quinta-feira, janeiro 27, 2011

::My headphones saved my life::
Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos
Sábios em vão
Tentarão decifrar



::Não esquecer de Brusky::

Num encontro com o artista Paulo Brusky numa palestra para os arte-educadores da Bienal, ele nos contou uma história que jamais serei capaz de esquecer. Brusky trabalhou a vida inteira como funcionário público numa repartição da saúde no Recife, um dia um pintor foi entregar um quadro que havia vendido para um médico grã-fino da cidade e encontrou Brusky em seu trabalho. Assustou-se:
-Pô Brusky, o que você está fazendo aqui, você é um artista, por que está aqui?
Ao que Brusky responde:
-Para não suar minha arte embaixo do sovaco.
Desde esse causo, o Brusky virou meu herói, aquele sujeito bonachão me conquistou e sua causa também.
Mas agora, pensando melhor, reavalio a situação e vejo nisso uma pitada de arrogância e de covardia. Pode ser que eu esteja avaliando a mim mesma, mas o fato é que tal “causa” supõe que sua arte é boa demais para se sujeitar ao mercado, e como um tem de viver, vende sua força de trabalho diariamente para ser um artista livre. O capitalismo é cruel, nenhuma novidade, e para os meros mortais que não nasceram em berço de ouro e não foram estudar administração/direito/engenharia, o que resta, aparentemente, é isso, jornada dupla, vida dupla.
Numa você sobrevive, na outra você vive. Não seríamos muitos de nós artistas que preferiram não suar sua arte no sovaco e que acabamos por não suar mais por nossa arte?

::Juras::
Para mim a cama nunca é estreita, ela é o mundo, o universo no qual me atiro de corpo e o que mais tiver em mim. Há muitas coisas que gostaria de ouvir dele, espero por momentos e por frases das quais não me esqueceria, que me fariam flutuar. Mas essa espera não pode me cegar para os momentos e as falas mudas dos agoras que vivemos. Eu sou da fala, da escrita, analfabeta dos gestos e dos olhares, não sei ler entre linhas, não consigo ouvir suspiros. Assim a vida parece sempre em suspensão, uma expectativa por demonstrações que nunca virão e, logo, a frustração.
E entre o sono e a vigília, no leve movimento para alterar a posição no encaixe de meu universo, ele dorme com um sorriso nos lábios, e pega a minha mão, afaga-a contra a sua, e dá um beijo, terno, leve, cheio das afirmações que quero ouvir, e que não pode dizer.

sábado, janeiro 15, 2011

::O que me faz falta::

Não sinto falta de trabalhar na Bienal, trabalho é sempre chato, sinto falta é das férias, isso sim, de viajar, de praia, mas não de trabalho. Mas quase um ano é muita coisa e é claro que penso sempre na Bienal. E sinto falta...
... das idas com a Mari nos últimos meses, aquele tempo que passavamos no trânsito da Radial Leste era minha terapia diária;
... dos abraços e beijos no começo do dia;
... da bagunça;
... dos olhos brilhantes das pessoas que estavam deslumbradas com o que viam, essa é a beleza de verdade;
... do filme do Nastio Mosquito;
... dos espelhos da Monir;
... da raiva que eu sentia ao subir as rampas do prédio;
... das discussões acaloradas;
... daquele nosso lugar no auditório, o lugar da turma do Giu;
... das travessias do pontilhão;
... daquele sofazinho salvador;
... de ver todos os dias as minhas amigas, e filar os lanches delas.

::My headphones saved my life::

Mentiras – Adriana Calcanhoto

Nada ficou no lugar
Eu quero quebrar essas xícaras
Eu vou enganar o diabo
Eu quero acordar sua familia

Eu vou escrever no seu muro
e violentar o seu rosto
Eu quero roubar no seu jogo
Eu ja arranhei os seus discos

Que é pra ver se você volta
Que é pra ver se você vem
Que é pra ver se você olha
Pra mim

Nada ficou no lugar
Eu quero entregar suas mentiras
Eu vou invadir sua alma
Queria falar sua lingua

Eu vou publicar seus segredos
Eu vou mergulhar sua guia
Eu vou derramar nos seus planos
o resto da minha alegria

