domingo, março 23, 2008

Numa pintura de Edward Hopper





Pinturas de Hopper:
Eleven Am
Summer Interior
Hotel Room

domingo, março 16, 2008

::Mosh (ou Sobre a possibilidade do retorno ás mascaras quando da chegada das primeiras larvas)::


Advertência: esse texto não é uma carta aberta, e sim uma bola de pêlo.

Eu, a que não me entregava.
Eu, a que não corava.
Eu, a que não me mostrava nua e crua.
Eu, a definida pelas negativas.
Um passo em falso e me apaixonei. Nunca amamos se não estivermos desprevenidos, o amor nos pega de surpresa em seus imensos braços monstruosos e peludos e nos arrasta pelos cabelos até sua caverna, onde revezaremos entre a diversão e a tortura.
Eu então tirei a roupa para ela, toda ela, inclusive as meias, e me entreguei. Levei as mãos ao alto, nua em pêlo e caminhei lentamente sem medo até a beira do abismo, deixando-lhe o poder de me segurar ou me dar um empurrão. O vento batia e eu arrepiava, o sol ardia e eu queimava.
Eu, a que não me entregava.
Eu, a que não corava.
Eu, a que não me mostrava nua e crua.
Sem defesas, transformei-me. À la Gregor Samsa metamorfoseei-me a ponto de não mais me reconhecer. Só havia uma maneira de me ver, de me encontrar, apenas vendo meu reflexo nos olhos dela. Mais importante passou a ser como ela me via do que minha imagem diante de mim num espelho. E isso não me abala. Eu era o que para ela sou. Não é isso o amor?
Eu queria poder querer gritar, xingando, mandá-la tomar no cu e ir se foder. Virar as costas às escarpas e jogar-me, pelo menos um último ato que talvez nada dela contivesse.
Mas quem sou eu agora que vejo seus olhos fechados? Não sei mais quem sou.
Eu, a que não me entregava.
Eu, a que não corava.
Eu, a que não me mostrava nua e crua.
Vejo-me barata estendida no chão com as patas viradas para cima sem conseguir colocá-las para correr. Agonizo. Vagarosamente as primeiras larvas vêm se arrastando e não há sequer chinelos por perto - entreguei-me sem sequer um mata-moscas.
Abandonada, enlouqueço, sentindo cada mordida pequena e doída das miúdas larvas moles e brancas de olhos vermelhos.
Eu grito!
Eu choro!
Eu imploro!
Eu
...
imploro!
E sua silhueta que se desenha sob a luz cruza os braços e permanece de olhos fechados, negando-me meu eu.
Se abre os olhos talvez os invadam poeira, se descruza os braços talvez lhe sejam muito pesados. Leva tempo para se acostumar com o asco causado pelas baratas. O asco gerado pelo medo de se transformar em uma.


::My headphones saved my life::


Duvet - Boa

And you don't seem to understand
A shame you seemed an honest man
And all the fears you hold so dear
Will turn to whisper in your ear
And you know what they say might hurt you
And you know that it means so much
And you don't even feel a thing

I am falling, I am fading,
I have lost it all

And you don't seem the lying kind
A shame then I can read your mind
And all the things that I read there
Candle lit smile that we both share
And you know I don't mean to hurt you
But you know that it means so much
And you don't even feel a thing

I am falling, I am fading, I am drowning,
Help me to breathe
I am hurting, I have lost it all
I am losing
Help me to breathe


terça-feira, março 11, 2008



Entre por essa porta agora

E diga que me adora

Você tem meia hora

Pra mudar minha vida

Vem vambora

Que o que você demora

É o que o tempo leva





You are a china shop
and I am a bull

you are really good food

and I am full

I guess everything is timing

I guess everything's been said

so I am coming home with an empty head
(...)
you'll say it's really good to see you

