segunda-feira, fevereiro 04, 2013
Viagem ao Sambódromo
Como muitos paulistanos e paulistanas, fui ao sambódromo no último sábado, dia 02 de fevereiro, para prestigiar as escolas de samba em seus últimos ensaios técnicos. Como já imaginava que ficaria muito tempo no ponto esperando pelo ônibus, resolvi checar no site da SPTrans o horário do próximo Ceasa a sair do Terminal Penha ( http://www.agora.uol.com.br/saopaulo/ult10103u1082844.shtml ).
Qual não foi minha surpresa ao descobrir que o famoso 278A Penha-Ceasa que liga a zona leste à zona oeste passando, por exemplo, pelo sambódromo, teve seu trajeto reduzido até Santana. Segundo o site só há dois ônibus que passam pela Av. Olavo Fontoura, ambos saem do metrô Santana em direção a bairros mais distantes dentro da zona norte.
Recorri então ao metrô, e resolvi parar antes na estação Portuguesa-Tietê, sem sair da catraca, para checar se não havia, quem sabe, um ônibus de lá que passasse próximo ao sambódromo, já que ali é a estação de metrô mais próxima, ou quem sabe, considerando as proporções do evento, a prefeitura não teria disponibilizado um ônibus que fizesse o trajeto. Na catraca encontrei uma funcionária do metrô que me disse que eu poderia pegar o Ceasa ali.
- Sério? Mas no site da SPTrans essa linha não existe mais.
- Tem sim, pode descer aqui e pegar.
- Certeza?
- Certeza!
Ao descer para a Av. Cruzeiro do Sul, na saída da estação, perguntei a dois seguranças terceirizados trabalhando ali se o Ceasa ainda passava no ponto ao lado da banca.
- Ceasa? Não tem mais. Mas passa o Hospital Cachoeirinha aqui que vai para lá.
(Cachoeirinha é um dos que o site informava que saia de Santana e passava na Olavo Fontoura).
Fui então para o ponto, cheio de membros de escolas de samba com camisetas de suas agremiações, senhoras baianas, músicos, foliões que ensaiariam e que assistiriam. Todos ali esperando o Ceasa, ninguém ali sabia que o ônibus não operava mais esse trajeto.
Nos meus saudáveis 25 anos, resolvi esperar pelo tal ônibus e não fazer os 3km que separam a estação de metrô do sambódromo a pé, pois não consegui ninguém para me acompanhar, já era noite e tampouco tenho minha segurança garantida no caminho até lá. Quem já fez o trajeto sabe que, mesmo de dia, não é nada animador, com aquela passarela no Campo de Bagatelle nem um pouco pedestrian friendly, muitos muros e pouca iluminação, sem falar na precária calçada da Av. Olavo Fontoura.
Fiquei uma hora no ponto, das 20h às 21h, e, num sábado à noite, na semana que antecede o carnaval, nenhum ônibus da tal linha passou. (Checando no site da SPTrans no dia seguinte vi que a linha devia ter três carros saindo do ponto final nesse intervalo aos sábados.) Mas, é claro, quando o Estado se omite a população fica à mercê da ilegalidade e uma van clandestina estava operando o trajeto metrô Portuguesa-Tietê/Anhembi, cobrando R$3 de idosos e, é claro, não aceitava bilhete único nem concedia o direito a meia -passagem a estudantes e professores. Durante a uma hora que passei no ponto ela passou após a primeira meia-hora e depois de 25 minutos de novo. Uma van clandestina pegava a Marginal Tietê lotada de pessoas, sentadas e de pé, deixando todos ao lado da Campus Party 2013, a 20 passos de uma base móvel da PM.
Procurei um guarda da GCM:
- Olha, gostaria de avisar que tem uma van clandestina operando o trajeto do metrô Tietê até o sambódromo.
Cara de paisagem por 10 segundos.
- Ah, a CET já está tomando providências.
- Ah é? Porque fiquei uma hora no ponto e ela operou normalmente.
Cara de paisagem pra sempre.
Ao chegar em casa e pesquisar sobre o ônibus e a mudança de trajeto, descobri um abaixo-assinado contra a alteração que foi anunciada em janeiro de 2013 ( http://www.peticaopublica.com.br/?pi=P2013N34330 ), além do artigo do Agora de abril de 2012 com link no início do texto. O abaixo-assinado dá ótimas razões para a linha não ser alterada, mas mais uma vez as empresas de ônibus ganharam e a população perdeu.
quinta-feira, novembro 29, 2012
Uma casa nada engraçada
Eu estava na 2ª série, tinha 7 anos, era o tempo em que condicionador chamava creme rinse, chamávamos pizza pelo orelhão que ficava duas ruas atrás de casa, eu colecionava os cartões da Telebrás e da Telesp e todos falavam 2ª série do Primário, embora já existisse a denominação oficial de Ensino Fundamental.
A professora da minha turma se chamava Alexandra e todos gostávamos dela, mas isso não impedia que fossemos terríveis pestinhas.
No Colégio Floresta, onde estudava, cada mês uma turma cantava uma música nacional para o resto da escola. Até hoje conheço a letra inteira de Pensamento, do Cidade Negra, e de Admirável Gado Novo, por exemplo.
Um belo dia, a professora Alexandra passou para copiarmos da lousa uma música já conhecida de todos para que cantássemos.
Era uma casa muito engraçada
Não tinha teto, não tinha nada
Ninguém podia entrar nela não
...
Essa aí! Ela pediu que lêssemos e que pensássemos na letra, a sala então ficou aquela bagunça. A professora começou a falar:
- Pessoal, que casa é essa? Vocês sabem?
Pois é, eu ouvi ela dizendo isso. Mas muita gente não ouviu. Estava aquele fuá na sala e a professora disse que só contaria que casa era aquela se a sala ficasse calma e em silêncio. Bom, a turma não ficou quieta.
Passaram-se 18 anos e eu ainda penso: Mas que porra de casa é essa?
Cantarolo, leio a letra, escuto a música e nada!
