sábado, março 14, 2015

Madeleine

O que é memória? O que é lembrança? Segundo o dicionário lembrança é aquilo que vem à memória e aquilo que se guarda na memória, ou seja, a memória é a gaveta, e as lembranças são aquilo que guardamos na gaveta e ao que recorremos para lembrar.

Para quem, como eu, tem problemas em acessar lembranças, a memória por vezes parece aquele gaveteiro de escritório do qual você não faz a menor ideia de onde está a chave. E é claro que a informação de onde está a chave também está fechada numa gaveta emperrada, daquelas entulhadas de coisa que você puxa e carrega o móvel todo junto.

Mas aí outro dia, ao abrir gavetas -de verdade-, arquivos e caixas antigas, encontrei um mundo do qual eu havia parcialmente me esquecido, um universo de relações que o tempo e a mágoa apagaram.

Uma carta, um recado, um presente, tudo de um passado não muito distante mas do qual as lembranças rareavam, quase nunca emergiam à superfície da memória.

E, de repente, não é só uma memória vaga do que houve, mas surgem diante dos olhos e dos demais sentidos, quase como reais, vozes, cheiros, mapas, texturas e promessas de eternidade até então fechadas em caixas onde guardei o que queria esquecer.

Mas e se essas caixas reais cheias de objetos reais forem jogadas no lixo, forem destruídas para sempre? Se era aquele bilhete, aquele recorte, aquele papel de bala a chave para abrir o gaveteiro da memória, se esses pedaços reais daquele mundo que hoje só existe em lembrança ficarem inacessíveis para sempre então também assim estará esse mundo para mim?

Daqui dez anos, quando for novamente desfazer armários e abrir memórias onde não mais estarão aquelas lembranças então a chave não será girada e nunca mais sentirei aquele cheiro daquela pele branca macia e nem ouvirei aquela voz um tanto rouca e anasalada. Continuarão, talvez para sempre, trancados num arquivo remoto da memória, sem acesso porque não há chave.

segunda-feira, outubro 20, 2014

Divagações no escurinho da Mostra

Quando comecei esse blog, meu segundo, em 2007 (naquele tempo em que conseguia escrever mais de dois posts por mês), ele tinha uma seção chamada Divagações no Escuro, na qual eu falava, brevemente, sobre os filmes que via, na TV, no cinema, não importava.
Por isso resolvi voltar a esse nome agora para falar dos filmes que tenho visto na Mostra deste ano. 2007 foi também o primeiro ano no qual trabalhei como monitora do evento, na correria do shopping Frei Caneca. Vamos ao que interessa, ou ao que não interessa a ninguém, pouco importa.

Cena de Amigos da França (Les Interdits)


-O Quarto dos Ratos-
Um filme egípcio que mostra um dia na vida de vários moradores de Alexandria. A montagem fez com que tudo ficasse meio confuso e o filme ficou perdido entre seus personagens: uma noiva no salão de beleza prestes a se casar, uma mulher que acaba de ficar viúva, um senhor de pijamas que passa o dia olhando o mar, uma garota que vai se mudar para Londres. Fossem histórias separadas em pequenos esquetes, ou fossem histórias que se cruzam com mais naturalidade, o filme sairia ganhando. A trilha sonora, contudo, é espetacular.

-7 Dias em Outro Lugar-
Fui ver este filme com uma grande expectativa, por ser do grande Marin Karmitz, que chegou a ser assistente de Agnes Vardà e de Godard. O filme é fruto de seu tempo, facilmente identificável que foi realizado no final da década de 60, na França. Porém, também é um filme que parece ter ficado parado por lá, que não transcendeu sua época, e muito disso se dá porque o que era para ser estilo na verdade é cacoete. São coisas que estavam lá nos primeiros filmes da turma da Nouvelle Vague, principalmente em Acossado, e que Karmitz usa, um pouco a exaustão. Mas as cenas de ensaios de dança são de uma beleza incrível e, no fim, são o que fica na mente após o filme.

-Conto de Cinema-
Esse filme de 2005, de Hong Sang-soo, é, para muitos, um clássico e, se não o é, é no mínimo muito respeitado (ele já esteve entre os filmes comentados no cineclube do Jean Douchet, na Cinemateca Francesa, por exemplo). Infelizmente eu nunca tinha visto, mas esse mal está agora reparado. Que filme maravilhoso, que filme gostoso, incrível. A vida que se faz cinema e o cinema que se faz vida. Além disso, grandes atuações. Um grande filme que sai de um fiapo de história, que saiu de uma sala de cinema em Seul.

