segunda-feira, julho 15, 2013

Fauna e Flora do Metrô de Sampa


  São Paulo é uma cidade sem muito verde e cuja fauna por vezes parece não ter muito mais do que mosquitos, ratazanas e baratinhas. Por isso, resolvi homenagear plantas e animais tão raros em nossa cidade cinza para caracterizar os usuários do metrô.
   Esse metrô maluco, de poucas linhas e muita gente, onde todo dia o pessoal viaja amarrotado e tem de fazer força para não enlouquecer empurrando e sendo empurrado, na lentidão e nos solavancos de um trem que, faça chuva, faça sol, vive com aquele anúncio "devido a problemas na estação X, estamos circulando com velocidade reduzida e maior tempo de parada".
   Quem anda reconhecerá ou se reconhecerá no reino selvagem do metrô.
 
Borboletas e mariposas 
Aquela velha história de saber a diferença entre elas pelo jeito como suas asas ficam quando param. Nos corredores do metrô há passageiros borboletas, que seguram discretamente nos tubos verticais para não caírem, sempre de braços fechados, mantidos perto do corpo, ou nos altos horizontais com um braço só ou com os dois grudadinhos. Já os passageiros mariposas são espaçosos e gostam de abrir as asas quando param nos corredores, como se espreguiçassem, seguram uma mão na barra vertical, outra na horizontal e ocupam dois metros, não deixando espaço para as pobres borboletas se equilibrarem.

Mosca tsé- tsé
A mosca africana Glossina palpalis misteriosamente vive no transporte público de uma cidade sem mata como Sampa. Transmissora do Trypanosoma brucei (protozoário causador da doença do sono), ela ataca aqueles que se sentam nos bancos preferenciais para idosos, grávidas e pessoas com criança de colo ou com deficiência. As picadas acontecem mais frequentemente no período da manhã e horários de rush, quando o metrô, e também os ônibus - sim, essa espécie também vive em ônibus - estão bem cheios.

Ruminantes
Esses mamíferos de estômagos complexos, com três ou quatro câmaras, estão sempre a comer. Na ida, na volta, na plataforma, nas escadas, nas catracas, não importa. Os ruminantes mais junky food vão com seus pacotes de salgadinhos de todos os tipos e todas as cores, e latas de refrigerantes e coxinhas de frango. Já os ruminantes mais saudáveis mastigam suas maçãs, seus lanches naturais em pão integral e tomam um suquinho de frutas de caixinha ou uma garrafa d'água.

Tubérculos
Os passageiros tubérculos vivem enterrados em seus celulares, smartphones, tablets e geringonças eletrônicas que o valha. Só olham para baixo e nunca para frente ou para os lados. É preciso muita força para arrancá-los da terra - das telas, o que por vezes pode fazer com que percam a estação em que deveriam descer ou fiquem na frente de todo mundo que quer passar pelos corredores, portas e escadas.

Dromedários
Os dromedários são muito frequentes nos vagões dos metrôs, aparecendo bem mais do que os camelos. Com sua bossa única, ocupam o espaço de duas pessoas nos corredores e quando se mexem podem chegar a machucar demais passageiros, tamanho o peso de sua bossa. Camelos, que carregam duas bossas, e dromedários, insistem em ignorar os pedidos de campanhas do sistema metroviário que pedem que carreguem bossas e mochilas nas mãos e que tomem cuidado para não ficarem presos nas portas dos trens.

Árvore
O passageiro árvore, onde para, cria raízes, e aí nunca mais sai do lugar. O terreno favorito para seu plantio é na região das portas dos trens e na esquerda das escadas rolantes.

Abelhas
O metrô está sempre cheio de abelhas abelhudas. Não se preocupem os alérgicos à la "My Girl", essas não picam. Elas estão interessadas na vida e conversa dos outros. Ao que aquele mocinho está assistindo no tablet? O que aquele casal está discutindo? E, o mais importante para as abelhas: Que livro o passageiro ao seu lado, em sua frente ou ali do outro lado do vagão está lendo? Elas, quando sentadas, quase caem de seus bancos, quando de pés, se contorcem como circenses, tudo para descobrir o que o outro está lendo. As mais abelhudas leem junto com o passageiro do lado, e ficam bravas quando o leitor vira a página antes de ela ter terminado sua leitura.

