quinta-feira, maio 03, 2012

Bat-bag



Para começar devo dizer que já no título do texto tive de recorrer ao Google. Como escrever "batibégui"? Aparentemente é desse jeito aí em cima, não achei em dicionários, mas descobri que em espanhol o mesmo brinquedo parece chamar-se picabolas. Entusiasmante. Mas tudo bem, esse texto já estava quase pronto em minha mente antes da escolha do título e antes mesmo de eu me lembrar desse brinquedo de barulho irritante. Escolhi o brinquedo como mote de uns dias para cá.
Fui viajar já pensando na nostalgia da infância, e no avanço extremamente rápido das mudanças na vida nos últimos anos, e, quando eu volto, um mês depois, todos estão para cima e para baixo com seus bat-bags por São Paulo. Primeiro pensamento: que merda é essa? Voltei a 1996? Depois de ver celulares 3D e ter certeza de que pousei na São Paulo de 2012, segundo pensamento: por que adultos estão batendo essa coisa? Sim, não só os camelôs que vendem o brinquedo, brincam, adultos e idosos divertindo-se com o brinquedinho barulhento estão por todo lado. Pesadelo.
Poderia passar horas destilando meu veneno e minhas críticas que seriam mal compreendidas pelos defensores do politicamente correto de plantão, que avacalhariam minha avacalhação de adultos que brincam de bat-bag por aí, sim, poderia estar matando, poderia estar roubando, mas não, vou ficar quieta sobre esse ponto. Já deixei clara minha estupefação, e vou retornar ao tema que me instigava desde o início, desde antes do ressurgimento macabro das bolinhas coloridas: a boa e batida frase "poxa, estou ficando velho".
Muitas conversas com amigos em bares e ruas e filas de cinema e do bandejão começam ou acabam com essa frase. Para quem ainda não está na faixa dos cremes Renew ou Chronos, é de se pensar o motivo de tal constatação. E pensando bem descobri que os avanços é que foram rápidos demais. Tive uma infância mais parecida com a dos meus amigos que tem 30, 35 anos, do que com a do meu irmão, quatro anos mais novo do que eu.
Vamos aos exemplos. Quando eu estava na escola, no fundamental I, que naquele tempo não muito distante todo mundo ainda chamava de primário, estudávamos geografia fazendo mapas em papel manteiga. Quem lembra? Copiávamos os mapas dos atlas com o papel transparente por cima e pintávamos os rios de lápis de cor azul claro. Suspeito de que na papelaria do bairro nem vendam mais papel manteiga. Atlas, nunca mais vi. E eu que copiava os mapas de uma Barsa que tinha em casa na qual não existia Tocantins (até aí tudo bem, é novinho) e na qual ao lado do Rio ficava o estado da Guanabara. Talvez meu pai tivesse razão em investir numa Enciclopédia Larousse mais tarde, ou não muita, quem poderia prever o fim das enciclopédias? Nem Diderot e D'Alembert teriam imaginado a Wikipédia. Sem falar das réguas que todos queriam, mas os professores proibiam, rainhas da 25 de março, réguas com o mapa do Brasil. Não precisa nem ser professor ou aluno para saber como os estudantes levam mapas à escola hoje, né?
Quando eu era criança lá em casa não tínhamos telefone. Tínhamos o aparelho, que eu adorava ficar abrindo e brincando com as peças, mas nada de linha telefônica. Para pedir pizza era preciso ir ao orelhão do bairro, sim, como disse, não sou velha, já tinha o "delivery". Para ligar para as amiguinhas que tinham telefone, orelhão do bairro. Isso porque a linha era super cara, tinha gente que alugava linha telefônica mais caro que aluguel de casa. Era por sorteio e quem tinha também era acionista da Telebras ou Telesp, coisa que o valha. Nosso primeiro telefone foi um celular da BCP, e eu já tinha 10 ou 11 anos, um ano depois veio a internet, discada, e com ela nossa linha de telefone fixo. Quem lembra do barulho e das tentativas de número 100 para conectar no final de semana? E hoje todo mundo tem pelo menos um celular, tem gente com mais de um numero, como é meu caso, internet no celular e tudo mais.
Mesmo o bat-bag (ok, não me conformo), em 1996, ano da segunda ou terceira onda da febre do brinquedo (porque teve uma nos anos 70 também), eles eram feitos com corda de varal e uma porca de metal, não sei o nome específico, algo como uma porca. Hoje é um cordãozinho mais fresco e uma pecinha de plástico.
A televisão a cabo, quando muito, tinha legenda. A primeira vez que vi Cartoon Network na vida era em inglês, sem legenda, pela TVA. Quando meus pais assinaram tv a cabo em casa nada era dublado, nem os desenhos. Meu video game era um Super Nintendo no qual eu jogava Super Star Soccer e hoje o Wii dá de mil a zero no Super Nintendo, com seus cartuchos que a gente assoprava para funcionar melhor. Quem lembra?
Vi meus pais trocarem todos os LPs por CDs, e eu gravava a primeira música da Britney Spears num toca-fitas, apertando play e rec ao mesmo tempo e prestando atenção para não pegar a propaganda da rádio, e nisso eu já estava no então chamado ginásio, na quinta série, 1998, e em 2008 os CDs já eram obsoletos. O LP reinou por o que? Uns 70 anos? E o CD não conseguiu ser soberano por 10 anos. Do primeiro celular Star Tek ao Smartphone também foram só uns 10 anos, se muito.
Vi o fechamento de diversas salas de cinema de rua, uma a uma, do Centro nos anos 90, da Paulista nos últimos anos. Vejo o Cinemark crescer loucamente e 30 salas passarem o mesmo filme o dia todo em versão dublada. Agora, quando quero saber a capital de um país digito no Google e já vejo a bandeira e já ouço o hino. Antes, ia lá na Barsa, e para ilustrar trabalhos de escola eu desenhava com lápis de cor ou usava adesivos ou decalques. Lembro de um trabalho de geografia na Copa 98 em que tivemos de desenhar a bandeira de todos os países participantes (aí eu descobri a Croácia) e foi muito trabalhoso pesquisar todas e desenhar todas à mão. Hoje ligo a impressora e pronto.
Não estou ficando velha, no meu tempo não era melhor, meu tempo é agora, foi só o mundo que resolveu dar uma acelerada rápida e eu era criança bem quando isso começou a acontecer. Quem lê esse humilde blog sabe que sou muito nostálgica, às vezes pareço uma velha com 50 gatos, mas não tenho nenhum. Só é chocante, só isso!

