quinta-feira, março 06, 2014

Falsa boa ideia


Uma falsa boa ideia é, em suma, uma má ideia. E, além disso, muitas vezes, é uma uma ideia preguiçosa.
Esse é o caso da ideia de vagões exclusivos para mulheres em trens e metrôs, cuja discussão vai e volta aqui na cidade. Confesso que nem sei se tal discussão acontece nas instâncias que seriam responsáveis por sua implantação, só sei que desde que o Rio aderiu aos tais vagões, nas redes sociais e nos barzinhos da Augusta essa é uma possibilidade que vez ou outra se apresenta.
O fato é: no transporte coletivo super lotado algumas pessoas aproveitam para assediar mulheres. Solução possível: separem as mulheres.
Lindo lindo. Aviso nas plataformas em rosa, vagões rosas, pode até rolar uma distribuição de revistas de fofocas e de livros da Danielle Steel, né? Assim as mulheres estarão seguras e confortáveis livres da selvageria do macho humano que não consegue conter seu instinto natural de esfregar o pau na bunda alheia. Pronto. Resolvido.
E o que acontecerá com a mulher que se recusar a entrar no vagão especialmente separado para ela? O mesmo que já acontece com os idosos e deficientes que ousam exigir seu assento preferencial no vagão comum no horário de pico: será hostilizada. Afinal, se a mina entra num vagão só de machos é porque ela tá querendo, né não?!
Aí podiam aproveitar também e criar uns ônibus pro Parque Dom Pedro só para a mulherada. Afinal, o problema não é só no metrô não. No trabalho, a área do cafezinho também devia ser separada, shoppings exclusivos também cairia bem, shows, Lollapalooza, Rock in Rio, ruas fechadas só para as mulheres depois das 22h, todo lugar que tem aglomeração deve garantir a segurança das mulheres e não se fala mais nisso.
Que mundo maravilhoso seria esse. Ao invés de punir o desvio, institucionaliza-se o erro, já que inevitável pelo pobre homem sujeito a seus instintos animais. Assim, homens e mulheres estarão seguros. E não se fala mais nisso.
Faz-se campanha contra venda ilegal, mendicância, ficar parado na região das portas, jogar lixo no chão, e tá rolando até propaganda de remédio contra "piriri" no metrô de São Paulo (e eu achava que falar de caganeira em público fosse tabu), mas NUNCA se fez campanha contra o assédio e nunca se puniu os assediadores. Por que não falar do assunto? Por que não colocar avisos sonoros dizendo aos homens que se eles assediarem as mulheres serão punidos?
Ah, porque fica chato falar disso, né? Melhor não, melhor não. O homem trabalhador, coitado, cansado, voltando pra casa, ainda tem que ouvir esse tipo de coisa. Além disso, pode constranger mulheres cristãs e assustar criancinhas. Ninguém precisa saber que isso existe. Não façam alarde. Boquinha de siri!
As cabeças pensantes propõem os vagões separados como uma solução viável e redentora, e não propõem a discussão. Vamos resolver logo o problema, discutir não leva a lugar nenhum. Ótimo. As mesmas pessoas que são a favor do vagão exclusivo para as mulheres, pasmem!, falam do ataque à vítima em casos de estupros e são contra o "rosa para menina e azul para menino".

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Ninfomaníaca


Tinha vários apontamentos para fazer sobre o novo filme de Lars von Trier, mas como tenho problemas de memória e já faz um tempo que vi o longa, sem ter tempo para escrever sobre ele aqui, eis que me restam algumas poucas considerações.
O filme é misógino? Menos que "Anticristo" certamente. A própria postura de Joe é de ódio a si mesma e isso pode se confundir com a postura do filme, mas sempre é possível imaginar a posição da obra como colada ao do ouvinte, o misterioso homem que tenta consolar a culpa que Joe sente, tornando tudo leve e divertido em suas comparações com a pesca. Ele a respeita e ele a compreende. Isso não é misoginia.
Mais do que muito sexo, muitos paus e "sacanagem", o filme é lindo e pouco se falou sobre isso. As pessoas estavam tão pseudo-chocadas com o conteúdo que se esqueceram da forma, da trilha sonora, dos desenhos na tela, da ironia constante. Como rir de tamanho desespero que parece sentir Joe? Mas como não rir do "3+5=8"???
Mais do que misógino, "Ninfomaníaca" é, isso sim, moralista. Ao não permitir que Joe possa sentir alguma coisa com o homem que ela supostamente gosta, ele é moralista. Ao fazer com que Joe se apaixone justamente pelo homem com quem perdeu a virgindade, ele é moralista. Ao esvaziar o sexo de sentido ao ponto de poder ser comparado com a pesca, ele é, sim, moralista.
Não há novidades para os fãs, como eu, de Lars von Trier.

segunda-feira, fevereiro 03, 2014

Mulheres que amam demais

esse salto é só ironia...

