segunda-feira, agosto 15, 2011

Woodstock



Finalmente assisti ao filme de Ang Lee sobre o Woodstock. No momento meu livro na cabeceira, ou melhor, no baú porque minha cama não tem cabeceira, é “Como a geração sexo-drogas-e-rock’nroll salvou Hollywood” de Peter Biskind. E há muito em comum entre eles. O sentimento que me despertam é a nostalgia, e uma invejinha.
            Lá pela metade do filme, quando o pessoal já está todo reunido na cidade e tem um showzinho para a comunidade no quintal do motel, meu pai, que estava assistindo comigo, fala
            - Isso nunca mais vai acontecer!
            Ele leu minha mente, mas para mim a sentença aparecia mais como uma interrogação do que como afirmação. Eu pensava sobre isso durante todo o filme, será que nunca mais teríamos algo semelhante? Não ao Woodstock em si, mas o momento e tudo o que ele representou, a era de Aquarius teria sido breve e única?
            Um policial diz:
            - Vim aqui porque queria dar umas cacetadas nuns hippies.
            Eu olhei para meu pai e disse:
            - Nunca mais vai acontecer porque eles ganharam.
            Eles, que criam o dia do orgulho heterossexual, que acham um absurdo um beijo gay na televisão, eles... e vocês sabem bem quem...
            Os hippies não eram a maioria e nem detinham a ideologia dominante, o “paz e amor” perdeu, o amor livre perdeu, a ingenuidade, segundo meu pai, perdeu. E não venham me dizer da AIDS e das drogas cada vez mais químicas e mortais, mais do que o modo de vida, o pensamento foi soterrado.
            No livro de Biskind o momento da virada é representado pelos assassinatos cometidos por Charles Manson. O medo marcou o fechamento das portas, dos corpos e das mentes. A confiança, a amizade, a camaradagem se foram.
            O fazendeiro do local do Woodstock simpatiza com o pessoal que chega porque eles dizem obrigado e por favor para tudo. A noção de comunidade, respeito e amor pelos outros ficaram presas em alguma curva do rio.
            Okay, não aconteceu no Brasil e nem acontecerá. Mas não é uma questão bairrista. O que aconteceu entre aquele um milhão de pessoas não acontecerá de novo em lugar algum do mundo. E parecia tão legal!


segunda-feira, agosto 08, 2011

Uma vez escoteiro...




Hino Alerta (Rataplan do Arrebol)

Rataplan do arrebol,
Escoteiros vede a luz!
Rataplan! Olhai o sol
Do Brasil que nos conduz

Alerta, ó Escoteiros do Brasil, alerta!
Erguei para o ideal os corações em flor!
A mocidade ao sol da Pátria já desperta
A Pátria consagrai o vosso eterno amor
Por entre os densos bosques e vergéis floridos,
Ecoem nossas vozes de alegria intensa!
E pelos campos afora em cânticos sentidos
Ressoe um hino ovante à nossa Pátria imensa!
Alerta! Alerta! Sempre Alerta!
Um, dois! Um, dois!
Rataplan do arrebol,
Escoteiros vede a luz!
Rataplan! Olhai o sol
Do Brasil que nos conduz

Unindo o passo firme a trilha do dever,
Tendo um Brasil feliz por nosso escôpo e norte
Façamos ao futuro, em flores antever
A nova geração jovial confiante e forte!
E se algum dia acaso a Pátria estremecida,
De súbito bradar: Alerta aos Escoteiros,
Alerta respondendo, à Pátria a nossa vida
E as almas entregar iremos prazenteiros!
Alerta! Alerta! Sempre Alerta!
Um, dois! Um, dois!