Moral da história: Você, professor, professora, por mais que você ache que ninguém está prestando atenção em você, alguém está e esse momento pode ficar marcado na vida desse alguém pra sempre.
É capaz que minhas últimas palavras sejam:
-Que casa é essa?
quinta-feira, outubro 04, 2012
Eleições 2012
Os que me conhecem e tem me visto nos últimos tempos sabem que de
cada dez palavras que eu falo duas são reclamando do curso que estou fazendo na
ETEC, três são sobre comida e cinco são sobre as eleições municipais que se
aproximam. Quando considerados os status de Facebook, ali talvez a proporção
seja de cada dez, dois são sobre Gabriela, dois são reclamações em geral e seis
sobre as eleições. Assim sendo, estou impressionada com o fato do dia 07 de
outubro estar se aproximando sem que eu tenha dedicado um post sequer à
questão.
Daqui três dias vamos às urnas e as pesquisas ainda mostram um
cenário digno de um 2012 como ano do fim do mundo. Pensando na catástrofe
possível que se aproxima pensei muito em mudar meu voto, praticar o conhecido
voto útil e tenho certeza de que não sou só eu na cidade de São Paulo pensando
no voto-salve-se-quem puder. Mas no fim resolvi que não mudarei, continuarei no
voto que considero o melhor, e não o menos pior. Meu voto é minha voz, é um
voto de confiança e de apoio, e eu vou dá-lo ao melhor candidato, àquele que
tem as melhores propostas, ainda que ele não tenha chances reais de ganhar.
Quem já viu meu carro, minha bolsa e meus bottons sabe que meu candidato é o
Giannazi do PSOL e não tem porque não dizer isso.
Ainda assim, definido o voto já desde o começo das oficializações
de candidaturas, acho importante saber o que dizem os demais candidatos. Mesmo
que se tenha certeza do voto, que se conheça muito bem as propostas do seu
candidato, é preciso acompanhar a corrida eleitoral, as propostas e propagandas
de todos os candidatos. Fazer parte da democracia não é apenas acordar cedo e
disposto no domingo e ir votar, é acompanhar as candidaturas, conhecer as
plataformas, assistir aos debates e saber quem são os candidatos que se abandona
ao escolher um único, já que nem sempre aquele que se escolhe será o vencedor.
Além de ser uma atitude republicana e interessante a de buscar entender as
motivações que levam a maioria a votar naquele que ganhar.
Já ouço as vozes dos defensores do voto nulo [quem lê esse blog
sabe que ouço vozes, o tempo todo] dizendo que a política não vale a pena, que
todos os políticos são iguais e que igualmente nenhum presta. Eu estou com
aqueles que acreditam que ao abandonar a política por desprezo ou pretenso
nojo, se está fadado a ser governado por aqueles que não sentem nojo. Além do
que, a política não é nojenta nela mesma, ela é um aspecto incontornável da
vida, você pode até fugir dela, mas deverá arcar com as conseqüências. Numa
reinterpretação de Aristóteles, eu diria que interessar-se por política é como
escovar os dentes e tomar banho, você não é obrigado a fazê-lo, mas isso
influencia diretamente na sua vida social. Se você abandona uma situação,
alguém toma conta dela. Simples assim.
A cada eleição fica mais e mais evidente a necessidade de uma
reforma partidária no Brasil. Partidos surgem como mato na calçada, são
bancados por verbas públicas e promovem figurinhas. Há muito não existe no país
o voto pelo partido e sim pela figura, muitas vezes o eleitor sequer conhece o
partido do qual o sujeito faz parte, qual sua filiação ideológica e sua
história; o importante é um único indivíduo, como se ele fosse gerir uma
cidade, um estado ou o país sozinho. Não se sabe mais o que é esquerda e
direita, e pega bem falar que é de centro e que colabora pelo fim da disputa
entre dois lados que são historicamente inconciliáveis. E aí surgem as
figurinhas douradas super poderosas que fazem crer que a política seja simples
e feita de meras opiniões.
Os candidatos a
prefeito de São Paulo são numerosos demais, tornando a escolha confusa,
pulverizada e favorecendo estrelismos. Venho observando a campanha desde o
início e acho que é chegada a hora de fazer comentários aos candidatos, na reta
final.
Miguel Manso
(PPL) – ainda no começo da oficialização das candidaturas fui a um debate
organizado com os candidatos pela Rede Nossa São Paulo, e apareceu esse Miguel
Manso de um tal de PPL. Eu nem sabia que existia um partido chamado Pátria
Livre, aprovado pelo TSE em outubro do ano passado e formado por militantes do
MR-8, o que, diga-se de passagem, não se percebe muito pela propaganda
eleitoral do candidato à prefeitura de São Paulo, que pelo discurso aproxima-se
mais a figuras como Levi Fidelix do que Anaí.
Eymael (PSC) – esse
e o candidato do PRTB sequer merecem meu respeito; são chupins do sistema
necessitado de reforma partidária, se candidatam a cada dois anos para qualquer
cargo para se beneficiarem da grana pública pra campanhas. Além disso, o Eymael
há anos com essa música grude pode estar incluído entre os melhores jingles
publicitários da história e rivalizou com Chalita nas frases de efeito lendo
textos que pareciam jograis de escola.
Levi Fidelix
(PRTB) – o candidato eterno está todo feliz com essa história do monotrilho ser
uma cópia da sua ideia do aerotrem, lançou sua filha pra vereadora e se
beneficia dos votos-tiririca de pessoas que acreditam ser nele um voto de
protesto ou simplesmente que ele merece votos por ser engraçado. Um
pulverizador a favor do PSDB, ficou trocando amores com Serra nos debates e
arrancando risadas das platéias; e, apesar de estar correto em seu argumento,
travou a possibilidade de debate na Globo.
Ana Luiza (PSTU)
– o partido se esforçou, os programas de TV estavam super bem-feitos e com bom
texto. Assim como o PCO, o PSTU abandonou a estética Dolly tradicionalmente
ligada à esquerda mais radical brasileira e parou de insistir na frase “Contra
burguês, vote 16” ,
que pelo menos era atrativa e incisiva.