terça-feira, março 13, 2012

DE VOLTA AO BANCO

Desde que sai do meu emprego na Caixa Economica Federal em julho do ano passado, nunca mais tinha entrado numa agência de banco. Resolvo tudo pela internet ou no caixa eletrônico, no máximo entrei na agência em que trabalhava para dar um alô ao pessoal quando passava na porta. Mas uma boa notícia, ter conseguido uma bolsa para o mestrado, me levou a uma má notícia, ter de abrir uma conta num banco específico no qual não tenho conta ainda. E aí, já viu!
Achei que seria um dia feliz, com sol, pegaria o comprovante da bolsa, iria ao banco, abriria a conta, sairia contente, iria aos demais compromissos do dia. O que se seguiu na verdade foi a definição de inferno astral misturado com fezes de pombo na cabeça. Tive de cancelar todos os compromissos do dia pois fiquei das 11 às 16h tentando abrir uma conta e fiquei tão nervosa com os acontecimentos que agora estou mesmo é precisando ir à terapia que cancelei.
Fui avisada ontem da bolsa e precisava de um numero de conta no meu nome no determinado banco até amanhã. Peguei o comprovante da bolsa na faculdade e fui alegre e contente abrir a conta em uma das agencias da Universidade. Puff! Dez dias de espera para abrir a conta. Tenta em outra: 3 semanas de espera. Outra e mais outra e nenhuma agência abre conta na hora, todas com espera. Onde já se viu isso?! Achei que fosse bom para um banco operar com a MINHA grana, ganhar em cima da MINHA grana, do pacote que me obrigam a pagar pela gestão da conta, alguém para mandar cartões de crédito sem que eu peça e oferecer seguros dos quais não preciso etc. Mas bom, parece que eles se esqueceram disso, e me senti idiota sendo uma cliente implorando para ser explorada!
Cinco agências nos arredores da Universidade não aceitaram meu dinheirinho. Não agora pelo menos, eles não tem pressa. Mas eu tenho. Comecei a ficar desesperada. Pensei: quer saber, vou levar minha grana para Z.L.! E batata, a agência perto de casa topava abrir a conta na hora. Depois de horas camelando sob o sol da Z.O., vi-me voltando cabisbaixa para a Z.L.Mas nem tudo é perfeito, não é mesmo?
Ar condicionado, agência vazia, tranquila, silenciosa. Estava muito bom para ser verdade. É claro. De primeira não quiseram aceitar meu comprovante dizendo que aquele não é o modelo que eles conhecem. Saia da fôrma e será punido, claro! Depois de contar minha triste história e fazer cara de gato-de-botas finalmente tive minhas preces atendidas, mas não como bolsista CAPES, mas com uma conta comum a qual após o depósito primeiro terei de transformar em conta universitária. Ah sim, o atendente fez eu entrar no site do Janus na frente dele e imprimir um atestato de matrícula na USP.
Desde a época em que tornei-me bancária eu dizia que bancários são piores que taxistas. Uma das grandes injustiças brasileiras é o fato de os taxistas levarem tanto a fama de malufistas conservadores e propagadores de clicês preconceituosos enquando os bancários passam desapercebidos por esse mundo dos rótulos.E costumava perceber uma presença constante de recalque na classe dos bancários, pontas de inveja e massas de frustrações. E hoje, estressada, 14h30, sem comer, com calor e nervosa, eu iria trombar, claro, justamente com um que merece o rótulo.
A primeira pérola foi, falando sobre trabalhar em banco e fazer hora extra, eu falei que os cariocas estão certos quando dizem que trabalhamos demais e damos muita importância a fazer hora extra, aí ele disse "mas carioca é preguiçoso, e pior que eles só mesmo os bahianos". Fica imaginando a minha cara de "mano, v@$%&*@#!!!", quem conhece essa cara imaginou. A conversa acabou. Depois de aberta a conta reclamei da taxa mínima de manutenção, um absurdo de R$6,50 para conta universitária (minha outra conta em outro banco cobra R$1,98), mas sabe como é, eles detem o monopolio das bolsas pagas no Brasil todo. Eu tentei negociar, lei do mercado né, ao que ele respondeu: "não é tanto assim, você está ganhando para estudar mais do que muita gente aqui que bate cartão todo dia e traz marmita pro almoço". Queria dar uma voadora, uma joelhada giratória, um FATALITY no homem diante de mim. O problema do Brasil e dos brasileiros é não saber valorizar os estudos e seu valor na sociedade, vale lembrar que em diversos países a palavra usada normalmente para estudar é trabalhar.