-Amigos da França-
Uma ficção mais ou menos baseada em fatos reais daqueles que a maioria desconhece. Um grupo de judeus franceses que atuava na União Soviética junto a judeus que queriam emigrar para Israel. Tudo se passa em 79 mas, agora, o que o filme evidencia são as questões que estavam em torno do sionismo no período, o sonho que Israel representava para aqueles que moravam atrás da Cortina de Ferro, e o que é, e se ela existe, uma identidade judaica. E o que faz o filme grande é que, junto de tudo isso, é claro, há uma grande história de amor entre jovens que vivem uma utopia que de repente parece desaparecer diante de seus olhos. Quem nunca?

segunda-feira, setembro 22, 2014

O tempo dos outros

Assistir aos filmes de Tsai Ming-Liang nunca é tarefa fácil. Ver "Jornada ao Oeste" (Xi you), que está na programação do Indie Festival deste ano, é tarefa ainda mais difícil do que ver seus filmes, diria eu, narrativos. O novo filme do malaio-taiwanês está mais próximo de seu quase-não-visto por aqui "Visage", de 2009, do que de "Cães Errantes", ainda que tenham dito que o filme de 2013 fosse o seu mais radical. A meu ver, tanto "Visage" quando "Jornada" não são propriamente peças de cinema, mas sim espécimes da vídeo-arte, mas não sei se Tsai concordaria comigo. Ainda assim, fico feliz de ter assistido ao filme numa sala de cinema e não numa dessas desconfortáveis salas de museus e galerias dedicadas aos vídeos. (Aliás, seria ótimo se de vez em quando vídeos fossem exibidos no cinema, assim seria possível prestar mais atenção neles).
Lee Kang-Sheng e Denis Lavant em cena de "Jornada ao Oeste"
A sala do Cinesesc estava cheia, praticamente lotada, mas cerca de um terço das pessoas abandonou a sessão ao longo dos 56 minutos do filme. E o mais interessante foi ver como o tema do filme ecoou naquela sala de cinema de São Paulo. No filme, nada acontece. São longas sequencias do deslocamento de um (imagino) monge budista vestindo vermelho vagarosamente pela cidade de Marseille, isso após uns quase 10 minutos de close no rosto de um homem, este ocidental, com olhos pensativos prestes a chorar.
Se em um filme com explosões e cenas de sexo e pancadaria o pessoal nas salas de cinema já não consegue mais desgrudar do celular, imagina em um filme com longas sequencias em que praticamente nada acontece? Após uns oito minutos as pessoas não se aguentavam em seus próprios corpos. Começou aquele mexe-mexe, gente dando um tossida, mexendo na cadeira, pegando algo na bolsa, bebendo água, pegando uma bala. Quase ninguém conseguiu aceitar o desafio do filme: encarar aquela imagem. O efeito que o monge causou sobre aquelas pessoas naquela cidade andando pausadamente (cerca de 30 segundos para dar uma passada, uns 10 minutos para descer uma escada) não foi muito diferente do efeito do filme sobre os espectadores do cinema. O tempo incomoda. Temos cada vez mais dificuldade de encarar o tempo simplesmente passando.
Denis Lavant em cena de "Jornada ao Oeste"
Por que deixar a sala? Você já não havia reservado um tempo de seu domingo para ver este filme? Acha que é tempo perdido contemplar um homem desafiando o tempo? É claro que muitas leituras são possíveis do filme, sendo ocidente versus oriente a mais clara delas. O tempo e a paciência de uma certa "espirituosidade" oriental contra a pressa tecnológica ocidental. Mas Tsai parece ter conseguido expandir essas questões para uma obra na qual o embate se dá entre arte e uma certa fruição da arte, por parte da plateia, despreocupada e preguiçosa. Tsai é exigente, ele quer dedicação, empenho e esforço do lado de cá.
O resultado é um filme com belas cores, belas imagens, mas que deixa inquieto, dá aquele comichão, simplesmente porque nos faz ficar parados, olhando, olhando, esperando, dando tempo ao tempo deste monge que veste um vermelho vivo contra uma cidade de pedras.
E o filme se encerra com algumas frases, que aparecem escritas na tela com a bela caligrafia dos ideogramas chineses. A última frase do filme sem falas é:
"Todas as existências estão condicionadas ao olhar."



quinta-feira, agosto 14, 2014

Cedo demais


No que agora me parece o distante ano de 2010 (lembrando que eu tenho problemas com a memória de médio-prazo), meu último ano de graduação, eu era a coordenadora editorial da revista acadêmica Humanidades em Diálogo, que contava com uma seção, que abria a revista, de entrevistas com grandes pensadores. O nome do entrevistado era escolhido pela comissão editorial, muitas vezes em votação acirrada. Graças a essa seção eu entrevistei o professor Ismail Xavier e o então ministro Paulo Vannuchi.