you'll say I missed you horribly

you'll say let me carry that

give that to me

and you will take the heavy stuff

and you will drive the car

and I'll look out the window making jokes

about the way things are





Eu desço dessa solidão
Espalho coisas sobre

Um Chão de Giz

Há meros devaneios tolos

A me torturar






São só palavras: teço, ensaio e cena
A cada ato enceno a diferença

Do que é amor ficou o seu retrato

A peça que interpreto

Um improviso insensato

Essa saudade eu sei de cor

Sei o caminho dos barcos

E há muito estou alheio a quem me entende

Recebe o resto exato e tão pequeno

E dor, se há - Tentava, já não tento






It's the kind of night that's so cold, when you spit
It freezes before it hits the ground

And when a bum asks you for a quarter, you give a dollar

If he's out tonight he must be truly down

And I'm searching all the windows for a last minute present

To prove to you that what I said was real,

For something small and frail and plastic, baby,

'cause cheap is how I feel
Half moon in the sky tonight, bright enough
To come up with an answer

To the question why is it that every time I see you

My love grows a little stronger

But your memory leaves my stomach churning,

Feeling like a lie about to be revealed,

But I'll horde all this to myself

'cause cheap is how I feel






All that I know to be true
Is the touch of your hand on my skin.

One look from you can so easily soothe

All this turmoil within
As we dance cheek to cheek
With our feet so completely

Locked in a time all our own.

I stop to speak

But you gently keep me

Moving in time to the song.

And in a voice that is sloppy with gin

You say, "let the world spin."






The silence of a falling star
Lights up a purple haze

And as I wonder where you are

I'm so lonesome I could cry






Escape is so simple
In a world where sunsets can be raced

But distance only looses the knife

The pattern of its scar

Can always be traced






Electric shocks?
I love them!

With you --> dozen a day

But after a while I wonder

Where's that love you promised me?

Where is it?

Possibly maybe probably love, possibly

Possibly maybe probably love, possibly

How can you offer me love like that?

My heart's burned






It's a hot day
and I'm dressed lightly

I move carefully

through the crowd
here everyone
is so vulnerable

and I'm as well
there's no-one here - and people everywhere CRYING : 'cause I need you
CRYING : I can feel you

CRYING : 'cause I need you

CRYING : 'cause I care





Trechos de:
Vambora - Adriana Calcanhoto
You Had Time - Ani DiFranco
Chão de Giz - Zé Ramalho
Os Barcos - Legião Urbana
'Cause cheap is how I feel - Cowboy Junkies
River Waltz - Cowboy Junkies
I'm so lonesome I could cry - Cowboy Junkies
Escape is so simple - Cowboy Junkies
Possibly maybe - Björk
Crying - Björk

*Imagem: Salvador Dalí, Galatea de las Esferas, 1952.

domingo, março 02, 2008

::Manifesto contra a Insensibilidade::

Por que me diz que sou insensível? Por acaso não sinto você? Sim, eu sinto, e a sensação é ótima.
Eu tenho sensações sim, e sentimentos, das mais extremas, dos mais intensos.
"Caem as máscaras!"
Com você fico de rosto limpo, com a verdadeira face à mostra, por mais que às vezes eu tente escondê-la entre as mãos. E quando isso acontece, desejo que você as arranque da frente, afaste minha timidez e covardia para ver meu eu em carne viva, pulsante, vibrante, desejante e SENSÍVEL.
Sinto meu coração bater mais forte quando vou ver você, quando ouço seu nome, quando recebo um recado seu.
Sinto meu corpo arrepiar ao seu toque, ao seu suspiro, minha respiração falha com o seu beijo, meu corpo pesado flutua ao lado, em cima, ou embaixo do seu.
A Felicidade me invade quando me convenço de que sim, é verdade, você me ama.
E depois de tudo isso, e apesar de tudo isso, você ainda não se convenceu, você ainda não tem certeza, ainda vejo em seus olhos que você não sabe o quanto eu sinto você.