Leão
Ele é o rei da selva. Um dia seu pai disse que tudo que o sol toca seria dele. O sol tocou o metrô. E ele não respeita a ordem do montinho para entrar no trem, empurra todo mundo no Brás e quando alguém reclama, ele diz, como se os passageiros fossem todos da família do Eike: - Quer conforto vai de helicóptero!
Além disso, todos seus súditos devem se curvar a seu gosto musical e ouvir sua música. O rei não precisa de fones de ouvido.




segunda-feira, junho 10, 2013

Show no Facebook



Quem me conhece sabe: sou chata. Além de mão-de-vaca, tendo a ser muito mal-humorada quando pessoas não deixam a esquerda livre nas escadas rolantes e empacam na porta do metrô ao entrar. Também não curto ir à 25 de março em dias próximos ao Natal e Carnaval, odeio que cabelos alheios encostem em mim, não deixo meu belo-palio-97 com valets e meu esporte favorito, depois talvez de levantamento de garfo, é reclamar.
Reclamo de tudo - tema de muitos posts aqui - e esse é mais um post de reclamação.
Não curto muito ir a shows em que se deve ficar de pé, com exceção de alguns na choperia dos Sescs Belém e Pompeia, prefiro ficar sentada na grama do Sesc Itaquera e do parque do Ibirapuera, ou ficar sentada na minha poltrona, mexendo os braços e batendo os pés. Odeio mortalmente quem fica do meu lado cantando as músicas que estão sendo tocadas, afinal, estou lá para ouvir o artista no palco e não o artista-de-chuveiro-se-realizando-do-meu-lado. (Eu sei, todos os meus amigos já me disseram que isso é chatice minha). Não suporto sequer a ideia de ir a um festival e ficar o dia todo vendo bandas aleatórias, usando banheiro químico, comendo pizza-congelada-da-sadia de 10 dilmas e bebendo copo d'água de 5 dilmas, para ao fim do dia ver a banda-mais-bonita-da-cidade.
Já fui ao show do New Order em 2006 no Via Funchal e ao grande show da Björk na Pedreira Paulo Leminski, em Curitiba, em 2007, grudada na grade gritando feito groupie após cada música. E foi só.
Aí, num impulso muito louco, três dias antes do show, resolvi gastar uma pequena fortuna para assistir ao retorno do The Cure ao Brasil após 17 anos sem nos visitar. Oh, The Cure, que junto com The Smiths, New Order, When In Rome, Erasure e outros, fez minha alegria nas festas da Thorns (quem lembra?), quando meu pai ia como responsável por mim e meus amigos menores de 18 anos.
O show foi memorável. Diria, até, que valeu cada rico centavinho. Porém (sim, sempre há um porém), o público era muito estraga-prazer. Chegamos cedo, mas não o suficiente para ficar perto do palco. Ficamos bem localizados, perto da lanchonete e não muito longe do banheiro, bem no alto de um pequeno morro, excelente para quem tem 1,60m num show enorme no Anhembi. Aos poucos o pessoal foi chegando e apertando, apertando e colocando seus 2m de altura a dois centímetros dos meus olhos. Até aí tudo bem né, faz parte.
Mas por que raios você vai para um show para ficar de papo com seus amigos a altos decibéis, do lado de gente que quer curtir o cara que tá lá em cima dando o sangue para cantar? Um grupo de uns seis adolescentes que estavam colados em mim não paravam de reclamar que não conheciam as músicas, ficavam de assuntos aleatórios e postavam fotos loucamente no facebook. Lou - ca - men- te!
Robert Smith no auge dos seus 54 anos cantou por 3 horas e meia sem parar, bela, linda e empolgadamente. É claro que em três horas ele não ia cantar só Boys don't cry, né, meu bem?! Então não reclama de não conhecer as músicas que você pagou 200 contos para ouvir, ou melhor, para não ouvir.
Eu já avisei lá no começo que sou chata. Mas juro que eles falavam alto demais, a ponto de não dar para ouvir as músicas direito. Sério mesmo. Há testemunhas. Eu só me pergunto: por que?
Aí eu me toquei. Eles não paravam de falar de fulano do facebook, sicrano do instagram, e na real, acho que estavam ali mais para dar check-in no foursquare e postar fotos no face dizendo que estavam lá. Aliás, quantas vezes você já não foi a um show em que era impossível ver o cara no palco a não ser por visores de câmeras alheias?
Há pessoas que não vivem mais para viver, mas vivem para contar na internet que estão vivendo e como estão vivendo.
Dancei, dancei muito até furar ainda mais meu tênis. Gritei e cantei. E vou, mais uma vez, sentir saudades do The Cure.

quinta-feira, março 28, 2013

Tempo Reverso

"Rua da União...
Como eram lindo os nomes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame do Dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
... onde eu ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
... onde se ia pescar escondido."
Manuel Bandeira, trecho de Evocação do Recife