Um belo dia, enquanto discutíamos um nome para a entrevista do volume 4 (que demorou mais de um ano para ficar pronta por total falta de verbas), um colega da história surgiu com a ideia de entrevistarmos um professor chamado Nicolau Sevcenko. Até aquele momento, ele não passava de um nome distante de um professor do departamento de história, como tantos outros nomes que vinham à minha mente ao pensar no prédio ao lado do qual eu estudava.

Escolhemos entrevistá-lo. E aí começamos a ler suas obras, cheguei a frequentar suas aulas, e pensávamos no formato da entrevista, já que ele era um professor bastante descontraído, distante das formalidades que muitos professores exigem em seu tratamento.

Li loucamente maravilhada "Orfeu Extático na Metrópole" e "A Corrida para o Século XXI", no qual ele fala desse loop da montanha-russa pelo qual passamos na virada do século 20 para os anos 2.000. A figura de Sevcenko, as coisas que ele escrevia, tudo ali era genialidade e generosidade. Ele tratava as pessoas de igual para igual, por mais que ele fosse simplesmente um dos grandes intelectuais de nosso tempo.

Marcamos a entrevista, e onde seria? Nada mais nada menos do que no escritório de Harvard no Brasil, o que, para jovens terminando a faculdade na USP era algo sensacional e emocionante. Nos sentíamos lisonjeados. E foi uma entrevista regada a vinhos e com falas que nos faziam ficar boquiabertos.

O professor Sevcenko falou sobre o financiamento de pesquisa de humanas no Brasil, falou sobre futebol, sobre urbanização, São Paulo, literatura, sociedade do espetáculo, protestos e, não menos inteligentemente, sobre Lady Gaga. Na época, a cantora fazia um sucesso estrondoso com Bad Romance.

Ontem a notícia de que Sevcenko morrera me chegou como um cometa que abre um buraco no coração. Eu trocava e-mails com ele frequentemente nos últimos tempos, falara com ele e com sua esposa ao telefone algumas vezes na semana passada, e falei com ele no dia anterior. Como assim morto?

No dia daquela entrevista num dia quente de julho, em 2010, nascia o sobrinho de um dos colegas. Sevcenko acabara de traduzir Alice no País das Maravilhas e dedicou um exemplar ao garoto recém-chegado. Hoje, essas palavras se enchem de significado. Jamais esquecerei de sua feição e sorrisos ao assistir a um vídeo de Lady Gaga conosco no YouTube. Sabedoria e generosidade.

”Que sua vinda seja um mergulho permanente na Toca do Coelho.
Quanto mais fundo, mais maluco, mais divertido, mais confuso e mais feliz!”


Ricardo, eu, prof. Sevcenko, Nicole, Fernando e Anna
A entrevista na íntegra pode ser lida no pdf da revista:
http://www.fflch.usp.br/df/pet/sites/fflch.usp.br.df.pet/files/arquivos/humanidade_iv_1.pdf

quinta-feira, junho 12, 2014

Sustenido vai ter Copa, minha sétima Copa

1990 - Nada
Eu estava à beira dos meus três anos quando o Brasil buscava o tetra mais uma vez e não me lembro de absolutamente nada. Já devo ter mencionado isso aqui antes, mas minha memória mais antiga é a do dia em que meu irmão nasceu, ou de quando ele chegou em casa, ou seja, quase um ano após a Copa de 90.

1994 - Pipas, camisas e Timbalada
Tudo ainda é meio confuso, mas me lembro claramente dos pipas com a bandeira do Brasil que meu pai comprou para empinarmos, meu irmão e eu, em um parque de Guarulhos. Ali aprendi a fazer o nó de rabiola, o nó de correr. Também me lembro de ir à loja comprar camisa da seleção. Meu irmão ficou com uma 7 do Bebeto e eu com uma do Romário, o que não agradou nada a minha mãe que, não sei bem porque, não gostava nada nada do Baixinho à época.
E a vitória... A festa da rua, todos os vizinhos saíram para comemorar e meus pais colocaram alto para tocar o CD do Timbalada. (Pode ser que fosse, na verdade, Pink Floyd ou Yes, e que eles me matem quando ler isso, mas minha memória mais clara do tetra é a música do beija-flor, "eu vou nas asas de um passarinho, eu vou nos beijos de um beija-flor...").

