Cracolândia e coloca 30 agentes de saúde e 300 policiais nas ruas, qual discurso vencerá, o da violência ou o da possível reabilitação? 
O Ministério Público abriu inquérito no dia 10 de janeiro sobre a chamada Operação Centro Legal na Cracolândia para investigar a violência da Polícia Militar e o tipo de abordagem aos dependentes químicos. Enquanto isso a população da cidade de São Paulo assiste a tudo confortavelmente pela televisão, acreditando que o trabalho esteja sendo bem feito pela polícia e esperando por uma Nova Luz.


-este texto escrevi em 05 de janeiro para enviar a um jornal do interior, que não o aceitou.

quinta-feira, janeiro 26, 2012

Simone de Beauvoir e os e-mails


Os e-mails mudaram muito nossa vida, muitos crêem que para melhor. Começo a ter minhas dúvidas quando leio biografias.
Como serão escritas as biografias no futuro? Onde procurará o biógrafo por fatos importantes na vida de uma pessoa importante? Se você sabe que se tornará importante não esqueça de não deletar seus e-mails e de deixar a senha num lugar visível antes de partir.
Simone de Beauvoir soube desde cedo que sua vida seria digna de livros, não apenas porque viveria grandes coisas, mas também porque ela mesma seria sua biógrafa, e sabia que escreveria muito bem sobre sua vida. Ela foi vivendo e contando, e muitas vezes vivendo de maneira que os acontecimentos fossem dignos de serem contados. É uma grande piração se pararmos para pensar, mas também fez com que ela vivesse um grande livro.
Mas não só os biógrafos sofrerão com a era dos e-mails, mas também os comentadores e teóricos. Existem livros e livros sobre como Kant escreveu seus livros, a ordem dos capítulos, as inspirações, e grande parte das teorias são baseadas em sua correspondência. A visita à exposição sobre Clarice Lispector no Museu da Lingua Portuguesa há alguns anos atrás foi muito mágica em grande parte por conta da sua correspondência lá exposta em pequenas gavetas de descobertas. E o livro de cartas entre o Nelson Algreen e, mais uma vez, Simone de Beauvoir; as Cartas a Théo de Van Gogh e muitos outros momentos de possibilidade de magia.
Ler correspondência de pessoas importantes, ou melhor, interessantes, não é um mero passeio por fotos da Ilha de Caras. Se ler diários é muito intenso pois é íntimo, ler correspondências é emocionante porque é uma troca, porque nos localizamos num espaço-tempo de outra pessoa, dentro de suas relações, percebendo o que é dito e muitas vezes escondido, quais momentos ganham relevância, e o que é partilhado.
Como se chamarão os romances epistolares depois do e-mail? Joguei essa pergunta para o Google, nosso instrumento que subtitui, por vezes, horas de buscas dentro de uma biblioteca. Achei um romance de Matt Beaumont que poderia se encaixar nesse novo gênero, constituido apenas por trocas de e-mails. Mas não tive resposta de dicas para o novo nome desse gênero de literatura.
Mas voltando a vidas reais e não ficcionais, não é só o fato de o e-mail parecer menos interessante, mais superficial, menos espirituoso, digamos, porque não carrega nem mesmo a letra do remetente. Muitas cartas passaram a ser escritas com máquinas de escrever,ok. Há sim uma espécie de fetichismo, para usar palavra em voga, em torno das cartas enviadas por Correio (que aliás, está um abuso de caro), a sua objetividade, sua tatilidade (existe?), a espera etc. Mas existe também o problema da relação efêmera que temos com os e-mails, assim como com as mensagens de texto de celular. A tecla deletar. Tudo bem que a carta podemos rasgar de raiva, jogar fora como se nada fosse, mas a tendência é guardarmos numa caixa nem que seja no fundo do baú. Será que seremos capazes de desenvolver uma outra relação com o e-mail, justamente por ele ser mais virtual do que real? Será que passaremos a dar mais importância ao que falamos, à maneira como escrevemos e teremos a consciência da importância deles para a posteridade (claro que não eu que não serei famosa, bom, quem sabe...)?



