sábado, julho 28, 2012

Le garçon Tam-Tam

Capítulo do filme Contos da Noite de Ocelot.


Era um final de semana de fim de outono, um domingo bastante frio e com muito vento de novembro. Era a Festa das Ciências em Paris e por isso o museu Cité des Sciences et de l'Industrie estava com entrada gratuita. Nunca tinha ido ao Parque de la Villete (um dos maiores da cidade), nem ao museu - maior da Europa dedicado às ciências. Resolvi ir então.
O museu é bastante interessante, um Beaubourg das ciências. Eu gostei muito das partes sobre astronomia e óptica. Porém, terminado o museu, restava passear pelo enorme parque atravessado pelo canal de Ourcq.
O parque estava completamente vazio, talvez por conta do frio e do vento, a luz do fim de tarde era maravilhosa, e... um som diferente. Um som grave de tambor um pouco oco soava pelo parque. 
Passarinho, que som é esse?
Fui seguindo o som até chegar a muitas árvores finas e com algumas folhas numa ingrime subida coberta de barro e folhas secas. Fui subindo e chegando cada vez mais perto do som.
Para além das árvores havia uma pequena arena cercada de baixas escadas nas quais estava sentado um homem tocando um tambor de som mágico. Fiquei escondida atrás de uma das árvores apenas ouvindo, mas o homem do tam-tam mágico me viu depois de um tempo, e me chamou para ouvir mais de perto.
Eu fui.
Ele tocou um pouco mais. Parou. Ofereceu-me o instrumento para que eu tocasse um pouco, mas desengonçada como sou, sem ritmo, foi um horror, mesmo que ele tentasse me ensinar as diferenças entre os sons dos cantos, do meio, tocando com as palmas das mãos ou com a ponta dos dedos.
O tambor era um tabla, um darbuka egípcio, feito de couro, madeira e corda. Aquele som de fato não me era estranho, me lembrava dança do ventre.
Começamos a conversar sem parar. Ele falava sobre o instrumento, sobre como aquele parque ficava cheio de pessoas e música nos dias quentes, sobre a tranquilidade para ensaiar, sobre sua vida e sua família. Andávamos então em direção à saída da Avenida Jaurès. Ele colocou a mão nos bolsos, mexendo numas moedas e disse: "Se eu tiver dinheiro o suficiente, você quer tomar um chocolate quente?". Eu respondi "claro".
Samad.
Aquela tarde teve de terminar porque eu devia pegar o metrô para encontrar um pessoal que conhecera na festa do Beaujolais. No final das contas ninguém apareceu, eu tomei um bolo depois do chocolate quente e nunca mais vi aquela magia do tam-tam que eu nunca mais esqueci.