Que é pra ver se você volta
Que é pra ver se você vem
Que é pra ver se você olha
Pra mim

domingo, janeiro 09, 2011

vâmo que vâmo


::Divagações no Escuro::

Profecia dos Sapos
Fazia tempo que queria ver essa animação, que chance melhor do que a sessão especial para crianças do Cinesesc de domingo de manhã? Convidei minha mãe para me levar, afinal, sabia que estaria cheio de mães e pais com seus filhos, nada mais justo, não é? Recomendo essa sessão, todos os domingos pela manhã. Rua tranquila, dia tranquilo, e já começa com muita animação e alegria em ver crianças fofas brincando com tudo e sorrindo e correndo. E o melhor de tudo... durante toda a sessão não diríamos que a sala estava cheia de crianças, elas deveriam dar aulas de boa educação no cinema para os frequentadores dos Cinemarks da cidade.
A animação é linda, com estilo giz de cera e traços meigos, destrava o olhar viciado em animações computadorizadas no estilo Era do Gelo e Toy Story. A história, simples, prende a atenção e traz mensagens que serão sempre necessárias, básicas. Baseado na história de Noé da Bíblia, conta sobre um dilúvio do qual escapam um casal e seu filho adotivo juntamente com a amiguinha dele e muitos animais num celeiro que bóia graças a uma câmera de pneu de trator. Amizade, confiança, esperança e respeito à diversidade e ao meio ambiente, tudo isso e uma grande festa de confraternização ao final.

Última Parada 174
Queria saber o que esse filme tinha para ser levado ao Oscar como representante do Brasil, e é lógico, não ficar nem entre os 9 selecionados. A Globo deveria fazer suas sessões de filmes nacionais o ano todo e não só no começo do ano, semana maravilhosa essa do começo de janeiro, todo dia um filme nacional em horário nobre, melhor do que a falta de graça do Casseta e Planeta ou os animais e a obesidade no Globo Repórter.
Enfim, o filme tem todas aquelas qualidades de “filme brasileiro para exportação” cunhadas com Cidade de Deus. Se numa época eram o sertão, a miséria, a fome e a esperança, agora são o Rio, as favelas, o tráfico, tiro e pancadaria, bandidagem e suspense. Que história melhor do que uma real que mexeu com o Brasil? E nada melhor do que uma história triste por trás da desgraça, um determinismo social incrível para gerar nos espectadores um misto de culpa social com pena e comiseração. Mas o filme não é de todo ruim, tirando os clichês, ele é bem executado, e isso é importante para o cinema nacional, que tenta crescer e melhorar sua qualidade, como a de sincronização do som.
Vídeo do Youtube com as cenas reais, no filme essa parte ficou muito boa, de fato.
http://www.youtube.com/watch?v=MLMkBq--M_A


::Achado na gaveta::

Visita a BH em novembro

São Paulo está largada às traças, abandonada, é o deus-nos-acuda, o salve-se-quem-puder, “e agora, quem poderá nos ajudar?”
Uma cidade em que tudo é 24 horas, se orgulha disso, mas não tem transporte 24 horas. A “província” de BH, o “interior”, como chamam os paulistanos-metropolitanos-urbanizados-desenvolvidos, tem ônibus 24 horas. Como eu faria para chegar da minha casa na rodoviária às 4 horas da manhã? Sem ônibus, sem metrô. Impossível. Mas de onde se vê estrelas, o galo canta de manhã,e o vizinho abre o portão para eu comer jaboticaba do pé, ah, de lá até a rodoviária fui em 20 minutos às 4 horas da manhã em transporte público. E o ônibus não custa R$2,70, ou melhor, R$3, né?
Desenvolvimento para quem, cara pálida?
Na incrível terra em que um café expresso e um pão de queijo custam menos de R$3 e o quilo do pão menos de R$7, o centro é bem iluminado, menos sujo e mais policiado, o rio também é poluído, também tem trânsito, mas ouve-se menos buzinas, veem-se mais andorinhas e beija-flores.
“Oh Minas Gerais, quem te conhece não te esquece jamais”.
“Não permita Deus que eu morra sem que volte para lá”.