Esqueci de dizer. O último post foi o de número 100 do blog! O primeiro post foi no dia 23 de março de 2007. Ok, em quase 5 anos 100 posts não é muito, mas é um motivo para comemorar ainda assim.

quarta-feira, janeiro 18, 2012

O Cinema e o Amor

Escada do Gemini em São Paulo   
São muitos os filmes de amor, é claro, mas dessa vez quero falar sobre o cinema do lado de cá, o lado ao qual gostamos de esquecer que pertencemos quando entramos no cinema. Também existe amor do lado de cá, e enquanto a tela está iluminada e a luz... apagada.
Como é gostoso ver um filme passando na televisão e lembrar-se da sala em que assistimos o tal filme. Ou quando alguém fala sobre um filme e você se lembra de com quem estava numa sala de cinema.
Eu tento guardar todos meus ingressos de cinema desde 1998, quando tinha 11 anos. Ainda não tive a coragem de contá-los e não é esse post que vai me inspirar.  Não me orgulho da escolha desse filme de 98, mas me lembro exatamente de como foi: A Noiva de Chuck no shopping da Penha, estava na sexta série, era o cinema mais próximo do colégio e o filme era proibido para menores de 14 anos, se não me engano,e nós burlamos a bilheteira e ainda pagamos meia-entrada. A Amanda e eu. Primeira vez que sai sem meus pais, muita emoção, na sexta antes do carnaval, cinema vazio.Quem sabe meus pais teriam garantido um nível um pouco mais elevado de filme, já tinha visto de Aladdin e Rei Leão a Twister e Jurassic Park com eles.
1998 era um ano no qual com cinco ou seis reais você comia no McDonalds e ia ao cinema. Essa fase da escola me levou a ir ao cinema sem meus pais com frequência, pois todo fim de bimestre, após as provas, todos os alunos do colégio iam no mesmo dia infernizar os funcionários do cinema do shopping. Claro, o pessoal ia ao cinema para falar, gritar e ficar, moda do momento. Minha primeira ficada seria em setembro desse mesmo ano, durante um filme com o Hannibal Lecter mas não nesse papel...IMDB me ajuda! Ah, Instinto, e foi aí, nesse filme, naquele cinema, meu primeiro beijo.
Com o tempo o amor cresceu mais pelos filmes do que pelos beijos, e na estreia do primeiro Harry Potter eu me recusava a beijar meu namoradinho da época, porque eu queria prestar atenção ao filme. Tinha então 14 anos e fui fantasiada de aluna da Grifinória!
Desde então foram algumas mãos dadas nas salas escuras, beijos nos momentos menos interessantes (trailers e créditos), beijos roubados, mãos suadas, tentativas obcenas e, sobretudo, grandes conversas com os amigos após grandes e pequenos filmes.
E não apenas nos apaixonamos por pessoas no cinema, mas também pelos cinemas, que quando se vão deixam muita saudade. O Cine Vitrine da Augusta, onde vi Moça com Brinco de Pérolas com dois amigos durante as férias do ensino médio; o Gemini onde vivi grandes histórias em suas salas azul e vermelha e na bombonière. Ah, o Top Cine onde vi meu primeiro Truffaut (paixão a primeira vista), assim como meu primeiro Daniel Burman, e a mais recente perda, o Belas Artes. Desde o primeiro noitão de reabertura lá por 2002, quantos não foram os noitões? Meu último Wong Kar-Wai no meu lugar favorito, na última fileira, no meio, na sala 1.
E tudo isso é amor!

terça-feira, novembro 29, 2011

Contra Sr. e Sra.Smith: pelo casamento vanguardista.


Casamento é o vínculo estabelecido entre duas pessoas, mediante o reconhecimento governamental, religioso ou social e que pressupõe uma relação interpessoal de intimidade, cuja representação arquetípica é a coabitação, embora possa ser visto por muitos como um contrato.