     Tenho uma teoria que diz que as novelas das seis costumam ter melhores personagens masculinos do que as novelas das nove. Desde "A Vida da Gente" eu nutro essa teoria, com os personagens do pai fotógrafo, do pai adotivo, o Leonardo Medeiros que termina um casamento porque não quer ter filhos com a esposa etc.
     Nas novelas das nove, especialmente, quem carrega a trama são as personagens femininas e resta aos homens os papéis de coadjuvantes, mesmo quando supostamente deviam ser os principais, eles são mais rasos do que a reserva da Cantareira nesse momento. Murilo Benicio em "O Clone" nem sendo gêmeo conseguiu ter mais destaque do que Jade e pelo menos outras três figuras femininas.
     Não sei se porque Walcyr Carrasco vem justamente de outras faixas de horário, seis e sete, mas "Amor à Vida" foi diferente. E não só os personagens masculinos eram mais complexos, ganharam mais destaque e faziam a trama avançar, como as personagens femininas faziam as mais diversas loucuras por amor, como se a vida delas girasse completamente em torno dos homens.
     Com isso, é claro, não quero dizer que as outras novelas não sejam machistas, cof cof, as novelas são bastante fielmente um reflexo de nossa sociedade e um produto dela e para ela. Mas o que quero dizer, e espero que fique claro com os levantamentos de personagens que faço abaixo, é que "Amor à Vida" levou mesmo as mulheres à loucura. E por causa de... tcharan... homens!
     No melhor do esteriótipo da "psicanálise" e do começo do século 20, as mulheres são histéricas e, como ouvimos todos os dias, "estão descontroladas". Quem entende as mulheres, não é?!
    - Caso 1 - Vega
     Casada com o rico Atílio, Vega não suportou ser traída (não será a única) e, como forma de se vingar do marido, ela resolveu ir à Justiça, provar que ele era incapaz (porque estava com duas personalidades) e bloquear os bens dele, assim, conseguiu mantê-lo por perto ao invés de deixá-lo ir com a outra mulher e ficar de boa. Quer menos amor próprio do que isso?
    - Caso 2 - Glauce
    Médica ginecologista, ela matou uma de suas pacientes porque gamou no marido dela, com quem ela nunca teve nada, a não ser tê-lo visto nas consultas acompanhando a esposa. Pode isso? Surreal! Aí, depois de mais de 12 anos depois, quando ela vê que não tem jeito mesmo de pegar o bofe de ouro, ela se sente culpada e ... se mata! Afinal, se eu não posso ter o bofe que eu amo, a vida não faz mais sentido.
    - Caso 3 - Suzaninha, ou melhor, Pilar
    Só descobrimos no fim da novela o que todos já sabíamos. A criatura foi traída pelo César-garanhão (mais uma, falei), ficou com tanta raiva da amante do marido que resolveu matá-la. Legal, né? Aí ela descobre que matou a mulher errada, deixou a amante paralítica e a sobrinha da amante volta para se vingar do marido adúltero dela.
    - Caso 4 - Amarilis
    Talvez o caso mais grave e o mais bizarro. Amarilis é uma mulher lindona, gostosa, médica dermatologista. Desde o começo a gente já sacou que ela tem problemas de autoestima. Aí ela investe suas poupanças com o Félix e perde tudo. Como salário de médico do San Magno deve de ser uma miséria, ela não tem mais nem onde morar. Vai morar então com o casal de quem vai ser barriga solidária. Como é uma bitch invejosa, ela rouba o marido do Niko, o Eron. Porque mulher é tudo louca, descontrolada e invejosa, né não? Parece que sim. (Só faltou mesmo briga de puxar cabelo nessa novela.) Aí ela rouba também o filho do Niko, porque a inveja atormentou ela demais.