::Fases::

Existe uma fase do estar apaixonada em que a super confiança em si e o otimismo saem de cena para dar lugar à insegurança.



segunda-feira, janeiro 03, 2011




::Na prateleira::

Outro dia na Folha de São Paulo, a colunista Mirian Goldenberg começou uma discussão sobre o desconforto causado pelas novas categorias inomináveis de relacionamentos. O texto de novembro começa: “Muitas mulheres dizem que não sabem como definir o homem com quem estão tendo uma relação afetiva e sexual.” O que une essas pessoas é mais o sentimento e menos o rótulo de compromissos aceitos e classificados pelos pactos sociais. A discussão é pertinente, e fez o favor de atentar para o fato de que os homens podem simplesmente dizer “esta é minha mulher”, porém se uma mulher apresenta o homem com quem tem um relacionamento como “meu homem” soa extremamente vulgar. Em dezembro, Goldenberg e suas leitoras propuseram que se comece um movimento “pró-meu-homem”, que comecemos a chamar nosso “affaire” de “meu homem”, apresentá-lo assim para famílias e amigos, sim, na maior cara-de-pau. Problemas da vida moderna. O Facebook entendeu, e disponibilizou diferentes opções além dos clássicos “solteiro/casado/divorciado/viúvo”, como amizade-colorida e relacionamento enrolado, mas qual relacionamento não é enrolado?
Uma das pessoas citadas por Goldenberg diz: “Eu me classifico como tendo um relacionamento sério. Mas na vida real como posso apresentá-lo aos meus amigos? Este é fulano, o meu relacionamento sério?" Pois é, pois é, pois é. Respiro fundo. O problema de não querer se auto-rotular é a dificuldade de comunicação. As palavras são convenções para que, a partir do momento em que signifiquem as mesmas coisas para um grupo de pessoas, estas possam se comunicar entre si. Sem rótulos, tudo parece ideal, porém a confusão é geral ao deparar-se com uma sociedade que funciona por rótulos.
Já tive namoros, namoricos, casos escusos, relacionamento aberto, affaire, sexo sem compromisso, amigo com benefícios, amizade-colorida. Mas e quando você dá de cara com sua avó? “Oi vó, esse é Fulano, meu amigo-colorido”. Minha avó vai pensar que meu amigo é gay. Ou “oi vó, esse é Fulano, o cara com quem tenho saído nos últimos tempos e com quem faço sexo usualmente”?



::Divagações no Escuro::

A Rede Social

Vou falar bem baixinho, vai que a Associação dos Pseudo-Intelectuais me ouve... Eu gosto do Justin. Muita calma nessa hora, não o Justin Bibier, mas sim o Justin Timberlake. Não sou fã de sua carreira como cantor, mas quando assisti a Alpha Dog ele foi o ator que mais chamou minha atenção, mais do que a Sharon Stone transformada em mulher-feia. Em A Rede Social é ele de novo quem rouba o filme, proporcionando os melhores momentos do longa.
O filme não tem nada de especial e diferente, mas é um ótimo filme, porque reúne todos os elementos para ser um bom filme, sem vanguardismos ou afetações. Temos ali uma boa história, do tipo que todo mundo gosta: o nerd desprezado que dá a volta por cima. Com requintes de crueldade. E você nem sabe se fica do lado do Zuckerberg ou do Eduardo, afinal, você foi com a cara do Mark, ele é um cara legal e incompreendido, que estava lá, na dele, sendo nerd! Além disso, para os usuários apaixonados do Facebook, a curiosidade que vai sendo aos poucos alimentada para saber como surgiram diversas ideias para o programa só aumenta o prazer em ver o filme. No fundo é isso, não é o novo Godard, não é bonito, é prazeroso.