  Outro dia chegou aqui em casa um convite de casamento, bonito e com letras invejáveis, para o seguinte destinatário: Sr. João da Silva e Sra. (nomes ficticios,ok? mas estava o nome do meu pai e sra.) Bom, sra., eu suponho, é a minha mãe. O que isso quer dizer? Para o Sr. João da Silva e sua senhora? No estilo das novelas de época? Ou, o que de fato dá na mesma, Sr. e Sra. João da Silva? Até onde eu saiba o nome da minha mãe não é João da Silva.
   Okay, podem me dizer que sou uma chata e que teimo com qualquer coisa, que o mundo é assim, ninguém mandou casar e colocar o sobrenome do marido, mas poxa... um pouco de avant-gardismo, por favor! Estamos no século XXI e, por mais que o casamento pareça uma instituição um pouco retrógrada, depende de como nos relacionamos com ela. Minha mãe tem nome, e, se fosse comigo, eu devolveria o convite, dizendo que lá não tem nenhuma Sra. João da Silva, ou fazia meu pai ir sozinho à festa, mas ele não tem culpa, afinal. Em que momento um mulher que se casa perde seu nome e vira Sra. Nome do Marido? Pode parecer uma besteira, mas por trás de um pensamento tão bem espalhado pela sociedade se encontra uma ideia muito perigosa: a anulação da mulher.
   No Facebook, alguns estão postando uma campanha contra mulher mercenária, que não quer trabalhar e nem estudar e vai procurar marido rico. Falar mal de tal situação é tão problemático quanto dizer que os alunos da USP são filhinhos de papai porque não precisam trabalhar. Ninguém sequestrou um cara, ameaçou a família dele para ele casar com uma mulher que não trabalha, ele casou e casam-se até hoje porque os dois querem e sabem que assim será. E por que ninguém questiona e faz campanha contra homens que se casam para ter uma segunda mãe, para não ter que cozinhar, lavar e passar e cuidar de si mesmos? Nenhuma mulher foi obrigada a casar com homens assim, e ainda se casam, como falei anteriormente. Mas parece bem mais engraçado fazer piada com mulher, não é?
   O problema não é o casamento em si, mas as interpretações que se fazem dele. O casamento vem impregnado por grande machismo em nossa sociedade. Coisa horrorosa é aquela camiseta com um noivo e uma noiva e a frase Game Over, qual game, meu bem? Você mal sabe que talvez esse seja o chefão, para você chegar nesse ponto tem que passar de fase muitas vezes, e aí sim pode ser um fechar do jogo se você vencer o chefão, o desafio de uma vida a dois.
   Ao mesmo tempo que a tradição do preconceito e da estrutura patriarcal da sociedade persistem, aumentam o número de pessoas que não se casam e que não desejam se casar. Em parte porque acreditam ser o Game Over das múltiplas possibilidades do amor livre, achando-se muito progressistas eles só fazem reafirmar a tradição, sem subverter em nada a instituição do casamento. Em parte porque acreditam que não vale a pena o esforço de ceder a diversos desejos e sonhos em nome de uma união duradoura, esse é o fim da crença no amor, o fim do romantismo em seu ideal, fruto, muitas vezes, do egoísmo e ego-centrismo com o qual somos educados, da intolerância e impaciência para a discussão visando ao acordo. Há ainda aqueles que defendem que a causa homossexual está equivocada em lutar pelo casamento gay, pois esta é uma instituição falida de uma sociedade preconceituosa com a qual não se deve compactuar, esse motivo também mereceria um post, mas além de ignorar a liberdade que é o real motivo da luta, a liberdade de escolher se casar ou não, esse argumento ainda ignora o poder de mudança que há na assimilação do casamento gay pela sociedade.
   Mesmo que tomemos o casamento unicamente como uma instituição patriarcal, capitalista, que visa a manutenção da propriedade privada (ver o brilhante texto de Engels, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado), não consigo acreditar que se, abolido, não surgiriam duplas de pessoas que se unem por laços de sentimentos e que coabitam, designadas assim por outra nomenclatura. Por mais revolucionário que se seja, não posso acreditar no fim do amor ou qualquer outro nome que se possa dar a um sentimento que impele duas pessoas a se unirem.
    A tradição, os costumes que passam de gerações para gerações não precisam ser anulados. Carecemos sim, e é isso que quero dizer, de uma penetração de determinados avanços em esferas ainda fechadas. O casamento não desaparece quando livre para casais homossexuais, não desaparece quando duas pessoas mantem seus nomes, e cada um seu Facebook, vale lembrar. O casamento não desaperece quando os dois trabalham, nem quando o homem fica em casa e a mulher trabalha, nem quando os dois ganham na Mega-Sena e não precisam mais trabalhar. O casamento não desaparece quando é ele o mais importante da festa e não ela, quando desejamos parabéns aos dois ou boa sorte a ela (ah, só para dizer a quem não sabe que existe uma tradição, e uma etiqueta!, de dizer parabéns à noiva e boa sorte ao noivo), assim como não desaparece se o casal não tem filhos.
   O casamento, também ele, está precisando de uma revolução copernicana. O Sol continua existindo mesmo depois que passamos a entender que é a Terra que gira em torno dele e não vice-versa. Como um dia paramos para nos perguntar o que é a arte, abandonando a busca pelo belo, quem sabe é hora de nos perguntarmos: o que é o casamento?