Há um lugarzinho em São Paulo, atrás da linha de trem, em que seis ruas paralelas só de casas e sobrados nos transportam para outra dimensão.
Ali eu imagino um senhor apressado morando na rua Calendário, um viajante do tempo chegando em sua super máquina na rua Tempo Reverso, um casal apaixonado caminhando de mãos dadas na rua Sinfonia Branca, enquanto um casal se separa após anos de amor na rua Cantiga do Desencontro. Uma adolescente confusa olha para as opções que tem diante de si na rua Ramo de Rumos, e um astrônomo faz pesquisas sobre solstícios e equinócios na rua Relógio de Sol.
Desde que descobri esse lugar espremido ao sul por um murão da CPTM, a norte por um condomínio de prédios, a oeste por um viaduto e a leste por uma fábrica, ficava me perguntando de onde saíra nomes tão bonitos para ruas. Eu, que moro numa praça com nome de santa e que cresci numa rua com nome de um tal doutor-não-sei-das-quantas-que-não-aparece-no-google, sempre sonhei com uma cidade na qual uma avenida enorme se chamaria Manuel Bandeira e aos políticos restaria, quando muito, as pequenas ruas. 
Em São Paulo a família Maluf dá nome a metade da parte sudeste da cidade, há ruas importantes com nomes de brigadeiros, marechais, coronéis e batalhas da Guerra do Paraguai, uma rodovia chamada Castelo Branco (e não é o castelo de uma princesa), enquanto Guimarães Rosa e Vinícius de Moraes são ruas mirradinhas que quase ninguém reconhece quando passa por perto. 
Há paulistanos sortudos que moram na rua Três Cantos Tupis, na rua da Saudade, rua Amizade do Tatuapé, enquanto outros muitos sequer sabem quem foi o fulano que dá nome a seu endereço, ou professam fé diferente da do santo que vem abaixo de seus nomes nas correspondências.
Se você pudesse mudar o nome de sua rua, qual escolheria? 
Em tempo, os nomes das seis ruas paralelas, que ficam na Lapa, são uma homenagem ao poeta paulistano Paulo Bomfim, e são nomes de algumas de suas obras. Entre outros títulos seus, estão lindos nomes para ruas: Poema do Silêncio, Armorial, Colecionador de Minutos, Praia de Sonetos, Súdito da Noite e Tecido de Lembranças.

Apesar de chamar os nomes de bizarros, que eu qualificaria como maravilhosos, o blog Pensar Enlouquece, de Alexandre Inagaki, tem um post incrível sobre nomes de ruas baseados em músicas e outras coisas mais legais do que nomes de políticos e engenheiros: 
http://pensarenlouquece.com/os-nomes-de-ruas-mais-bizarros-google-street-view/