Tron 
Sim, sim, quero ver os blockbusters! Tenho tempo para todos nas férias, vi o novo Godard, retrospectiva do cinema brasileiro 2010, o recente Almodóvar e o do Michael Jackson na TV e, finalmente, criei coragem para colocar a mão no bolso e ir ver um filme em IMAX. Super concorrido, consegui um péssimo lugar, vendo filme de lado, o que, em 3D devia ser proibido. Fora que uma sala para uma tela daquelas, com uma projeção daquelas, deveria ter sido melhor projetada, não é justo que se pague tão caro para ter um péssimo assento. Bom, de fato a tela logo na entrada já me fascinou. O filme não é lá essas coisas em 3D, por serem muito escuros os óculos só tornam a situação pior e, como sempre, são desconfortáveis, e por não ter mesmo muitos efeitos de 3D. Boa mesmo foi a abertura da Disney, com o castelinho, em 3D, foi genial, de arrepiar o braço.
Não vi o filme da década de 80, o que mais me atraiu para o cinema, além do IMAX, foi a trilha sonora do Daft Punk, que não decepcionou, ainda mais quando eles aparecem na festa, com o vilão que merece concorrer o MTV Movie Awards de melhor vilão do ano, hilário o Michael Sheen como Castor.




::Anamnese Epistolar::

A vida é curta e a vida é mais do que podemos suspeitar, as pessoas são maravilhosas, às vezes. E somos sozinhos.