sexta-feira, novembro 11, 2011

USP



Bom, no dia de hoje, nas últimas semanas, basta escrever USP no título para todos saberem do que se tratará a seguir. E eu nem sei direito por onde começar, mesmo que tenha tido bastante tempo para pensar sobre os últimos acontecimentos. Acho que vou começar então por criticar exatamente meu início de texto, porque aí já reside um dos problemas da crise. Agora seja na internet, seja na televisão, seja nos jornais impressos, todo mundo quer falar sobre a USP, todo mundo quer dar opinião, dizem que a universidade se mantém com dinheiro de todos, mas... espera aí, e até então, a USP se mantinha com o dinheiro de quem? E quem estava interessado em saber o que estava acontecendo lá dentro, como é a vida e o cotidiano dentro da universidade?
Como brincou o José Simão, o pessoal só leva o cachorro para passear na Cidade Universitária, usa como atalho do P3 ao P1 e vice-versa, vai para lá fazer uma sessão diferente da academia... Mas ninguém nunca esteve nem aí para o fato de eu e muitos outros milhares de estudantes estarmos lá estudando com o dinheiro público, não é? E todo mundo quer dar pitaco justo agora, e dizer que lá só tem filhinho-de-papai, que os pais não sabem educar etc etc etc!
Toda a história que deu no que deu o mesmo pessoal que está falando pelos cotovelos nas redes sociais e por aí nem sabe de onde começou. O que a televisão diz (e não vamos só avacalhar a Globo, a Record e o SBT também prestaram seus desfavores, que eu tenha visto)? Aluno da USP morto no campus (caso que ainda não deu em nada, mas todo mundo se comoveu, diferente do descaso quando o aluno da filosofia que morreu do nada no meio da Cidade Universitária por falta de socorro), três estudantes presos por fumarem maconha no campus, estudantes se rebelam contra presença da USP no campus, LOGO, os alunos reivindicam o direito de fumar maconha livremente. Uhu! Falta mesmo aula de lógica e de ética e de muitas outras coisas, mas a Veja acha que filosofia no ensino médio é só para doutrinar criancinhas para o socialismo... Já misturo coisas, mas não é em vão.
Vamos lá, eu, estudante da USP há sete anos, não sou a favor da greve e nem da ocupação da reitoria, e sou totalmente contra o convênio com a Polícia Militar. Não tenho vergonha de nada disso, pois tenho argumentos para minhas posições, quem dera quem não tivesse argumento tivesse vergonha de vir a público declarar rótulos sem fundamento e palavras de ordem violentas, mas enfim, não se pode esperar mesmo que o bom senso seja a coisa mais bem distribuída no planeta. A greve esvazia a USP e não gera um espaço e tempo para o debate como muitos acreditam, pessoas como eu, que moram a 20, 30km da Cidade Universitária deixarão de pagar a condução para ir para a faculdade e não ter aula, ainda mais no fim do semestre, quando muitos (sim, nós estudamos) estão preocupados em colocar suas leituras em dia. A ocupação foi feita à revelia da decisão de uma assembleia e eu ainda acredito que a assembleia represente os estudantes na universidade, por isso quando a assembleia do meu curso resolveu pela greve eu não vou furar a greve, quem é contra a greve que aparecesse na assembléia para votar uai.
A PM não traz tranquilidade a ninguém, quisesse melhorar a segurança no campus, contratasse mais pessoas para a guarda universitária, mas não, insiste-se na terceirização da segurança “patrimonial” das faculdades e a guarda está cada vez menor e despreparada. Esqueceram que a USP é uma autarquia, que tem independência frente ao governo, e que a PM representa sim um governo, mais do que isso, o reitor resolveu colocar entre os alunos, professores e funcionários aqueles que, para todo mundo que compareceu em boas aulas de história, não deixaram boas lembranças nos anais uspianos. Aí, para melhorar a situação, por conta de um errinho-besta-que-é-isso, o Golpe de 64 vira Revolução de 64. Esse reitor que nem escolhido pela universidade foi, que devia ficar na dele, bem quietinho, ter vergonha da forma como foi parar por lá e por ter sido considerado persona non grata pela própria faculdade de origem, saiu-se melhor que a encomenda de Serra e Alckmin.