Esperando mais de quarenta minutos pelo queridíssimo secular na USP, enquanto o sol se punha, justamente por conta do arrebol*, de repente, não mais que de repente, surge em minha cabeça a letra dessa música que transcrevi acima. Primeiro, não pude acreditar que conseguia me lembrar de toda a letra, as duas partes; segundo, comecei a prestar atenção nas frases; terceiro, pensei comigo: entregar minha alma prazenteira é o #$@%&¨!!!
            Explico: fui escoteira durante seis anos, dos 10 aos 16, com direito a ser Escoteira da Pátria, insígnia mais alta que um escoteiro entre 15-18 anos pode conseguir. Fui monitora de patrulha, escoteira (11-15) e guia (15-18), sabia fazer amarras e nós e todos os outros clichês sobre escoteiros que você deve estar pensando; sim, eu usava roupa caqui, meia até o joelho, saia e um chapéu meio-de-safari. Ah, e um lenço no pescoço!
            Eu era escoteira de verdade, não tinha vergonha de dizer que o era, saía na rua de uniforme e sempre defendi os preceitos do movimento, mas-porém-contudo-todavia hoje eu não consigo me conformar de ter sido assim e feito certas coisas. Depois daquele momento no ponto de ônibus da USP, cheguei em casa e disse à minha mãe, que também era do movimento: como você pôde deixar que sua filha cantasse uma música dessas?
            Mea culpa, fui eu, com uns nove anos de idade, que li em algum lugar sobre os escoteiros e enchi o saco dos meus pais para entrarmos nessa. Não imaginara que daria tão certo, e a família toda entrou no esquema, com louvor! Não digo que seja arrependimento o que sinto, na verdade é um choque, parece que cada vez que penso sobre o escotismo, e meu envolvimento com ele, fico estarrecida de nunca ter percebido certas coisas enquanto estava lá, indo todo sábado hastear e arriar bandeira, todo feriado acampar sem chuveiro quente e às vezes sem banheiro, no meio do mato!
            Não vou aqui ceder às minhas tendências fefelechentas (de gente da FFLCH-USP) e dizer coisas no vocabulário esquerda-direita, ou pelo menos tentarei. Mas, convenhamos, crianças de 11 anos cantando coisas como “respondendo à Pátria nossa vida” e jurando coisas por “Deus, Pátria e próximo” faz você lembrar do que? Coisa boa é que não é! Troca o “próximo” por “família” e temos o Integralismo. Ou quem sabe a TFP. E o belicismo é evidente num movimento que tem, no Brasil, como um de seus heróis, Aldo Chioratto, escoteiro que morreu aos 9 anos na Revolução de 1932. Encontrei no site de um grupo escoteiro o seguinte trecho sobre o garoto:
“Aldo Chioratto é para o escotismo paulista, o protótipo do escoteiro. É, na realidade, a personificação do segundo mandamento da lei escoteira – “o Escoteiro é leal”; foi leal no cumprimento os seus deveres, foi leal aos princípios e à necessidade de ser responsável, mesmo que isso lhe custasse a própria vida. Os restos mortais de Aldo repousam hoje no Mausoléu Constitucionalista, ao lado de outros tantos heróis dessa epopéia. Única criança a transpor o altar e as portas da glória. Sua memória permanece indelével em nossos corações e, como um símbolo iluminado em nosso caminho, brilha para Sempre... Alerta até a Eternidade.” (fonte: http://www.carajas.com/wiki/index.php?title=Aldo_Chioratto)
Desculpem-me os bravos, mas eu sairia correndo para minha mamãe. E tenho dito. Não curto Rambo e não consigo imaginar um mundo correto no qual escoteiros, garotos e garotas menores de 15 anos, são treinados para ajudar na guerra. Podem dizer que hoje não é mais assim, que Baden Powell (criador do escotismo) pensou isso há muitos anos atrás, e que jamais requereriam as forças de escoteiros-mirins (isso me lembra o guia dos sobrinhos do Tio Patinhas) para uma guerra. Certo, aceitemos isso, o intuito do escotismo não é mandar ninguém para a guerra.
Voltemos então para o que há de preparo, o que há também de ideologia no movimento. Seguem as 10 leis escoteiras e a promessa escoteira, requisitos básicos para um verdadeiro escoteiro:
  1. O Escoteiro tem uma só palavra; sua honra vale mais que sua própria vida.
  2. O Escoteiro é leal.
  3. O Escoteiro está sempre alerta para ajudar o próximo e pratica diariamente uma boa ação.
  4. O Escoteiro é amigo de todos e irmão dos demais escoteiros.
  5. O Escoteiro é cortês.
  6. O Escoteiro é bom para os animais e as plantas.
  7. O Escoteiro é obediente e disciplinado.
  8. O Escoteiro é alegre e sorri nas dificuldades.
  9. O Escoteiro é econômico e respeita o bem alheio.
  10. O Escoteiro é limpo de corpo e alma.
Prometo pela minha honra fazer o melhor possível para: Cumprir meus deveres para com Deus e a minha Pátria, ajudar o próximo em toda e qualquer ocasião e obedecer à Lei Escoteira.