sexta-feira, dezembro 31, 2010

::Caso ou compro uma bicicleta?::
Não gosto de decisões, escolher um caminho impossibilita, na maioria das vezes, que se volte para a bifurcação anterior e veja o que havia no caminho rejeitado, que nunca mais poderá ser escolhido. A vida seria mais fácil, e talvez menos divertida, se pudessemos ter uma amostra grátis das duas, ou mais, situações antes de fazermos uma escolha. Eu tenho dificuldades imensas em fazer escolhas, sou uma pessoa indecisa e pouco decidida, não precisava nem do meu ex-orientador me dizendo isso enquanto eu me descabelava de chorar (normalmente minha reação diante de uma decisão irremediável), nem de uma psicóloga...
Pois bem, e eis-me aqui, diante de um caminho de terra cheio de bifurcações, olhando ao longe já se vê que, não importa qual caminho eu tome na primeira escolha, logo haverão outras e outras, logo em seguida.
Quando eu me inscrevi no concurso para técnico bancário, nível ensino médio, da Caixa Econômica Federal, eu sequer imaginei que eu passaria. Passei, e passei muito bem, bom, então estava me preparando para ser chamada. Afinal, emprego público não faz mal a ninguém e talvez por isso mesmo eu tenha ido fazer aquela prova num domingo de chuva de dia das mães. Os meses se passaram, eu estava belíssima no meu estágio na Bienal, que começou a ficar cada vez mais cansativo e estressante à medida que “o sistema” se revelava. Trabalhar é chato, já me ensinou um velho amigo, não importa o quanto você ache que gosta do que faz, fazer o que gosta com prazos e horários é sempre chato, ter de se preocupar com o dinheiro que cai na sua conta no fim do mês também é um pé no saco que não tenho, despertador tocando então... Crescer é chato, ser adulto é chato, quero a minha Barbie! Mas enfim, em outubro vem o telegrama, convocatória para exames de admissão. Crise.
Fui entregar os documentos milhares pedidos, assisti a uma palestra explicativa sobre salários e vales e direitos e deveres, e entrei em crise. Uma das convocadas no dia tinha sido aprovada no concurso para engenheiro da Caixa, ganharia 7mil por mês, trabalhando naquilo em que estudou para trabalhar. Crise! Afinal, para que eu estudei 5 anos numa universidade? Para sentar minha bunda num banco com ar condicionado e negar financiamentos para casa própria? Será? Chorei, é claro, nos ombros dos amigos, me desesperei, briguei com os meus pais e torci loucamente para que um mestrado em BH me salvasse da decisão. Não salvou. Fiquei em São Paulo, e já que ficaria por aqui, por que não ganhar dinheiro enquanto estudo? Afinal, dinheiro não cai do céu, ainda mais quando se faz mestrado. Respirei fundo e disse a mim mesma que tudo estava bem, trabalharia seis horas por dia, finais de semana livres, mestrado na USP, destino de dois anos traçado.
Porém, não fui considerada apta para o trabalho pelo primeiro psiquiatra que me avaliou. Talvez biruta demais para um trabalho normal demais. Quer trabalho mais normal do que banco público para uma filósofa-que-se-quer-especialista-em-estética? Quer lugar mais não-belo do que banco? Chorei de novo. Como assim, e agora, ficar em São Paulo, morando do outro lado da cidade, sem um puto para me mudar para perto da USP (sonho de seis anos)? Depois de muita espera e muitos outros convocados para trabalhar na minha frente, fui chamada para uma reavaliação com outra psiquiatra, dessa vez uma louca indelicada que me garantiu que minhas doenças psicossomáticas só piorariam trabalhando num banco e que eu deveria me contentar em conseguir uma bolsa de mestrado, isso uma hora depois de eu ter finalmente colado grau no meu bacharelado. Viva!
E então mais espera, achando que minha maluquice me impossibilitaria de ganhar um dinheirinho vendendo minha força de trabalho baratinho baratinho. E chegamos a hoje, quando minha mãe me liga e diz que recebi um telegrama. Semana que vem tenho que ir para a admissão, escolher a agência e começo a trabalhar na outra semana. Férias curtas, pensei. Devia ter ido para a praia. E agora? Agora é, como diz minha mãe no bordão dos caminhoneiros, “ouou desce”, ou, mais poeticamente com Cecília, “ou isto ou aquilo”.
Ou nem apareço lá, fico só com o mestrado, morando na ZL, dedicando-me aos estudos e a não morrer de estresse na minha casa, porque não vou desperdiçar minha santa inteligência cultivada durante anos ajudando velhinhos no caixa eletrônico, ou vou lá com minha carteira de trabalho que nem tinha, branquinha, assino um contrato de emprego público, escolho a melhor agência possível (critérios:1)perto da USP;2)no centrão;3)perto de metrô), me viro nos 30 dois anos para conciliar trabalho e pesquisa de mestrado, ganho uma graninha e depois de dois anos caio fora com uma bolsa de doutorado.
O que me interessa nesse trabalho não é só o dinheiro, confesso, mas a perspectiva de, terminado o mestrado, poder pedir transferência para qualquer lugar do Brasil, de preferência uma cidadezinha bem pequena, perto da praia, com coreto e sorveteria, e ficar nesse emprego por um tempo para justamente poder morar num lugar diferente. Às vezes acho que sou muito nova, e que nada é para sempre, assim, posso muito bem aproveitar a oportunidade para viver, pelo menos por algum tempo, tranquila e quietinha num canto escondido. Às vezes acho que o tempo é cruel, e que passa rápido, e que estar num lugar confortável faz com que fiquemos nele para sempre, ou tempo demais para poder sair dele depois. Às vezes acho que quero ficar nessa enquanto estudo e não consigo alguma coisa melhor, como cargos de professor, o que exige o doutorado. Às vezes acho que não quero ser “filósofa profissional”.
Se tiver trabalho e dinheiro, e mais o mestrado que já é certo e escolha acertada, creio eu, o que fazer também? Fico em casa, guardo o dinheiro para viagens (oh,adoro!) e “minha casa, minha vida”, ou saio de casa, vou morar perto da USP (seis anos atravessando a cidade me cansaram!), tenho meu canto quieto para estudar e andar de meia? Dinheiro na mão é vendaval!
Por enquanto, eis minha decisão: compareço, escolho a melhor agência possível, começo o mestrado sem disciplinas (não tenho outra escolha nesse caso), trabalho e estudo, e tento não me esquecer de quem eu sou (por vezes pode acontecer). Se um dia fiz uma tatuagem para me lembrar de que sim, seria difícil começar a aprender música com 18 anos e que não podia desistir, embora hoje leve mais no passatempo, agora uso um anel-lembrança de que eu não sou bancária, lembrança do caráter temporário dessa decisão. É preciso marcar para sempre o que se é, para não se perder no caminho, minha maneira é marcar no corpo, e em breve haverá uma nova nota mental em tatuagem. Sapere aude!