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

Viagem ao Sambódromo


Como muitos paulistanos e paulistanas, fui ao sambódromo no último sábado, dia 02 de fevereiro, para prestigiar as escolas de samba em seus últimos ensaios técnicos. Como já imaginava que ficaria muito tempo no ponto esperando pelo ônibus, resolvi checar no site da SPTrans o horário do próximo Ceasa a sair do Terminal Penha ( http://www.agora.uol.com.br/saopaulo/ult10103u1082844.shtml ).
Qual não foi minha surpresa ao descobrir que o famoso 278A Penha-Ceasa que liga a zona leste à zona oeste passando, por exemplo, pelo sambódromo, teve seu trajeto reduzido até Santana. Segundo o site só há dois ônibus que passam pela Av. Olavo Fontoura, ambos saem do metrô Santana em direção a bairros mais distantes dentro da zona norte.
Recorri então ao metrô, e resolvi parar antes na estação Portuguesa-Tietê, sem sair da catraca, para checar se não havia, quem sabe, um ônibus de lá que passasse próximo ao sambódromo, já que ali é a estação de metrô mais próxima, ou quem sabe, considerando as proporções do evento, a prefeitura não teria disponibilizado um ônibus que fizesse o trajeto. Na catraca encontrei uma funcionária do metrô que me disse que eu poderia pegar o Ceasa ali.
- Sério? Mas no site da SPTrans essa linha não existe mais.
- Tem sim, pode descer aqui e pegar.
- Certeza?
- Certeza!
Ao descer para a Av. Cruzeiro do Sul, na saída da estação, perguntei a dois seguranças terceirizados trabalhando ali se o Ceasa ainda passava no ponto ao lado da banca.
- Ceasa? Não tem mais. Mas passa o Hospital Cachoeirinha aqui que vai para lá.
(Cachoeirinha é um dos que o site informava que saia de Santana e passava na Olavo Fontoura).
Fui então para o ponto, cheio de membros de escolas de samba com camisetas de suas agremiações, senhoras baianas, músicos, foliões que ensaiariam e que assistiriam. Todos ali esperando o Ceasa, ninguém ali sabia que o ônibus não operava mais esse trajeto.
Nos meus saudáveis 25 anos, resolvi esperar pelo tal ônibus e não fazer os 3km que separam a estação de metrô do sambódromo a pé, pois não consegui ninguém para me acompanhar, já era noite e tampouco tenho minha segurança garantida no caminho até lá. Quem já fez o trajeto sabe que, mesmo de dia, não é nada animador, com aquela passarela no Campo de Bagatelle nem um pouco pedestrian friendly, muitos muros e pouca iluminação, sem falar na precária calçada da Av. Olavo Fontoura.
Fiquei uma hora no ponto, das 20h às 21h, e, num sábado à noite, na semana que antecede o carnaval, nenhum ônibus da tal linha passou. (Checando no site da SPTrans no dia seguinte vi que a linha devia ter três carros saindo do ponto final nesse intervalo aos sábados.) Mas, é claro, quando o Estado se omite a população fica à mercê da ilegalidade e uma van clandestina estava operando o trajeto metrô Portuguesa-Tietê/Anhembi, cobrando R$3 de idosos e, é claro, não aceitava bilhete único nem concedia o direito a meia -passagem a estudantes e professores. Durante a uma hora que passei no ponto ela passou após a primeira meia-hora e depois de 25 minutos de novo. Uma van clandestina pegava a Marginal Tietê lotada de pessoas, sentadas e de pé, deixando todos ao lado da Campus Party 2013, a 20 passos de uma base móvel da PM.
Procurei um guarda da GCM:
- Olha, gostaria de avisar que tem uma van clandestina operando o trajeto do metrô Tietê até o sambódromo.
Cara de paisagem por 10 segundos.
- Ah, a CET já está tomando providências.
- Ah é? Porque fiquei uma hora no ponto e ela operou normalmente.
Cara de paisagem pra sempre.

Ao chegar em casa e pesquisar sobre o ônibus e a mudança de trajeto, descobri um abaixo-assinado contra a alteração que foi anunciada em janeiro de 2013 ( http://www.peticaopublica.com.br/?pi=P2013N34330 ), além do artigo do Agora de abril de 2012 com link no início do texto. O abaixo-assinado dá ótimas razões para a linha não ser alterada, mas mais uma vez as empresas de ônibus ganharam e a população perdeu.

quinta-feira, novembro 29, 2012

Uma casa nada engraçada



Eu estava na 2ª série, tinha 7 anos, era o tempo em que condicionador chamava creme rinse, chamávamos pizza pelo orelhão que ficava duas ruas atrás de casa, eu colecionava os cartões da Telebrás e da Telesp e todos falavam 2ª série do Primário, embora já existisse a denominação oficial de Ensino Fundamental.
A professora da minha turma se chamava Alexandra e todos gostávamos dela, mas isso não impedia que fossemos terríveis pestinhas.
No Colégio Floresta, onde estudava, cada mês uma turma cantava uma música nacional para o resto da escola. Até hoje conheço a letra inteira de Pensamento, do Cidade Negra, e de Admirável Gado Novo, por exemplo.
Um belo dia, a professora Alexandra passou para copiarmos da lousa uma música já conhecida de todos para que cantássemos.
Era uma casa muito engraçada
Não tinha teto, não tinha nada
Ninguém podia entrar nela não
...
Essa aí! Ela pediu que lêssemos e que pensássemos na letra, a sala então ficou aquela bagunça. A professora começou a falar:
- Pessoal, que casa é essa? Vocês sabem?
Pois é, eu ouvi ela dizendo isso. Mas muita gente não ouviu. Estava aquele fuá na sala e a professora disse que só contaria que casa era aquela se a sala ficasse calma e em silêncio. Bom, a turma não ficou quieta.
Passaram-se 18 anos e eu ainda penso: Mas que porra de casa é essa?
Cantarolo, leio a letra, escuto a música e nada!
Moral da história: Você, professor, professora, por mais que você ache que ninguém está prestando atenção em você, alguém está e esse momento pode ficar marcado na vida desse alguém pra sempre.
É capaz que minhas últimas palavras sejam:
-Que casa é essa?