Anaí Caproni
(PCO) – todos os dias naquela espécie de biblioteca das propagandas que
esqueceram a roda dentada, nada de fábrica, indústria, operários, só a Anaí
falando entre livros. Apenas no último dia voltaram ao jargão com ar de Star
Wars: “quem bate cartão, não vota em patrão”.
Giannazi (PSOL) –
não fui só eu que reclamou do corte de cabelo, todos sabem que a apresentação é
importante e por isso os candidatos escolhem bem suas roupas e sapatos de
acordo com a mensagem que querem passar. Aparentemente o PSOL tinha a menor
verba para as campanhas da TV, ou pelo menos tinha os piores técnicos de
audiovisual, a captação de som era sempre péssima e foi o único partido da
esquerda a manter a estética visual da miséria, ainda que a música seja bem gostosa e grudenta. Giannazi ligou o Plínio-mode-on
em alguns momentos do debate e avacalhou todo mundo do jeito que merecem, dos
tucanos aos petistas, sem perdoar o pelego da Força. Porém, talvez a estratégia
do PSOL de igualar PT e PSDB não seja a melhor para São Paulo, o PT não está
acima do bem e do mal, é verdade, nem o partido, nem o Lula, mas num momento em que Russomanno
ganhava vantagem na cidade era importante focar nele e talvez assumir um
discurso um pouco mais simples e direto ao invés de citar frases de professores
da USP, isso só atrai votos da USP e por lá o Giannazi aparece empatado com
Serra na disputa.
Paulinho da Força
(PDT) – o pelego da Força quer se passar por defensor dos trabalhadores só
porque é sindicalista. Começou a campanha dizendo desconhecer quem seja Paulo
Freire, mas criticando o fato de os alunos não serem mais reprovados. Deu muito
mais atenção às multas aplicadas a motoristas e aos semáforos (o que ele
chamava de uma cidade injusta com seu cidadão), do que à injustiça do
transporte público. O mais despreparado dos candidatos.
Soninha (PPS) – a
Sonsinha. Nem ela vai votar em si mesma, parece que vai votar no Serra, que ela
defendeu quase até o fim. Quando viu que subiu um pouco, passou a falar mal do
Kassab, mas nos debates parecia deslumbrada com o tucano amiguinho. Candidatura
pulverizadora, como explicou Anaí no último dia de propaganda na TV, para conseguir
união de votos no segundo turno para o PSDB. Nos dois debates a que fui da Rede
Nossa São Paulo a candidata parecia uma garotinha de 15 anos tirando fotos para
postar em seu twitter e escrevendo em seu celular enquanto os outros candidatos
falavam. Não pensa no que diz e acha que fazer política de maneira diferente é
andar de jeans e tênis. Sua candidatura atrai votos daqueles que não são
conservadores no aspecto religioso e moral, que querem direitos iguais para
seus iguais, a favor do casamento gay, do aborto e das bicicletas, mas nada de
morador de rua na minha praça do centro ou de pobre na universidade.
Chalita (PMDB) –
o bom mocinho do ano, amigo de padres e escritor de belos livros com belas
palavras de amor e fé. Quando Platão falou sobre os filósofos governarem a
polis, não foi bem isso que ele imaginou... Se Russomanno tivesse a retórica de
Gabriel, estávamos mais ferrados do que estamos. Na primeira vez que o vi
falando em público, num debate, fiquei arrepiada e não me orgulho disso, o tom
de voz e as palavras muito bem escolhidas miram diretamente o seu coraçãozinho.
Junto com o Russomanno, formam a dupla dos cuidadores; Chalita quer cuidar de
mim, de você e de todos nós. Incorporou o em-cima-do-murismo do PMDB e prometeu
acabar com a “picuinha” entre PT e PSDB, aliás, acho que nos últimos dois meses
ouvi mais a palavra picuinha do que ouvi nos 25 anos de vida que tenho. Mas com
dia 07 se aproximando ele resolveu apertar o Plínio-mode-on também e jogou
merda no ventilador no debate da Gazeta e em sua propaganda do rádio e da TV,
talvez por isso chegou aos 11% na última pesquisa, o sangue-no-zóio rendeu mais
voto que o bom-mocismo. Mas não dá para avacalhar todo mundo e dizer que é
amado pelos professores da rede estadual, aí já é demais, né Chalita Poeta?!
Haddad (PT) – o
homem novo para um tempo novo, não consigo deixar de rir quando ouço isso. José
Simão acertou em cheio quando disse que o transformaram em ator de Bolywood,
parece indiano mesmo, fizeram um bronzeamento artificial no material da
campanha e o professor da USP, como ele adora insistir, olha pra cima com Lula
e Dilma como um pôster de filme de astronautas americanos. Qual o objetivo da
campanha dele ao insistir no fato de ele ser um intelectual? Ganhar votos da
paulistanada que odeia o Lula porque ele não tem ensino superior e não fala
francês? Ah ta, então mostram que sua filha toca piano em casa, seu filho toca
violão e a esposa também é professora da USP. A esquerda limpinha, só ela ganha
em Sampa, a dos Matarazos. Tem o mais completo e digno de receber o nome de
plano de governo entre todos os candidatos, está bem preparado em debates e
comícios e está aproveitando bem a máquina que está a seu favor. Devo dizer que
tem uma baita de uma proposta com o lance do bilhete mensal, bola cantada pelo
PSOL de início. Se ele for pro segundo turno, sou Haddad desde criancinha. Na
verdade meus pais insistem que eu cantava “lula lá brilha uma estrela” em 89...
Serra (PSDB) – o
beijoqueiro e arrasador de corações, fazem de tudo para que ele seja o homem
novo, mas não é preciso ser jovem para isso. Até me surpreende que os
paulistanos possam ter algum tipo de resistência ao Serra porque ele é velho,
tanta coisa pior que ele já fez sem ser envelhecer. Ainda que ele tenha uma
enorme e brilhante rejeição, eu acho que ele representa muito bem os
paulistanos em geral, conservador e blasé que se diz de esquerda só porque foi
líder estudantil. Nos debates parecia que foi abduzido por alienígenas e
substituído por um clone, com anos e anos de experiência em debates, não se
sabe como pode ir tão mal quando confrontado aos demais candidatos.