sexta-feira, março 09, 2012

Se eu soubesse que ia mudar tanto, eu teria me despedido.*


Quem já leu alguns textos desse meu intermitente blog sabe que um dos meus defeitos é a nostalgia. Sou nostálgica, idealizo o passado e sinto muita saudade, sou reclamona também, o que vem a combinar com a nostalgia até. Mas não apenas os nostálgicos concordarão comigo no tema de hoje. Percebo que muitos concordam, muitos estão tristes, e infelizmente, muito poucos estão revoltados.
E o tema da nostalgia agora é a USP, a Universidade de São Paulo. Estudo na USP desde 2005 e nos últimos anos ela tem mudado muito e muito rápido, seja em aspectos administrativos e um pouco abstratos, seja em aspectos físicos que interferem em nosso cotidiano no Campus Butantã, mais especificamente. Na Era Rodas as mudanças são cada vez mais drásticas e acontecem num piscar de olhos, de preferência durante as férias e feriados prolongados.
Eu poderia falar sobre a gestão do Reitor, sobre os preconceitos vociferados nos jornais contra os estudantes da Universidade, poderia discutir assuntos de assembeia, mas quero descrever experiências e julgamentos bastante pessoais, mas que não deixam de ser políticos e que, tenho certeza, não deixam de ser experiências partilhadas por muitos alunos, e quem sabe até funcionários e professores da USP. Falo assim sobre professores e funcionários porque nós estudantes estamos sendo traídos por essas categorias no momento em que mais precisamos delas. O Reitor aumenta salários e promete benesses em troca do silêncio dos funcionários, eu tenho que admitir: Rodas sabe Reinar! (http://likearodas.tumblr.com/)
Quando entrei na USP o campus não tinha semáforos, só aquele em frente a Educação, por conta da Escola de Aplicação. E só. Os pedestres eram respeitados, colocava-se um pé para fora da calçada e os carros paravam, era mágica. As linhas de ônibus também eram muito diferentes,mas isso é outra história, mas quem lembra da USP-Hosp Heliópolis, que era o mais cheio do campus e a SPTrans desativou dizendo que não tinha público?! Enfim. Hoje o campus está cheio de semáforos, por todo canto, e agora lá é terra de carro. Os motoristas buzinam para quem atravessa fora da faixa e para quem atravessa com o sinal aberto. Já sei, já sei, alguns dirão:
- Aff,mas não é assim no resto da cidade?
Para esses eu digo:
- Leiam o texto até o fim,por favor.
Quando eu entrei também não existia bandejão terceirizado, todos os restaurantes eram da USP com funcionários da USP, não havia a aberração do bandejão da Química. Pelo menos o bandejão continua a R$1,90.
Aí fecharam o Central ano passado e reabriram com portas que disparam alarmes quando abertas, com catraca eletrônica e MUITA, MUITA grade. O ambiente é tão limpo e tão branco que lembra um hospital, nem o HU é assim. E, em breve, será extinguida, eliminada, jogada para escanteio sem direito a gandula, nossa amada e adorada bandeja. Isso sim companheiros é que é progresso. Aquela bandeja dá um ar muito operariado para o restaurante da maior universidade do Brasil, com o prato tudo fica mais civilizado e até economiza-se na quantidade de comida. Todo mundo para quem perguntei prefere a bandeja ao prato, mas... alguém perguntou alguma coisa?
Policiais dando cacetada em estudante negro, afinal, o que cargas d'água faz um negro na USP, né?! Eu achei que depois do acontecido no dia 09 de junho de 2009, dia em que eu não estava no campus mas que acompanhei através dos tresloucados comentários de Datena e companhia (http://www.youtube.com/watch?v=umPd5Sz9tjQ), ficaria claro para os que dirigem a universidade que a PM não deveria estar no campus. Mas não ficou claro. E Serra, então nosso excelentíssimo governador, resolveu recrudescer a gestão da USP nomeando Rodas reitor em novembro do mesmo ano. Desde então foi descer ladeira abaixo.