segunda-feira, julho 02, 2012

COMIDA DI BUTECO


    Durante o mês de junho aconteceu em São Paulo a competição "Comida di Buteco". Como eu sei? O SPTV da Globo me falou; afinal, "a tv do demônio" não é de todo mal. Achei que seria uma boa ideia ter um pretexto para sair de casa em algumas noites do mês para conhecer lugares da cidade aos quais nunca tinha ido. E, ali mesmo, diante da TV, a decisão foi tomada: tentar ir aos bares mais atraentes, sem pressa, sem desespero, conforme fosse dando.
   A competição se mostrou uma ótima maneira não só de comer coisas deliciosas, como também de passear pela cidade conhecendo bairros bem diferentes, conversar com donos e funcionários de bares e, é claro, sair de mão dada por aí com o namorado. 
   É claro que ninguém sai impune. O repórter do SPTV que visitou os 49 concorrentes e que fez reportagens bem legais que por vezes me levaram a escolher um bar ou outro disse ter engordado quatro quilos, e com certeza não gastou um centavo. Já eu, engordei um quilo com apenas 7 bares e gastei uma boa grana, boa porque valeu cada centavinho.
     Um amigo uma vez me ensinou que economizar com comida quando não se precisa fazer isso é besteira e que quando viajamos devemos nos deixar levar pelos prazeres da mesa. Quando viajo busco experimentar de tudo um pouco que couber no meu bolso, mas em São Paulo tendo a ser bem muquirana. Primeiro porque é uma cidade extremamente cara; segundo porque o dia-a-dia não permite luxos que normalmente nos permitimos em viagens, quando vivemos num "estado de exceção". Mas pensei que um mês gastando um pouquinho a mais não poderia me matar, e quem me conhece sabe que sou a pessoa mais mão-de-vaca que conhece...
     A brincadeira-competição funciona assim: foram selecionados 49 butecos (definição discutivelmente aplicada a alguns) que deveriam criar ou selecionar uma comida em seu cardápio, aqueles que visitassem o bar e comessem aquilo que foi selecionado receberiam uma cédula na qual deviam, de um lado, preencher seus dados pessoais e, do outro, avaliar o "tira-gosto" provado (70% da nota), o atendimento, a higiene e a temperatura da bebida no local (outros 30%). Com o tempo, conversando com donos e funcionários, fomos descobrindo outras coisas, como por exemplo que os bares não se candidatavam, eles eram procurados por uma equipe e que um dos critérios para participar é que os donos trabalhem no buteco, ou seja, não basta ser dono e ficar num escritório ou em casa, tem que ser desses bares familiares em que o dono põe a mão na massa. Outra coisa interessante é que não só os butequeiros amadores como nós estavam avaliando, os bares eram visitados por um júri, que só se identificava ao final, apresentando uma "carteirinha" para não pagar a conta. Fiquei interessada em participar, quero ser jurada! 
     Após breve pesquisa no site do evento (http://www.comidadibuteco.com.br/), muito organizado e com mapas e fotos que facilitaram as escolhas, resolvemos ir num bar que há tempos tinha vontade de conhecer, graças a uma coluna no suplemento Comida da Folha, o Bar do Plínio. 
     O bar é famoso porque seu dono mesmo pesca no Pantanal os peixes ali servidos, até parece história de pescador. O "tira-gosto" (não gosto desse nome famoso da butecagem, seria mais um põe-gosto) escolhido fora inventado especialmente para a competição, chamava Rabo de Saia, um bolinho de traíra acompanhado por um saboroso molhinho feito de fruta, agora não lembro qual, mas era bem bom. O buteco, esse merecia bem o nome, fica numa esquina íngreme da Casa Verde, com garçons simpáticos e cardápio recheado, de fato, com peixes de todo tipo por preços até que justos, tendo em vista a conjuntura da cidade. Quando terminamos de comer ainda estávamos com fome e disposição para visitar outro lugar, primeiro dia, sem preparo e sem internet, perguntamos ao garçom que nos atendia se ele conhecia outro bar na região que estivesse participando também. Ele nos indicou o Bar do Luiz Fernandes no Mandaqui e até me ensinou como dirigir até lá. Esse é outro bar bastante falado na cidade e tradicional também.
     Bom, claro que eu errei por uma rua o caminho e não achei o bar, só a filial não-participante da Av. Eng. Caetano Álvares, mas foi bom duas vezes, uma porque ele já estava fechado (descobrimos depois que o bar fecha aos sábados às 19h) e duas porque encontramos, sem querer, O Alemão. Como os bares participantes penduram bandeirinhas do evento e uma placa na entrada, tivemos o prazer de passar diante de um bar participante. O Alemão é dirigido por um ex-garçom do Bar do Luiz Fernandes, justamente; um catarinense que justifica o apelido de "alemão" (em São Paulo todo loiro vira o alemão da turma). O quitute por ele oferecido no bairro do Imirim é um risole de berinjela chamado Escondido de Berinjela, que com o passar do concurso mudou de nome oficial para risole, mesmo. Talvez o problema era que fosse oferecido grande em unidade e não pequeno em porções, mas ainda assim delicioso, bem recheado e de fritura sequinha. Ali o atendimento foi tão bom, o dono tão simpático e falador, que ficamos para outro prato fora do concurso e comemos costelinhas de porco. Além da simpatia do dono e dos funcionários, o bar está entre os meus favoritos para um retorno pós-competição pelo preço e fartura; a mesa ao lado comia uma carne seca com mandioca que sustentava umas cinco pessoas. Buteco é isso,né? Simplicidade, cerveja barata e comida de acordo com a sede e a fome.
    Para o segundo final de semana decidimos nos preparar mais e não irmos à zona norte. Graças à reportagem do SPTV escolhemos o bar Amigo Leal e, no caminho de volta para casa, a Cervejaria do Alemão. Depois dos bares visitados devo dizer que a melhor comida foi a do Amigo Leal, bar embaixo no Minhocão na Santa Cecília (o site diz ser na Vila Buarque, eu arrisco até República, mas enfim). Eles resolveram fazer um prato bem maluco e chamá-lo de Doidera Alemã. Um dos patrocinadores da competição era o Doritos, então eles fizeram um prato de joelho de porco frito e em volta uns doritos de queijo nacho com um patê de repolho roxo e maionese (outro patrocinador era a Hellmans). Falando até parece pouco atraente, mas a qualidade da carne e a mistura de sabores e texturas que acontecia na boca merece o prêmio de uma das melhores coisas que comi na vida. Originalidade, nesse quesito o bar merece nota 10. Porém, o bar é, digamos, muito "sofisticado" para ser chamado de buteco, ainda mais com "u", está mais para restaurante alemão, e estava bem cheio e por ser pequeno, muito barulhento. O atendimento não era amigável, apenas respeitável, e nada pessoal.
Atestado da Cervejaria do Alemão