Protagonizou cenas que se espalharam pelo Facebook, deu mil desculpas por ter
abandonado o cargo quando foi prefeito (o que eu até acho que estão fazendo auê
à toa) e continua em segundo lugar. O PSDB tanto fez que mudou sua cor, o nome
do Serra aparecia na TV com as cores azul e laranja, ao invés de amarelo, para
horror dos tucanos de plantão na sala. Do que adianta criar mais e mais etecs e escolas e hospitais com trabalhadores sub-empregados?
Russomanno (PRB)
– assustador, não só pelo que representa, mas até mesmo por como representa,
pálido e com um sorriso falso de fazer criancinha sair correndo da sala. Suas
propagandas na TV eram como seus programas de defesa do consumidor, mostrando
problemas e sem oferecer soluções razoáveis. Isso qualquer um faz, aliás, tem
muito mais paulistano aí conhecedor dos problemas e sofredor do que um
milionário que vive no Morumbi e diz ter origem humilde. É um salafrário de
marca maior, alpinista social, populista do pior tipo que deve mesmo é ter
vontade de cuspir no povão. Ele lembra o Caco Antibes do Sai de Baixo, não sei
como consegue enganar tão bem seus ex-35% do eleitorado, atual 27! Defende quem
compra, o consumidor egoísta e individualizante, e promete cuidar de mim, de
você e de quase todos nós. Sua melhor proposta, sem dúvida, foi a de passar
recolhendo a droga dos usuários da cracolândia a cada 15 minutos. A melhor proposta do ano.
As pesquisas mostram um novo cenário essa semana, com o Russomanno perdendo votos e o meio de campo embolado com Haddad e Serra. Não podemos esquecer que pesquisa nenhuma previu a vitória estrondosa e alucinante de Aloisio Nunes na última eleição pra senador. A Record e a Globo terem cancelado seus debates foi um desfavor para cidade e para democracia, a primeira por motivos obscuros, a segunda por birra infantil e mimada. O que ainda não entendi é a estratégia da Globo, porque acho que ela não ficaria muito feliz com uma vitória da Record também nas urnas.
Agora é torcer muito para um segundo turno palatável.
sábado, setembro 22, 2012
Penélope e Ulisses
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| Penelope - David Ligare |
Ulisses é o personagem da
Odisseia de Homero, era o cachorro de Clarice Lispector e é também o título do
livro de James Joyce.
James Joyce é irlandês e
seu livro sobre um 16 de junho de Leopold Bloom se passa em Dublin.
Dublin está a 9.384km de
São Paulo, no hemisfério norte, do outro lado do Oceano Atlântico.
O homem que amo foi morar
em Dublin.
E assim voltamos a Ulisses
de Homero, cuja esposa se chama Penélope.
Penélope fica e Ulisses vai
à guerra. Enquanto isso, por anos, Penélope é cortejada pelos homens de sua
cidade, muitos deles interessados nas posses de Ulisses que estão agora sob sua
responsabilidade. Ela, para se livrar dos pretendentes, como uma Sherazade
buscando se safar da morte, anuncia que só se casará novamente quando tiver
terminado de tecer o que havia começado.
Penélope tece durante o dia
e desfaz à noite, esperando fiel por Ulisses.
Ela não tem perfil no
Facebook, nem conta no Skype. Ulisses tampouco tem acesso a SMS ou à internet.
Vivem em outros tempos. Mas são do presente. Penélope e Ulisses são daqueles
personagens fundadores do pensamento ocidental, símbolos que explicam até hoje
nossa experiência.
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| Saudade - Almeida Junior |
Os demônios da ausência
contra os quais Penélope tem de lutar em sua guerra solitária são tão presentes
quanto a Medusa e as sereias enfrentadas por Ulisses em sua odisseia.
Mesmo com Facebook, Skype,
celular, avião e toda tecnologia a que tenho acesso, digo: Sou Penélope.
Isso não quer dizer que
estou sendo exagerada, dramática, desproporcional. Já ouço as vozes que se
querem razoáveis dizendo "mas ele não foi para guerra", "ele foi
porque quis", "não é impossível vê-lo", "você tem internet
e câmera integrada ao seu notebook". Sim, vozes pós-modernas, concordo.
Isso não faz de mim menos Penélope. É a força do símbolo, da alegoria até.
Ausência e saudade.
Suspensão.
Ainda que seja possível ter
notícias da pessoa ausente, isso não faz dela presente. Não há imagem, não há
mensagem e não há vídeo que coloque no real o cotidiano de volta em seu lugar.
Não há inovação tecnológica capaz de ser o abraço daquela pessoa durante a
noite, o comentário bobo e espontâneo diante da televisão, a companhia do café
da manhã, almoço e janta.
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| Penelope Unraveling her Work at Night - Dora Wheeler |
De Penélope e Ulisses de
Homero até eu e o homem que amo muitos anos se passaram. Os sofrimentos e
desejos humanos continuam os mesmos. A curiosidade e o ímpeto de conhecer o
novo em conflito com o desejo de segurança e o medo continua a confundir os
mais sensatos e os mais corajosos. O amor nos liga e nos dá vontade de seguir juntos
por aí, mas amor é asa - como diz Gabriela de Amado - e não cadeia, e o amor
quer ver o outro crescer e ser feliz, mesmo que para isso seja preciso sofrer.
A distância é cruel, mas o amor não é mesquinho. A ausência é túnel, mas o amor
é corda, é linha. Linha do tear de Penélope, fio de Ariadne.