::My headphones saved my life::


I Feel You - Depeche Mode

I feel you
Your sun it shines
I feel you
Within my mind
You take me there
You take me where
The kingdom comes
You take me to
And lead me through
Babylon

This is the morning of our love
It's just the dawning of our love

I feel you
Your heart it sings
I feel you
The joy it brings
Where heaven waits
Those golden gates
And back again
You take me to
And lead me through
Oblivion

This is the morning of our love
It's just the dawning of our love

I feel you
Your precious soul
And I am whole
I feel you
Your rising sun
My kingdom comes

I feel you
Each move you make
I feel you
Each breath you take
Where angels sing
And spread their wings
My loves on high
You take me home
To glorys throne
By and by

This is the morning of our love
It's just the dawning of our love



I've got you under my skin - Frank Sinatra

I've got you under my skin
I've got you deep in the heart of me
So deep in my heart, that you're really a part of me

I've tried so not to give in
I've said to myself this affair never will go so well
But why should I try to resist, when baby will I know than well
That I've got you under my skin

I'd sacrifice anything come what might
For the sake of having you near
In spite of a warning voice that comes in the night
And repeats, repeats in my ear

Don't you know you fool, you never can win
Use your mentality, wake up to reality
But each time I do, just the thought of you
Makes me stop






before I begin
cause I've got you under my skin


::Sábias Palavras::


Mary 'Mouse' Bedford: "How much does it matter what other people think?"
Joe Menzies: "Depends how much they’re paying you, I guess."
(diálogo de Assunto de Meninas)


::Divagações no Escuro::

4 meses, 3 semanas e 2 dias

Impactante!
Mesmo sem agulhas de tricô, a realidade dos abortos ilegais se mostra nesse filme muito distante daquilo que imaginamos no conforto de nossas vidas perfeitas e dentro da lei. Numa posição vulnerável está-se sujeito a todo tipo de humilhação.
A cena em que vemos o feto, acompanhando o olhar de Ofelia, debate-se contra o restante do filme, reforça a idéia de assassinato, não nos deixa esquecer o ato cruel que é tirar um feto de dentro da barriga de sua mãe, mas e a decisão consciente de cada mulher, os riscos que elas enfrentam indo contra uma lei que não diz nada sobre suas vidas reais?
O diretor teve extrema coragem, pois fiquei sabendo por uma entrevista que a história supostamente se passou com uma namorada dele e que ele só ficou sabendo dez anos depois, não sei se sua namorada seria Ofelia ou Gabi, mas encarei o filme como uma tentativa de fazer parte daquilo que foi excluído um dia.
Acima de tudo, encarei o filme como sendo sobre amizade. Por quem você faria o que Ofelia fez por Gabi? Quem faria isso por mim?

Gabi parece uma fracote, tão em choque que perdeu a noção do que está fazendo, alheia, medrosa, desajeitada, a câmera aparenta nem querer conversa com ela. Acompanhamos a amiga decidida, madura, sensível, é com ela que compartilhamos a aflição, é com ela que sofremos.
Com o título sabemos o que possivelmente sequer Gabi sabe: o tempo exato da gestação, até com a precisão de dias.
4 meses, 3 semanas e 2 dias é seco, nem mesmo parece encenado, não ilumina o que não deve, e consegue nos fazer sentir aquilo que as garotas estão sentindo, como o nó na garganta, o desconforto e o estômago revirado ao final, quando decidem nunca mais tocar no assunto.


Venus

Parece fácil fazer papel de si mesmo num filme, como sempre falam de Hugh Grant, por exemplo, mas em Venus não me pareceu um trabalho fácil o de Peter O'Toole.
O'Toole interpreta um ator em suas próprias condições, já muito idoso, mas também interpreta aqueles que devem ser seus próprios medos.
O medo de morrer, a consciência da decadência de seu corpo enquanto a mente ainda tem o vigor necessário para desejar. E será este desejo, como ele mesmo prevê no início do filme, que o levará à angústia, ao desespero e à loucura.
Total insensatez, aos nossos olhos, é o ponto a que Maurice, seu personagem, chega por conta de seu desejo por Jessie, a quem ele apelida de Vênus quando a leva para ver o quadro de Velasquez, A Vênus no Espelho.