    No caminho de volta do centro para casa, paramos na Mooca, meu! E lá fomos conferir um bar que dá Atestado de Buteco. A Cervejaria do Alemão atesta, para quem precisar, com assinatura do dono, que o cliente esteve no local de tal a tal horário, em tal data,sob cuidados profissionais para tratamento "cervejalógico e choppológico". Se eu ainda trabalhasse no banco, com certeza levaria para minha chefe depois de faltar um dia, seria, no mínimo, hilário. Ali não só o dono trabalhava, mas também a esposa muito simpática e a filha. A porção era bem interessante: Costelinha de Tambaqui. Peixe gostoso e bem fritinho, fresquinho, mas sem muito inovação no sabor, apenas na apresentação; eu, pelo menos, nunca tinha comida costelinha de peixe. Além disso, já estávamos bem satisfeitos e cheios da grande porção de joelho de porco do bar anterior.
      No terceiro dia de bares decidimos ir a um só, pois também queria ir experimentar um milkshake com sorvete Häagen- Dazs que estava sendo testado numa hamburgueria da cidade, a qual também nunca tinha ido, bem fancy por sinal. A hamburgueria e o milkshake não tem nada a ver com o Comida di Buteco, mas se você chegou até aqui no texto é porque gosta de comida, então vale a pena falar um pouco mais do assunto. A Häagen- Dazs me fez saber pelo Facebook que estavam testando no General Prime Burger quatro novos sabores de milkshake usando sorvetes da marca, e aquelas fotos me deixaram louca, não pude resistir e quis ir lá provar pelo menos um. Entre Tamarindo, Floresta Negra, Beijinho e Romeu e Julieta escolhi o segundo sabor porque era o único que levava sorvete de chocolate e não de baunilha. O namorado não pôde deixar escapar a cena de Pulp Fiction, quando Vincent fica abismado com o preço do milkshake que Mia pede na lanchonete:
VINCENT: Did you just order a five-dollar shake? (Você pediu o milkshake de 5 dólares?)
MIA: Sure did. (Claro que sim)
VINCENT: A shake? Milk and ice cream? (Um milkshake? Leite e sorvete?)
MIA: Uh-huh. 
VINCENT: It costs five dollars? (Custa cinco dólares?)
MIA: Yep.
VINCENT: You don't put bourbon in it or anything? (Você não coloca bourbon nele ou coisa assim?)
WAITOR: Nope.
VINCENT: Just checking. (Só checando)
    Well, o milkshake custava bem mais de cinco dólares nesse caso, mas quando ele veio e experimentamos, a reação foi a mesma que de Vincent:
"That's a pretty fucking good milkshake. I don't know if it's worth five dollars but it's pretty fucking good." (Esse é um puta de um milkshake bom. Não sei se vale cinco dólares mas é bom pra caralho).
         Mas essa incrível experiência milkshakeana foi depois de visitarmos o bar Leporace, no Campo Belo. Um dos primeiros que tinha visto na TV, ele me chamara minha atenção porque seu quitute era "meio" árabe. O Arais é uma porção de pão sírio cortadinho depois de recheado com carne moída temperada com especiarias assado na grelha, acompanhado com molho de coalhada seca. A foto não mentia, aquilo tem uma gosto diferente e muito bom, para quem gosta de sabores árabes é uma beleza. A porção peca apenas por ser pequena e, por isso, não fazer jus ao preço. O bar mais longe ao qual fomos também não poderia ser chamado de buteco, mas talvez de "boteco chique", que é mais hype; atendimento comum, nada memorável na simpatia ou amizade.
      Depois de um final de semana comendo churrasco em Lins, no último final de semana da competição fomos a dois bares da zona norte. O Mercearia ZN nos atraiu pela proposta de Purê de Mandioquinha com Carne Seca, e se revelou um "barzinho chiquetoso" bem atraente em meio ao Jardim França. Da comida devo dizer que o purê roubou o prato com o molhinho de pimentão vermelho, um dos quatro mini-acompanhamentos do prato, e que a carne seca estava salgada demais. Ali, como em outros bares, apesar de vazio, o atendimento não foi nada especial, mas quero crer que estavam já cansados, uma vez que chegamos lá quase meia noite. Não posso esquecer de falar que ri muito ao ir ao banheiro do Mercearia ZN, voltei sorrindo à mesa, pois no banheiro feminino havia cabine para deficientes físicos, porém o banheiro ficava no segundo andar da casa após dois lances consideráveis de escada, e não conseguimos localizar elevadores na casa. Curioso, para dizer o mínimo.
      Para encerrar a noite, e nossa pequena participação na competição, fomos ao Famoso Bar do Justo em Santana. O mais antigo bar participante está ali pertinho do metrô Carandiru desde 1946 e transformou o clássico Bolinho de Bacalhau no segundo quitute a merecer uma nota 10 em minha cédula. Além de sequinho e com gosto, de verdade, de bacalhau, eles tiveram a brilhante ideia de rechear o meio do bolinho com requeijão cremoso e azeitona preta, era de comer de olhos bem fechados. Buteco butecão, esse fica aberto até as 3h da matina, não tem chopp, o preço da cerveja é meio salgado, mas os salgadinhos no cardápio são diversos. O garçom que nos atendeu era divertido e educado (brincou com minha insistência por refrigerante zero e opção pelo suco de abacaxi sem açúcar), nos contou a história dos jurados e respondeu à nossa pergunta:
- Afinal, quem ganhar, ganha o que?
- Bom, aparece na Globo, até no Jornal Nacional.
      Precisa dizer mais? Além disso, como ele lembrou, só de participar o bar já ganha visibilidade e novos clientes, como nós, que fomos ali por conta da competição e que com certeza voltaremos e indicaremos aos amigos. Certeza! Disse até que se eles ganhassem era pra gente dar uma ligadinha lá e falar com ele porque vai ter comemoração.
       Com essa espécie de brincadeira de caça ao tesouro misturada a eleições aprendi várias coisas sobre butecos, comida e São Paulo. Talvez a mais importante seja que sair de carro à noite em Sampa é bem mais tranquilo e divertido quando buscamos descobrir bairros fora do eixo Vila Madalena - Pinheiros - Augusta, evitamos o estresse do trânsito, dos valets, das filas e das entradas cobradas. A zona norte me surpreendeu positivamente, já estava explorando a região antes do concurso e agora vou me dedicar mais a ela, com exceção da loucura da Av. Eng. Caetano Alvares e da Av. Dumont Villares (a rua do SESC Santana), ali é possível estacionar sem problemas e não há trânsito nem muvuca. Alguns já sabem que me nego a pagar "vigiadores de carro" e evito estacionamentos, pois a rua é de todos, inclusive minha. Todos os bares foram visitados de carro e em todos eu estacionei na rua, em lugares próximos aos bares. É claro que sair de carro tem suas desvantagens, ser a "motorista da vez" impossibilita o chopp gelado e a cartela de cachaças. Também percebi que temos muitas palavras e especificações para bares, de buteco a barzinho há uma gama extensa, que sentimos logo quando damos de cara com um bar; e que comida de buteco está também sofrendo as consequências da importância crescente que a gastronomia vem ganhando em São Paulo, consequências positivas no sabor e variedades que melhoram, mas negativas nos valores e supervalores que começam a aparecer.
       Agora é esperar pra saber se tive um bom faro e se o vencedor estará entre os que visitamos. O resultado sai dia 10 de julho.