    Tudo isso, é claro, não apaga o brilho do beijo gay. Falem o que quiser, isso foi sim um avanço na televisão brasileira, um tapa na cara de muita gente preconceituosa por aí. E nem me venham com a história: o importante é o amor, o amor venceu. Cara, foi um beijo gay. Não arranquem essa conquista dos gays fazendo o fato se passar por algo corriqueiro.


domingo, dezembro 22, 2013

Azul é uma cor quente

Quadro da HQ "Le bleu est une couleur chaude", de Julie Maroh
     É sempre um erro comparar um filme com o livro no qual ele é baseado esperando que a versão para o cinema seja tão boa quanto a obra literária ou que seja extremamente fiel a ela.
     Não tem como fugir da frustração que acomete quem vê um filme já tendo lido o livro. O cinema e a literatura nos levam a sonhos muito diferentes.
     Eu já tinha lido os três primeiros livros de Harry Potter quando ele foi adaptado ao cinema. Eu tinha o meu Harry Potter, magricela, de óculos e talz, e que se parecia um pouco com o desenho simples da capa do livro. Desde o primeiro filme, meu Harry se transformou em Daniel Radcliffe e os livros não eram mais habitados por aquele garoto único da minha imaginação, mas pelo ator do cinema, que ia crescendo comigo.
     É sempre assim. E quando o caminho é o contrário, é inevitável imaginar os personagens do livro como os atores da adaptação que você já viu e, assim, algo se perde. Então, quando fui ler "Anotações sobre um Escândalo" de Zoë Heller, é óbvio que enquanto lia, ganhavam vida numa história um pouco diferente Cate Blanchett e Judi Dench como Sheba e Barbara, que tinha muito mais sarcasmo no livro do que ganhou no cinema.
     E foi assim também com "Gabriela Cravo e Canela", que era a Juliana Paes que via na TV à noite. Se tivesse lido antes, teria sido, talvez, Sonia Braga.
Clémentine está obcecada pela garota de cabelo azul
     E eis que mesmo ciente disso tudo, de toda essa introdução, resolvi comentar o filme "Azul é a Cor Mais Quente" à luz da história em quadrinhos que o inspirou, de Julie Maroh.
     De certa forma, me arrependo de ter lido a HQ antes de ver o filme. Fiquei muito frustrada por ver que no cinema a história perdeu uma coisa muito importante: seu início triste. (Spoiler a partir daqui.)
     O pano de fundo da HQ, ou seu sentimento geral, é o luto. No começo da história Clémentine, ou Adèle no filme, já está morta. Emma, que é sua companheira, vai à casa dos pais de Clémentine para ler seus diários e a história se desenrola a partir desses relatos de uma garota que já morreu.
     Essa morte sequer existe no filme, que se transforma na história de uma outra perda: Adèle perde Emma com o fim do relacionamento. O filme é a história, assim como a HQ, de um encontro e de um fim, mas esses fins são muito diferentes e geram sofrimentos muito distintos.
     Além disso, que já é muito, há um sequência que o filme excluiu e que diz muito sobre a personagem principal: a de quando os pais de Clémentine-Adèle descobrem que a filha está "saindo" com uma mulher. Não sei se foi cortada do filme, mas tenho essa impressão, porque Adéle vai morar com Emma do nada, não sabemos o motivo e de repente lá está ela. Na HQ ela é expulsa de casa por estar em um relacionamento lésbico. Kechiche tirou isso mas fez questão de marcar a diferença social e intelectual entre os pais de Emma (bobôs) e os de Adèle (classe média conservadora que acha que uma mulher artista plástica tem que casar com homem rico para sobreviver). Cabe ao espectador apenas prever o motivo de sua saída de casa, baseado no comportamento dos pais em um jantar.
     É claro que não dá para ser fiel a um livro em um filme de duas horas. Porém, "Azul" é uma HQ e curta, passível de ser vertida ao cinema como "Persépolis", e virou um filme de três horas. E aí está Kechiche, o diretor do filme e Ghalia Lacroix, responsáveis pela adaptação do roteiro. Eles partiram de um quadrinho e fizeram cinema, dos grandes.
     "Azul", o filme (A Vida de Adèle no original), tem uma ambientação que em nada lembra o luto da HQ, ao contrário, ele é pura luz. A naturalidade sem maquiagem e de cabelo bagunçado de Adèle Exarchopoulos (a dentucinha, pronto falei) e da Léa Seydoux (eterna bela Junie) ajudam a construir uma narrativa realista (o Adèle do título, nome da atriz na vida real, já antecipa isso) de câmera próxima, invasiva e na qual as cenas de sexo aparecem como perfeitamente plausíveis e necessárias no enredo.
     No mais, sobre as polêmicas, para quem disse por aí, ao redor do mundo, "ah, mas não é assim que as lésbicas transam", só digo isso: ALTO LÁ! Baby, como você sabe como as lésbicas todas transam? Já pegou todas? Quando se trata de sexo, cada um faz do jeito que quiser. Eu também nunca fiz daquele jeito, mas nada daquilo é impossível de se fazer (aliás, bem mais fácil que muita coisa do kama sutra), e negar essa possibilidade também tolher a liberdade das pessoas. Agora toda lésbica tem que trepar igual?
     Outra: tem gente dizendo por aí que o grande mérito do filme é contar uma história universal, uma história de um relacionamento que poderia ser hetero ou gay, tanto faz. As histórias de sertão de Graciliano Ramos e de Guimarães Rosa ultrapassam aquele ambiente e são universais. Bergman fala a todos, não só aos suecos. Arte é assim gente, se faz entender e toca universalmente. Mas dizer que o grande mérito do filme é ele poder também ter funcionado se fosse uma história de um casal heterossexual é negar sua especificidade. Não é muito longe de dizer que uma mulher exerce bem sua função em dado escritório porque trabalha como um homem. É também preconceito.
     Esse é um filme gay. É um filme sobre uma adolescente que se descobre com um desejo enorme, que ela não consegue conter, por uma mulher. Nisso a cena em que Adèle sonha com Emma (de quem ela ainda não sabe o nome) acariciando-a sexualmente e acorda suada é exemplar. É uma cena extremamente gráfica e linda e tocante na HQ (acima) e que Kechiche conseguiu transportar para o cinema cheia de tensão e tesão.
     Diferente de muitos dos filmes sobre jovens casais de mulheres, aqui não é uma amizade que se transforma em sexo, porque garotas têm relações próximas que às vezes se confundem com preferência sexual mas que depois se revela apenas uma fase, como em "Meu Amor de Verão", com a Emily Blunt. "Azul" é a história de uma paixão extremamente física que se acende em um mero olhar na rua, é desejo, é sexo e também será amor. Após anos separadas, Adèle encontra Emma e tenta desesperadamente tocá-la. Aquilo que viveram não foi uma fase. É amor. É fogo e paixão.