quinta-feira, outubro 04, 2012

Eleições 2012


Os que me conhecem e tem me visto nos últimos tempos sabem que de cada dez palavras que eu falo duas são reclamando do curso que estou fazendo na ETEC, três são sobre comida e cinco são sobre as eleições municipais que se aproximam. Quando considerados os status de Facebook, ali talvez a proporção seja de cada dez, dois são sobre Gabriela, dois são reclamações em geral e seis sobre as eleições. Assim sendo, estou impressionada com o fato do dia 07 de outubro estar se aproximando sem que eu tenha dedicado um post sequer à questão.
Daqui três dias vamos às urnas e as pesquisas ainda mostram um cenário digno de um 2012 como ano do fim do mundo. Pensando na catástrofe possível que se aproxima pensei muito em mudar meu voto, praticar o conhecido voto útil e tenho certeza de que não sou só eu na cidade de São Paulo pensando no voto-salve-se-quem puder. Mas no fim resolvi que não mudarei, continuarei no voto que considero o melhor, e não o menos pior. Meu voto é minha voz, é um voto de confiança e de apoio, e eu vou dá-lo ao melhor candidato, àquele que tem as melhores propostas, ainda que ele não tenha chances reais de ganhar. Quem já viu meu carro, minha bolsa e meus bottons sabe que meu candidato é o Giannazi do PSOL e não tem porque não dizer isso.
Ainda assim, definido o voto já desde o começo das oficializações de candidaturas, acho importante saber o que dizem os demais candidatos. Mesmo que se tenha certeza do voto, que se conheça muito bem as propostas do seu candidato, é preciso acompanhar a corrida eleitoral, as propostas e propagandas de todos os candidatos. Fazer parte da democracia não é apenas acordar cedo e disposto no domingo e ir votar, é acompanhar as candidaturas, conhecer as plataformas, assistir aos debates e saber quem são os candidatos que se abandona ao escolher um único, já que nem sempre aquele que se escolhe será o vencedor. Além de ser uma atitude republicana e interessante a de buscar entender as motivações que levam a maioria a votar naquele que ganhar.
Já ouço as vozes dos defensores do voto nulo [quem lê esse blog sabe que ouço vozes, o tempo todo] dizendo que a política não vale a pena, que todos os políticos são iguais e que igualmente nenhum presta. Eu estou com aqueles que acreditam que ao abandonar a política por desprezo ou pretenso nojo, se está fadado a ser governado por aqueles que não sentem nojo. Além do que, a política não é nojenta nela mesma, ela é um aspecto incontornável da vida, você pode até fugir dela, mas deverá arcar com as conseqüências. Numa reinterpretação de Aristóteles, eu diria que interessar-se por política é como escovar os dentes e tomar banho, você não é obrigado a fazê-lo, mas isso influencia diretamente na sua vida social. Se você abandona uma situação, alguém toma conta dela. Simples assim.
A cada eleição fica mais e mais evidente a necessidade de uma reforma partidária no Brasil. Partidos surgem como mato na calçada, são bancados por verbas públicas e promovem figurinhas. Há muito não existe no país o voto pelo partido e sim pela figura, muitas vezes o eleitor sequer conhece o partido do qual o sujeito faz parte, qual sua filiação ideológica e sua história; o importante é um único indivíduo, como se ele fosse gerir uma cidade, um estado ou o país sozinho. Não se sabe mais o que é esquerda e direita, e pega bem falar que é de centro e que colabora pelo fim da disputa entre dois lados que são historicamente inconciliáveis. E aí surgem as figurinhas douradas super poderosas que fazem crer que a política seja simples e feita de meras opiniões.
Os candidatos a prefeito de São Paulo são numerosos demais, tornando a escolha confusa, pulverizada e favorecendo estrelismos. Venho observando a campanha desde o início e acho que é chegada a hora de fazer comentários aos candidatos, na reta final.

Miguel Manso (PPL) – ainda no começo da oficialização das candidaturas fui a um debate organizado com os candidatos pela Rede Nossa São Paulo, e apareceu esse Miguel Manso de um tal de PPL. Eu nem sabia que existia um partido chamado Pátria Livre, aprovado pelo TSE em outubro do ano passado e formado por militantes do MR-8, o que, diga-se de passagem, não se percebe muito pela propaganda eleitoral do candidato à prefeitura de São Paulo, que pelo discurso aproxima-se mais a figuras como Levi Fidelix do que Anaí.

Eymael (PSC) – esse e o candidato do PRTB sequer merecem meu respeito; são chupins do sistema necessitado de reforma partidária, se candidatam a cada dois anos para qualquer cargo para se beneficiarem da grana pública pra campanhas. Além disso, o Eymael há anos com essa música grude pode estar incluído entre os melhores jingles publicitários da história e rivalizou com Chalita nas frases de efeito lendo textos que pareciam jograis de escola.