"7. Instalo-me
sozinho, num café; alguns vêm me cumprimentar; sinto-me acolhido, requisitado,
lisonjeado. Mas o outro está ausente, evoco-o em mim mesmo para que ele me
retenha na beira dessa complacência mundana que me espreita. Apelo para sua
'verdade'(para verdade cuja sensação ele me dá) contra a histeria de sedução
com a qual me sinto resvalar. Torno a ausência do outro responsável por minha
mundanidade: invocosua proteção, sua volta: que o outro apareça,
que me retire, como uma mãe que vem buscar o filho, do brilho mundano, da
fatuidade social, que me devolva 'a intimidade religiosa, a gravidade' do mundo
amoroso.
8. Um koan budista
diz: 'O mestre segura a cabeça do discípulo debaixo da água, durante muito,
muito tempo; pouco a pouco as bolhas começam a se rarefazer; no último
momento, o mestre tira o discípulo, reanima-o: quando você desejar a verdade
como desejou o ar, então saberá o que ela é.'
A ausência do outro segura minha cabeça
debaixo da água; pouco a pouco, sufoco, meu ar se rarefaz: é por essa asfixia
que reconstituo minha 'verdade' e preparo o Intratável do amor."
Roland Barthes - Fragmentos de um
discurso amoroso
![]() |
| Penélope - Tatiana Blass |
segunda-feira, agosto 13, 2012
Balanço
Não sei bem ao certo se por conta dos mesmos medos que um dia me levaram a prestar concurso público para um "bom emprego" no qual eu ficaria sete meses, ou se por conta de uma conversa num café em Port-Royal na Paris de dois anos atrás, mas o fato é que resolvi prestar vestibulinho para um curso técnico de nível secundário.
Aquela conversa naquele café entre duas garotas intercambistas em Paris mexeu com as duas, foi aquele tipo de diálogo para um filme e que nunca mais sai da memória. Ali conversaram sobre projetos, vida acadêmica e futuro.
Dois anos depois reencontrei minha amiga em seu país natal, defendendo o mestrado, trabalhando como professora e, como pensáramos naquela conversa, guia de turismo durante o verão. A conversa no café nos levou à ideia de trabalharmos como guias de turismo em nossos respectivos países, fortes no setor, mais ainda o dela do que o meu.
Fui aprovada no vestibulinho, fiz a matrícula e lá fui eu, bacharel, licenciada e mestranda, voltar às cadeiras escolares.
Não há como não pensar em Drew Barrymore em Nunca Fui Beijada; uma jornalista que volta ao colégio para escrever uma reportagem. Como Josie, eu não fui lá muito popular no ensino médio, bom, até fui, só que ao contrário. Quase todos aqueles clichês de nerd-sofredor dos filmes americanos, eu vivi, de tachinhas na cadeira a lanche mastigado jogado dentro da mochila. Mas, diferentemente de Josie, eu não estou ali para trabalhar secretamente, nem preciso me envolver com os alunos para conhecer suas festas e costumes.
Como uma "professora-to-be", imaginei duas coisas:
1) nada pode ser pior do que as aulas de licenciatura. Meus colegas sabem o quanto sofremos naquelas aulas, logo, pensei que nenhuma aula, nem mesmo de um técnico, poderia ser pior do que aquilo, em termos de picaretagem dos professores e "contação de histórias" dos alunos. Ledo engano...
2) será uma experiência única para um professor ainda e sempre em formação poder estar do outro lado, já que grande parte dos alunos da turma ainda cursam o ensino médio e que, normalmente, os professores de filosofia trabalham nessa faixa de ensino.
Choque!
Infelizmente, constatei que ali acontece como em muitas escolas: uma mistura cruel entre pessoas que não querem ensinar, chamadas ainda assim de professores, e pessoas que não querem aprender, também ainda assim chamadas alunos. Isso é frustrante para aqueles que estão ali seriamente e com grandes expectativas em relação a um curso que é o único gratuito na área, ministrado por um centro público estadual prestigiado em todo país e obrigatório para se ter um registro no Ministério do Turismo.
A média de atraso dos professores para entrar em sala de aula para o primeiro horário tem sido de 30 minutos, a média, ou seja, tem professor que se atrasa muito mais. Depois de os alunos terem ouvido no primeiro dia que atrasos não seriam tolerados, que acarretariam em falta na disciplina e todas aquelas ameaças que professores não deveriam fazer em início de curso, uma vez que eles mesmos não conseguem cumprir com seus horários. E os atrasos se dão no primeiro e no segundo horário, após o intervalo. Após uma semana de aula eu entendi que não valeria a pena chegar na hora marcada anteriormente para esperar professor, então resolvi também eu chegar atrasada, ou seja, chego uns 5 minutos antes do professor entrar em sala. Um dia cheguei no horário "teórico" e sequer o portão da escola estava aberto...
O despreparo dos professores é flagrante, alguns parecem ter despencado de para-quedas numa escola, com dificuldades até mesmo para respeitar a língua portuguesa, outros buscam a aceitação dos alunos transformando-se em adolescentes, há ainda outro, o doutrinador, que diz ser seu papel "criar pessoas questionadoras", mas que solta os clichês mais batidos e não gosta de ser questionado pelos alunos.
Professores e alunos adoram usar exemplos como argumentação, o que me transporta para o famoso Muro das Lamentações das aulas de licenciatura, e as atrocidades faladas por professores em dez dias de aulas já daria um pequeno livro para uma série "Você está fazendo isso errado".
Ali uma Coleção Primeiros Passos já seria capaz de operar milagres. Uso então exemplos.
Um professor, que já mostrara na primeira aula ter muito senso histórico [cof cof] disse que um dos motivos pelos quais os povos pré-colombianos foram subjugados pelos espanhóis é o fato de serem ingênuos. Logo em seguida avacalhou o fato de só no Brasil escrevermos Brasil com S, que isso é um absurdo, que essa mudança devia ter sido feita no último Acordo Ortográfico, porque o mundo todo escreve com Z, então nós brasileiros devíamos também escrever com Z. No mesmo dia, para meu desespero, a seguinte frase: "Em sociologia, o que difere o homem do animal é a capacidade de se organizar para o trabalho. O índio não se organiza para o trabalho."