::Se conselho fosse bom...::
Minha avó sempre diz que devemos passar a virada do ano fazendo o que gostaríamos de fazer pelo resto do ano que começa, pois, segundo ela, é isso que acontece. Então ela diz: “Por isso fique com sua família, assim você vai passar o ano todo junto deles”. Okay, isso parece mais maldição do que simpatia. Se depender da minha mãe, preparando a primeira ceia em anos, vou passar 2011 comendo, e muito. Bom, o ano passado passei a virada no metrô lotado, em Paris, mas ainda metrô lotado, só que em 2010 de fato passei o ano todo em metrôs lotados, mas em São Paulo. De 2008 para 2009 eu passei feliz na casa da minha amiga de sempre, e foi um ano feliz, diga-se de passagem. A verdade é que, se pudesse escolher como passar a virada e isso garantisse o restante do ano, passaria a virada fazendo sexo. E tenho dito.

::My headphones saved my life::
Um pouco de otimismo para passar mais dois anos em Sampa. Descobri enquanto esperava um filme no meu adorado Cinesesc.

Outras capitais - Itamar Assumpção

Quem quiser final feliz vá pra Florianópolis
Quem quiser pura beleza se pique pra Fortaleza
Quem quiser viver a vida seu lugar é Curitiba
Quem quiser só uma ilha eu recomendo Brasília
Eu já estou cheia demais quem quiser dormir em paz
Que vá pra outras capitais

Quem quiser fugir do frio a Dutra vai dar no Rio
Quem quiser destino alegre que desça pra Porto Alegre
Quem quiser saber da história melhor lugar é Vitória
Quem quiser comer caju é claro que é Aracaju
Eu já estou cheia demais quem quiser dormir em paz
Que vá pra outras capitais

Quem quiser sossego e luz o seu rumo é São Luís
Quem quiser só vida boa que voe pra João Pessoa
Quem quiser nada de mal o seu lugar é Natal
Quem quiser longe a chatice que vá morar no Recife
Eu já estou cheia demais quem quiser dormir em paz
Que vá pra outras capitais

Quem quiser a mente zen que vá pra Belém
Quem quiser curtir duende decerto que é Campo Grande
Quem quiser beber da fonte sossegue em Belo Horizonte
Quem quiser sair da trama embarque para Goiânia
Eu já estou cheia demais quem quiser dormir em paz
Que vá pra outras capitais

Quem quiser só descansar se mande pra Cuiabá
Quem quiser ter boa vista perfeito é Boa Vista
Quem quiser levar à sério que siga pra Porto Velho
Quem quiser lavar a alma o certo é que vá pra Palmas
Eu já estou cheia demais quem quiser dormir em paz
Que vá pra outras capitais

Quem quiser sanar a dor vá sanar em Salvador
Quem quiser mapa da mina descambe pra Teresina
Quem quiser só viajar a lógica é Macapá
Quem quiser entrar no embalo que venha pra mim São
Paulo
Eu já estou cheia demais quem quiser dormir em paz
Que vá pra outras capitais

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Tentando ressuscitar

::Eu tive um sonho, vou te contar, eu me atirava do oitavo andar::
Em Assis tive um sonho bizaríssimo, talvez por conta de estar lendo o Coração das Trevas do Joseph Conrad. Sonhei que uma tribo indígena super violenta me perseguia, tinha todo um enredo, parecia que estava num filme, do tipo A Missão, misturado um pouco com aquela minissérie A Muralha, pelas serras e mares dos locais. O livro do Conrad é bastante envolvente, e as descrições me jogam direto naquele rio selvagem no meio da África, dá até para sentir o calor e a umidade. Assim que puder vou ver de novo Apocalipse Now e tentar localizar onde está o livro no filme, além da figura misteriosa interpretada pelo Marlon Brando.