Bom, eu me lembro de ter sido a primeira vez que ouvira a palavra cortês, e vocês podem imaginar sobre vérgeis, a palavra que está no hino inicial. Meu vocabulário de fato melhorou muito nos meus anos no movimento escoteiro. As leis e a promessa são, à primeira vista, bastante, como dizer... atraentes para aqueles que acreditam que a juventude está perdida no mundo e que precisa de decência. Eu não posso negar que, pelo menos o conteúdo das leis, não difere muito da educação que tive em minha casa, por exceção de ser amigo de todos e de colocar qualquer coisa que seja acima da minha própria vida. Quanto ao conteúdo da promessa, já é mais complicado. O que discutíamos muito em casa quando éramos todos escoteiros era o real teor de uma promessa que envolva Deus, afinal, ateus não podem ser escoteiros? Aparentemente não. E até que ponto o patriotismo não se confunde com ufanismo? Não seriam essas questões muito complexas para crianças?
Vale lembrar que o movimento escoteiro é voltado para pessoas a partir de 6 anos de idade, a partir da alfabetização, e para cada estágio da vida há um estágio escoteiro. Por mais que envolva um lado lúdico e de educação não-formal, não posso deixar de crer que seja sim um movimento ideologicamente perigoso. Imitação de exercito na prática e na teoria, uma miniatura de exercito, por assim dizer. A disciplina, o cotidiano, os acampamentos...
Dizem: “uma vez escoteiro, sempre escoteiro”. Sinto muito. Eu fui e não sou mais, muito obrigada!


*s.m. Cor avermelhada das nuvens quando nasce ou se põe o sol.