1998 - Muitas bandeiras
Não sei porque a Copa de 94 não está em nada ligada à escola para mim. Não sei se bati bafo com as figurinhas dos jogadores, nem se a professora nos ensinou algo sobre a Itália. Mas a de 98 está ligada intimamente às minhas memórias da 5ª série, quando a profa. de geografia pediu que desenhássemos todas as bandeiras do países participantes, escrevendo ao lado nome da capital e língua oficial. Foi aí que descobri a Croácia, acho, e sofri fazendo a bandeira da Arábia Saudita. Naquela época, além disso, não havia Wikipedia, nem internet eu tinha e, para os desenhos, nada de impressora. Haja lápis de cor, mapa mundi e a Barsa dos anos 60. (Minto, meus pais nessa época já tinham arranjado uma Larousse mais moderninha, com o Tocantins, inclusive).
Espero que essa memória seja mesmo de 98 e não, deus me livre, de 2002, já no colegial, mas me lembro de ter usado verde e amarelo nos brequetes do aparelho...

2002 - Sol nascente
Eu odiei essa Copa. As primeiras aulas na escola muitas vezes eram canceladas para que os alunos assistissem aos jogos do Brasil, mas como meus pais tinham que me deixar na escola no horário normal, eu ficava lá no pátio sozinha ouvindo o jogo no radinho. Jamais entenderei a desumanidade do zelador da escola que, apesar de abrir o portão para mim, nunca me chamou para assistir ao jogo com sua família.

2006 - Greve e Descartes
Na primeira aula do curso de filosofia, o professor que ensinava Descartes joga essa: "vamos ler Meditações Metafísicas e, antes que a Copa comesse o herói do semestre terá provado a existência de Deus". Bom, uma greve garantiu que as aulas naquele ano não atropelassem os jogos, aos quais finalmente assisti. Mas a existência de deus me atazanou tanto naquele primeiro dia que ainda em fevereiro devorei todas as meditações, para chegara a deus antes de todo mundo. Continuo não acreditando...

2010 - Vuvuzelas e matracas
TV de tela plana, dezenas de câmeras espalhadas pelo estádio, mostrando muitos ângulos do mesmo lance. Essa foi uma Copa linda e interessante, da qual assisti a praticamente todos os jogos. A grande sensação? Os jogadores de Gana e suas camisas justinhas, que no fim foram injustiçados numa partida contra o Uruguai, sob xingamentos lá em casa.

domingo, maio 18, 2014

O karaokê da Valesca

A curiosidade matou o gato. Movida por ela, eu fui ao show da Valesca Popozuda na Virada Cultural deste ano. "Beijinho no Ombro", com seu clipe à la Lady Gaga, é mesmo genial, a letra captou várias questões que a galera fala por aí, encheu a boca de muita gente e a batida é daquelas sob as quais é impossível não se mexer. Por que então não ir lá ver qual é a dela e quais são seus outros possíveis hits, não é mesmo?
Valesca não nasceu ontem, ela era a vocalista da Gaiola das Popozudas, dos "Agora sou solteira" e "Late que eu tô passando", além do clássico "Mama" com Mr. Catra, né? Pois então, esperava um show com muito funk para trabalhar os músculos das coxas.
E o que rolou foi o karaokê da Valesca. Sabe aquelas músicas que você adora cantar com a galera, já meio bêbado, naquela cabine na Liberdade? Pois é, a Valesca também curte e resolveu cantar o "Ilariê" da Xuxa e aquela do Balão Mágico com todo mundo!
Ela entrou gloriosa com muita luz e vento nos cabelos cantando um potpourri de "Agora sou solteira" e "Late que eu tô passando". Aí o tempo fechou e começou a chuva impiedosa, fazendo com que muita gente corresse para se esconder em lugares cobertos da redondeza. Eu fui para de baixo de um desses toldos que ficam meio fechados ali pertinho, continuei ouvindo, mas não dava mais para ver o palco.
O que se seguiu foi um setlist de karaokê, com direito a "Lepo Lepo" e, porque chovia muito, obviamente, o "bebeu água? tá com sede?", música que devia ser evitada depois daquele fatídico Rock in Rio com o Carlinhos Brown. Ah sim, a quarta música, devo lembrar, foi "Beijinho no Ombro". Aí voltou o karaokê... e "pro recalque passar longe" retornou como a penúltima música. A penúltima, sim, porque a última foi... "Beijinho no Ombro", com aquela estranha sensação de ter apertado o modo repeat! Depois disso, ouvimos a musiquinha do Titanic, sem entender nada e fim... silêncio.
Agora eu sei, pelos relatos de quem conseguia ver o palco, que, enquanto tocava a canção-tema do filme, Valesca agradecia seus fãs beijando o chão. Fez bem em agradecer quem ficou lá debaixo de chuva de granizo e vento forte para ouvir três vezes a mesma música, ainda que seja uma ótima música, em 30 minutos de karaokê-show.
Não dá para esquecer os momentos incríveis que esse tipo de espetáculo proporciona, como quando tocou pela primeira vez o hit e, sob chuva grossa, pessoas saíam correndo de baixo dos toldos pela rua rebolando e dando beijinhos nos ombros, enquanto u
m grupo de três pessoas, bem engraçado, encharcados dos pés à cabeça, debaixo de um único guarda-chuva, dançava animadamente.