Mas ninguém quer falar de toda essa bola de neve que vinha descendo ladeira a baixo ganhando sempre mais velocidade, não, ninguém queria saber como estava a tão famosa Universidade de São Paulo sob o reitorado do Sr. Rodas e após o convênio com a PM. Mas aí quando uma situação permite que se diga CHEGA a tudo isso, ah, aí é o bafão do mês. Vai estar na Retrospectiva 2011. O que aconteceu com os três que estavam fumando maconha no estacionamento da FFLCH foi apenas um mote, um momento propício para que todos mostrassem sua indignação frente à presença da PM, frente ao reitor Rodas. Vamos lá, quantas vezes você viu alguém sendo preso por fumar maconha? Eu nunca vi, e se fuma maconha por aí numa boa, mente quem diz que não, fuma-se na porta do Mackenzie, em pleno bairro do pessoal diferenciado, ao redor das estações de metrô, não estou dizendo que sou a favor da maconha nem que fumo, que se danem tais considerações, o ponto é, a ação da PM, por comparação, foi desmedida. Até aí, para mim, foi uma coisa.
A coisa começou a ficar ruim mesmo e mais grave mesmo quando da reintegração de posse da reitoria. Em sete anos não foi a primeira nem a segunda ocupação de reitoria que eu vi, mas foi a primeira vez que vi tamanho circo. Esperasse a próxima assembleia já agendada e os caras que entraram lá contra a assembleia de lá sairiam numa boa, se até a meio-maria-mole-molenga da Suely Vilela conseguiu uma saída razoável da reitoria, o Sr. Grandino precisava mesmo de todo aquele aparato policial? Aí a desmedida e o exagero se mostraram gritantes o suficiente para que eu não pudesse mais assistir a tudo calada. Por isso fui à assembleia do curso de filosofia, fui ao ato de hoje no centro da cidade, que não foi sequer mencionado pelo formador-de-certa-opinião Jornal Nacional. Quanto aos fatos e comentários a eles, paro por aqui.
A questão que também deve ser posta é: e o outro lado? Como tem sido o lado dos estudantes? O Antonio Prata teve razão em seu texto de 09/11/2011 na Folha de S.Paulo ao chamar a atenção ao exagero de um grupo de estudantes quando fazem reivindicações, concordo plenamente. E é esse exagero que torna os estudantes hoje tão distantes da sociedade. Temos que parar e pensar por que a sociedade que nos financia está tão distante de nós, por que temos contra nós tamanha violência, expressa, por exemplo, nas mídias sociais. Que a população converse na rua sobre o que acontece na USP, na maioria das vezes, nos avacalhando, é sintomático. Por isso também quis fazer parte de um ato no centro, onde muitas pessoas trabalham e tomam condução, para ter ali uma oportunidade de diálogo, de mostrar que nossa demanda não é por maconha.
As pessoas do prédio, os ex-colegas de trabalho (sim, sou aluna da USP e trabalho, tempo para o sonoro OH!), minhas avós, poxa, quase todos estão falando dos alunos da USP coisas muito distantes da realidade. Os rótulos vão de filhinhos de papai que não precisam trabalhar a maconheiros e vagabundos. Convenhamos que o fato de alguém ter dinheiro para não precisar trabalhar durante a faculdade não diminui em nada sua verdade política, né? E se a Fuvest é o vestibular mais concorrido do país e a USP a segunda melhor universidade da América Latina não pode ser porque sua comunidade é formada apenas por vagabundos e maconheiros. Que haja baderneiros, vândalos, extremistas, vá lá, a USP não é separada do resto do mundo, é parte da sociedade como é no clube, na torcida de um time, num grupo escoteiro, tem de tudo um pouco, ou muito, mas tem de tudo, não dá para generalizar.
Por que no Brasil não se pode pensar que a classe dos estudantes é privilegiada nas lutas sociais justamente por ter menos obrigações sociais? Onde foi que se perdeu a compreensão de que a juventude, justamente por não ter de lidar com casamento, filhos, trabalho e responsabilidades outras, pode ser um movimento que auxilie, por exemplo, a luta dos trabalhadores, dos sem-terra, das feministas, dos homossexuais? O fato de uma pessoa ter tempo para numa quinta a tarde poder sair as ruas gritando contra a violência, contra o aumento da condução etc não devia ser visto com maus olhos, e muitos países já entenderam isso há anos, para o bem ou para o mal. Um jovem estar usando moleton da GAP, primeiro, não quer dizer que ele tem dinheiro, pois no camelô da esquina de casa vende um igual àquele, segundo, não deve desautorizar sua demanda. Na realidade muito do que se faz no Brasil vem de mandos e desmandos de pessoas que nem eu nem você elegemos e que tem muito dinheiro, mas ninguém reclama.