quinta-feira, agosto 04, 2011

On a le droit, on n’a pas le droit

Sendo babysitter de duas crianças francesas durante poucos meses pude aprender muitas coisas da cultura francesa, já que vi de perto a educação de crianças de uma família da classe média parisiense. Às vezes parecia que o menino de 4 anos e o outro de 8 anos eram mais educados do que eu, no sentido disciplinar. Já tinham me avisado aqui no Brasil que as crianças francesas não dizem “Minha mãe deixa isso, minha mãe não deixa aquilo” ou “Eu posso isso, eu não posso aquilo”, mas sim: “Tenho o direito a fazer isso, não tenho o direito de fazer aquilo”. Curioso, não?
E era exatamente assim! Eu me lembro de uma esquina que atravessávamos sempre na volta da escola, eu de mãos dadas com o garoto menor, e, por vezes, não vindo nenhum carro no sinal aberto, eu, paulistana da gema, fazia menção de atravessar, ao que o garoto dizia: “Le petit bon homme est rouge, on n’a pas le droit” (O homenzinho está vermelho, não temos o direito [de atravessar]), e eu, corava, confesso! Eles sempre diziam nesses termos, por exemplo, que não tinham o direito de ver televisão durante a semana, que não tinham o direito de comer Nutella no lanche da tarde, essas coisas. Tem também uma frase típica da educação francesa: “touche pas mon pipi”; mas essa fica para outro dia, pois ouvi histórias ótimas sobre isso por lá.
Enfim, mas por que falar disso agora? Na verdade, o que me levou a pensar nisso não foi nada sobre crianças ou sobre a França ou sobre Paris, mesmo que esses últimos dois não saiam um segundo da minha cabeça. Bom, ouço diariamente os programas do jornalismo da rádio EstadãoESPN, que, na minha opinião, veio salvar a FM com programas bem feitos e muito interessantes. Alguns desses programas, os meus preferidos, fazem perguntas no ar para os ouvintes responderem por SMS ou twitter, e gosto de participar quando a discussão é quente (uma vez discuti com um deputado muito do safado sobre lei que obriga os restaurantes a divulgar valor calórico de todos os pratos, mas isso também fica para outro post).
          Dia desses, após manifestações de sindicatos na Av. Paulista e na Av. Pacaembu, a pergunta era: “Você acha que essas pessoas tem o direito de fechar vias da cidade para se manifestarem?”. Quem me conhece pode imaginar a cara que fiz na hora, aquela minha cara que vem acompanhada do grito “Manooooooo!”. Está tudo errado, sobre direitos eu não tenho que achar se as pessoas têm ou não, direito ou se tem ou não se tem, não sou eu que vou achar se alguém tem ou não, e outra, e foi o que respondi por SMS, até onde eu saiba todos temos o direito de livre reunião, greve e expressão, ou não? Essas pessoas quem, cara pálida? E é aí que cheguei aos meninos franceses de quem sinto tanta falta: eles tinham a exata noção de seus direitos. Ok, concordo, são muito mais simples do que nossos direitos como cidadãos, já que são direitos e deveres impostos pelos pais, mas, até que ponto é falha nossa e até que ponto é falha do Estado o fato de não sabermos exatamente quais são nossos direitos e nossos deveres? Sem ladainhas sobre as falhas na educação pública, por favor. Por que no Brasil a própria ideia de direito é tão confusa a ponto de uma rádio séria com funcionários esclarecidos (assim me parece) fazer uma pergunta dessas? E outra, existe por trás disso uma noção que ninguém pode negar que exista entre nós: a noção de que temos poderes de colocar e tirar os direitos dos outros pela nossa simples opinião egoísta. Explico: confundimos muito o fato de gostarmos ou não de alguma coisa com o poder de questioná-la a ponto de negá-la a alguém, isso sem maiores discussões e sem levar em conta a sociedade e a democracia. Na pergunta da rádio há essa confusão, se você se sente incomodado por estar parado no trânsito por conta da manifestação que toma a Av. Paulista você pode questionar o direito do outro, pelo simples fato de você perder minutos a mais no trânsito você pode duvidar de um direito tão importante quanto o da livre reunião e manifestação. Se eu acho que eles tem o direito? Eu não acho, eles tem, e eu também, e ponto. Se eu gosto ou não, aí é que se pode perguntar. Se o fato de uns gostarem e outros não deve mudar o direito, bom, foi aí que entrou o gosto dos militares, né?

terça-feira, junho 21, 2011

:: Não quero ser grande ::



Se me fosse dada a chance de encontrar, num parque de diversões, uma máquina que atendesse a meus pedidos, como Tom Hanks em Quero ser Grande, pediria justamente o contrário. Não quero ser grande.
Desconfio que a sociedade está errada ou eu estou errada, alguém tem que estar errado. Eu quero andar todos os dias de jeans, all star, camiseta estampada e meias coloridas, com minha mochila nas costas. Não me sinto atraida realmente por homens-adultos com roupas sociais, mas sim pelos barbudos-relaxados com camisa xadrez que andam pelo campus. Mas a vida me diz a todo momento para vestir um sapato, uma calça social e arrumar o cabelo, a televisão me dá como parâmetro o homem sexy em terno e bem sucedido.
Eu não quero crescer, não quero sair do campus, deixar de ir ao bandejão, vender minha força de trabalho aos burocratas e tecnocratas. Hesito se minhas posições advem da infantilidade e do medo de crescer ou da ingenuidade de acreditar que o mundo pode ser diferente, que eu posso ter uma vida diferente.
Hoje não fui ao trabalho para fazer uma prova na universidade, e passar o dia por lá me enche de vida. O ambiente respira outro ar, o ar da utopia.