quinta-feira, maio 08, 2014

Eu continuo a mesma, mas os meus cabelos...

Faça a seguinte experiência: quando em um vagão de metrô, no ônibus, no bar ou no trabalho, olhe ao seu redor e conte quantas mulheres existem. Agora conte quantas delas estão com os cabelos alisados artificialmente, seja por escova, chapinha ou "relaxamento". Continue fazendo isso, sei lá, quando estiver entediado. Qual vai ser a porcentagem média?

Fiz a experiência alguns dias e a média foi de quase 80%, ou seja, de cada 10 mulheres no meu campo de visão em um determinado espaço, assustadoramente 8 estão com os cabelos esticados. Por que não falamos do assunto? Não aguento mais ouvir sobre a "ditadura da magreza", ou da pressão que as mulheres sofrem para ter bundas e peitos grandes, mas a quem interessa que não falemos sobre a aparente obrigatoriedade de se ter cabelos lisos?

As mulheres da luta contra o racismo têm feito campanhas na internet a favor do cabelo crespo e atacando as denominações do tipo "cabelo ruim". Outro dia deu o maior bafafá o comentário do Faustão sobre o cabelo de uma dançarina. Mas não são apenas as mulheres negras que têm cabelos crespos. Cadê toda essa mulherada?

Quando eu era criança, ou pré-adolescente, eu fazia coisas mirabolantes para garantir que me
cabelo ficasse liso. Prendia-o ainda molhado bem apertado para que quando secasse ficasse esticadinho. Puxava, puxava e puxava com a escova e botava para trás da orelha. Enrolava aquelas escovas redondas e tacava o secador. Ou seja, quebrei meu cabelo pra caramba simplesmente para garantir que ele não formasse cachos e eu fosse "normal". Afinal, na escola, as garotas com cabelos crespos eram hostilizadas e recebiam apelidos, como Cassandra (sim, do Sai de Baixo, ainda que ela tivesse o cabelo liso com laquê) ou bruxa.

Fatalmente aquelas crianças tinham em casa exemplos de mulheres que passavam suas manhãs ou noites debaixo de ar quente e puxação dos fios para terem os cabelos lisos. E que, ao fim de tanto esforço individual ou da cabeleireira, passavam dias sem lavar as madeixas e corriam desengonçadamente com sacolas na cabeça para fugir da chuva (isso na Terra da Garoa).

Outro dia um desses programas que querem nos ensinar o que comer, o que vestir e como malhar, mostrava os malefícios de alguns métodos para alisar "definitivamente" os cabelos (pelo menos até que, maldito, ele cresça de novo). Porém, ao longo da programação daquele canal não se vê sequer uma apresentadora ou jornalista de cabelos crespos, não que elas não os tenham, mas porque elas também tiveram que passar por processos danosos para garantir a "boa aparência".

Não importa se a moda é franja, chanel, jogadinho de lado ou farrah fawcett (aliás, nada disso dá certo para cabelos crespos), loiro, ruivo ou chocolate, a "moda" dos cabelos lisos já está durando tempo demais e estragando para sempre lindos cabelos que agora vivem quebrados, ressecados e rareando em cabeças esquentadas a altas temperaturas para garantir uma "normalidade".

"Cabelo crespo dá muito trabalho"? Mano! Acredite: dá mais trabalho ficar alisando, secando, hidratando e não lavando, e sofrendo por um padrão bobo que sabe-se-lá-quem inventou. Piaçava, cabelo de bruxa, vassoura, ruim, selvagem. Não estou nem aí. Boto o meu para fora de casa. Meu cabelo não é ruim, ruim é seu preconceito. Ainda tenho muita "história pra contar, de um mundo tão distante."