Mas descer a pé. Porque de circular agora só vai quem tem o BUSP, o "bilhete único" da USP. Antes não tinha, agora tem. Ou seja, você, lindo e belo que está lendo isso, que não é aluno nem funcionário nem professor da USP, um belo dia te dá a loca de ir checar o que está acontecendo na Cidade Universitária, como está sendo gasto o seu rico dinheirinho, tomar um solzinho no Morro da Coruja, um chá na Biologia, ver uns órgaos em vidro no Museu de Anatomia. Voilà, você não pode usar o circular, porque agora ele é EXCLUSIVO para a "comunidade USP". Lembrando que a comunidade exclui os funcionários terceirizados que limpam salas, banheiros e lixeiras da dita comunidade. E depois dizem que a USP é elitista...imagina! O que é interessante mesmo é que os mesmos alunos chamados de elitistas e filhinhos de papai pela mídia e por parte da sociedade quando dos ocorridos em novembro passado, são os mesmos que estão lutando para que o circular não seja apenas para eles, que também seja para o filho da terceirizada ir para creche, para o morador da São Remo ir para a R. Alvarenga, mas isso ninguém fala. Alguém dirá:
- Mas no resto da cidade paga-se o ônibus, por que aí seria diferente?
Eu digo:
- Leia o texto até o fim. E vá tomar naquele belo lugar, antes que eu me esqueça, seu direitista travestido!
Não vou aqui lembrar o papel da PM na ditadura e o que acontecia com estudantes, inclusive da USP, no período.Nem falar de suspeitas de corrupção na gestão Rodas. Só queria dizer do meu sentimento de que a época mais interessante da USP está acabando, prédios administrativos serão transferidos para fora da Cidade Universitária, manifestos e protestos serão proibidos, e o bandejão não terá mais bandejas. Suspeito de que ali também não será mais território livre para circulação e expressão de ideias e ideais.
Sim, eu preferia a época de Xuxa e os Duendes. Explico. Quando aconteceu o assassinato do aluno da FEA (que até hoje me é um caso bem suspeito,mas enfim), minha amiga Mariana, que empresta o título a esse texto, disse que as pessoas não deveriam ficar surpresas com o ocorrido, pois a Cidade Universitária não é, afinal, o mundo de Xuxa e os Duendes. Não é, mas poderia e deveria ser. E esse é o problema. As pessoas estão aceitando cada vez mais facilmente que não há nada que distinga o espaço do campus da USP do resto da cidade de São Paulo. Mas lá é outra cidade, tem até prefeito. Ali deveria ser um espaço privilegiado de convivência e circulação de pessoas, um espaço diferente do "mundo real" onde fosse possivel, justamente, refletir sobre o "mundo real". Ali o tempo tem de andar de forma diferente, o ar deve der diferente, porque ali estão em jogo não apenas pesquisas científicas que mapeiam genomas e descobrem vacinas, como também estão sendo gestadas ideias e análises que intencionam ajudar a compreender e a mudar o "mundo real". Alguns estão dizendo:
- Oh, como vocês são especiais!
Eu digo:
- Sim! Eu posso até não ser, mas ali há muita coisa de especial. E coisas das quais todos podem fazer parte. Excelência não quer dizer exclusão nem elitismo.
Veja cartões-postais de Harvard, Yale, Cambridge, Oxford, são ilhas de verde e calmaria. Não se assemelham em nada a São Paulo, caótica e cheia de carro e cinza. E não quero e não posso esquecer dos três pilares da universidade pública brasileira, que é pública por ser de todos e mantida por todos, embora não possa ser para todos: Pesquisa, Extensão e Ensino. Extensão até onde?