Maurice diz, em frente ao quadro, que a coisa mais linda que um homem vê na vida é o corpo de uma mulher, e entendemos que ele, em seus 80 ou 90 anos não quer desistir de ter a visão mais bela que seus olhos podem lhe proporcionar.
Sabemos de suas esquisitices e de sua juventude de galã cafajeste, sabemos que ele abandonou esposa e filhos para viver se bebidas, sucesso e mulheres, mas não podemos achar que só porque está chegando ao fim de sua vida que passou a ser ingênuo, um "velho babão" como Jessie o chama em determinado momento. Eu construí uma simpatia por ele no decorrer da narrativa, certo carinho que se expressava na minha tentativa de entendê-lo ao invés de julgá-lo.
Ele sabe que Jessie está se aproveitando de seu dinheiro e fama,mas não será ele que termina por se aproveitar dela? Ele precisava de sua juventude e energia, de seu cuidado verdadeiro, que ao fim consegue. Ele não é um "velho bobo" e isso faz toda a diferença no filme, ele não é um safado, ele tenta ser sincero e sofre, está desesperado, angustiado, ele luta e não aceita com facilidade o que a sociedade impõe a ele como comportamento de um senhor idoso.

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

::Juno::

If I was a flower growing wild and free
All I'd want is you to be my sweet honey bee.

All I want is you, will you be my bride
Take me by the hand and stand by my side
All I want is you, will you stay with me?
Hold me in your arms and sway me like the sea.

And if you were a kiss, I know I'd be a hug



Hey you've been used
Are you calm? Settle down
Write a song, I'll sing along
Soon you will know that you are sane
You're on top of the world again

I'm sticking with you
'Cos I'm made out of glue
Anything that you might do
I'm gonna do too

You held up a stage coach in the rain
And I'm doing the same
Saw you're hanging from a tree
And I made believe it was me



You're a part time lover and a full time friend
The monkey on you're back is the latest trend

I don't see what anyone can see, in anyone else
But you

I kiss you on the brain in the shadow of a train
I kiss you all starry eyed, my body's swinging from side to side
I don't see what anyone can see, in anyone else
But you

Here is the church and here is the steeple
We sure are cute for two ugly people
I don't see what anyone can see, in anyone else
But you

The pebbles forgive me, the trees forgive me
So why can't, you forgive me?
I don't see what anyone can see, in anyone else
But you

I will find my nitch in your car
With my mp3 DVD rumple-packed guitar
I don't see what anyone can see, in anyone else
But you


Up up down down left right left right B A start
Just because we use cheats doesn't mean we're not smart
I don't see what anyone can see, in anyone else
But you

You are always trying to keep it real
I'm in love with how you feel
I don't see what anyone can see, in anyone else
But you

We both have shiny happy fits of rage
You want more fans, I want more stage
I don't see what anyone can see, in anyone else
But you

Squinched up your face and did a dance
You shook a little turd out of the bottom of your pants
I don't see what anyone can see, in anyone else
But you




Trechos das músicas da trilha sonora do filme:
All I Want Is You - Barry Louis Polisar
Expectations - Belle & Sebastian
I'm Sticking With You - Velvet Underground
Anyone else but You - The Moldy Peaches

::My headphones saved my life

Declare Independence - Björk

Declare independence!
Don't let them do that to you!

Start your own currency!
Make your own stamp
Protect your language

Declare independence
Don't let them do that to you

Make your own flag!

Raise your flag!

Declare independence!
Don't let them do that to you!

Damn colonists
Ignore their patronizing
Tear off their blindfolds
Open their eyes

Declare independence!