Levi Fidelix (PRTB) – o candidato eterno está todo feliz com essa história do monotrilho ser uma cópia da sua ideia do aerotrem, lançou sua filha pra vereadora e se beneficia dos votos-tiririca de pessoas que acreditam ser nele um voto de protesto ou simplesmente que ele merece votos por ser engraçado. Um pulverizador a favor do PSDB, ficou trocando amores com Serra nos debates e arrancando risadas das platéias; e, apesar de estar correto em seu argumento, travou a possibilidade de debate na Globo.

Ana Luiza (PSTU) – o partido se esforçou, os programas de TV estavam super bem-feitos e com bom texto. Assim como o PCO, o PSTU abandonou a estética Dolly tradicionalmente ligada à esquerda mais radical brasileira e parou de insistir na frase “Contra burguês, vote 16”, que pelo menos era atrativa e incisiva.

Anaí Caproni (PCO) – todos os dias naquela espécie de biblioteca das propagandas que esqueceram a roda dentada, nada de fábrica, indústria, operários, só a Anaí falando entre livros. Apenas no último dia voltaram ao jargão com ar de Star Wars: “quem bate cartão, não vota em patrão”.

Giannazi (PSOL) – não fui só eu que reclamou do corte de cabelo, todos sabem que a apresentação é importante e por isso os candidatos escolhem bem suas roupas e sapatos de acordo com a mensagem que querem passar. Aparentemente o PSOL tinha a menor verba para as campanhas da TV, ou pelo menos tinha os piores técnicos de audiovisual, a captação de som era sempre péssima e foi o único partido da esquerda a manter a estética visual da miséria, ainda que a música seja bem gostosa e grudenta. Giannazi ligou o Plínio-mode-on em alguns momentos do debate e avacalhou todo mundo do jeito que merecem, dos tucanos aos petistas, sem perdoar o pelego da Força. Porém, talvez a estratégia do PSOL de igualar PT e PSDB não seja a melhor para São Paulo, o PT não está acima do bem e do mal, é verdade, nem o partido, nem o Lula, mas num momento em que Russomanno ganhava vantagem na cidade era importante focar nele e talvez assumir um discurso um pouco mais simples e direto ao invés de citar frases de professores da USP, isso só atrai votos da USP e por lá o Giannazi aparece empatado com Serra na disputa.

Paulinho da Força (PDT) – o pelego da Força quer se passar por defensor dos trabalhadores só porque é sindicalista. Começou a campanha dizendo desconhecer quem seja Paulo Freire, mas criticando o fato de os alunos não serem mais reprovados. Deu muito mais atenção às multas aplicadas a motoristas e aos semáforos (o que ele chamava de uma cidade injusta com seu cidadão), do que à injustiça do transporte público. O mais despreparado dos candidatos.

Soninha (PPS) – a Sonsinha. Nem ela vai votar em si mesma, parece que vai votar no Serra, que ela defendeu quase até o fim. Quando viu que subiu um pouco, passou a falar mal do Kassab, mas nos debates parecia deslumbrada com o tucano amiguinho. Candidatura pulverizadora, como explicou Anaí no último dia de propaganda na TV, para conseguir união de votos no segundo turno para o PSDB. Nos dois debates a que fui da Rede Nossa São Paulo a candidata parecia uma garotinha de 15 anos tirando fotos para postar em seu twitter e escrevendo em seu celular enquanto os outros candidatos falavam. Não pensa no que diz e acha que fazer política de maneira diferente é andar de jeans e tênis. Sua candidatura atrai votos daqueles que não são conservadores no aspecto religioso e moral, que querem direitos iguais para seus iguais, a favor do casamento gay, do aborto e das bicicletas, mas nada de morador de rua na minha praça do centro ou de pobre na universidade.

Chalita (PMDB) – o bom mocinho do ano, amigo de padres e escritor de belos livros com belas palavras de amor e fé. Quando Platão falou sobre os filósofos governarem a polis, não foi bem isso que ele imaginou... Se Russomanno tivesse a retórica de Gabriel, estávamos mais ferrados do que estamos. Na primeira vez que o vi falando em público, num debate, fiquei arrepiada e não me orgulho disso, o tom de voz e as palavras muito bem escolhidas miram diretamente o seu coraçãozinho. Junto com o Russomanno, formam a dupla dos cuidadores; Chalita quer cuidar de mim, de você e de todos nós. Incorporou o em-cima-do-murismo do PMDB e prometeu acabar com a “picuinha” entre PT e PSDB, aliás, acho que nos últimos dois meses ouvi mais a palavra picuinha do que ouvi nos 25 anos de vida que tenho. Mas com dia 07 se aproximando ele resolveu apertar o Plínio-mode-on também e jogou merda no ventilador no debate da Gazeta e em sua propaganda do rádio e da TV, talvez por isso chegou aos 11% na última pesquisa, o sangue-no-zóio rendeu mais voto que o bom-mocismo. Mas não dá para avacalhar todo mundo e dizer que é amado pelos professores da rede estadual, aí já é demais, né Chalita Poeta?!