Outro professor, num acesso de machismo, soltou frases nas quais dizia que mulheres são fofoqueiras e adoram falar pelos cotovelos, enquanto a sala, garotos e garotas, riam alto. Um outro ainda busca valorizar a arte popular desvalorizando a arte que ele chama erudita, excluindo os alunos, colocando-os distantes dessa cultura, e ainda diz que uma banda ou uma orquestra toca Shakespeare. E para não acabar a semana sem nada, outro professor usa o termo "indigente" para morador de rua, mais de uma vez, sendo inclusive corrigido pelos alunos em suas respostas, que insistiam no termo "morador de rua".
Cada dia chegar e aguentar esse tipo de coisa, e ainda mais, tem sido um desafio que não estou certa de estar disposta a enfrentar. É uma mistura doída de inconformismo, revolta, vontade de fazer alguma coisa e não saber o quê, com o medo de enlouquecer.
Vou arrumar minhas coisas, trocar de roupa, senão chego mais atrasada do que o professor da primeira aula.
sábado, julho 28, 2012
Le garçon Tam-Tam
| Capítulo do filme Contos da Noite de Ocelot. |
Era um final de semana de fim de outono, um domingo bastante frio e com muito vento de novembro. Era a Festa das Ciências em Paris e por isso o museu Cité des Sciences et de l'Industrie estava com entrada gratuita. Nunca tinha ido ao Parque de la Villete (um dos maiores da cidade), nem ao museu - maior da Europa dedicado às ciências. Resolvi ir então.
O museu é bastante interessante, um Beaubourg das ciências. Eu gostei muito das partes sobre astronomia e óptica. Porém, terminado o museu, restava passear pelo enorme parque atravessado pelo canal de Ourcq.
O parque estava completamente vazio, talvez por conta do frio e do vento, a luz do fim de tarde era maravilhosa, e... um som diferente. Um som grave de tambor um pouco oco soava pelo parque.
Passarinho, que som é esse?
Fui seguindo o som até chegar a muitas árvores finas e com algumas folhas numa ingrime subida coberta de barro e folhas secas. Fui subindo e chegando cada vez mais perto do som.
Para além das árvores havia uma pequena arena cercada de baixas escadas nas quais estava sentado um homem tocando um tambor de som mágico. Fiquei escondida atrás de uma das árvores apenas ouvindo, mas o homem do tam-tam mágico me viu depois de um tempo, e me chamou para ouvir mais de perto.
Eu fui.
Ele tocou um pouco mais. Parou. Ofereceu-me o instrumento para que eu tocasse um pouco, mas desengonçada como sou, sem ritmo, foi um horror, mesmo que ele tentasse me ensinar as diferenças entre os sons dos cantos, do meio, tocando com as palmas das mãos ou com a ponta dos dedos.
O tambor era um tabla, um darbuka egípcio, feito de couro, madeira e corda. Aquele som de fato não me era estranho, me lembrava dança do ventre.
Começamos a conversar sem parar. Ele falava sobre o instrumento, sobre como aquele parque ficava cheio de pessoas e música nos dias quentes, sobre a tranquilidade para ensaiar, sobre sua vida e sua família. Andávamos então em direção à saída da Avenida Jaurès. Ele colocou a mão nos bolsos, mexendo numas moedas e disse: "Se eu tiver dinheiro o suficiente, você quer tomar um chocolate quente?". Eu respondi "claro".
Samad.
Aquela tarde teve de terminar porque eu devia pegar o metrô para encontrar um pessoal que conhecera na festa do Beaujolais. No final das contas ninguém apareceu, eu tomei um bolo depois do chocolate quente e nunca mais vi aquela magia do tam-tam que eu nunca mais esqueci.
segunda-feira, julho 02, 2012
COMIDA DI BUTECO
Durante o mês de junho aconteceu em São Paulo a competição "Comida di Buteco". Como eu sei? O SPTV da Globo me falou; afinal, "a tv do demônio" não é de todo mal. Achei que seria uma boa ideia ter um pretexto para sair de casa em algumas noites do mês para conhecer lugares da cidade aos quais nunca tinha ido. E, ali mesmo, diante da TV, a decisão foi tomada: tentar ir aos bares mais atraentes, sem pressa, sem desespero, conforme fosse dando.
A competição se mostrou uma ótima maneira não só de comer coisas deliciosas, como também de passear pela cidade conhecendo bairros bem diferentes, conversar com donos e funcionários de bares e, é claro, sair de mão dada por aí com o namorado.
É claro que ninguém sai impune. O repórter do SPTV que visitou os 49 concorrentes e que fez reportagens bem legais que por vezes me levaram a escolher um bar ou outro disse ter engordado quatro quilos, e com certeza não gastou um centavo. Já eu, engordei um quilo com apenas 7 bares e gastei uma boa grana, boa porque valeu cada centavinho.
Um amigo uma vez me ensinou que economizar com comida quando não se precisa fazer isso é besteira e que quando viajamos devemos nos deixar levar pelos prazeres da mesa. Quando viajo busco experimentar de tudo um pouco que couber no meu bolso, mas em São Paulo tendo a ser bem muquirana. Primeiro porque é uma cidade extremamente cara; segundo porque o dia-a-dia não permite luxos que normalmente nos permitimos em viagens, quando vivemos num "estado de exceção". Mas pensei que um mês gastando um pouquinho a mais não poderia me matar, e quem me conhece sabe que sou a pessoa mais mão-de-vaca que conhece...
A brincadeira-competição funciona assim: foram selecionados 49 butecos (definição discutivelmente aplicada a alguns) que deveriam criar ou selecionar uma comida em seu cardápio, aqueles que visitassem o bar e comessem aquilo que foi selecionado receberiam uma cédula na qual deviam, de um lado, preencher seus dados pessoais e, do outro, avaliar o "tira-gosto" provado (70% da nota), o atendimento, a higiene e a temperatura da bebida no local (outros 30%). Com o tempo, conversando com donos e funcionários, fomos descobrindo outras coisas, como por exemplo que os bares não se candidatavam, eles eram procurados por uma equipe e que um dos critérios para participar é que os donos trabalhem no buteco, ou seja, não basta ser dono e ficar num escritório ou em casa, tem que ser desses bares familiares em que o dono põe a mão na massa. Outra coisa interessante é que não só os butequeiros amadores como nós estavam avaliando, os bares eram visitados por um júri, que só se identificava ao final, apresentando uma "carteirinha" para não pagar a conta. Fiquei interessada em participar, quero ser jurada!