Emma e Adèle no filme "Azul é a Cor Mais Quente"


domingo, dezembro 15, 2013

Naquele espaço do metrô


Caramba, por que as pessoas não entram e vão para o corredor? Mas que merda! Pô, já são 7h, vou chegar atrasado, e tudo por causa desse metrô que não anda, que para demais entre as estações. Estamos operando com velocidade reduzida e maior tempo de parada. Para variar! Ai, a única vantagem de morar em Itaquera é mesmo poder ir sentadinha aqui no cantinho. Nossa, onde vai essa fulana com essa roupa a essa hora? Tem gente que não se enxerga mesmo. Hummm, vou fechar meu olho aqui, apertar a mochila e que se foda os velhinhos, se são aposentado, por que raios vão pegar o metrô às 7 da manhã? Fica em casa, pega metrô mais tarde. Vai onde? Aposto que vai até o centro só pra receber a aposentadoria. O banco só abre às 10! Ai, ai ai, esse cara tá cuma bengala. Mas por que esse homem não sai do banco preferencial? Sentou e em dois minutos já estava dormindo, tá é fingindo. Não tô no preferencial mesmo, ele que se toque, ou a grávida que levante. Ela só tá grávida. Ufa, ninguém levantou para mim. Aquela gostosa ali sentada no canto ficou me olhando, certeza que tava pensando se ia levantar ou não, depois que essas merda de cabelo branco me apareceram não sei mais se as mina estão me olhando porque sou bonito, cheiroso, bem vestido, ou é porque vão levantar para me dar lugar! Mas que bosta, segura a mochila na frente, fica balançando esse trambolho pra lá e pra cá no ritmo da música que não sei pra que usa fone se dá pra todo mundo ouvir e fica tacando essa bosta em mim, espaçoso, eu aqui toda espremida e ele com essa bolsa enorme no meio do corredor. Bem feito, bem feito mesmo pra essa mina toda apressada. Correu correu e acabou no mesmo trem que eu. Essa gente acha que tá onde? Vai passando e gritando pra gente dar licença. quer o que? Se todo mundo ficasse só na direita da escada rolante teria que ter uma escada a mais pra caber todo mundo, por que ela não pega a escada normal então? Se fodeu, me empurrou e tá na mesma que eu. Aposto que nunca pega o metrô e resolveu ir hoje porque o carro quebrou. Que gente escrota, analfabeta. Sabe ler não? Tá escrito deixe a esquerda livre, e todo mundo fica ali parado. Dizem que São Paulo só tem gente com pressa, que só pensa em trabalhar, mas tá todo mundo passeando, andando na maior lerdêra, parado na escada rolante, andando igual minhoca, e quando para na Sé fica todo mundo paradão e deixa pra descer quando o sinal apita, aí reclama que fica preso na porta e sai empurrando todo mundo.