*devo dar os créditos da frase para Mariana Rosell (http://noticiasnemsemprepopulares.wordpress.com/)

sábado, fevereiro 11, 2012

Eis o mistério da fé

Num desses domingos fui ao Mosteiro São Bento para a missa com canto gregoriano e órgão. É um desses passeios obrigatórios em São Paulo e entendi o porquê. O mosteiro estava cheio, pessoas sentadas no chão, pessoas de pé, e durante toda a missa reinava um silêncio incrível do público enquanto ressoava por cada parede o som dos tubos do órgão e as vozes de pouquíssimos homens que se multiplicavam pela igreja. Foi belissimo ouvir aqueles sons numa manhã calma de domingo em São Paulo, e ver tantas pessoas em comunhão pronunciando juntas as mesmas frases de fé.
Toda vez que vou a um culto religioso é assim, raramente não vejo ali beleza, seja na roupa das pessoas, seja em suas vozes, em suas músicas, em seus templos, porém há sempre uma esfera que permanece impenetrável para mim. E não é porque acredito em X e por isso não consigo acompanhar os que acreditam em Y, não sei como seria um judeu praticante num culto católico, por exemplo, mas não é assim que me sinto. O desajuste é um pouco maior. Não é que eu não acredite no culto de imagens e acredite em vida após a morte, não é que eu acredite em reencarnação e não no progresso visando o Nirvana. Eu simplesmente não acredito.
Pode parecer um assunto bobo, mas não é. Viver numa sociedade em que muitos acreditam e não acreditar gera conflitos internos bastante interessantes, para dizer o mínimo.
Meus pais não me batizaram, eles não são praticantes de nenhuma religião, os chamados agnósticos. Embora visitar a igreja de Nossa Senhora Aparecida no interior tenha sido parte de algum roteiro de viagem, promessas sejam feitas em troca de algum beneficio do "divino", e exista um certo panteísmo na minha educação, meus pais sempre acreditaram que deveríamos, meu irmão e eu, ter a liberdade de escolher nossas crenças quando achassemos mais conveniente.
Pelas circunstâncias da situação da educação no país acabei estudando parte da minha vida em colégios religiosos, ambos católicos, nos quais tinha as chamadas aulas de religião, que misturavam uma proto-catequese com pseudo-discussões sobre assuntos como homoafetividade e aborto. Assim. Só coisa leve e pouco ideologizante. Lembro-me até hoje, no ensino médio, de uma discussão sobre aborto e de uma sobre eutanásia nas quais eu devo ter sido a aluna mais chata da vida daquelas professoras. Eu simplesmente não conseguia concordar com o que elas diziam e fazia questão de deixar isso claro.
Durante anos eu busquei a fé. Estudei sobre algumas religiões. Por alguns anos, entre os 13 e uns 16 anos de idade, me interessei bastante pelo judaísmo, lia tudo que havia sobre o assunto, frequentava o Centro de Cultura Judaica e aprendi muita coisa. Hoje não me interesso pela religião, mas a cultura judaica ainda me fascina muito. Convivi com budistas, frequentei centros espíritas e sessões de mesa branca, li Violetas na Janela, fiz um curso para católicos na escola fora do horário escolar durante um ano, li muito da Bíblia católica, visitei algumas igrejas protestantes, enfim, eu procurei e achava que em algum momento eu encontraria.
Outro dia fui a um casamento católico celebrado por um padre bastante interessante que me fez ficar bastante chocada com pessoas que são capazes de casar na igreja apenas pela convenção da coisa. O casal em questão era de fato bastante religioso, mas sabemos como as coisas geralmente funcionam. Quero dizer, naquele momento você jura, você dá a sua palavra a coisas que você não acredita e sabe que não irá cumprir. Pareceu-me muito forte esse momento, eu não seria capaz de jurar em falso coisas do tipo, pareceu-me um desrespeito fazê-lo, um desrespeito às próprias convenções humanas e ao valor da palavra empenhada.