quarta-feira, outubro 19, 2011

Quando a esmola é muita...


Não dá para ficar muito feliz com os progressos da megalópole paulistana. E ao mesmo tempo o queridissimo Kassab e o excelentíssimo Alckimin devem estar tomando whisky e respondendo à minha colocação (porque sei que secretamente eles leem meu famoso blog): esse povo, quando a gente dá a mão, quer o braço.
Pois é isso mesmo.
Estou eu super feliz por estar fazendo o trajeto metrô Tatuapé- metrô Butantã em lindos 30 minutos, às vezes menos quando a linha vermelha colabora, às vezes mais quando um altruísta de araque resolve se matar nos trilhos do metrô. Pois bem, estou alegre e contente até certo ponto. Segundo meu adorado Google Maps a distância entre o metrô Butantã e a Faculdade de Filosofia é de 2,5km. E aí é que rola a perda de tempo, meu caro Kassab.
Sim, vou em 30 lindos minutos de metrô e sei agora o que são os 60 minutos entre as 20 e as 21 horas*, mas e esses 2,5km? Teletransporte? Qual a resposta de nosso queridíssimo Kassab? SPTrans neles. Inventaram uma linha descarada de ônibus, pelos mesmos absurdos TRÊS REAIS, que faz o trajeto do metrô até o campus. Detalhe, na entrada do campus há o circular, ônibus gratuito, e do metrô até a entrada são lindos mil metros, 1km, aos quais voltarei a seguir. Ou seja, pague TRÊS REAIS para fazer 1km, é o quilômetro mais caro do mundo em transporte coletivo, tenho certeza (Wikipedia, me ajuda!).
Para tudo há solução, aparente. Cansada de esperar o secular no ponto da entrada do campus por minutos a fio, cansada de caminhar um quilometro para ir e um para voltar muitas vezes sem companhia, eis que me lembro de minhas lindas bicicletas estacionadas-mofadas no bicicletário do prédio. Com a ajuda de uma amiga de duas rodas, lá fui eu para o Butantã, num dia de chuva, levar minha bike de carro para uma revisão no bicicleteiro, fiz meu cadastro no bicicletário do metrô e pimba! Uma semana depois estava linda e bela, cabelos ao vento, fazendo os 2,5km entre metrô e faculdade de graça.
E...
surprise, surprise! De um dia para o outro mudaram as regras de utilização do bicicletário. Quando do meu cadastro poderiamos deixar a bike por lá no máximo por três dias. Inventaram que o máximo que poderia deixar seria DEZESSEIS HORAS. Isso mesmo meu caro Alckmin, absurdas 16 horinhas. Bom, eu entreguei minha bike às 20h de hoje, deveria ir buscá-la para passear ao meio-dia de amanhã. Só que amanhã eu entro às 18h na aula, portanto pegaria a bike umas 17h, e aí? E nos finais de semana? Como assim dezesseis horas? Enquanto eu me indignava com pessoas que não tinham culpa, um dos funcionários do bicicletário mantido pela maldita Parada Vital (MORRAAAAAAAA) disse que as pessoas deixam de manhã, vão trabalhar de metrô e buscam a noite.
- Dãããããã!
E quem trabalha ou estuda perto do Butantã? Faz o que? Diga meu caro Alckmin...
Vai a pé ou paga R$3 no busão.
Oh God, e ainda temos para o ano que vem a promessa do pequeno filósofo Chalita, o sem-sal-sem-açúcar-novo-picolé-de-chuchu Haddad e o excelentíssimo amigo da Cohab Netinho de Paula, que nada tem a ver com minha família, que fique bem claro.