::O fim e o começo::
Acabo de colar grau. Agora o JupiterWeb informa o início (2006) e o fim do Bacharelado em Filosofia. E agora, José? Quando olho para trás parece que passou muito rápido, quando na verdade sentia, a cada semestre, o tempo se arrastar. A verdade é que voou, é como se ontem mesmo estivesse fazendo matrícula no prédio da História com uma funcionária da seção de alunos extremamente antipática, enquanto davam uma placa para minha mãe escrito: "minha filha entrou em filosofia, onde foi que eu errei?". Sobrevivi a três recuperações, aos seminários de Filosofia Medieval e Filosofia da Ciência, li muito, mas menos do que eu gostaria, bem menos do que eu deveria. Tive satisfações, alegrias, tive medo. Medo de errar de novo, de não dar certo, de no fim não dar em nada. E agora acho que foi uma decisão muito acertada quando resolvi sair do curso de física para prestar filosofia, acho que escolhi bem as disciplinas que cursei ao longo de cinco anos, e que fiz bem em esperar um ano a mais e passar um semestre fora. A decisão errada foi ter cursado apenas um semestre fora e não dois, mas aí são outros 500.
Lembrarei para sempre não só das recuperações sobre Kant, Agostinho e Montaigne, mas também dos cursos maravilhosos do Prof. Terra, do curso maluquetes da arte sem nome, de Deleuze-indecifrável-para-mim e, é claro, do Apêndica da Ética de Espinosa.
A aproximação do final gerou muito desconforto no começo de 2010, mas conforme foi chegando foi ficando inevitável aceitar o prosseguimento dos estudos no mestrado, não que não seja isso que eu quisesse, mas por vezes me iludi achando que poderia dar um tempo, ir fazer outra coisa, alfabetizar adultos no Amazonas, ser guia turística na Europa, enfim, sossegar por um tempo a minha inquietação. Porém não deu nem tempo de pensar, o fim foi chegando e um novo começo teve que ser planejado rapidamente. Às vezes penso que talvez não valha a pena um esforço na busca por bolsas de estudo para fazer o mestrado na França, às vezes acho que o que eu quero encontrar por lá não mais existe, também pode não ser a cura para esse desassossego.
Mas não sentirei saudades dos corredores, dos professores, das amigas da secretaria, do lanche de berinjela da Tia Bia e do gelo da sala pró-aluno. Meu plano de sair da cidade de São Paulo não deu certo, e então continuo por lá. Mas uma porta se fecha. O bacharel. E quando vejo as disciplinas que serão oferecidas para a pós no próximo semestre, para começar com chave de ouro o mestrado, dou de cara com apenas quatro disciplinas, nos campos mais problemáticos para mim e mais distantes da minha pesquisa: lógica, ciência, política e medieval. E agora, José? E nada de disciplinas mais interessantes na Unesp ou Unicamp para alunos externos. O que me resta é inscrever-me no Cepê (finalmente, após 6 anos, a idade, afinal, me chama), acompanhar como ouvinte alguns cursos nas artes plásticas e história, e ler muito, ler muito mesmo, montar um projeto para tentar uma bolsa na Fapesp e dedicar-me sem descanso a minha pesquisa.


Formando
Enformando
Desformando
Informando
Desinformando


::Quero ser Carrie Bradshaw::

Carrie em Paris com o Russo, última temporada, ele a deixa esperando no hotel usando o vestido mais lindo da face da Terra, um bolo magnífico.



::My headphones saved my life::

Enguiço - Adriana Calcanhoto

Eu, hoje,ando atrás de algo impressionante
Que me mate de susto
Um impulso, um rompante
Que é pra me desviar desse mar de calmante
Rodei New York inteira e não te achei
Você mora em Belém

Eu sempre andei atrás de alguém pra andar na frente
Ah, eu quis me apaixonar assim perdidamente
Um engano redondo
O ciúme intuiu meio tarde demais
Ah, o meu orgulho já perdeu teu endereço
Mas o meu coração não
Eu não
Eu não esqueço

Eu, hoje, ando atrás de algo impressionante
Que me mate de susto
Um discurso, um romance
Que é pra me desviar desse mar de calmante
Rodei Belém inteira e não te achei
Você mora com alguém...

Eu sempre andei atrás de alguém pra andar na frente
Ah, eu quis me apaixonar assim perdidamente
Um engano redondo
O ciúme intuiu meio tarde demais
Ah, o meu orgulho já perdeu teu endereço
Mas o meu coração não
Eu não
Eu não esqueço

O meu orgulho já perdeu teu endereço
Mas o meu coração não
Eu não
Eu não esqueço

sexta-feira, maio 28, 2010

nota mental 1 - sentir o corpo
nota mental 2 - ouvir mais música
nota mental 3 - sai do pc e vai estudar que o semestre está chegando, e não há Copa nem Dilma que me salve