No fim acho que a fé é algo que se tem e pronto, ninguém tira de você e não sei até que ponto alguém, ou algo, pode colocá-la em você. Sem grandes intelectualizações, não acho mais que seja racional, eu não escolhi não acreditar. Eu não acredito e pronto. Quando as pessoas me perguntam por que eu não acredito em Deus eu não posso responder que é porque ninguém provou que ele existe, não posso dizer que Descartes não me convenceu (embora eu tenha sido bastante ingênua no meu primeiro ano de faculdade lendo feito uma louca as Meditações Metafísicas achando que no fim eu estaria convencida da existência de Deus para valer!). Não é nada disso, é uma coisa do sentir. Eu não sinto, e não só Deus, eu não sinto nada que vai além do que eu vejo ou compreendo racionalmente.
Na missa católica há um momento em que o padre apresenta a hóstia como sendo o corpo de Cristo e o vinho como sendo seu sangue, e naquele instante é corpo e é sangue de fato. A missa diz, ali: eis o mistério da fé. E é bem isso.

sexta-feira, fevereiro 03, 2012

A Cracolândia e a Nova Luz


O primeiro fato a ser considerado é a criação do Projeto Nova Luz em 2005 como parte do plano da Prefeitura de São Paulo para a revitalização do Centro,  programado para estar pronto em abril de 2011, porém os planos de urbanização começam a ser aprovados apenas em 2010. O segundo fato é que, próximo ao Natal, a Favela do Moinho, no bairro da Luz, é destruída por um incêndio, desalojando centenas de pessoas; o noticiário nos faz crer que o fogo começou por descuido de um dos moradores. Terceiro fato: um edifício de uma antiga indústria, localizado ao lado da Favela do Moinho, e ocupado por diversas famílias é implodido, ainda que a implosão seja um fracasso, no primeiro dia do ano. No terceiro dia de 2012 – o quarto fato – a Polícia começa uma mega operação na região conhecida como Cracolândia, no bairro da Luz.
O que une os quatro pontos elencados acima é o primeiro fato, ou seja, os outros três são ações que visam colaborar para o primeiro, o Projeto da Nova Luz. Para um objetivo sobre o qual todos estão convencidos de ser uma boa coisa, a Prefeitura parece acreditar ser válido o uso de quaisquer meios.
Após meses empurrando os usuários de crack de uma rua para outra do centro de São Paulo, a Prefeitura resolveu “eliminar” a Cracolândia. Existem centenas de pessoas nessa região vivendo nas ruas dia e noite em função de sua dependência da droga, e agora a Polícia Militar chegou para bater, empurrar, chutar, prender, enfim, amedrontar essas pessoas. A rua Helvetia, que estava repleta deles, agora está tranquila, mas os moradores de Higienópolis sabem daquilo que a Prefeitura finge não saber: os dependentes não vão desaparecer por um passe de mágica; e por isso os moradores do bairro mais nobre da região central temem que a realidade da Cracolândia esteja em suas calçadas pela manhã do dia seguinte à ação policial.
A Prefeitura de São Paulo quer “revitalizar” o Centro, mas se esquece de que vai colocar vida de novo em um lugar no qual já há vida. Com certeza a vida que lá está não é a da beleza do Leblon das novelas, mas ali moram pessoas com suas famílias, certamente muitas irregulares, ocupando ruas e prédios abandonados porque o aluguel no Centro é abusivo. Quando a Prefeitura apóia a construção e reforma de prédios no Centro com apartamentos a preços altíssimos, que vida ela quer recolocar na região? E os que não podem pagar, que morem nas periferias e enfrentem três horas de viagem para ir e voltar de seus trabalhos. Quando a Prefeitura quer enfrentar o problema de saúde pública que é a Cracolândia e coloca 30 agentes de saúde e 300 policiais nas ruas, qual discurso vencerá, o da violência ou o da possível reabilitação? 
O Ministério Público abriu inquérito no dia 10 de janeiro sobre a chamada Operação Centro Legal na Cracolândia para investigar a violência da Polícia Militar e o tipo de abordagem aos dependentes químicos. Enquanto isso a população da cidade de São Paulo assiste a tudo confortavelmente pela televisão, acreditando que o trabalho esteja sendo bem feito pela polícia e esperando por uma Nova Luz.