:: My headphones saved my life ::

Cartola - Disfarça e Chora

Chora, disfarça e chora
Aproveita a voz do lamento
Que já vem a aurora
A pessoa que tanto queria
Antes mesmo de raiar o dia
Deixou o ensaio por outra
Oh! triste senhora
Disfarça e chora
Todo o pranto tem hora
E eu vejo seu pranto cair
No momento mais certo
Olhar, gostar só de longe
Não faz ninguém chegar perto
E o seu pranto oh! Triste senhora
Vai molhar o deserto
Disfarça e chora

quarta-feira, junho 08, 2011

NÃO SOBRE O AMOR



::My Headphones saved my life::

O que eu também não entendo – Jota Quest

Essa não é mais uma carta de amor
São pensamentos soltos
Traduzidos em palavras
Pra que você possa entender
O que eu também não entendo...
Amar não é ter que ter
Sempre certeza
É aceitar que ninguém
É perfeito pra ninguém
É poder ser você mesmo
E não precisar fingir
É tentar esquecer
E não conseguir fugir, fugir...
Já pensei em te largar
Já olhei tantas vezes pro lado
Mas quando penso em alguém
É por você que fecho os olhos
Sei que nunca fui perfeito
Mas com você eu posso ser
Até eu mesmo
Que você vai entender...
Posso brincar de descobrir
Desenho em nuvens
Posso contar meus pesadelos
E até minhas coisas fúteis
Posso tirar a tua roupa
Posso fazer o que eu quiser
Posso perder o juízo
Mas com você
Eu tô tranquilo, tranquilo...
Agora o que vamos fazer
Eu também não sei
Afinal, será que amar
É mesmo tudo?
Se isso não é amor
O que mais pode ser?
Tô aprendendo também...
Já pensei em te largar
Já olhei tantas vezes pro lado
Mas quando penso em alguém
É por você que fecho os olhos
Sei que nunca fui perfeito
Mas com você eu posso ser
Até eu mesmo
Que você vai entender...


:: Carta de Amor ::

Você diz que está indo.
- Mas para onde?
- Quando volta?
Hoje encontrei com você, de passagem, meio que por acaso, por sorte, depois de algumas horas de ter levantado da cama em que dormíamos juntos. No exato momento em que vi você, com aquele sorriso de “E aí?” eu tive um momento. Momentos são momentos, instantes passageiros, uma sensação, um flash que nunca mais esquecerei. Aquela não foi uma certeza-inventada, das que criamos para sobreviver ao dia-a-dia, aquela foi uma certeza-certeza, daquelas que se tem poucas na vida. E foi um flash de certeza. A certeza de que você é a pessoa certa, da maneira mais clichê que isso possa ser, a pessoa certa para mim, a tampa da minha panela, o chinelo para meu pé, enfim, o mais meloso possível.
Você me diz:
- O romantismo acabou no século XIX.
Eu penso em corrigir a sua historicidade, mas eu entendo a sua negação.
Talvez eu seja a última romântica dos litorais desse oceano Atlântico, e nada como assistir a um filme no cinema abraçadinha com você (e um VIVA ao Cinemark que tem braços de poltronas para “namorados” #prontofalei).
Eu tenho planos, eu faço planos, desenho-os no ar da minha cabeça de vento. Neles somos felizes para sempre como nos contos de fadas, neles dormimos abraçados todas as noites mesmo que tenhamos uma cama de casal que nos caiba separadamente, neles você é meu marido e eu sua esposa e isso quer dizer amor eterno, neles carregamos tatuagens com nossas alianças e uma aliança imaginária-mais-do-que-real nos une.
O flash da certeza me encheu de alegria, e de tristeza. Queria ter desses flashs referentes a outras questões da minha vida-nada-estável, queria saber que você já teve um desses flashs com relação a mim.
Não meu amor, não tenho medo de que você vá embora daqui. Eu tenho medo de que você se vá. Eu tenho medo de que você descubra, longe, que o que nos une é a presença.
Não meu amor, não é a sua presença que me move, que me anima, que é o meu amor. É algo além, o que não sei dizer, é aquele momento, aquele flash, a certeza de que é você!