*Até pouco tempo atrás, na graduação, eu achava que não existia nada entre as 20 e as 21 horas a não ser a gigantesca e sem fim Rebouças!

segunda-feira, outubro 10, 2011

Vejo novela sim, e daí?

Já tem algum tempo que escrevi esse texto em meu caderninho para passar a limpo para o blog, mas hoje achei o dia ideal para falar no assunto, quando estou desolada por perder o capítulo da novela das nove logo num momento essencial para a trama.
De onde tiraram a ideia de que se você estuda filosofia, sociais, enfim, humanas "meio-intelectuais-meio-de-esquerda", como diria meu querido Antonio Prata, você não pode assistir à televisão? Pior: de onde saiu a ideia segundo a qual pessoas inteligentes e cultas (cof cof) não assistem à Globo e semelhantes? Toda e qualquer coisa que a maioria das pessoas faça é estritamente proibida aos integrantes da inteligentsia, seja comer um certo prato num certo restaurante, seja ouvir Beyoncé, sob o risco de ser tachado de futil ( o horror,oh!). Luciana Gimenez, Pânico na TV e novelas da Globo são as drogas mais pesadas.
Okay, me excluam do grupo dos privilegiados de inteligência, eu não me importo. Às vezes cansa viver no mundinho intelectualóide e só falar coisas profundas (cof cof). Desde a refilmagem de Ti Ti Ti ano passado no horário das sete, que acompanhar as tramas das novelas televisivas me interessa. Não todas, é verdade, é como filmes e séries, ué, nem todos me agradam. Ti Ti Ti me divertia muito, eu ria loucamente, e quando dela fiquei orfã aderi ao Cordel Encantado pela beleza, trilha sonora e tema nordestino, à la Hoje é dia de Maria, e agora estou com a Fina Estampa, previsível mas com personagens cativantes. Ah sim, O Astro não tem sido nada mau, com estilo kitsch e num horário bem mais atraente que as demais.
Podem me crucificar, mas dei pulos de alegria quando soube do reprise de Mulheres de Areia no Vale a Pena Ver de Novo. Poxa, o Tonho da Lua marcou minha infância. Afinal, me digam o que alguém tem de tão especial e "diferenciada"  que a impede de sentir a mesma atração por tramas novelescas que outros milhares de pessoas? Ok ok ok, há que se resguardar da alienação (cof cof) e se proteger das ideologias consumistas da publicidade global. Mas não é ruim se deixar levar por alguns minutos do dia, e não por toda a vida. Até agora ninguém me convence de que novelas emburrecem pessoas.
Chega da torre de marfim que está na hora da minha novela.