Haddad (PT) – o homem novo para um tempo novo, não consigo deixar de rir quando ouço isso. José Simão acertou em cheio quando disse que o transformaram em ator de Bolywood, parece indiano mesmo, fizeram um bronzeamento artificial no material da campanha e o professor da USP, como ele adora insistir, olha pra cima com Lula e Dilma como um pôster de filme de astronautas americanos. Qual o objetivo da campanha dele ao insistir no fato de ele ser um intelectual? Ganhar votos da paulistanada que odeia o Lula porque ele não tem ensino superior e não fala francês? Ah ta, então mostram que sua filha toca piano em casa, seu filho toca violão e a esposa também é professora da USP. A esquerda limpinha, só ela ganha em Sampa, a dos Matarazos. Tem o mais completo e digno de receber o nome de plano de governo entre todos os candidatos, está bem preparado em debates e comícios e está aproveitando bem a máquina que está a seu favor. Devo dizer que tem uma baita de uma proposta com o lance do bilhete mensal, bola cantada pelo PSOL de início. Se ele for pro segundo turno, sou Haddad desde criancinha. Na verdade meus pais insistem que eu cantava “lula lá brilha uma estrela” em 89...

Serra (PSDB) – o beijoqueiro e arrasador de corações, fazem de tudo para que ele seja o homem novo, mas não é preciso ser jovem para isso. Até me surpreende que os paulistanos possam ter algum tipo de resistência ao Serra porque ele é velho, tanta coisa pior que ele já fez sem ser envelhecer. Ainda que ele tenha uma enorme e brilhante rejeição, eu acho que ele representa muito bem os paulistanos em geral, conservador e blasé que se diz de esquerda só porque foi líder estudantil. Nos debates parecia que foi abduzido por alienígenas e substituído por um clone, com anos e anos de experiência em debates, não se sabe como pode ir tão mal quando confrontado aos demais candidatos. Protagonizou cenas que se espalharam pelo Facebook, deu mil desculpas por ter abandonado o cargo quando foi prefeito (o que eu até acho que estão fazendo auê à toa) e continua em segundo lugar. O PSDB tanto fez que mudou sua cor, o nome do Serra aparecia na TV com as cores azul e laranja, ao invés de amarelo, para horror dos tucanos de plantão na sala. Do que adianta criar mais e mais etecs e escolas e hospitais com trabalhadores sub-empregados?

Russomanno (PRB) – assustador, não só pelo que representa, mas até mesmo por como representa, pálido e com um sorriso falso de fazer criancinha sair correndo da sala. Suas propagandas na TV eram como seus programas de defesa do consumidor, mostrando problemas e sem oferecer soluções razoáveis. Isso qualquer um faz, aliás, tem muito mais paulistano aí conhecedor dos problemas e sofredor do que um milionário que vive no Morumbi e diz ter origem humilde. É um salafrário de marca maior, alpinista social, populista do pior tipo que deve mesmo é ter vontade de cuspir no povão. Ele lembra o Caco Antibes do Sai de Baixo, não sei como consegue enganar tão bem seus ex-35% do eleitorado, atual 27! Defende quem compra, o consumidor egoísta e individualizante, e promete cuidar de mim, de você e de quase todos nós. Sua melhor proposta, sem dúvida, foi a de passar recolhendo a droga dos usuários da cracolândia a cada 15 minutos. A melhor proposta do ano.