Doidera Alemã - prato do Amigo Leal

sexta-feira, junho 01, 2012

Marcha das Vadias




  Milhares de coisas passaram pela minha cabeça durante a Marcha do dia 26 de maio. Eu gostaria de escrever sobre todas elas, mas de uma vez só não dá, então escrevo sobre apenas algumas das milhares de coisas.
  Um dos "slogans" da marcha de 2012 era Marcharemos até que todas sejamos livres. Pois é. Vamos ter de marchar muito.
  Liberdade para mulher é poder abandonar seu parceiro depois de ser agredida com o respaldo do Estado para sua proteção. Liberdade para mulher é uma educação oficial que não pregue papéis fixos para os gêneros, que possibilite azul e espaço público para mulher, se ela quiser, e rosa e espaço privado para o homem, se ele quiser. Liberdade para mulher é gerar com essa educação igualitária menos possibilidades de ela ser agredida por seu parceiro, que vai vê-la menos como um objeto e ela vai ver-se menos como submissa. Liberdade para mulher é poder sair de noite de casa apenas (ok,eu sei que já é muito, homens, mas vamos com medos adicionais) com medo de assalto, roubo, sequestro, como um ser humano de qualquer sexo na “cidade grande”, e não também com medo de ser violentada, estuprada, molestada por, aparentemente, estar do lado mais fraco. Liberdade para mulher é não mais ser vista como minoria, pois não o somos. Liberdade para mulher é poder sair com a roupa que ela quiser para ir onde ela quiser, mesmo que não seja carnaval, sem ser humilhada, ameaçada e sentir-se acuada no espaço público. Liberdade para mulher é poder ter o direito de fazer um aborto legal e seguro caso não acredite ser capaz de ser mãe no momento em que enfrenta uma gravidez indesejada. Liberdade para mulher é ter acesso ao planejamento familiar e ao parto natural seguro garantido pelo Estado. Liberdade para mulher é receber o mesmo salário que um homem quando executar a mesma função.
  Quando alguém fala que o feminismo é ultrapassado, que as mulheres já conseguiram muito e que agora é tudo firula, quando ouço que não existe mais machismo, confesso que quase não posso me conter, uma vontade incrível de esfregar na cara do cidadão os dados, só os dados, coisa que brasileiro adora. E vamos então só falar de violência, sobretudo a física, uma parte muito pequena do universo dos problemas enfrentados pelas mulheres no Brasil. Segundo dados, uma em cada cinco mulheres consideram já ter sofrido alguma vez “algum tipo de violência de parte de algum homem, conhecido ou desconhecido” e o parceiro (marido ou namorado) é o responsável por mais de 80% dos casos reportados. E mais: "a cada duas horas, uma mulher é morta no Brasil. Na maioria dos casos, o assassino é o namorado, marido ou ex-companheiro, que mata dentro de casa, após já ter cometido pelo menos um ato de agressão" (Estado de S.Paulo, 08.05.2012). Por que será? Eu pergunto a você, que acredita mesmo ser desnecessária a luta feminista hoje, eu pergunto: por que?  Já ouço as respostas:
  - Ah, a mina que escolheu o cara que vai namorar.
  - Bem feito, culpa dela.
  Quando um homem é assassinado durante o assalto do seu carro, alguém fala que a culpa é do cara? Quando um homem apanha de um ladrão roubando, é culpa do cara? Não, né? Mas quando a mulher apanha a culpa é dela que escolheu mal seu parceiro; quando é estuprada, a culpa é dela que saiu de saia curta e blusa decotada, né? Aprendam uma coisa: a culpa não pode ser da vítima. Porém, quando se trata de vítimas mulheres, a culpa é sempre da vadia. Afinal, se a garota sai de roupa curta ela está pedindo para ser estuprada, não é mesmo? Não é porque o corpo da mulher é dela e ela veste o que ela quiser, não é porque ela acha que fica bonita naquele vestido, é porque ela está querendo ser estuprada.
Podem falar que estou viajando, mas parem para pensar só um pouquinho. Você, mulher, quantas vezes já deixou de comprar aquela blusinha decotada porque olhou no espelho do provador e pensou "onde eu vou poder usar isso?". Amiga, você pode usar a roupa que quiser onde quiser. Ou deveria poder, num mundo sem machismo. Mas, oh!, esqueci que não existe mais machismo. Então, amiga, vá ser feliz com sua blusinha. Você, homem, pai, quantas vezes já não olhou para a roupa da sua filha, da sua esposa, saindo sozinha de casa e não ficou preocupado, ficou pensando nela andando pelas ruas da cidade, pegando metrô e ônibus, você acha que isso é paranoia ou acha que é um perigo real? Mas a luta feminista não era muito demodé? Uai!
 Antes da Marcha fiz um convite às pessoas: se você é mulher ou se você é homem e conhece alguma mulher que já deixou de usar uma roupa por medo de violência, vá à Marcha. Pense bem, qual parcela da população você acha que responderia sim a essa pergunta? Agora, a luta não tem sentido mesmo?
  Vadia é um termo que choca você? Então pare de usá-lo. Se vadia é a mulher que exerce a liberdade que tem sobre seu corpo, junto-me ao coro da Marcha, então somos todas vadias!