:: Cansei de mentir ::  

Cansei de mentir sobre como as coisas vão indo, cansei de dizer para mim mesma que tudo vai ficar bem. Na verdade só escondo de mim mesma, não minto para os outros. Para meus amigos eu reclamo todos os dias, pobres deles, só ouvem reclamações. Para mim digo todos os dias, ao deitar a cabeça no travesseiro, que tudo vai ficar tudo bem, e que eu nunca fui genial mesmo.
Dias antes de voltar ao mundo real, tive uma conversa séria com uma amiga, cheguei à conclusão de que não valeria à pena fazer mestrado e doutorado, afinal, muito barulho por nada, não serei genial, a grande filósofa do século XXI na América Latina. Mas e os sonhos? Meu sonho nunca foi ser o mais novo Kant mesmo! Não quero ser o novo Platão, a roda já foi inventada, só nos resta rodá-la. 
Mas e os sonhos?
Quando estou naquele ambiente, confesso um pouco arrogante, mas quente das discussões acadêmicas, que não vão acabar com as guerras do mundo nem erradicar a fome do país, naquelas discussões sobre artes e estética e filosofia, ali me sinto viva. Quando ouço no rádio aquele cara falando sobre cinema, aquela mulher que estava na coletiva com a Catherine Deneuve, eu penso: esse sim é o emprego dos sonhos.
Mas e os sonhos? Quão distantes eles estão de mim? Quanto tempo tenho para deixá-los de lado? Será que mais tarde terei coragem e forças para voltar a eles? Ok, os jovens tem a sensação de que o tempo é curto e que se deve aproveitar o agora da vida, mas não é essa a realidade? O tempo É curto. E enquanto estou gastando meu tempo, ok, vou falar, desperdiçando meu tempo, no meu emprego atual, continuo sem acabar com as guerras e a fome do mundo, e não ganho nada além de dinheiro, poderia estar me educando e vendo outras possibilidades para as quais no momento estou cega.


imagem: Nid d'amour - Cécile Veilhan
 

segunda-feira, maio 23, 2011

                                                 ::Bosque das Frustrações::

Ando diariamente num bosque escuro e úmido, com árvores semi-mortas que sussurram a todo momento, sem parar, em lamentações:
- Estou saindo, estou saindo daqui uma semana, estou indo para a burocracia estatal.
- Estou saindo, estou saindo daqui um mês, estou indo para um cargo público ensino médio que me paga cinco mil reais ao mês.
- Sempre quis ser dentista, mas meu pai não podia pagar, e eu não consegui entrar na USP, então eu vim para cá.
- Estudei pra ser tradutora português-alemão, mas o mercado é difícil, eu casei, tive filhos, e vim para cá.
- Eu me formei em História, queria ser professora, mas paga muito mal, então vim para cá.
- Sempre quis ser professora de literatura, estudei Literatura Brasileira, mas para quem tem uma família para manter é difícil entrar no mercado da educação.
Qual será a minha história? Qual será o meu mas, o meu então? Eu queria isso, mas aquilo, então cá estou! Por que o desejo, o querer, tem que ser queria, ou quis, ou desejava, desejei?
EU QUERO!