With a flag and a trumpet
Go to the top of your highest mountain!

Raise your flag!

Declare independence!
Don't let them do that to you!

Raise the flag!

sábado, fevereiro 16, 2008

::My headphones saved my life::


In A Manner Of Speaking - Martin L. Gore

In a manner of speaking I just want to say
That I could never forget the way
You told me everything
By saying nothing
In a manner of speaking I don’t understand
How love in silence becomes reprimand
But the may I feel about you is beyond words
Oh give me the words
Give me the words
That tell me nothing
Oh give me the words
Give me the words
That tell me everything

In a manner of speaking Semantiks won't do
In this life that we live we only make do
And the way that we feel might have to be sacrificed

So in a manner of speaking
I just want to say
That like you I should find a way
To tell you everything
By saying nothing
Oh give me the words
Give me the words
That tell me nothing
Oh give me the words
Give me the words

::Sábias palavras::


"Ela se encostou na parede e resolveu deliberadamente pensar. Era diferente porque não tinha o hábito e ela não sabia que pensamento era visão e compreensão e que ninguém podia se intimar assim: pense! Bem. Mas acontece que resolver era um obstáculo. Pôs-se então a olhar para dentro de si e realmente começaram a acontecer."
Clarice Lispector, A Bela e a Fera ou a Ferida grande demais.

"Já disse que não sou inteligente, nem culta. E sofrer apenas não basta." Clarice Lispector, Obsessão.

::Minha falta de memória e eu::


Às vezes é engraçado ter problemas de memória, às vezes é triste, o que leva a uma imensa necessidade de escrever sobre isso, seja para prolongar o riso, seja para exteriorizar o desespero. Tudo bem, ela não é tão grave, mas para lembranças a médio prazo é assim que vem sendo, e ninguém ainda conseguiu descobrir o porquê,vou tentar regressão, acupuntura, psicanálise, qualquer coisa.
É surpreendente o ineditismo que a falta de memória proporciona, algumas coisas parecem nunca vistas antes, e chega a ser assustador quando descubro algo que está escrito na minha grafia, com minha caneta preta de sempre, mas que não me lembro de ter escrito.
Hoje, vasculhando meus arquivos no computador, descobri o projeto de um romance que pensava escrever a três anos atrás. Em seis páginas do Word estão as palavras importantes para o vocabulário do livro - com seus significados e sinônimos; o significado do nome, e papel na história, de vinte personagens; um esquema geral de principais fatos que ocorrerão, o desfecho, a duração do recorte etc., e o primeiro capítulo inacabado em três páginas.
Puxando da memória pude lembrar que a idéia surgiu de um sonho que tive certa vez e que no pretenso livro eu tentaria misturar com alguns fatos reais da minha vida e de alguns familiares e amigos. O sonho tinha vampiros, maldições e lindíssimas roupas, então resolvi tirar os entes mágicos e manter o clima um pouco da Idade Média, com reinos, nobres, e a história giraria em torno de uma maldição, ou melhor, mais um mau-desejo com um viés até mesmo cristão.
Com o olhar crítico de hoje posso dizer que tanto a idéia quanto o texto são horríveis, é uma mistura de realismo - mágico com as novelas da Távola Redonda e uma pitada de André Vianco, uma mistureba, enfim. E o texto está bem infantil, um tanto quanto mal escrito e confuso, mas resolvi postar aqui a primeira página, só como registro e para sanar a curiosidade dos meus "inúmeros" (rs) leitores.