*foto de João Romano (http://jaoromano.tumblr.com)

quinta-feira, maio 03, 2012

Bat-bag



Para começar devo dizer que já no título do texto tive de recorrer ao Google. Como escrever "batibégui"? Aparentemente é desse jeito aí em cima, não achei em dicionários, mas descobri que em espanhol o mesmo brinquedo parece chamar-se picabolas. Entusiasmante. Mas tudo bem, esse texto já estava quase pronto em minha mente antes da escolha do título e antes mesmo de eu me lembrar desse brinquedo de barulho irritante. Escolhi o brinquedo como mote de uns dias para cá.
Fui viajar já pensando na nostalgia da infância, e no avanço extremamente rápido das mudanças na vida nos últimos anos, e, quando eu volto, um mês depois, todos estão para cima e para baixo com seus bat-bags por São Paulo. Primeiro pensamento: que merda é essa? Voltei a 1996? Depois de ver celulares 3D e ter certeza de que pousei na São Paulo de 2012, segundo pensamento: por que adultos estão batendo essa coisa? Sim, não só os camelôs que vendem o brinquedo, brincam, adultos e idosos divertindo-se com o brinquedinho barulhento estão por todo lado. Pesadelo.
Poderia passar horas destilando meu veneno e minhas críticas que seriam mal compreendidas pelos defensores do politicamente correto de plantão, que avacalhariam minha avacalhação de adultos que brincam de bat-bag por aí, sim, poderia estar matando, poderia estar roubando, mas não, vou ficar quieta sobre esse ponto. Já deixei clara minha estupefação, e vou retornar ao tema que me instigava desde o início, desde antes do ressurgimento macabro das bolinhas coloridas: a boa e batida frase "poxa, estou ficando velho".
Muitas conversas com amigos em bares e ruas e filas de cinema e do bandejão começam ou acabam com essa frase. Para quem ainda não está na faixa dos cremes Renew ou Chronos, é de se pensar o motivo de tal constatação. E pensando bem descobri que os avanços é que foram rápidos demais. Tive uma infância mais parecida com a dos meus amigos que tem 30, 35 anos, do que com a do meu irmão, quatro anos mais novo do que eu.
Vamos aos exemplos. Quando eu estava na escola, no fundamental I, que naquele tempo não muito distante todo mundo ainda chamava de primário, estudávamos geografia fazendo mapas em papel manteiga. Quem lembra? Copiávamos os mapas dos atlas com o papel transparente por cima e pintávamos os rios de lápis de cor azul claro. Suspeito de que na papelaria do bairro nem vendam mais papel manteiga. Atlas, nunca mais vi. E eu que copiava os mapas de uma Barsa que tinha em casa na qual não existia Tocantins (até aí tudo bem, é novinho) e na qual ao lado do Rio ficava o estado da Guanabara. Talvez meu pai tivesse razão em investir numa Enciclopédia Larousse mais tarde, ou não muita, quem poderia prever o fim das enciclopédias? Nem Diderot e D'Alembert teriam imaginado a Wikipédia. Sem falar das réguas que todos queriam, mas os professores proibiam, rainhas da 25 de março, réguas com o mapa do Brasil. Não precisa nem ser professor ou aluno para saber como os estudantes levam mapas à escola hoje, né?
Quando eu era criança lá em casa não tínhamos telefone. Tínhamos o aparelho, que eu adorava ficar abrindo e brincando com as peças, mas nada de linha telefônica. Para pedir pizza era preciso ir ao orelhão do bairro, sim, como disse, não sou velha, já tinha o "delivery". Para ligar para as amiguinhas que tinham telefone, orelhão do bairro. Isso porque a linha era super cara, tinha gente que alugava linha telefônica mais caro que aluguel de casa. Era por sorteio e quem tinha também era acionista da Telebras ou Telesp, coisa que o valha. Nosso primeiro telefone foi um celular da BCP, e eu já tinha 10 ou 11 anos, um ano depois veio a internet, discada, e com ela nossa linha de telefone fixo. Quem lembra do barulho e das tentativas de número 100 para conectar no final de semana? E hoje todo mundo tem pelo menos um celular, tem gente com mais de um numero, como é meu caso, internet no celular e tudo mais.
Mesmo o bat-bag (ok, não me conformo), em 1996, ano da segunda ou terceira onda da febre do brinquedo (porque teve uma nos anos 70 também), eles eram feitos com corda de varal e uma porca de metal, não sei o nome específico, algo como uma porca. Hoje é um cordãozinho mais fresco e uma pecinha de plástico.
A televisão a cabo, quando muito, tinha legenda. A primeira vez que vi Cartoon Network na vida era em inglês, sem legenda, pela TVA. Quando meus pais assinaram tv a cabo em casa nada era dublado, nem os desenhos. Meu video game era um Super Nintendo no qual eu jogava Super Star Soccer e hoje o Wii dá de mil a zero no Super Nintendo, com seus cartuchos que a gente assoprava para funcionar melhor. Quem lembra?
Vi meus pais trocarem todos os LPs por CDs, e eu gravava a primeira música da Britney Spears num toca-fitas, apertando play e rec ao mesmo tempo e prestando atenção para não pegar a propaganda da rádio, e nisso eu já estava no então chamado ginásio, na quinta série, 1998, e em 2008 os CDs já eram obsoletos. O LP reinou por o que? Uns 70 anos? E o CD não conseguiu ser soberano por 10 anos. Do primeiro celular Star Tek ao Smartphone também foram só uns 10 anos, se muito.
Vi o fechamento de diversas salas de cinema de rua, uma a uma, do Centro nos anos 90, da Paulista nos últimos anos. Vejo o Cinemark crescer loucamente e 30 salas passarem o mesmo filme o dia todo em versão dublada. Agora, quando quero saber a capital de um país digito no Google e já vejo a bandeira e já ouço o hino. Antes, ia lá na Barsa, e para ilustrar trabalhos de escola eu desenhava com lápis de cor ou usava adesivos ou decalques. Lembro de um trabalho de geografia na Copa 98 em que tivemos de desenhar a bandeira de todos os países participantes (aí eu descobri a Croácia) e foi muito trabalhoso pesquisar todas e desenhar todas à mão. Hoje ligo a impressora e pronto.
Não estou ficando velha, no meu tempo não era melhor, meu tempo é agora, foi só o mundo que resolveu dar uma acelerada rápida e eu era criança bem quando isso começou a acontecer. Quem lê esse humilde blog sabe que sou muito nostálgica, às vezes pareço uma velha com 50 gatos, mas não tenho nenhum. Só é chocante, só isso!