sábado, novembro 30, 2013

Verdade ou Desafio


    Quando criança, era "tendência" nas escolas -muito antes do tablet e do Facebook- o caderno de enquete. Quem se lembra das perguntas mais esdrúxulas o possível que estavam ali? Começava na pergunta 1 e por vezes ia até a 100, ou além. Do seu nome e idade até o que você levaria a uma ilha deserta, passando por música favorita, comida preferida, e nome dos irmãos. 

     Quanto mais velha a criançada, mais íntimas as perguntas, como "qual o menino mais bonito da turma" ou "onde foi seu primeiro beijo", ou, ainda: "você é BV?". Uma bala para a criança de 12 anos que sabe o que quer dizer essa sigla! 
   
     Não sei o que era mais legal e divertido: montar o caderno, pensando nas perguntas, ou responder o caderno de um(a) colega, vendo as respostas do outros para depois fofocar no dia seguinte com os amigos. "Você viu o que Fulano respondeu?", "Uau, Sicrana gosta mais do Five do que dos Backstreet, nada a ver!"

       Hoje em dia, a antiga criançada, agora nos pós-25, faz o que pode para falar de si e dos outros no Facebook e afins. Nada contra. Pelo contrário, também sou assim. E não acho nada de reprovável nisso. É bom poder falar de si às vezes, poder vasculhar questões, coisas boas, ruins e das quais se tem vergonha e expô-las para os demais. Além disso, é bom saber que nossos amigos também têm defeitos, medos e lembrar o quão divertidos, engraçados e espertos eles são.

Tornar pública alguma informação tem níveis diferentes de revelação. Uma coisa é sair na Contigo, na Caras, na Tititi e no F5 que Cauã Raymond e a mulher dele estão se separando. Outra coisa bem diferente é eu, que não sou famosa nem nada, dizer no meu status do Facebook que tenho medo de palhaços. Primeiro: a que isso pode interessar? Segundo: quantas pessoas vão ler? Quantas pessoas são minhas amigas no Facebook? Só quem eu conheço na vida real e que é, pelo menos, meu colega.
Agora surgiu na rede social uma nova enquete, do tipo desafio. Alguém fala um número de coisas sobre si e quem curtir (e todo mundo curte tudo no Facebook, essa é a verdade) ganha um número dessa pessoa. Esse número é a quantidade de coisas sobre si que essa outra pessoa deve revelar na rede, qualquer coisa, mas que pouca gente saiba.

Não vale, por exemplo, dizer que tem cabelo loiro e 27 anos, ou que é alta. O peso, deve valer, já que pouca gente revela isso. Será que vale o número do calçado?

Surgiu de tudo. Tem gente que tem medo de borboleta, que confessa (uau) que pode trocar facilmente o dia pela noite, que não gosta de cereja e chantilly (heresia, mas bom saber quando for fazer bolo Floresta Negra), gente contou como se converteu a uma nova religião e que tem pavor de ficar em cima da grade de ar do metrô. Qual o problema em querer saber e se interessar pela vida do outro? Isso faz parte de ser humano. Duas amigas disseram que querem ver a revolução. Isso dá orgulho dazamiga!