Após breve pesquisa no site do evento (http://www.comidadibuteco.com.br/), muito organizado e com mapas e fotos que facilitaram as escolhas, resolvemos ir num bar que há tempos tinha vontade de conhecer, graças a uma coluna no suplemento Comida da Folha, o Bar do Plínio.
O bar é famoso porque seu dono mesmo pesca no Pantanal os peixes ali servidos, até parece história de pescador. O "tira-gosto" (não gosto desse nome famoso da butecagem, seria mais um põe-gosto) escolhido fora inventado especialmente para a competição, chamava Rabo de Saia, um bolinho de traíra acompanhado por um saboroso molhinho feito de fruta, agora não lembro qual, mas era bem bom. O buteco, esse merecia bem o nome, fica numa esquina íngreme da Casa Verde, com garçons simpáticos e cardápio recheado, de fato, com peixes de todo tipo por preços até que justos, tendo em vista a conjuntura da cidade. Quando terminamos de comer ainda estávamos com fome e disposição para visitar outro lugar, primeiro dia, sem preparo e sem internet, perguntamos ao garçom que nos atendia se ele conhecia outro bar na região que estivesse participando também. Ele nos indicou o Bar do Luiz Fernandes no Mandaqui e até me ensinou como dirigir até lá. Esse é outro bar bastante falado na cidade e tradicional também.
Bom, claro que eu errei por uma rua o caminho e não achei o bar, só a filial não-participante da Av. Eng. Caetano Álvares, mas foi bom duas vezes, uma porque ele já estava fechado (descobrimos depois que o bar fecha aos sábados às 19h) e duas porque encontramos, sem querer, O Alemão. Como os bares participantes penduram bandeirinhas do evento e uma placa na entrada, tivemos o prazer de passar diante de um bar participante. O Alemão é dirigido por um ex-garçom do Bar do Luiz Fernandes, justamente; um catarinense que justifica o apelido de "alemão" (em São Paulo todo loiro vira o alemão da turma). O quitute por ele oferecido no bairro do Imirim é um risole de berinjela chamado Escondido de Berinjela, que com o passar do concurso mudou de nome oficial para risole, mesmo. Talvez o problema era que fosse oferecido grande em unidade e não pequeno em porções, mas ainda assim delicioso, bem recheado e de fritura sequinha. Ali o atendimento foi tão bom, o dono tão simpático e falador, que ficamos para outro prato fora do concurso e comemos costelinhas de porco. Além da simpatia do dono e dos funcionários, o bar está entre os meus favoritos para um retorno pós-competição pelo preço e fartura; a mesa ao lado comia uma carne seca com mandioca que sustentava umas cinco pessoas. Buteco é isso,né? Simplicidade, cerveja barata e comida de acordo com a sede e a fome.
Para o segundo final de semana decidimos nos preparar mais e não irmos à zona norte. Graças à reportagem do SPTV escolhemos o bar Amigo Leal e, no caminho de volta para casa, a Cervejaria do Alemão. Depois dos bares visitados devo dizer que a melhor comida foi a do Amigo Leal, bar embaixo no Minhocão na Santa Cecília (o site diz ser na Vila Buarque, eu arrisco até República, mas enfim). Eles resolveram fazer um prato bem maluco e chamá-lo de Doidera Alemã. Um dos patrocinadores da competição era o Doritos, então eles fizeram um prato de joelho de porco frito e em volta uns doritos de queijo nacho com um patê de repolho roxo e maionese (outro patrocinador era a Hellmans). Falando até parece pouco atraente, mas a qualidade da carne e a mistura de sabores e texturas que acontecia na boca merece o prêmio de uma das melhores coisas que comi na vida. Originalidade, nesse quesito o bar merece nota 10. Porém, o bar é, digamos, muito "sofisticado" para ser chamado de buteco, ainda mais com "u", está mais para restaurante alemão, e estava bem cheio e por ser pequeno, muito barulhento. O atendimento não era amigável, apenas respeitável, e nada pessoal.
| Atestado da Cervejaria do Alemão |
No caminho de volta do centro para casa, paramos na Mooca, meu! E lá fomos conferir um bar que dá Atestado de Buteco. A Cervejaria do Alemão atesta, para quem precisar, com assinatura do dono, que o cliente esteve no local de tal a tal horário, em tal data,sob cuidados profissionais para tratamento "cervejalógico e choppológico". Se eu ainda trabalhasse no banco, com certeza levaria para minha chefe depois de faltar um dia, seria, no mínimo, hilário. Ali não só o dono trabalhava, mas também a esposa muito simpática e a filha. A porção era bem interessante: Costelinha de Tambaqui. Peixe gostoso e bem fritinho, fresquinho, mas sem muito inovação no sabor, apenas na apresentação; eu, pelo menos, nunca tinha comida costelinha de peixe. Além disso, já estávamos bem satisfeitos e cheios da grande porção de joelho de porco do bar anterior.
No terceiro dia de bares decidimos ir a um só, pois também queria ir experimentar um milkshake com sorvete Häagen- Dazs que estava sendo testado numa hamburgueria da cidade, a qual também nunca tinha ido, bem fancy por sinal. A hamburgueria e o milkshake não tem nada a ver com o Comida di Buteco, mas se você chegou até aqui no texto é porque gosta de comida, então vale a pena falar um pouco mais do assunto. A Häagen- Dazs me fez saber pelo Facebook que estavam testando no General Prime Burger quatro novos sabores de milkshake usando sorvetes da marca, e aquelas fotos me deixaram louca, não pude resistir e quis ir lá provar pelo menos um. Entre Tamarindo, Floresta Negra, Beijinho e Romeu e Julieta escolhi o segundo sabor porque era o único que levava sorvete de chocolate e não de baunilha. O namorado não pôde deixar escapar a cena de Pulp Fiction, quando Vincent fica abismado com o preço do milkshake que Mia pede na lanchonete:
VINCENT: Did you just order a five-dollar shake? (Você pediu o milkshake de 5 dólares?)