Capítulo I

As lágrimas de desespero caíam em sua face como cachoeira fria em dia de inverno. Sentada numa cadeira de vime logo ao lado do caixão, não conseguia nem olhar no rosto do falecido. A memória da noite anterior martelava em sua mente, tentava fugir das imagens que lhe vinham à cabeça olhando ao seu redor, mas só via tristeza e desespero nas outras pessoas. Os momentos felizes e românticos da última noite enchiam Alita de dúvidas e pensamentos confusos. Questionava-se o que seria de sua vida agora que enviuvara, e o pior: no primeiro dia de casada, logo após a noite de núpcias.
Sua mãe se aproximou, tocou em seu ombro jovem já coberto por véu negro, se agachou ao seu lado e disse:
- Alita, fique calma.
Ela até então não percebera, mas tremia as pernas de tal maneira que fazia a cadeira ranger. O olhar piedoso de sua mãe a acalmou, mas não podia mais olhar a sua frente e ver aquele caixão frio e negro que guardava o corpo do homem a quem havia amado uma única vez em seus ínfimos dezessete anos, o homem ao qual havia pertencido uma única e curta noite.
O padre ia se aproximando com a Bíblia na mão e Alita já previa todas aquelas palavras do Senhor que ele diria, como faz em todos os outros velórios, quase que semanais, que acontecem no reino. Como se cada morte fosse igual e fossem fazer falta da mesma maneira a seus entes. Mesmo sendo todos iguais perante o Senhor, Alita sabia que dessa vez, essa morte, ela sentiria como nenhuma outra ela havia sentido e, de certa forma, se sentia injustiçada e esquecida por Deus, que fizera a barbaridade de acabar com a vida dele e, assim, com a dela, daquela maneira.
No reino de Bilner moravam muitos nobres oriundos de vários outros reinos próximos, o que fazia da corte bilnerense uma verdadeira mistura de famílias, de costumes e manias. Todos esses nobres mais próximos da família de Alita estavam naquele imenso salão ocupado apenas pelo caixão ao centro e a cadeira da viúva, a falta de janelas e iluminação natural tornava-o mais triste, sombrio, silencioso, desesperador. Aquelas senhoras vestidas todas em longos e luxuosos vestidos negros escondiam atrás de seus véus o sentimento de pena que sentiam da garota e nos cantos comentavam:
-Agora está perdida a menina, viúva tão jovem, já desonrada, nunca mais há de encontrar um marido, ficará para a vida com a mãe ou se tornará freira.
Havia também aquelas mais maldosas e que gostavam de criar intrigas na corte, que diziam:
-A família dele era mais poderosa, possuía mais terras, ela mandou alguém matá-lo para ter direito a suas posses e salvar sua família da desgraça em que estão.
Ao entrar no salão, Ludmila ouviu algum desses amargos comentários e se encheu de raiva, mas ao olhar para a amiga ali sentada, triste como nunca havia visto, se esqueceu daquelas fúteis e inconvenientes mulheres e foi rapidamente ao encontro de Alita.
-Vim o mais rápido que pude, Elísio me trouxe na traseira de seu cavalo e acabamos deixando mamãe seguir viagem sozinha na carruagem, ela deve chegar só na madrugada, mas virá lhe ver. Alita, aquelas velhas ali, que mais parecem urubus, estavam falando muitas besteiras sobre você. A mãe da Liana, da Edite e as amiguinhas de tricô delas. Se você ouvir algo, não dê ouvidos, por favor, não se importe - abaixou e disse olhando dentro dos olhos da amiga - A partir de agora seu futuro está em suas próprias mãos e ninguém pode roubá-lo de você.
Alita esboçou um sorriso fechado em consideração a Ludmila, que sempre esteve ao seu lado, e disse baixinho:
-Eu nunca me importei com nada do que elas diziam. Você sabe que...
A garota foi interrompida em sua conversa com Ludmila pela chegada brusca e espalhafatosa de Liana. Sinceramente Alita não fazia idéia do que aquela garota estava fazendo no funeral de seu marido, ainda mais vestida daquela maneira: um vestido preto luxuoso e que deixava a mostra todo seu colo pálido e os cabelos presos propositalmente para não disfarçar o vestido. Todos os presentes se viraram para a porta, alguns chocados, outros não disfarçando o interesse pela provocação exercida sobre a viúva, muitos moradores do reino haviam tomado conhecimento de todos os desentendimentos ocorridos entre as duas, desde pequenas. Alita demorou pelo menos dez minutos para se lembrar de que a garota era filha de uma das amigas de sua avó materna, o que pouco a consolou, pois odiava todas as velhas que participavam do clubinho de costura de sua avó Mônica.