Eu curti, é claro. E fui ganhando uns números: 11 e 6... por enquanto. Vou fazer a média, 8,5! Resolvi trapacear e não publicar a lista na rede social e sim aqui no meu blog. Vale isso, produção? É que acho que vou escrever demais, e cabe muito melhor aqui do que no Facebook.

Antes, só quero dizer, já que nessa semana teve toda uma polêmica em torno de um novo aplicativo, que isso nada tem a ver com o Lulu e seus derivados. Na verdade não sou contra o Lulu, acho engraçado, embora de gosto duvidoso, mas uma coisa é a pessoa falar sobre si mesma, outra coisa é os outros ficarem falando, anonimamente, sobre outra pessoa, e sobre a intimidade dos outros. Eu só acredito piamente que nunca fui íntima de alguém que vá ficar espalhando por aí coisas sobre meu desempenho sexual. Se bem que... quem não deve, não teme! #prontofalei

1 - Não acredito em deus, nenhum, nem em energias, acaso, horóscopo, sorte ou derivados.

2 - Às vezes acho que acreditar em deus me ajudaria em muitas coisas, mas não acredito de jeito nenhum (http://autoretratonomuseu.blogspot.com.br/2012/02/eis-o-misterio-da-fe.html)

3 - Sou a rainha da procrastinação, deixo tudo para a última hora e sinto um prazer bizarro em ficar fazendo listas do que tenho para fazer e nunca começar a fazer nada (agora mesmo eu deveria estar fazendo outra coisa ao invés de escrever no blog, mas eu já pulei o mês de outubro e não posso deixar passar o de novembro)

4 - Tenho loucura por poupança. Gosto de poupar, de guardar dinheiro. Já tem amigos me dizendo que deveria investir em outras coisas, como tesouro direto ou em ações, mas sou conservadora e tenho medo de perder grana.

5 - Não se passa um dia sem que eu pense em Paris. Penso no tempo que passei lá todo santo dia e isso me deixa um pouco triste, porque sinto muita saudade. Não que eu ache que minha vida aqui não seja boa, mas é uma experiência incrível passar dia após dia fazendo descobertas e tendo experiências inéditas, e fui muito feliz ali.

6 - Não quero ter filhos. E acho que o mundo seria um lugar melhor se as mulheres pudessem afirmar mais isso para si mesmas e para todos, um mundo em que o fato de ser mulher não quisesse dizer que se tem o "instinto materno" e ninguém fosse pressionada a ter filhos para não "ficar para titia".

7 - Tenho pavor de lugares fechados cheios de gente. Por isso não gosto de shoppings e suas praças de alimentação. Por isso também não consigo me divertir em bares cheios e danceterias.

8 - Demorei mais tempo do que deveria para me livrar dos preconceitos do meio "intelectual" do qual queria fazer parte. A partir de então, vejo novelas da Globo sem neuras, ouço samba e curto futebol -principalmente jogos de Copa do Mundo e Eurocopa (ainda mais com a TV HD). Acho um saco quem diz que isso aliena as pessoas. Não é isso que aliena as pessoas. Não é isso que impede as pessoas de entender Kant ou Hegel, sorry!

0,5 - Guardo mágoas e rancores. Sou cheia de ex-amigos e não falo com nenhuma das pessoas que namorei.