     As pesquisas mostram um novo cenário essa semana, com o Russomanno perdendo votos e o meio de campo embolado com Haddad e Serra. Não podemos esquecer que pesquisa nenhuma previu a vitória estrondosa e alucinante de Aloisio Nunes na última eleição pra senador. A Record e a Globo terem cancelado seus debates foi um desfavor para cidade e para democracia, a primeira por motivos obscuros, a segunda por birra infantil e mimada. O que ainda não entendi é a estratégia da Globo, porque acho que ela não ficaria muito feliz com uma vitória da Record também nas urnas.
      Agora é torcer muito para um segundo turno palatável.
     

sábado, setembro 22, 2012

Penélope e Ulisses

Penelope - David Ligare
          
          Ulisses é o personagem da Odisseia de Homero, era o cachorro de Clarice Lispector e é também o título do livro de James Joyce. 
James Joyce é irlandês e seu livro sobre um 16 de junho de Leopold Bloom se passa em Dublin.
Dublin está a 9.384km de São Paulo, no hemisfério norte, do outro lado do Oceano Atlântico.
O homem que amo foi morar em Dublin.
E assim voltamos a Ulisses de Homero, cuja esposa se chama Penélope.
Penélope fica e Ulisses vai à guerra. Enquanto isso, por anos, Penélope é cortejada pelos homens de sua cidade, muitos deles interessados nas posses de Ulisses que estão agora sob sua responsabilidade. Ela, para se livrar dos pretendentes, como uma Sherazade buscando se safar da morte, anuncia que só se casará novamente quando tiver terminado de tecer o que havia começado.
Penélope tece durante o dia e desfaz à noite, esperando fiel por Ulisses.
Ela não tem perfil no Facebook, nem conta no Skype. Ulisses tampouco tem acesso a SMS ou à internet. Vivem em outros tempos. Mas são do presente. Penélope e Ulisses são daqueles personagens fundadores do pensamento ocidental, símbolos que explicam até hoje nossa experiência.
Saudade - Almeida Junior
Os demônios da ausência contra os quais Penélope tem de lutar em sua guerra solitária são tão presentes quanto a Medusa e as sereias enfrentadas por Ulisses em sua odisseia.

Mesmo com Facebook, Skype, celular, avião e toda tecnologia a que tenho acesso, digo: Sou Penélope.
Isso não quer dizer que estou sendo exagerada, dramática, desproporcional. Já ouço as vozes que se querem razoáveis dizendo "mas ele não foi para guerra", "ele foi porque quis", "não é impossível vê-lo", "você tem internet e câmera integrada ao seu notebook". Sim, vozes pós-modernas, concordo. Isso não faz de mim menos Penélope. É a força do símbolo, da alegoria até.
Ausência e saudade. 
Suspensão.
Ainda que seja possível ter notícias da pessoa ausente, isso não faz dela presente. Não há imagem, não há mensagem e não há vídeo que coloque no real o cotidiano de volta em seu lugar. Não há inovação tecnológica capaz de ser o abraço daquela pessoa durante a noite, o comentário bobo e espontâneo diante da televisão, a companhia do café da manhã, almoço e janta.
Penelope Unraveling her Work at Night - Dora Wheeler
De Penélope e Ulisses de Homero até eu e o homem que amo muitos anos se passaram. Os sofrimentos e desejos humanos continuam os mesmos. A curiosidade e o ímpeto de conhecer o novo em conflito com o desejo de segurança e o medo continua a confundir os mais sensatos e os mais corajosos. O amor nos liga e nos dá vontade de seguir juntos por aí, mas amor é asa - como diz Gabriela de Amado - e não cadeia, e o amor quer ver o outro crescer e ser feliz, mesmo que para isso seja preciso sofrer. A distância é cruel, mas o amor não é mesquinho. A ausência é túnel, mas o amor é corda, é linha. Linha do tear de Penélope, fio de Ariadne.

"7. Instalo-me sozinho, num café; alguns vêm me cumprimentar; sinto-me acolhido, requisitado, lisonjeado. Mas o outro está ausente, evoco-o em mim mesmo para que ele me retenha na beira dessa complacência mundana que me espreita. Apelo para sua 'verdade'(para verdade cuja sensação ele me dá) contra a histeria de sedução com a qual me sinto resvalar. Torno a ausência do outro responsável por minha mundanidade: invocosua proteção, sua volta: que o outro apareça, que me retire, como uma mãe que vem buscar o filho, do brilho mundano, da fatuidade social, que me devolva 'a intimidade religiosa, a gravidade' do mundo amoroso.
8. Um koan budista diz: 'O mestre segura a cabeça do discípulo debaixo da água, durante muito, muito tempo; pouco a pouco as bolhas começam a se rarefazer; no  último momento, o mestre tira o discípulo, reanima-o: quando você desejar a verdade como desejou o ar, então saberá o que ela é.'
A ausência do outro segura minha cabeça debaixo da água; pouco a pouco, sufoco, meu ar se rarefaz: é por essa asfixia que reconstituo minha 'verdade' e preparo o Intratável do amor."  
Roland Barthes - Fragmentos de um discurso amoroso

Penélope - Tatiana Blass