-este texto escrevi em 05 de janeiro para enviar a um jornal do interior, que não o aceitou.

quinta-feira, janeiro 26, 2012

Simone de Beauvoir e os e-mails


Os e-mails mudaram muito nossa vida, muitos crêem que para melhor. Começo a ter minhas dúvidas quando leio biografias.
Como serão escritas as biografias no futuro? Onde procurará o biógrafo por fatos importantes na vida de uma pessoa importante? Se você sabe que se tornará importante não esqueça de não deletar seus e-mails e de deixar a senha num lugar visível antes de partir.
Simone de Beauvoir soube desde cedo que sua vida seria digna de livros, não apenas porque viveria grandes coisas, mas também porque ela mesma seria sua biógrafa, e sabia que escreveria muito bem sobre sua vida. Ela foi vivendo e contando, e muitas vezes vivendo de maneira que os acontecimentos fossem dignos de serem contados. É uma grande piração se pararmos para pensar, mas também fez com que ela vivesse um grande livro.
Mas não só os biógrafos sofrerão com a era dos e-mails, mas também os comentadores e teóricos. Existem livros e livros sobre como Kant escreveu seus livros, a ordem dos capítulos, as inspirações, e grande parte das teorias são baseadas em sua correspondência. A visita à exposição sobre Clarice Lispector no Museu da Lingua Portuguesa há alguns anos atrás foi muito mágica em grande parte por conta da sua correspondência lá exposta em pequenas gavetas de descobertas. E o livro de cartas entre o Nelson Algreen e, mais uma vez, Simone de Beauvoir; as Cartas a Théo de Van Gogh e muitos outros momentos de possibilidade de magia.
Ler correspondência de pessoas importantes, ou melhor, interessantes, não é um mero passeio por fotos da Ilha de Caras. Se ler diários é muito intenso pois é íntimo, ler correspondências é emocionante porque é uma troca, porque nos localizamos num espaço-tempo de outra pessoa, dentro de suas relações, percebendo o que é dito e muitas vezes escondido, quais momentos ganham relevância, e o que é partilhado.
Como se chamarão os romances epistolares depois do e-mail? Joguei essa pergunta para o Google, nosso instrumento que subtitui, por vezes, horas de buscas dentro de uma biblioteca. Achei um romance de Matt Beaumont que poderia se encaixar nesse novo gênero, constituido apenas por trocas de e-mails. Mas não tive resposta de dicas para o novo nome desse gênero de literatura.
Mas voltando a vidas reais e não ficcionais, não é só o fato de o e-mail parecer menos interessante, mais superficial, menos espirituoso, digamos, porque não carrega nem mesmo a letra do remetente. Muitas cartas passaram a ser escritas com máquinas de escrever,ok. Há sim uma espécie de fetichismo, para usar palavra em voga, em torno das cartas enviadas por Correio (que aliás, está um abuso de caro), a sua objetividade, sua tatilidade (existe?), a espera etc. Mas existe também o problema da relação efêmera que temos com os e-mails, assim como com as mensagens de texto de celular. A tecla deletar. Tudo bem que a carta podemos rasgar de raiva, jogar fora como se nada fosse, mas a tendência é guardarmos numa caixa nem que seja no fundo do baú. Será que seremos capazes de desenvolver uma outra relação com o e-mail, justamente por ele ser mais virtual do que real? Será que passaremos a dar mais importância ao que falamos, à maneira como escrevemos e teremos a consciência da importância deles para a posteridade (claro que não eu que não serei famosa, bom, quem sabe...)?