sexta-feira, setembro 27, 2013

Frances Eu

Vi no cinema um dia um trailer de um filme em preto e branco, com uma garota meio estranhona que dançava pela rua ao som de uma trilha sonora contagiante. Parecia um filme feliz. Mais, parecia algum filme novo do Woody Allen.
Não demorou muito para descobrir que o filme não era de um dos meus diretores favoritos, mas sim do cara que fez um dos melhores filmes dos últimos tempos, Noah Baumbach, diretor de A Lula e a Baleia.
O tempo foi passando e as salas de exibição foram sendo reduzidas, até que criei vergonha na cara e fui ver o filme. Até então, já tinham saído inúmeras críticas nos jornais e nos sites, e amigos já vinham comentando (um em especial já vira o filme duas vezes).
No maior estilo Flaubert eu digo: Frances Ha sou eu. E é você, se você tem lá os seus 20 e tantos anos, tem ensino superior completo e mora numa grande cidade.
Frances tem 27 anos, se formou em uma boa universidade, saiu da casa dos pais para morar em Nova York, mas não consegue se decidir sobre o que quer fazer da vida. Ela diz que quer ser coreógrafa, mas o que faz para isso? Ela dá aula de balé para crianças na academia de um grupo de dança. Ela perde o emprego, oferecem a ela um outro, como secretária, que ela recusa, e então vai ser garçonete e faz-tudo em sua antiga faculdade com atuais estudantes, passando a morar no dormitório dali. Ela gasta o que tem e o que não tem para passar um fim de semana em Paris, no qual ela dorme o dia todo. Ela cai na rua enquanto caminha, e se levanta rapidinho para que ninguém perceba.
Frances é um tipo de looser dos filmes de Hollywood, aqueles de quem gostamos, no estilo de Miss Sunshine e Juno. Ela me é tão próxima…
No fim, ela dá certo, consegue montar uma coreografia sua. Consegue pagar aluguel na cidade para morar sozinha. Consegue aceitar o casamento de sua melhor amiga.
Ela é o retrato dos filhos da crise ao redor do mundo. Dos filhos das grandes metrópoles. Dos filhos de uma classe relativamente rica financeira e intelectualmente, mas que não tem sobrenome, não tem influência. Ela é o retrato de pessoas que não conseguem ter certezas que direcionem sua vida. De pessoas que são um pouco perdidas mesmo.

imagem do site nerdist.com

Há ainda um jantar no qual uma das presentes diz a Frances: “ah, você tem 27, parece mais velha. Mas mais infantil.”

quinta-feira, agosto 22, 2013

Orgulho e Preconceito

Já não é mais o assunto da vez, já foi ultrapassado pela traição do marido de uma das participantes da Fazenda e pelos pelos (maldita reforma ortográfica e o fim do acento diferencial) pubianos da última capa da Playboy, mas há algumas semanas atrás o assunto era só esse: a orientação sexual do personagem Félix da novela das nove da Globo, Amor à Vida. Ou melhor, a revelação de sua orientação sexual.
Para quem não acompanha a trama: desde o início ele prometia ser o vilão-dos-vilões, sucessor de Carminha de Avenida Brasil (que eu não vi) e, sendo assim, o favorito de todos os espectadores. Ele também já dava pinta de que era gay. 
Eu torci o nariz, poxa, por mais que o vilão seja sempre adorado pela galera da geral, os gays nunca aparecem como personagens de destaque nas tramas, e agora vai aparecer um como vilão? Fui mudando de opinião, porque, do mesmo jeito que não é o fato de ser gay que faz de alguém vilão, não é só porque alguém é gay que é bonzinho, não é mesmo? Uma coisa não tem a ver com a outra.
[A novela tem ainda um casal gay, Nico e Eron, que querem ter um filho, e no fim Eron vai cair de amores por uma mulher amiga do casal que os ajuda sendo barriga-solidária. Devo dizer que isso sim me faz torcer o nariz. Ao invés do autor Walcyr Carrasco dar um final feliz ao casal e mostrar uma adoção ou concepção bacana de uma criança por um casal gay, não, ele vai e destrói a relação dos dois como numa punição pelo desejo deles de formar uma família. Enfim.]
No episódio de 01 de agosto*, a esposa de Félix (sim, ele é casado e tem um filho) revela para toda a família na mesa de jantar que seu marido é gay, apresentando como prova fotos dele em momentos íntimos com seu amante. Estão presentes o pai e a mãe de Félix, César e Pilar, sua irmã -a protagonista da trama-Paloma, seu filho Jonatan, sua sogra, sua avó e alguns empregados da casa.
A repercussão do episódio foi enorme nas redes sociais e programas vespertinos. Porém, o impacto daquele e dos dois ou três episódios que se seguiram só poderá ser medido com o tempo. Arrisco dizer que aquelas cenas marcarão a história da TV brasileira e da causa gay no país.
Félix (Mateus Solano) e Jacques (Julio Rocha) em cena de Amor à Vida
Quem vê qualquer novela sabe que há ali inúmeras coisas que passam muito longe da realidade, e não é só o fato de ter um ônibus chamado Zona Leste em São Paulo, ou Marrocos e Brasil serem aparentemente a uma distância SP-Rio, faz parte da sedução que a novela exerce no espectador mexer com o improvável, com o desejável e com o faz-de-conta. Contudo, o conflito todo gerado pela revelação de que Félix é gay aproximou-se assustadoramente da realidade.
Alguns disseram ferozmente que a novela era preconceituosa pela forma como o assunto foi abordado. A realidade é que é preconceituosa. Que Félix tenha feito de tudo para negar a revelação, que seu pai tenha sido um escroto ao saber, o preconceito está na trama ou na vida real? É só ver quantas vezes e de que forma a palavra "vergonha" aparece nesse episódio. 
Um cara se casa com uma mulher, tem um filho, vive de aparências para garantir o amor, o afeto e a herança de seu pai, enquanto isso tem um amante homem. Quantos casos assim existem na vida real? Quantas pessoas não passam pelo sofrimento de lidar com sua sexualidade na chave da vergonha?
O pai de Félix reagiu, e tem reagido ainda, como muitos pais de homossexuais, rejeitam o filho e obrigam-no a mentir para "aceitá-lo" de volta. César obrigou, ou melhor, chantageou seu filho a continuar casado com sua esposa para que não o tire do testamento nem o mande embora de seu emprego, disse que tem vergonha de ter um filho gay, e que ele é um homem alfa pegador de mulheres. Já sua mãe, sua avó e sua irmã, se mostraram mais compreensivos. A mãe, Pilar (Suzana Vieira), fez um discurso didático, decoradinho, sobre como devemos aceitar os homossexuais. A avó veio com aquela história "ah, eu tenho amigos gays e eles são super legais". Não é que Suzana Vieira seja uma péssima atriz, mas a situação traz desconforto mesmo às mães que aceitam seus filhos, e o discurso vem decorado da "cartilha-do-tolerante". A avó carrega o discurso do que se diz sem preconceitos simplesmente porque se relaciona com o diferente.