::Entretien avec moi::


- Você prefere ser desejada ou ser amada?
- O ideal é ser desejada por alguém que me ame, certo? Acho difícil imaginar e mesmo aceitar viver um amor no qual a pessoa não me deseje, parece que vira um amor meio fraternal ou como o de amigos. Agora, é possível, claro, e aceitável, que alguém me deseje sem que me ame, e aí depende de uma escolha do que se quer buscar nessa determinada relação, nem sempre estamos "in the mood for love". Por vezes pode-se passar a amar uma pessoa pela qual se sentia apenas desejo, e vice-versa, quando a operação é uma adição pode dar certo, mas quando é uma subtração, fica difícil.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

::Sábias Palavras::


Conservar algo que possa recordar-te seria admitir que eu pudesse esquecer-te. (Shakespeare)

::O que me faz feliz::


O que me faz feliz?

Ou melhor, o que me deixa feliz? Porque ninguém é feliz, ou, pelo menos, eu não sou (que mau há nisso?), o que pode acontecer, é, temporariamente, o estado de felicidade. Portanto, eu não sou feliz, às vezes, contudo, estou feliz.

Prosseguindo, então, o que pode desencadear em mim um estado de felicidade?

As coisas simples.

Embora tudo devesse ser simples, o mundo no qual estamos inseridos fez das coisas, complexas. Corrigindo:

As coisas sem importância.

Não para mim, muitas vezes, mas para os outros, sempre.

O farfalhar das árvores, inaudível frente aos carros, ambulâncias, trens, fones de ouvido... as pequenas flores amarelas, que se espalham pela praça invisíveis na fumaça, na poeira, na cegueira gerada pelo cinza... o sabor do "bolo de bolo" da vovó apagado na rapidez de cada refeição, esquecido como os próprios avós, a esperar... o cheiro de flores daquela garota, imperceptível pela distância, física e sentimental, pelo medo de interagir com os outros, quem sabe, nem tão outros... o calor de um abraço resfriado pela não-saudade, pela facilitação do amor... parar, na calçada, para ouvir o morador ensaiar em seu violino, torcendo para que consiga acertar aquele trecho mais difícil...

Mas o que vejo ao meu redor? Por que são pequenas essas coisas? Julgarão a mim pueril?

Não parem!

Não torçam!

Não abracem!

Não se aproximem à distância de um cheiro!

Não mastiguem, só engulam!

Não ouçam!

Não vejam!

Continuem vangloriando o vazio da infelicidade enquanto contento-me com meus pequenos e escassos caprichos.

Marla de "Clube da Luta"



::My heaphones saved my life::


Independência - Capital Inicial
Toda essa curiosidade que você tem pelo que eu faço
Eu não gosto de me explicar, eu não gosto de me explicar
Toda essa intensidade, buscamos identidade
Mas não sabemos explicar, mas não sabemos explicar

Se paro e me pergunto: será que existe alguma razão
Pra viver assim se não estamos de verdade juntos

Procuramos independência
Acreditamos na distância entre nós


Toda essa meia verdade a qual temos nos conformado
Só conseguimos nos afastar. Nós aprendemos a aceitar
Tantas coisas pela metade, como essa imensa vontade
Que não sabemos explicar, que não sabemos sacear

Se paro e me pergunto: será que existe alguma razão
Pra viver assim se não estamos de verdade juntos

Procuramos independência
Acreditamos na distância entre nós

Toda essa curiosidade
Toda essa intensidade
Toda essa meia verdade
Tantas coisas pela metade
Toda essa curiosidade
Toda essa intensidade