terça-feira, março 13, 2012

DE VOLTA AO BANCO

Desde que sai do meu emprego na Caixa Economica Federal em julho do ano passado, nunca mais tinha entrado numa agência de banco. Resolvo tudo pela internet ou no caixa eletrônico, no máximo entrei na agência em que trabalhava para dar um alô ao pessoal quando passava na porta. Mas uma boa notícia, ter conseguido uma bolsa para o mestrado, me levou a uma má notícia, ter de abrir uma conta num banco específico no qual não tenho conta ainda. E aí, já viu!
Achei que seria um dia feliz, com sol, pegaria o comprovante da bolsa, iria ao banco, abriria a conta, sairia contente, iria aos demais compromissos do dia. O que se seguiu na verdade foi a definição de inferno astral misturado com fezes de pombo na cabeça. Tive de cancelar todos os compromissos do dia pois fiquei das 11 às 16h tentando abrir uma conta e fiquei tão nervosa com os acontecimentos que agora estou mesmo é precisando ir à terapia que cancelei.
Fui avisada ontem da bolsa e precisava de um numero de conta no meu nome no determinado banco até amanhã. Peguei o comprovante da bolsa na faculdade e fui alegre e contente abrir a conta em uma das agencias da Universidade. Puff! Dez dias de espera para abrir a conta. Tenta em outra: 3 semanas de espera. Outra e mais outra e nenhuma agência abre conta na hora, todas com espera. Onde já se viu isso?! Achei que fosse bom para um banco operar com a MINHA grana, ganhar em cima da MINHA grana, do pacote que me obrigam a pagar pela gestão da conta, alguém para mandar cartões de crédito sem que eu peça e oferecer seguros dos quais não preciso etc. Mas bom, parece que eles se esqueceram disso, e me senti idiota sendo uma cliente implorando para ser explorada!
Cinco agências nos arredores da Universidade não aceitaram meu dinheirinho. Não agora pelo menos, eles não tem pressa. Mas eu tenho. Comecei a ficar desesperada. Pensei: quer saber, vou levar minha grana para Z.L.! E batata, a agência perto de casa topava abrir a conta na hora. Depois de horas camelando sob o sol da Z.O., vi-me voltando cabisbaixa para a Z.L.Mas nem tudo é perfeito, não é mesmo?
Ar condicionado, agência vazia, tranquila, silenciosa. Estava muito bom para ser verdade. É claro. De primeira não quiseram aceitar meu comprovante dizendo que aquele não é o modelo que eles conhecem. Saia da fôrma e será punido, claro! Depois de contar minha triste história e fazer cara de gato-de-botas finalmente tive minhas preces atendidas, mas não como bolsista CAPES, mas com uma conta comum a qual após o depósito primeiro terei de transformar em conta universitária. Ah sim, o atendente fez eu entrar no site do Janus na frente dele e imprimir um atestato de matrícula na USP.
Desde a época em que tornei-me bancária eu dizia que bancários são piores que taxistas. Uma das grandes injustiças brasileiras é o fato de os taxistas levarem tanto a fama de malufistas conservadores e propagadores de clicês preconceituosos enquando os bancários passam desapercebidos por esse mundo dos rótulos.E costumava perceber uma presença constante de recalque na classe dos bancários, pontas de inveja e massas de frustrações. E hoje, estressada, 14h30, sem comer, com calor e nervosa, eu iria trombar, claro, justamente com um que merece o rótulo.
A primeira pérola foi, falando sobre trabalhar em banco e fazer hora extra, eu falei que os cariocas estão certos quando dizem que trabalhamos demais e damos muita importância a fazer hora extra, aí ele disse "mas carioca é preguiçoso, e pior que eles só mesmo os bahianos". Fica imaginando a minha cara de "mano, v@$%&*@#!!!", quem conhece essa cara imaginou. A conversa acabou. Depois de aberta a conta reclamei da taxa mínima de manutenção, um absurdo de R$6,50 para conta universitária (minha outra conta em outro banco cobra R$1,98), mas sabe como é, eles detem o monopolio das bolsas pagas no Brasil todo. Eu tentei negociar, lei do mercado né, ao que ele respondeu: "não é tanto assim, você está ganhando para estudar mais do que muita gente aqui que bate cartão todo dia e traz marmita pro almoço". Queria dar uma voadora, uma joelhada giratória, um FATALITY no homem diante de mim. O problema do Brasil e dos brasileiros é não saber valorizar os estudos e seu valor na sociedade, vale lembrar que em diversos países a palavra usada normalmente para estudar é trabalhar.