Esqueci de dizer. O último post foi o de número 100 do blog! O primeiro post foi no dia 23 de março de 2007. Ok, em quase 5 anos 100 posts não é muito, mas é um motivo para comemorar ainda assim.

quarta-feira, janeiro 18, 2012

O Cinema e o Amor

Escada do Gemini em São Paulo   
São muitos os filmes de amor, é claro, mas dessa vez quero falar sobre o cinema do lado de cá, o lado ao qual gostamos de esquecer que pertencemos quando entramos no cinema. Também existe amor do lado de cá, e enquanto a tela está iluminada e a luz... apagada.
Como é gostoso ver um filme passando na televisão e lembrar-se da sala em que assistimos o tal filme. Ou quando alguém fala sobre um filme e você se lembra de com quem estava numa sala de cinema.
Eu tento guardar todos meus ingressos de cinema desde 1998, quando tinha 11 anos. Ainda não tive a coragem de contá-los e não é esse post que vai me inspirar.  Não me orgulho da escolha desse filme de 98, mas me lembro exatamente de como foi: A Noiva de Chuck no shopping da Penha, estava na sexta série, era o cinema mais próximo do colégio e o filme era proibido para menores de 14 anos, se não me engano,e nós burlamos a bilheteira e ainda pagamos meia-entrada. A Amanda e eu. Primeira vez que sai sem meus pais, muita emoção, na sexta antes do carnaval, cinema vazio.Quem sabe meus pais teriam garantido um nível um pouco mais elevado de filme, já tinha visto de Aladdin e Rei Leão a Twister e Jurassic Park com eles.
1998 era um ano no qual com cinco ou seis reais você comia no McDonalds e ia ao cinema. Essa fase da escola me levou a ir ao cinema sem meus pais com frequência, pois todo fim de bimestre, após as provas, todos os alunos do colégio iam no mesmo dia infernizar os funcionários do cinema do shopping. Claro, o pessoal ia ao cinema para falar, gritar e ficar, moda do momento. Minha primeira ficada seria em setembro desse mesmo ano, durante um filme com o Hannibal Lecter mas não nesse papel...IMDB me ajuda! Ah, Instinto, e foi aí, nesse filme, naquele cinema, meu primeiro beijo.
Com o tempo o amor cresceu mais pelos filmes do que pelos beijos, e na estreia do primeiro Harry Potter eu me recusava a beijar meu namoradinho da época, porque eu queria prestar atenção ao filme. Tinha então 14 anos e fui fantasiada de aluna da Grifinória!
Desde então foram algumas mãos dadas nas salas escuras, beijos nos momentos menos interessantes (trailers e créditos), beijos roubados, mãos suadas, tentativas obcenas e, sobretudo, grandes conversas com os amigos após grandes e pequenos filmes.
E não apenas nos apaixonamos por pessoas no cinema, mas também pelos cinemas, que quando se vão deixam muita saudade. O Cine Vitrine da Augusta, onde vi Moça com Brinco de Pérolas com dois amigos durante as férias do ensino médio; o Gemini onde vivi grandes histórias em suas salas azul e vermelha e na bombonière. Ah, o Top Cine onde vi meu primeiro Truffaut (paixão a primeira vista), assim como meu primeiro Daniel Burman, e a mais recente perda, o Belas Artes. Desde o primeiro noitão de reabertura lá por 2002, quantos não foram os noitões? Meu último Wong Kar-Wai no meu lugar favorito, na última fileira, no meio, na sala 1.
E tudo isso é amor!