MIA: Sure did. (Claro que sim)
VINCENT: A shake? Milk and ice cream? (Um milkshake? Leite e sorvete?)
MIA: Uh-huh.
VINCENT: It costs five dollars? (Custa cinco dólares?)
MIA: Yep.
VINCENT: You don't put bourbon in it or anything? (Você não coloca bourbon nele ou coisa assim?)
WAITOR: Nope.
VINCENT: Just checking. (Só checando)
Well, o milkshake custava bem mais de cinco dólares nesse caso, mas quando ele veio e experimentamos, a reação foi a mesma que de Vincent:
"That's a pretty fucking good milkshake. I don't know if it's worth five dollars but it's pretty fucking good." (Esse é um puta de um milkshake bom. Não sei se vale cinco dólares mas é bom pra caralho).
Mas essa incrível experiência milkshakeana foi depois de
visitarmos o bar Leporace, no Campo Belo. Um dos primeiros que tinha visto na
TV, ele me chamara minha atenção porque seu quitute era "meio" árabe.
O Arais é uma porção de pão sírio cortadinho depois de recheado com
carne moída temperada com especiarias assado na grelha, acompanhado com molho
de coalhada seca. A foto não mentia, aquilo tem uma gosto diferente e muito
bom, para quem gosta de sabores árabes é uma beleza. A porção peca apenas por
ser pequena e, por isso, não fazer jus ao preço. O bar mais longe ao qual fomos
também não poderia ser chamado de buteco, mas talvez de "boteco
chique", que é mais hype; atendimento comum, nada memorável na simpatia ou
amizade.
Depois de um final de semana
comendo churrasco em Lins, no último final de semana da competição fomos a dois
bares da zona norte. O Mercearia ZN nos atraiu pela proposta de Purê de Mandioquinha
com Carne Seca, e se revelou um "barzinho chiquetoso" bem atraente em
meio ao Jardim França. Da comida devo dizer que o purê roubou o prato com o
molhinho de pimentão vermelho, um dos quatro mini-acompanhamentos do prato, e
que a carne seca estava salgada demais. Ali, como em outros bares, apesar de
vazio, o atendimento não foi nada especial, mas quero crer que estavam já
cansados, uma vez que chegamos lá quase meia noite. Não posso esquecer de falar
que ri muito ao ir ao banheiro do Mercearia ZN, voltei sorrindo à mesa, pois no
banheiro feminino havia cabine para deficientes físicos, porém o banheiro
ficava no segundo andar da casa após dois lances consideráveis de escada, e não
conseguimos localizar elevadores na casa. Curioso, para dizer o mínimo.
Para encerrar a noite, e
nossa pequena participação na competição, fomos ao Famoso Bar do Justo em Santana. O mais antigo
bar participante está ali pertinho do metrô Carandiru desde 1946 e transformou
o clássico Bolinho de Bacalhau no segundo quitute a merecer uma nota 10 em
minha cédula. Além de sequinho e com gosto, de verdade, de bacalhau, eles
tiveram a brilhante ideia de rechear o meio do bolinho com requeijão cremoso e
azeitona preta, era de comer de olhos bem fechados. Buteco butecão, esse fica
aberto até as 3h da matina, não tem chopp, o preço da cerveja é meio salgado,
mas os salgadinhos no cardápio são diversos. O garçom que nos atendeu era
divertido e educado (brincou com minha insistência por refrigerante zero e
opção pelo suco de abacaxi sem açúcar), nos contou a história dos jurados e
respondeu à nossa pergunta:
- Afinal, quem ganhar, ganha o que?
- Bom, aparece na Globo, até no Jornal Nacional.
Precisa dizer mais? Além
disso, como ele lembrou, só de participar o bar já ganha visibilidade e novos
clientes, como nós, que fomos ali por conta da competição e que com certeza
voltaremos e indicaremos aos amigos. Certeza! Disse até que se eles ganhassem
era pra gente dar uma ligadinha lá e falar com ele porque vai ter comemoração.
Com essa espécie de
brincadeira de caça ao tesouro misturada a eleições aprendi várias coisas sobre
butecos, comida e São Paulo. Talvez a mais importante seja que sair de carro à
noite em Sampa é bem mais tranquilo e divertido quando buscamos descobrir bairros
fora do eixo Vila Madalena - Pinheiros - Augusta, evitamos o estresse do
trânsito, dos valets, das filas e das entradas cobradas. A zona norte me
surpreendeu positivamente, já estava explorando a região antes do concurso e
agora vou me dedicar mais a ela, com exceção da loucura da Av. Eng. Caetano
Alvares e da Av. Dumont Villares (a rua do SESC Santana), ali é possível
estacionar sem problemas e não há trânsito nem muvuca. Alguns já sabem que me
nego a pagar "vigiadores de carro" e evito estacionamentos, pois a
rua é de todos, inclusive minha. Todos os bares foram visitados de carro e em
todos eu estacionei na rua, em lugares próximos aos bares. É claro que sair de
carro tem suas desvantagens, ser a "motorista da vez" impossibilita o
chopp gelado e a cartela de cachaças. Também percebi que temos muitas palavras
e especificações para bares, de buteco a barzinho há uma gama extensa, que
sentimos logo quando damos de cara com um bar; e que comida de buteco está
também sofrendo as consequências da importância crescente que a gastronomia vem
ganhando em São Paulo ,
consequências positivas no sabor e variedades que melhoram, mas negativas nos
valores e supervalores que começam a aparecer.
Agora é esperar pra
saber se tive um bom faro e se o vencedor estará entre os que visitamos. O
resultado sai dia 10 de julho.
| Doidera Alemã - prato do Amigo Leal |
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