sexta-feira, março 09, 2012

Se eu soubesse que ia mudar tanto, eu teria me despedido.*


Quem já leu alguns textos desse meu intermitente blog sabe que um dos meus defeitos é a nostalgia. Sou nostálgica, idealizo o passado e sinto muita saudade, sou reclamona também, o que vem a combinar com a nostalgia até. Mas não apenas os nostálgicos concordarão comigo no tema de hoje. Percebo que muitos concordam, muitos estão tristes, e infelizmente, muito poucos estão revoltados.
E o tema da nostalgia agora é a USP, a Universidade de São Paulo. Estudo na USP desde 2005 e nos últimos anos ela tem mudado muito e muito rápido, seja em aspectos administrativos e um pouco abstratos, seja em aspectos físicos que interferem em nosso cotidiano no Campus Butantã, mais especificamente. Na Era Rodas as mudanças são cada vez mais drásticas e acontecem num piscar de olhos, de preferência durante as férias e feriados prolongados.
Eu poderia falar sobre a gestão do Reitor, sobre os preconceitos vociferados nos jornais contra os estudantes da Universidade, poderia discutir assuntos de assembeia, mas quero descrever experiências e julgamentos bastante pessoais, mas que não deixam de ser políticos e que, tenho certeza, não deixam de ser experiências partilhadas por muitos alunos, e quem sabe até funcionários e professores da USP. Falo assim sobre professores e funcionários porque nós estudantes estamos sendo traídos por essas categorias no momento em que mais precisamos delas. O Reitor aumenta salários e promete benesses em troca do silêncio dos funcionários, eu tenho que admitir: Rodas sabe Reinar! (http://likearodas.tumblr.com/)
Quando entrei na USP o campus não tinha semáforos, só aquele em frente a Educação, por conta da Escola de Aplicação. E só. Os pedestres eram respeitados, colocava-se um pé para fora da calçada e os carros paravam, era mágica. As linhas de ônibus também eram muito diferentes,mas isso é outra história, mas quem lembra da USP-Hosp Heliópolis, que era o mais cheio do campus e a SPTrans desativou dizendo que não tinha público?! Enfim. Hoje o campus está cheio de semáforos, por todo canto, e agora lá é terra de carro. Os motoristas buzinam para quem atravessa fora da faixa e para quem atravessa com o sinal aberto. Já sei, já sei, alguns dirão:
- Aff,mas não é assim no resto da cidade?
Para esses eu digo:
- Leiam o texto até o fim,por favor.
Quando eu entrei também não existia bandejão terceirizado, todos os restaurantes eram da USP com funcionários da USP, não havia a aberração do bandejão da Química. Pelo menos o bandejão continua a R$1,90.
Aí fecharam o Central ano passado e reabriram com portas que disparam alarmes quando abertas, com catraca eletrônica e MUITA, MUITA grade. O ambiente é tão limpo e tão branco que lembra um hospital, nem o HU é assim. E, em breve, será extinguida, eliminada, jogada para escanteio sem direito a gandula, nossa amada e adorada bandeja. Isso sim companheiros é que é progresso. Aquela bandeja dá um ar muito operariado para o restaurante da maior universidade do Brasil, com o prato tudo fica mais civilizado e até economiza-se na quantidade de comida. Todo mundo para quem perguntei prefere a bandeja ao prato, mas... alguém perguntou alguma coisa?
Policiais dando cacetada em estudante negro, afinal, o que cargas d'água faz um negro na USP, né?! Eu achei que depois do acontecido no dia 09 de junho de 2009, dia em que eu não estava no campus mas que acompanhei através dos tresloucados comentários de Datena e companhia (http://www.youtube.com/watch?v=umPd5Sz9tjQ), ficaria claro para os que dirigem a universidade que a PM não deveria estar no campus. Mas não ficou claro. E Serra, então nosso excelentíssimo governador, resolveu recrudescer a gestão da USP nomeando Rodas reitor em novembro do mesmo ano. Desde então foi descer ladeira abaixo.
Mas descer a pé. Porque de circular agora só vai quem tem o BUSP, o "bilhete único" da USP. Antes não tinha, agora tem. Ou seja, você, lindo e belo que está lendo isso, que não é aluno nem funcionário nem professor da USP, um belo dia te dá a loca de ir checar o que está acontecendo na Cidade Universitária, como está sendo gasto o seu rico dinheirinho, tomar um solzinho no Morro da Coruja, um chá na Biologia, ver uns órgaos em vidro no Museu de Anatomia. Voilà, você não pode usar o circular, porque agora ele é EXCLUSIVO para a "comunidade USP". Lembrando que a comunidade exclui os funcionários terceirizados que limpam salas, banheiros e lixeiras da dita comunidade. E depois dizem que a USP é elitista...imagina! O que é interessante mesmo é que os mesmos alunos chamados de elitistas e filhinhos de papai pela mídia e por parte da sociedade quando dos ocorridos em novembro passado, são os mesmos que estão lutando para que o circular não seja apenas para eles, que também seja para o filho da terceirizada ir para creche, para o morador da São Remo ir para a R. Alvarenga, mas isso ninguém fala. Alguém dirá:
- Mas no resto da cidade paga-se o ônibus, por que aí seria diferente?
Eu digo:
- Leia o texto até o fim. E vá tomar naquele belo lugar, antes que eu me esqueça, seu direitista travestido!
Não vou aqui lembrar o papel da PM na ditadura e o que acontecia com estudantes, inclusive da USP, no período.Nem falar de suspeitas de corrupção na gestão Rodas. Só queria dizer do meu sentimento de que a época mais interessante da USP está acabando, prédios administrativos serão transferidos para fora da Cidade Universitária, manifestos e protestos serão proibidos, e o bandejão não terá mais bandejas. Suspeito de que ali também não será mais território livre para circulação e expressão de ideias e ideais.
Sim, eu preferia a época de Xuxa e os Duendes. Explico. Quando aconteceu o assassinato do aluno da FEA (que até hoje me é um caso bem suspeito,mas enfim), minha amiga Mariana, que empresta o título a esse texto, disse que as pessoas não deveriam ficar surpresas com o ocorrido, pois a Cidade Universitária não é, afinal, o mundo de Xuxa e os Duendes. Não é, mas poderia e deveria ser. E esse é o problema. As pessoas estão aceitando cada vez mais facilmente que não há nada que distinga o espaço do campus da USP do resto da cidade de São Paulo. Mas lá é outra cidade, tem até prefeito. Ali deveria ser um espaço privilegiado de convivência e circulação de pessoas, um espaço diferente do "mundo real" onde fosse possivel, justamente, refletir sobre o "mundo real". Ali o tempo tem de andar de forma diferente, o ar deve der diferente, porque ali estão em jogo não apenas pesquisas científicas que mapeiam genomas e descobrem vacinas, como também estão sendo gestadas ideias e análises que intencionam ajudar a compreender e a mudar o "mundo real". Alguns estão dizendo:
- Oh, como vocês são especiais!
Eu digo:
- Sim! Eu posso até não ser, mas ali há muita coisa de especial. E coisas das quais todos podem fazer parte. Excelência não quer dizer exclusão nem elitismo.
Veja cartões-postais de Harvard, Yale, Cambridge, Oxford, são ilhas de verde e calmaria. Não se assemelham em nada a São Paulo, caótica e cheia de carro e cinza. E não quero e não posso esquecer dos três pilares da universidade pública brasileira, que é pública por ser de todos e mantida por todos, embora não possa ser para todos: Pesquisa, Extensão e Ensino. Extensão até onde?