                                          ::O Mundo Encantado da USP::

A Universidade de São Paulo oferece um mundo a parte, aqui, a partir do momento em que você e sua família, cruzarem o portão de entrada receberão o óculos da invisibilidade. Os óculos funcionam mais ou menos como a capa da invisibilidade, só que ao contrário, você coloca e tudo que é ruim, do mundo FORA da USP, torna-se invisível.
Aqui há árvores, os carros não poluem, nunca há trânsito, os ônibus são sempre vazios, os circulares passam de 5 em 5 minutos, você e sua família podem andar de bicicleta tranquilamente, pois aqui os motoristas respeitam os ciclistas, toda água é potável, não precisa fechar o carro, não precisa esconder a carteira. O que vem de fora não atinge a USP! E o que está aqui dentro é só coisa boa, alegre, justa, feliz e igualitária!

sábado, abril 09, 2011

::O Jogo da Filosofia Aleatória::


Numa folha de papel escreva o nome de dez coisas, podem ser objetos, sentimentos, nomes, bandas, flor, carro, cidade, no melhor estilo STOP (ou adedanha, dependendo de onde você more). Exemplo:
Colher, dor, Jimi Hendrix, rosa, fusca, Capital Inicial, ...E o vento levou, coqueiro, sushi, Paris.
Numa outra folha de papel escreva o nome de dez filósofos, de qualquer época, de qualquer país, de qualquer corrente. Exemplo: Platão, Heidegger, Sto Agostinho, Sartre, Heráclito, Hannah Arendt, Descartes, Benjamin, Hume e Anselmo.
Corte cada uma das folhas de modo que em cada pedacinho fique um nome, coloque os nomes de coisas em um saquinho e o nome dos filósofos em outro, chacoalhe os dois saquinhos, tire um nome de coisa e um nome de filósofo, pronto: esse é o tema da sua palestra para um centro cultural. Exemplos: fusca e sto Agostinho – sobre a felicidade e a simplicidade; Jimi Hendrix e Heráclito – like a Rolling Stone.
Digo isso porque é impressionante como se pode falar de tudo com o “atestado” filosófico. Nas livrarias abundam os livros Glee e a filosofia, Metallica e a filosofia, The Simpsons e a filosofia, heróis Marvel e a filosofia, e mais uma vez o CCBB-SP apresenta uma série de palestras misturando os mais diversos temas a nome de filósofos, esse mês a palestra é sobre Bob Dylan e Adorno! Nada contra a filósofa à frente do projeto, eu mesma tenho um projeto de um livro chamado A Feijoada dos Filósofos; em conjunto com alguns amigos queremos explicar a receita de feijoada de acordo com os mais importantes pensadores da humanidade.


:: A realidade é cruel, sempre! ::

Uma amiga disse:
- Ah, você assistiu a Revolutionary Road? Disseram-me que é um filme bonitinho.
- Meu! Bonitinho? Nada disso, o filme é muito cruel.
Assim foi minha conversa ao telefone depois de assistir a Foi Apenas um Sonho de Sam Mendes. Okay, com muito atraso. O filme retrata um casal jovem que passa, nos primeiros cinco minutos de filme, de adolescentes sonhadores a um casamento com filhos no subúrbio de classe média típico dos anos 50 nos Estados Unidos. Mas no fundo eles ainda são os jovens sonhadores de anos atrás. O título em português, como frequentemente acontece, revela o final do filme, toda aquela esperança e espectativa não passou de sonho, mas o título em inglês é irônico, senão sarcástico. Revolutionary Road é a rua na qual o casal mora no subúrbio, até onde entendi, próximo a New York, e não há nada de revolucionário em suas vidas. O sonho da mudança persiste, pude me ver na personagem de Kate Winslet, mas vi muito mais da minha mãe nela, afinal, eu não tenho marido nem dois filhos. April (Kate) não vê o casamento e os filhos como impedimento para a revolução que pretende fazer em sua vida e na do marido, não se arrepende de ter casado e, acima de tudo, os dois se amam. Mas um pouco como em As Horas e nos livros de Clarice e V. Woolf, a aparente calmaria das coisas esconde um insuportável descontentamento. Os planos frustrados enlouquecem April, ou melhor, são o estopim para na verdade ser a real April, para ela é insustentável que seu marido não tenha a mesma disposição que ela para a mudança, que o homem que ela ama possa detê-la e mais, que possa negar-se a ser feliz com ela, a ser feliz, afinal.