O que a novela mostra é a vergonha imposta pela sociedade a pessoas que fogem de um padrão também imposto. Vergonha que gera medos, infelicidade e total insatisfação com uma vida falsa.
A vergonha é o que impõe uma sociedade àqueles que quer o tempo todo esconder. Há uma regra de normalidade a ser seguida, no caso, a hetenormatividade, em outros casos o cabelo liso, o corpo escultural (considerando esculturas gregas do corpo atlético), a pele branca etc. Àqueles que não se encaixam nos padrões dos modelos a serem seguidos cabe apenas se esconderem, em casa, ou em guetos. Resta apenas não se misturar, frequentar bares, restaurantes, shoppings e até mesmo ruas destinadas apenas a seus pares. Beijo entre dois homens tudo bem no bar gay, mas nada bem no meio da Praça da Sé, ou na novela das nove, porque choca criancinhas. Na Parada Gay pode, porque está todo mundo lá para isso, tem data no calendário e, como no bar gay, quem foi lá e viu não pode reclamar.
A resposta a essa vergonha só pode ser o orgulho! Esfregar na cara de todo mundo que gay existe, que vive, que tem direitos e que tem orgulho, e não vergonha, de ser o que é. 
Lembro das camisetas "100% Negro" que surgiram há tempos atrás, alguns diziam que iam fazer camisetas escritas "100% Branco" também. Mas para que? O homem heterossexual branco e rico já domina o país, já tem o poder, e não é humilhado, envergonhado todos os dias. Ele é o vencedor. 
Por isso, dias do orgulho, do orgulho gay, da consciência negra, das mulheres, são dias para nos lembrarmos de que o orgulho deve ser demonstrado todos os dias, é dia de luta.
Outro dia o jogador Emerson Sheik, que é heterossexual, postou uma foto beijando um homem na boca. Foi um escândalo, e não faltaram vozes contrárias ao que não passava de uma manifestação de carinho entre dois amigos. Quero ver quem é que vai se levantar e gritar para quem quiser ouvir que é gay. Seja ou não jogada de marketing, o que pessoas como Daniela Mercury fizeram não é fácil e demonstra sim orgulho, além de possibilitarem a existência de figuras públicas de destaque afirmando sua orientação sexual, com vozes que são ouvidas.
Não vamos nos esconder! A rua, o restaurante, o bar, o cinema, e qualquer espaço público que seja também é meu.
É a afirmação cotidiana do orgulho que pode vencer a vergonha e a humilhação.


*veja os episódios - http://tvg.globo.com/novelas/amor-a-vida/capitulo/2013/8/1/paloma-apoia-felix-e-o-deixa-sensibilizado.html