*devo dar os créditos da frase para Mariana Rosell (http://noticiasnemsemprepopulares.wordpress.com/)

sábado, fevereiro 11, 2012

Eis o mistério da fé

Num desses domingos fui ao Mosteiro São Bento para a missa com canto gregoriano e órgão. É um desses passeios obrigatórios em São Paulo e entendi o porquê. O mosteiro estava cheio, pessoas sentadas no chão, pessoas de pé, e durante toda a missa reinava um silêncio incrível do público enquanto ressoava por cada parede o som dos tubos do órgão e as vozes de pouquíssimos homens que se multiplicavam pela igreja. Foi belissimo ouvir aqueles sons numa manhã calma de domingo em São Paulo, e ver tantas pessoas em comunhão pronunciando juntas as mesmas frases de fé.
Toda vez que vou a um culto religioso é assim, raramente não vejo ali beleza, seja na roupa das pessoas, seja em suas vozes, em suas músicas, em seus templos, porém há sempre uma esfera que permanece impenetrável para mim. E não é porque acredito em X e por isso não consigo acompanhar os que acreditam em Y, não sei como seria um judeu praticante num culto católico, por exemplo, mas não é assim que me sinto. O desajuste é um pouco maior. Não é que eu não acredite no culto de imagens e acredite em vida após a morte, não é que eu acredite em reencarnação e não no progresso visando o Nirvana. Eu simplesmente não acredito.
Pode parecer um assunto bobo, mas não é. Viver numa sociedade em que muitos acreditam e não acreditar gera conflitos internos bastante interessantes, para dizer o mínimo.
Meus pais não me batizaram, eles não são praticantes de nenhuma religião, os chamados agnósticos. Embora visitar a igreja de Nossa Senhora Aparecida no interior tenha sido parte de algum roteiro de viagem, promessas sejam feitas em troca de algum beneficio do "divino", e exista um certo panteísmo na minha educação, meus pais sempre acreditaram que deveríamos, meu irmão e eu, ter a liberdade de escolher nossas crenças quando achassemos mais conveniente.
Pelas circunstâncias da situação da educação no país acabei estudando parte da minha vida em colégios religiosos, ambos católicos, nos quais tinha as chamadas aulas de religião, que misturavam uma proto-catequese com pseudo-discussões sobre assuntos como homoafetividade e aborto. Assim. Só coisa leve e pouco ideologizante. Lembro-me até hoje, no ensino médio, de uma discussão sobre aborto e de uma sobre eutanásia nas quais eu devo ter sido a aluna mais chata da vida daquelas professoras. Eu simplesmente não conseguia concordar com o que elas diziam e fazia questão de deixar isso claro.
Durante anos eu busquei a fé. Estudei sobre algumas religiões. Por alguns anos, entre os 13 e uns 16 anos de idade, me interessei bastante pelo judaísmo, lia tudo que havia sobre o assunto, frequentava o Centro de Cultura Judaica e aprendi muita coisa. Hoje não me interesso pela religião, mas a cultura judaica ainda me fascina muito. Convivi com budistas, frequentei centros espíritas e sessões de mesa branca, li Violetas na Janela, fiz um curso para católicos na escola fora do horário escolar durante um ano, li muito da Bíblia católica, visitei algumas igrejas protestantes, enfim, eu procurei e achava que em algum momento eu encontraria.
Outro dia fui a um casamento católico celebrado por um padre bastante interessante que me fez ficar bastante chocada com pessoas que são capazes de casar na igreja apenas pela convenção da coisa. O casal em questão era de fato bastante religioso, mas sabemos como as coisas geralmente funcionam. Quero dizer, naquele momento você jura, você dá a sua palavra a coisas que você não acredita e sabe que não irá cumprir. Pareceu-me muito forte esse momento, eu não seria capaz de jurar em falso coisas do tipo, pareceu-me um desrespeito fazê-lo, um desrespeito às próprias convenções humanas e ao valor da palavra empenhada.
No fim acho que a fé é algo que se tem e pronto, ninguém tira de você e não sei até que ponto alguém, ou algo, pode colocá-la em você. Sem grandes intelectualizações, não acho mais que seja racional, eu não escolhi não acreditar. Eu não acredito e pronto. Quando as pessoas me perguntam por que eu não acredito em Deus eu não posso responder que é porque ninguém provou que ele existe, não posso dizer que Descartes não me convenceu (embora eu tenha sido bastante ingênua no meu primeiro ano de faculdade lendo feito uma louca as Meditações Metafísicas achando que no fim eu estaria convencida da existência de Deus para valer!). Não é nada disso, é uma coisa do sentir. Eu não sinto, e não só Deus, eu não sinto nada que vai além do que eu vejo ou compreendo racionalmente.
Na missa católica há um momento em que o padre apresenta a hóstia como sendo o corpo de Cristo e o vinho como sendo seu sangue, e naquele instante é corpo e é sangue de fato. A missa diz, ali: eis o mistério da fé. E é bem isso.